O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A geografia moral do senador Pedro Simon

Deu na Agência Carta Maior:
Conhecido nacionalmente por sua cruzada contra a corrupção e em defesa da moralidade pública, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) pouco tem a dizer sobre as denúncias de corrupção envolvendo correligionários e aliados políticos no RS. Na geografia moral do senador, seu Estado parece não existir.
Marco Aurélio Weissheimer

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) é conhecido nacionalmente por sua cruzada contra a corrupção e pela defesa da moralidade pública. A retórica inflamada do senador gaúcho na tribuna do Senado é cantada em prosa e verso por seus correligionários, eleitores e admiradores.

Um estranho fenômeno, porém, atingiu o senador desde novembro de 2007, quando a Polícia Federal desencadeou a Operação Rodin no Rio Grande do Sul. A operação prendeu uma quadrilha acusada de desviar recursos públicos do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) no Estado. Para surpresa da população gaúcha, figuras até então respeitáveis da política local foram denunciadas como chefes da quadrilha, dando início a uma grave crise que atingiu em cheio o governo de Yeda Crusius (PSDB).
[ . . . ]
Atendendo a pedido da Procuradoria Geral da República, o Supremo Tribunal Federal autorizou a investigação de ilustres integrantes do PMDB gaúchos, acusados de envolvimento com um esquema de fraude na prefeitura de Canoas, administrada pelo tucano Marcos Ronchetti.
[ . . . ]
O silêncio do senador acabou tornando-se ensurdecedor e ele acabou falando. Na manhã de 9 de setembro, em entrevista à rádio Gaúcha, Simon criticou as investigações considerando “infeliz” o momento em que ocorrem, referindo-se ao período das eleições municipais. “Esse problema de Canoas está aí há dois anos. Não é feliz iniciar uma discussão que nem essa há 30 dias da eleição. Podia ter tirado da gaveta há um ano e esse assunto já teria sido discutido”, disse o senador, que não tomou nenhuma iniciativa para “tirar esse assunto da gaveta” há um ano.
[ . . . ]
Em uma conversa gravada por Paulo Feijó, Busatto afirmou que o Banrisul seria utilizado pelo PMDB para financiar campanhas eleitorais no Estado. A revelação do conteúdo da conversa provocou a demissão de Busatto e quase decretou o fim do governo Yeda que chegou a criar um gabinete de transição para iniciar um “novo governo”.
[ . . . ]
Segundo Paulo Feijó, em 2006, o Banrisul teria repassado R$ 24 milhões para a Faurgs. No mesmo período, porém, teria sido contabilizada a entrada de apenas R$ 6 milhões na fundação. Uma empresa terceirizada que prestaria serviços exclusivamente para a fundação teria recebido o restante. Feijó disse que sua denúncia estava baseada em um documento resultante das investigações feitas pelo Ministério Público. Ele entregou esse documento à governadora Yeda Crusius.
[ . . . ]
As novas denúncias envolvendo importantes lideranças do PMDB gaúcho obrigaram Simon a se manifestar mais uma vez. Os brasileiros que assistem aos discursos do senador na TV certamente estranhariam a sua crítica às investigações pelo fato de elas ocorrerem em um ano eleitoral. Em Brasília, o senador nunca fez essa reserva em seus discursos contra corruptos e corruptores. E a denúncia envolvendo peemedebistas gaúchos pode expor um desvio de recursos públicos três vezes superior aquele descoberto pela Operação Rodin, no Detran.
[ . . . ]
O senador também foi indagado sobre se pediria o afastamento dos envolvidos de seus cargos (Padilha é secretário geral do PMDB gaúcho, Alceu Moreira é presidente da Assembléia e Marco Alba é secretário de Estado) como costuma fazer em Brasília quando ocorrem denúncias envolvendo integrantes do governo federal. Ao responder a pergunta, a retórica inflamada de Simon deu lugar a uma declaração evasiva: “A gente está na expectativa de saber o que está acontecendo”.

A mesma expectativa é compartilhada pela população do Rio Grande do Sul, que também quer saber o que está acontecendo. O senador disse que tinha conhecimento dos “assuntos de Canoas” há dois anos. No entanto, nada fez neste período. Nenhum pronunciamento, nenhuma denúncia, nenhum pedido de esclarecimentos, nenhum pedido de afastamento. Na geografia moral de Pedro Simon, o Estado que ele representa no Senado parece não existir.
Marco Aurélio Weissheimer
é jornalista da Agência Carta Maior
(correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3975

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Manifesto contra a criminalização do MST

Do site do Instituto Humanitas-Unisinos:

Movimentos sociais e outras entidades propõem que seja assinado e enviado o seguinte Manifesto contra a criminalização do MST. Se quiser, assine e envie o manifesto subscrito para

Ilustríssima Senhora Yeda Crusius
M.D.Governadora do Estado do Rio Grande do Sul
governadora@gg.rs.gov.br

C/Cópia Procurador Geral da Justiça Dr. Mauro Renner
pgj@mp.rs.gov.br

Manifesto contra a criminalização do MST

Nós abaixo-assinados, vimos à presença de Vossa Excelência manifestar nosso mais vêemente repúdio à iniciativa do Estado Maior da Brigada Militar do RS - PM 2, à iniciativa do Conselho Superior do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, e à iniciativa do Ministério Público Federal, pelos motivos a seguir indicados.

No dia 20 de setembro de 2007 o então Subcomandante Geral da BM Cel. QOEM, Paulo Roberto Mendes Rodrigues, encaminhou o relatório n. 1124-100-PM2-2007 cuja elaboração havia sido por ele determinada, ao comandante geral da BM, onde emite parecer sugerindo sejam tomadas todas as medidas possíveis para impedir que as três colunas do MST que rumavam ao Município de Coqueiros do Sul, fossem impedidas de se encontrar.

No relatório houve uma investigação secreta sobre o MST, seus líderes, número de integrantes e atuação no RS. O relatório foi remetido ao Ministério Público do Estado do RS e ao Ministério Público Federal. O relatório da força militar do RS caracteriza o MST e a Via Campesina como movimentos que deixaram de realizar atos típicos de reivindicação social mas sim atos típicos e orquestrados de ações criminosas.

Na conclusão do relatório é condenada a “corrente que defende a idéia de que as ações praticadas pelos movimentos sociais não deveriam ser consideradas crimes, mas sim uma forma legítima de manifestação”. As investigações também foram dirigidas sobre a atuação de deputados estaduais, prefeitos, integrantes do INCRA e supostos estrangeiros.

Em função desta ação da Brigada Militar, o MPE ingressou com ACP impedindo as colunas do MST de entrarem nos quatro municípios da comarca de Carazinho no RS, e foram ingressadas com várias ações para retirar as crianças das famílias que marchavam.

As iniciativas da Brigada Militar não ocorriam no Brasil deste o término da ditadura militar brasileira e são atentatórias a Constituição Federal de 1988 que proibiu as policias militares de atuarem na investigação de infrações penais e de movimentos sociais ou partidos políticos.

O art. 144 da Constituição Federal estabelece que às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública. A Brigada Militar invadiu a competência da Policial Civil e da Polícia Federal.

No dia 3/12/07 o Conselho Superior do Ministério Público aprovou o relatório elaborado pelo promotor Gilberto Thums (processo nº 16315-09-00/07-9), referente ao procedimento administrativo instaurado pela Portaria 01/2007. O grupo de investigadores tinha por objetivo fazer um levantamento das informações sobre o MST.

O relatório final do grupo de investigadores merece repulsa de toda a sociedade. Uma das decisões tomadas pelo Ministério Público foi no “ (...) sentido de designar uma equipe de Promotores de Justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e declaração de sua ilegalidade (...)”

Como não bastasse a tentativa de declarar o MST ilegal, o Ministério Público decidiu “(...) pela intervenção nas escolas do MST a fim de tomar todas as medidas que serão necessárias para a readequação à legalidade, tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST.”

A decisão do Ministério Público ofende o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, especialmente o artigo 22, nº 1. Este pacto foi reconhecido pelo Governo brasileiro através do Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992.

A decisão também ofende a Constituição Federal. O artigo 5º, inciso XVII, diz que “é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar.” No dia 11 de março de 2008, o Ministério Público Federal denunciou oito supostos integrantes do MST por “integrarem agrupamentos que tinham por objetivo a mudança do Estado de Direito, a ordem vigente no Brasil, praticarem crimes por inconformismo político”, delitos capitulados na Lei de Segurança Nacional da finada ditadura brasileira, referindo na sua denúncia que os acampamentos do MST constituem “Estado paralelo” e que os atos contra a segurança nacional estariam sendo apoiados por organizações estrangeiras como a Via Campesina, as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, além de estrangeiros que seriam responsáveis pelo treinamento militar.

As teses constantes na denúncia foram formuladas pelo proprietário da Fazenda Guerra, integrante da FARSUL em 2005, e ratificadas pelo Coronel da Brigada Militar Valdir Cerutti Reis, que participou da ditadura militar brasileira, tendo inclusive, atuado como infiltrado por dois anos no acampamento Natalino, sob o codinome de Toninho, onde tentava convencer acampados a abandonar o movimento e aceitar os lotes de terra oferecidos em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, pela ditadura militar.

A ação do MPF foi impetrada contrariamente as conclusões do inquérito penal da Polícia Federal que investigou o MST durante todo o ano de 2007, e concluiu inexistirem vínculos do movimento com as FARC, presença de estrangeiros realizando treinamento de guerrilha nos acampamentos e inexistir a pratica de crimes contra a segurança nacional.

O MST vem se notabilizando como um dos movimentos sociais mais importantes da nossa história, justamente pela sua opção de luta utilizando a não-violência. Portanto, receba nosso mais veemente repúdio pela decisão tomada no Conselho Superior do Ministério Público, pelo seu Estado Maior da Brigada Militar e pela decisão do Ministério Público Federal. Declaramos nosso apoio à luta do MST.

Sua assinatura

Dossiê aponta conspiração para acabar com MST

Deu na Agência Chasque:

Reportagem: Raquel Casiraghi | duração: 4'36" | tamanho: 809 Kb
Ouvir clique aqui para ouvir

Porto Alegre (RS) – Movimentos sociais divulgaram nesta terça-feira (24) um documento oficial em que o Ministério Público do Rio Grande do Sul determina ações para ‘dissolver’ e ilegalizar o Movimento Sem Terra (MST). A partir de relatórios da Brigada Militar, o Conselho Superior do órgão determina uma série de ações articuladas com a polícia e o Ministério Público Federal de Carazinho, como a proibição de qualquer marcha ou protesto, intervenção em escolas e indiciamento de lideranças.

O documento foi divulgado pelo advogado Leandro Scalabrin durante audiência pública na Assembléia Legislativa sobre a violência policial contra os movimentos sociais. Em sua apresentação, Leandro afirmou que se trata de uma conspiração que teve início no ano de 2006, com um dossiê formulado pelo comandante do Comando Regional de Policiamento Ostensivo (CRPO) do Planalto, Waldir João Reis Cerutti. Antes de se licenciar para concorrer a deputado estadual pelo Partido Progressista (PP), o coronel escreveu um documento em que investiga, além do MST e da Via Campesina, suas relações com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).

No relatório, como descreveu Leandro, o coronel afirma que o MST tem relação com o PCC, de São Paulo, e com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). “O relatório informa que há o objetivo de criar uma zona de domínio, de controle através do domínio territorial, onde o MST substituiria o Estado, tal como ocorre com o tráfico nas favelas do Rio. A zona territorial branca compreenderia a área abrangida pela Fazenda Annoni e a Fazenda Guerra, em face de sua localização estratégica, acesso a todo o Estado e à Argentina, e por ser uma das zonas mais ricas e produtivas do Estado”, relata.

O relatório do coronel Cerutti serviu de embasamento para que promotores e juízes da região encaminhassem pedidos de busca e apreensão em acampamentos até ordens de prisão e de reintegração de posse. A articulação contra o MST também contou com a participação de ruralistas. As informações do coronel Cerutti foram utilizadas pelo proprietário da Fazenda Guerra para entrar com ação no Ministério Público contra o MST.

Uma segunda etapa de investigação do MST ocorreu com o coronel Paulo Mendes, na época subcomandante da Brigada Militar. Os policiais chegaram a investigar, sem autorização, funcionários do Incra, deputados estaduais, prefeitos e cidadãos que segundo a Brigada apóiam de alguma forma o MST. O Estado Maior da corporação ainda conclui que a atuação dos sem terra é taticamente organizada como se fosse operação paramilitar e, como na investigação do coronel Cerutti, propôs à Justiça uma série de ações para reprimir os sem terra.

Ao mesmo tempo, o Ministério Público pediu uma investigação à Polícia Federal, que concluiu que o MST não é uma organização paramilitar e não representa perigo à segurança nacional, como afirma a Brigada Militar. Apesar de constar no dossiê, as conclusões da Polícia Federal não são levadas em consideração pelos promotores. “Aqui no RS, nos últimos dois anos, a execução dessa estratégia ocorre inicialmente através do Batalhão de Operações Especiais [BOE], e agora diretamente com o comandante da corporação [comandante da Brigada Militar Paulo Mendes]. Ocorre um intercâmbio intensivo entre o Ministério Público Estadual, Brigada, Ministério Público Federal, Polícia Federal e Poder Judiciário, que cooperam e seguem tarefas da corporação. O BOE se transforma em uma autoridade superior com atuação autônoma, na qual a separação entre Polícia Civil e Militar, como revelam a elaboração desses dossiês que apresentam a investigação inclusive de deputados sem autorização da Assembléia Legislativa, da forma como o DOPS fazia durante a Ditadura Militar, violam a nossa Constituição”, analisa Leandro.

Deputados e senadores presentes na audiência ficaram estarrecidos com o documento. Para a deputada Stela Farias (PT), que acompanha os casos de repressão no Estado, o documento deixa claro que a violência usada pela Brigada Militar com mais ênfase desde 2007 já integra a articulação para acabar com os movimentos sociais.

“Nesse sentido, o que a gente vê? A gente observa o recrudescimento, hoje para nós ficou patente. Por exemplo, eu não tinha conhecimento desse absurdo que é a manifestação do Conselho Superior do Ministério Público, quer dizer esse conjunto de ações que violam os direitos das pessoas humanas, dos movimentos sociais. Agora eu consigo compreender melhor. Isso aqui é a comprovação do que ocorre no Estado do RS”, diz.

Deputados estudam a possibilidade de entrar com recursos judiciais contra a atuação do Ministério Público e da Brigada Militar. O senador José Nery (PSOL-PA), que integrou a diligência do Senado, propôs que as ações fossem levadas ao Conselho Nacional de Justiça.


Ouvir clique aqui para ouvir

Extraído de http://www.agenciachasque.com.br/boletinsaudio2.php?idtitulo=72c38a53391e2df8c48f342a44e429ab acesso em 26 jun. 2008.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Condenação criminal pública, mesmo antes de prova, defesa e sentença

Deu na AlaiNet:
Jacques Távora Alfonsin
Anda em curso no Rio Grande do Sul um abuso de autoridade “continuado” (!) que, à margem da lei e da justiça, como todo o abuso desse tipo, visa criminalizar e desmoralizar os agricultores sem terra, a qualquer custo, em sua legítima reivindicação de reforma agrária, inexplicável e permanentemente prorrogada.
[ . . . ]
O “sucesso” dessa revista proposital e perversamente humilhante, que em muito excedeu os limites impostos pelo mandado judicial que a autorizava, baseou-se em desproporcional e custosa operação militar, mas foi engrandecido e elogiado pelos latifundiários gaúchos, os quais patrocinam, através de uma das suas entidades, programa de rádio diário na mesma empresa de comunicação que recebeu os tais diários. Aplaudiram a política de segurança pública que o governo estadual vem mantendo relativamente aos sem-terra, visivelmente sintonizada com o triste ideário de um conhecido chefe de polícia do Estado Novo que, ainda no século passado (!), dizia que a “questão social é um caso de polícia”. Assim, polícia militar e parte da mídia anteciparam publicamente aquilo que somente uma sentença judicial tem competência para fazer - a condenação dos “crimes” dos sem-terra que ambas se julgam com autoridade para julgar.
[ . . . ]
Entre as crueldades que se praticavam na época da escravatura brasileira, admitia-se que os latifundiários marcassem o rosto dos escravos que fugiam das atrocidades a que eram submetidos, com ferro em brasa em forma de “F”, assim identificando suas vítimas como “fujões”. Já que isso seria muito difícil de repetir hoje, e contaria com pronta reação dos sem-terra feridos em sua dignidade própria, a segurança dos privilégios que mantem a terra do país ignominiosamente distribuída em nosso país achou um outro jeito de obter efeito atroz para eles: denunciá-los independentemente de qualquer devido processo legal, acusá-los independentemente de defesa ou contraditório e condená-los independentemente de sentença judicial. Nem a morte dessa gente fica excluída, como a CPT comprova todos os anos, arrolando as vítimas abatidas no país inteiro, que mais não reclamam do que o reconhecimento devido aos seus direitos humanos fundamentais, previstos expressamente na Constituição Federal.
[ . . . ]
A repressão que a polícia militar gaúcha movimentou recentemente em trts dos nossos municípios, testemunhou concretamente a manifesta incapacidade do nosso sistema econômico, político e jurídico de enfrentar e vencer a injustiça social que historicamente nos vitima, confundindo pobreza com criminalidade, favorecendo a promiscuidade do Poder Público com privilégios seculares que escravizam a nossa terra e grande parte do nosso povo. Uma coisa é investigar, legalmente, outra é perseguir, abusivamente, como o enforcamento de Tiradentes provou.

Os oficiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul que comandaram essas últimas ações contra os sem-terra que nos perdoem, mas se o patrono das polícias militares brasileiras fosse vivo, certamente morreria de novo, e de vergonha, com o que aconteceu em Rosario do Sul, São Gabriel e Vamão, tamanha é a distância que essas atrocidades guardam do seu amor a liberdade, da sua coragem, do seu heroismo e, principalmente, da sua resistência e luta contra toda a injustiça que se prevalece do seu poder e autoridade para, a pretexto de “manter a ordem e a segurança”, abusar de uma e outra, impondo-se por violência arbitrária, preservando opressão e assegurando a exclusão social.
Jacques Távora Alfonsin é procurador da República aposentado e e professor de Direito da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)
Leia na íntegra em http://alainet.org/active/24633

sábado, 14 de junho de 2008

O Rio Grande do Sul não é uma ilha sem corrupção dentro do Brasil

Deu no Instituto Humanitas-Unisinos:
Entrevista especial com
André Marenco

Muitos gaúchos ainda mantinham viva a imagem de que no Rio Grande do Sul não havia corrupção. Enganaram-se. Um forte esquema de desvio de verbas de órgãos públicos estava sendo realizado no Detran. No entanto, a crise política e ética dentro do governo Yeda não foi deflagrada pela descoberta deste sistema de corrupção. Segundo o cientista político André Marenco, o atual governo passou por algumas rupturas de conflito que se tornaram, junto com as denúncias de corrupção, importantes elementos nessa crise. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por telefone, André Marenco fez uma importante reflexão acerca desta crise, do futuro do governo do estado e das alianças que estão se formando para as próximas eleições e suas conseqüências políticas. “De fato, é uma crise ética que tem como um dos pontos geradores do próprio governo e o fato de este ter tardado muito para encará-la. A governadora perdeu muito tempo não reconhecendo as denúncias e se, de alguma forma, ela tivesse tomado alguma iniciativa mais cedo, isso poderia ter sido melhor resolvido”, afirmou Marenco.

André Marenco é cientista social, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também realizou o mestrado e doutorado em Ciência Política. Atualmente, é membro da diretoria da Associação Brasileira de Ciência Política e professor da UFRGS. É organizador do livro Partidos no Cone Sul: novos ângulos de pesquisa (Rio de Janeiro: Fundação Konrad Adenauer, 2002), junto com a professora Celi Regina Jardim Pinto.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – As irregularidades descobertas no Detran mergulharam o governo Yeda em profunda crise política. Como o senhor analisa essa crise?

André Marenco – Essa crise tem dois elementos: um, que talvez anteceda o problema das denúncias, se refere à composição do governo. Desde o seu início, tivemos episódios de rupturas de conflito. Há o episódio do Berfran Rosado [1], que seria indicado secretário de planejamento e antes mesmo da posse não assumiu. Há o conflito com o secretário de segurança Ênio Bacci [2]. E, além disso, há duas derrotas na Assembléia relacionadas a projetos de ICMS. Existe um ponto de curto-circuito dentro do governo: o fato de a governadora montar um governo de coalizão com vários partidos estando no menor dentre eles. Num contexto desse tipo, é necessário que o governador tenha uma capacidade de negociação e de flexibilidade muito grande. Ora, isso não corresponde ao perfil da governadora, que é muito centralizadora e um tanto autoritária. Então, desde antes da eclosão das denúncias e da investigação da Polícia Federal, que chegou à Operação Rodin, o governo já vinha enfrentando crises, com várias derrotas dentro da Assembléia e/ou algumas dentro do próprio gabinete.

Uma das crises mais importantes dessa primeira fase foi aquela com o vice-governador. Então, esse é o problema: como combinar uma governadora de vocação centralizadora muito forte com uma coalizão que envolve um grande número de partidos, sendo o da governadora o menor? Portanto, ela não tem força política para estruturar o governo. A partir da Operação Rodin, essa sensibilidade ficou a mostra e aí poderia se acrescentar outro elemento ainda anterior às denúncias, que eram os baixos índices de aprovação. Para se somar a esses fatores, surge esse episódio de corrupção e parece que a governadora adota uma posição autista, ou seja, nos próprios discursos ela fala como se não houvesse uma grande crise e o governo andasse bem, revelando um comportamento completamente descolado do real.

A partir das denúncias, há alguns fatores a serem destacados. Primeiro: o governo tarda em reagir a elas. Há evidências de que o governo já sabia do envolvimento de alguns de seus membros com a investigação da Polícia Federal e depois com as denúncias. De modo geral, percebe-se que o governo não toma iniciativa: ele tentou desconhecer as denúncias de corrupção dentro de sua estrutura, e aí chegamos ao episódio da gravação do vice-governador. Gravação essa que, no meu entender, é não só legal como é, do ponto de vista ético, irreparável. Então, houve a decisão de demitir alguns componentes.

IHU On-Line – Por quê?

André Marenco – Porque era uma conversa pública, entre autoridades públicas, num prédio público e sobre um problema público e a partir de uma posição do vice-governador, que já era conhecida por todos. Ele vinha, há vários meses, manifestando denúncias de existência de corrupção dentro do governo, portanto sua posição era conhecida, apenas não vinha sendo levada em conta dentro do governo. Ele trouxe a público as evidências de corrupção dentro do governo. Isso potencializou a crise e, mais uma vez, o comportamento da governadora foi autista, porque a estratégia adotada de montar um Gabinete de Transição não traz nada de novo, ou seja, chamou os partidos para que com eles pudesse remontar o governo. Isso a governadora já fez pelo menos duas vezes antes, uma no início do governo e quando há alguns meses ela chamou o Cézar Busatto [3] para ser seu secretário da Casa Civil. Ela acreditava ser ele a figura que resolveria os problemas de articulação do governo. Ele não só não as resolveu, como também potencializou a crise.

IHU On-Line – Há alguma teoria da ciência política que explique essa falta de ética na política hoje?

André Marenco – Basicamente, ética é produto de controle e da percepção que os agentes públicos têm de que o risco de serem descobertos na eventualidade de uma postura ilegal é alto. Na medida em que isto ocorre, as pessoas tendem a adotar comportamentos regrados pela lei e isto cria uma cultura, significados e valores que nós chamamos de éticos. Ética não surge do nada, por geração espontânea e nem é produto, simplesmente, de uma pregação moral. Ela é resultado do tempo, de experiências e construções. No ponto zero, encontramos instituições que foram capazes de estabelecer controles eficazes e transparências, que simbolizam para os agentes públicos um alto risco de punição e isto baliza o seu comportamento. E daí vem a ética.

IHU On-Line – Como a questão da preponderância do privado sobre o coletivo contribui para a solidificação da corrupção em nosso país?

André Marenco – Sem dúvida, na medida em que temos instituições com baixos controles, isso incentiva uma lógica predatória, ou seja, agentes públicos e a sociedade comum pensam, vêem e encaram a coisa pública como algo a ser levado pelo primeiro que chega. Os políticos abusam dessa lógica, e os eleitores também, quando utilizam a desculpa de votar na pessoa e não no partido. Ou seja, há uma espécie de cumplicidade entre ambos. Os políticos são assim, porque os eleitores escolheram assim e tendem a votar em políticos que lhes oferecem vantagens materiais.

IHU On-Line – A governadora afirmou que o seu governo está passando por uma crise de ética. Como é possível pensar em ética num país com tanta desigualdade e impunidade?

André Marenco – De fato, é uma crise ética que apresenta como um dos pontos geradores o próprio governo e o fato de este ter demorado muito para encará-la. A governadora perdeu muito tempo não reconhecendo as denúncias e, de alguma forma, se ela tivesse tomado alguma iniciativa mais cedo, o problema atual poderia ter sido melhor resolvido. Você chamou a atenção para um aspecto muito importante: existe uma relação entre desigualdade e corrupção. Se pegarmos aqueles relatórios anuais da transparência internacional, que é uma entidade que a cada ano dá notas para cerca de 180 países em função da corrupção, e se olharmos o grupo de 35 países que têm os menores índices de corrupção, veremos que eles também tem elevados níveis de desenvolvimento econômico e social. Isso significa que, na verdade, a eliminação da corrupção endêmica exige uma coordenação por parte de instituições de controles, mas também de uma sociedade mais desenvolvida, com maiores níveis de renda, maior escolaridade, maior informação, menos desigualdade,

IHU On-Line – Como o conceito de homem cordial pode nos ajudar a compreender a atual conjuntura política gaúcha?

André Marenco – A noção de homem cordial, do Sérgio Buarque, permanece atual, no sentido de que ela procura identificar um padrão de comportamento. Segundo Buarque, ele está baseado na busca, na atualização de relações pessoais, na aversão aos procedimentos formais e na impessoalidade do estado moderno. Quando um eleitor diz que os partidos são todos iguais, portanto, ele não consegue diferenciá-los a partir das suas posições ideológicas, e passa a afirma que vota na pessoa e não no partido, no fundo ele está remetendo ao homem cordial do Sérgio Buarque. O apego ao vínculo pessoal é uma resposta à sua incapacidade de compreender a intencionalidade das instituições modernas, dos rituais formais da lei. É um indivíduo, por exemplo, que gosta de furar uma fila, não recusa a possibilidade de ter um tratamento privilegiado, mas, ao mesmo tempo, reclama da corrupção e das ações políticas. Isso é uma matriz cultural que permanece ainda hoje, embora numa escala menor do que aquela dos anos 1930, quando Buarque escreveu Raízes do Brasil.

IHU On-Line – No último dia 11, uma manifestação popular foi repreendida severamente pela Brigada Militar ao se dirigir ao Piratini. Como ficam os movimentos sociais na atual conjuntura política do estado e depois da nomeação do Coronel Mendes para a Brigada Militar?

André Marenco – Eu acredito que haja aí um problema nos dois lados. De um lado, os movimentos sociais deveriam verificar melhor a eficácia de suas ações. Se pegarmos uma pesquisa de opinião pública do início dos anos 1980, veremos que havia um alto nível de aprovação e de simpatia pelos movimentos sociais. Hoje, ao contrário, a posição da maioria é contra os movimentos, e a opinião pública pensa que os órgãos de repreensão pública precisam ser mais efetivos, o que dificulta o diálogo com a população. Por outro lado, não se deve aceitar também um comportamento truculento e violento da Brigada Militar. O que se viu ontem foram cenas de covardia contra os movimentos. É possível coibir e preservar a ordem pública sem necessariamente usar da violência. O que parece é que existe, não sei se do próprio novo comandante da Brigada Militar ou se do governo, uma orientação no sentido do uso descontrolado da violência. Isso alimenta os movimentos, no sentido de usarem manifestações dessa natureza e, por outro lado, é algo que se retroalimenta, o que é ruim. O poder público vem ultrapassando um nível eficaz de manter a ordem pública, pois é possível manter a ordem pública sem o uso de uma violência por vezes covarde e demasiada contra movimentos de opinião.

IHU On-Line – Como o senhor compreende as alianças que estão sendo feitas no Estado como, por exemplo, entre o PT e DEM, PC do B e PPS etc.?

André Marenco – Elas têm um efeito e conseqüências negativas, sobretudo aos olhos do eleitor. Eu acho que num país como o Brasil, com o número de partidos que nós temos, é importante que tenhamos coalizões, que os partidos façam alianças, seja para vencer eleições, seja para governar. Agora, o fato de as alianças estarem adquirindo cada vez mais um caráter inconsistente, do ponto de vista ideológico, a exemplo do que você mencionou, não necessariamente assegura o grau de coesão e firmeza para elas. Certamente, aos olhos do eleitor, cria uma confusão ainda maior, alimentando um sentimento de que os partidos são todos iguais, de que ideologias não são importantes e, sobretudo, uma dificuldade para se discernir as diferenças entre os partidos, o que é um elemento crucial na democracia. É fundamental que o eleitor possa fazer uma distinção entre os partidos e suas implicações políticas, caso eleja este partido. É importante fazer alianças, mas aquelas que envolvem partidos de esquerda e direita ao mesmo tempo de fato aumentam a confusão, pelo menos aos olhos do eleitor.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre o futuro político do estado?

André Marenco – A corrupção depende da eficácia de processos de controle para que ela apareça. Então, muitas vezes, nós somos levados a crer que quando aparece corrupção é porque antes não havia e agora existe. Mas o que existe agora é mais investigação, eficácia e controle, o que também não significa que exista mais ou menos corrupção no Rio Grande do Sul do que nos outros estados. Talvez aqui a eficácia da investigação seja, neste momento, maior. Agora, o dado novo é que, até recentemente, acreditávamos que o estado era imune à corrupção e estamos vendo que isso não é verdade. Na medida em que vem sendo investigados e duas instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público tenham sido pró-ativas na investigação, os casos tem aparecido e a abundância de provas materiais indica inúmeras coisas. O Rio Grande do Sul não é uma ilha sem corrupção dentro do Brasil, embora não tenhamos elementos para dizer que tem maior ou menor nível de corrupção dos outros estados.

IHU On-Line – E como o senhor vê esse choque que o povo levou ao verificar que o Rio Grande do Sul tem corrupção assim como nos outros estados quando achavam que o estado era livre desse mal?

André Marenco – Pode até ser positivo, pelo fato de que pode implicar um grau de exigência maior. O problema seria se fossemos mais autocomplacentes, julgando que, em razão de nossa política pública ter traços diferentes (ser mais polarizada, com identidades partidárias maiores e mais fortes do que em outros estados, por uma distância ideológica entre os competidores maiores), ela estava imunizada em relação à corrupção. Isso nos dava uma maior autocomplascência, um autojulgamento muito mais benevolente. O fato de ter vindo à tona esses fatos graves de corrupção fará com que todos nós sejamos mais rigorosos em relação à classe política rio-grandense e às instituições públicas, o que é bom. Ou seja, descobrimos que há corrupção no estado e, portanto, isso nos obriga a sermos mais exigentes no futuro.

Notas:

[1] Berfran Rosado é deputado estadual. Gerenciou o setor de transportes da Metroplan (1987-1989), foi diretor administrativo da Secretaria Estadual de Obras (1990), assessor da Presidência da Assembléia Legislativa (1991-1992) e diretor administrativo e financeiro da Trensurb (1992-1994).

[2] Ênio Bacci é advogado e deputado estadual.

[3] Cézar Busatto foi Secretário Adjunto da Fazenda e Secretário Especial do Governo Pedro Simon/Sinval Guazzelli e secretário da Fazenda do Governo Britto. Foi também deputado estadual e secretário da Casa Civil do governo Yeda, do qual foi afastado depois da gravação da conversa que teve com o vice-governador Feijó.
Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=14664 acesso em 14 jun. 2008.

domingo, 8 de junho de 2008

O governo Yeda Crusius é uma vergonha

Deu no RS URGENTE:
Por Marco Aurélio Weissheimer
O governo Yeda Crusius é uma vergonha para o Estado do Rio Grande do Sul. A inacreditável sucessão de escândalos e denúncias a que o povo gaúcho assiste nos últimos meses revela um governo fraco moral e politicamente.

É um governo onde a governadora não fala com o vice-governador.

É um governo onde o chefe da Casa Civil tenta comprar a posição do vice-governador.

É um governo onde o vice-governador grava uma conversa com o chefe da Casa Civil para denunciá-lo.

É um governo onde o chefe da Casa Civil chama o vice de canalha e mau-caráter.

É um governo onde aliados da governadora a chamam de sem-vergonha. E nada acontece.

É um governo onde secretários de Estado negociam, combinam festas e tomam chopp com acusados de integrar uma quadrilha que roubou mais de R$ 40 milhões dos cofres públicos.

É um governo onde os partidos de sustentação da governadora, nas palavras do chefe da Casa Civil, utilizam empresas públicas para financiar campanhas eleitorais e para comprar maioria no Parlamento.

É um governo que, diante de graves denúncias de corrupção, com provas materiais eloqüentes, emudece, se esconde e, através de seu patético porta-voz, afirma não existirem fatos relevantes.

É um governo onde a governadora foge da imprensa e do povo.

É um governo onde a governadora não tem coragem de prestar contas sobre seus atos e de seus aliados, mas tem coragem de fechar escolas, demitir funcionários públicos e mandar a polícia bater em manifestantes.

É um governo que privatiza o meio ambiente e hipoteca o futuro.

É um governo onde seus aliados e padrinhos (como o inacreditável senador Pedro Simon, que foi incapaz de pronunciar uma palavra sobre todos esses escândalos) não tem mais coragem de defendê-lo e abandonam o navio em número cada vez maior.

É um governo cujo modus vivendi é a dissimulação e a covardia.

É um governo que chegou ao fim.
Extraído de http://www.rsurgente.net/2008/06/o-governo-yeda-crusius-uma-vergonha.html acesso em 08 jun. 2008.

domingo, 11 de maio de 2008

O intrépido Coronel Mendes

Deu na Agência Carta Maior:
No Rio Grande do Sul, subcomandante da Brigada Militar mobiliza um pequeno exército para reprimir MST e mobilizações de movimentos sociais. Defensor da pena de morte e da reação a assaltos por parte dos cidadãos, o coronel Paulo Mendes também é autor da máxima: "bandido tem que ir pro paredão mesmo".
Marco Aurélio Weissheimer
Os fatos relatados a seguir estão virando uma rotina no Rio Grande do Sul, Estado considerado por alguns como um dos mais politizados e civilizados do país:

Por volta das 13h, vários policiais começaram a se retirar da São Paulo 2. Mesmo assim, a identificação dos sem-terra continuou. No retorno, ruralistas que estavam na RS-630 saudaram o coronel Mendes, que desceu do carro para cumprimentá-los.
[ . . . ]
O relato acima é do jornalista Homero Pivotto Jr., do jornal Diário de Santa Maria, em matéria publicada dia 9 de maio sobre a operação de guerra que a Brigada Militar montou, no dia anterior, para revistar um acampamento de sem-terra no município de São Gabriel, Fronteira Oeste do Estado. Ao justificar o aparato de 700 homens, cães, cavalos, computadores, comunicação via satélite e helicóptero, o coronel Paulo Mendes, subcomandante da Brigada, disse que era “para a segurança de todos”. Sobretudo para os ruralistas que o saudaram como a um herói, ao final da ação.

Denúncias de autoritarismo, humilhação e sadismo

Já para os deputados Adão Pretto e Dionilso Marcon, do PT, não há nenhuma razão para saudar a atuação de Mendes e sua tropa. Pelo contrário. Segundo o relato dos parlamentares, que tentaram sem sucesso entrar no acampamento, a ação da Brigada Militar foi marcada pelo autoritarismo, pela humilhação dos sem-terra com requintes de sadismo e pela violação dos direitos humanos. Eis um trecho do relato dos parlamentares, que foram ameaçados fisicamente e agredidos moralmente pelos ruralistas da região, quando chegaram na área para tentar acompanhar a ação da Brigada:
[ . . . ]
Começaram lentamente, rasgaram barraco a barraco de cada agricultor. Após, de forma sórdida, colocaram pás de terra nas panelas com a comida cozida, inutilizando dezenas de quilos de arroz e de feijão. O restante da alimentação foi levado pela BM, tornando esse sim, ato criminoso.
[ . . . ]
Segundo os sem-terra relataram aos parlamentares, em um determinado momento, o helicóptero da Brigada ficou a poucos metros do solo e, num gesto teatral bem ao gosto do coronel Mendes, do seu interior saiu uma bandeira do Rio Grande do Sul. Dionilso Marcon anunciou que denunciará o governo Yeda aos organismos internacionais de Direitos Humanos e detalhará todos os casos de violação do direito à vida praticada pelo governo gaúcho.

A “filosofia” do coronel Mendes

Considerado uma espécie de “Capitão Nascimento” dos Pampas, o coronel Paulo Mendes é conhecido também por suas declarações polêmicas. Como subcomandante da Brigada Militar, já defendeu a pena de morte e a ida de bandidos para “o paredão”. Além disso, em 2007, defendeu que os cidadãos deveriam começar a reagir aos assaltos, contrariando as recomendações da própria polícia que não aconselham esse tipo de comportamento.
[ . . . ]
A tropa do coronel Mendes tem, de fato, proporcionado "muita ação" à vida política gaúcha.

Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Leiam na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3883

Vejam também: São Gabriel: relatos de um campo de concentração

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Zoneamento da Silvicultura já nasce morto

Deu na EcoAgência:
O que era uma proposta pioneira e inovadora, foi transformada num documento sem eficácia e inócuo para garantir a conservação e uso sustentável do ambiente no Estado, frente à grande expansão da silvicultura.
Por Marcelo Machado Madeira*
Como membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente, (onde represento o Ibama), não posso me omitir a fazer alguns comentários sobre o teor da proposta de Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS) aprovada na noite (!) do último dia 09 de abril pelo referido Conselho. A forma como foi votada e aprovada são um capítulo à parte e, que por si só, merecem uma análise mais profunda em outra oportunidade.
[ . . . ]
Mas a esperada discussão técnica-científica sobre aspectos do documento não se deu na forma adequada, tendo sido substituída por uma discussão muitas vezes política e principalmente econômica, em que determinados setores buscavam desqualificar por completo o trabalho da equipes técnicas da Fepam e da Fundação Zoobotânica (FZB) sob o argumento de riscos aos vultosos investimentos já em implantação no Estado.
[ . . . ]
As propostas de modificações aprovadas pelo Consema retiram do ZAS quase que a totalidade dos limites e restrições objetivos que poderiam representar mecanismos de salvaguarda da biodiversidade, águas e solos dos Biomas existentes em nosso estado, o Pampa e a Mata Atlântica.
[ . . . ]
O que originalmente era proposto como algo pioneiro, inovador na gestão ambiental não somente de nosso estado mas no país, foi transformado num documento sem eficácia, inócuo para garantir a conservação e uso sustentável do ambiente no estado frente à grande expansão da silvicultura no RS, notadamente na metade sul do estado, área do Bioma Pampa.

Trata-se de um zoneamento "para inglês ver", tão ilusório quanto à unanimidade obtida em sua votação no Consema. Trata-se, infelizmente, de um Zoneamento que já nasce morto.

Marcelo Machado Madeira é analista ambiental, chefe da Divisão Técnica do Ibama/RS.
Leia na íntegra em http://www.ecoagencia.com.br/index.php?option=content&task=view&id=3233&Itemid=62

sábado, 12 de janeiro de 2008

Um ano de Yeda Crusius: qual o balanço?

Deu na Agência Carta Maior:
O governo Yeda Crusius foi eleito com um discurso baseado em três conceitos: novo jeito de
governar, fazer mais com menos e transparência na gestão. Ao final do primeiro ano, esses três
conceitos foram bombardeados pelos próprios atos do Executivo.
Marco Aurélio Weissheimer

Quando Yeda Crusius (PSDB) assumiu o cargo de governadora do Estado no dia 1° de janeiro de 2007,
em uma cerimônia realizada no Palácio Piratini, ocorreu uma pequena gafe com a bandeira do
Rio Grande do Sul, sem maiores repercussões. Yeda foi comemorar a posse, na sacada do palácio,
com uma bandeira do RS nas mãos. Com as duas mãos, mostrou-a a seus apoiadores que estavam
na rua. A bandeira estava virada de cabeça para baixo. Se olharmos para esta cena hoje, ela
aparece como um símbolo profético do que estava por vir nos próximos meses.
[ . . . ]
Logo após a campanha eleitoral, Feijó denunciou que havia sido censurado durante a campanha
e impedido de expressar suas opiniões favoráveis às privatizações. Na campanha, reproduzindo o
discurso utilizado pelo candidato tucano à presidência da República, Geraldo Alckmin, Yeda Crusius
prometeu que não iria privatizar patrimônio público no RS. Além disso, prometeu que não iria
propor aumento de impostos, dizendo que essa era uma prática do “velho jeito de governar”.
[ . . . ]
As marcas do novo jeito de governar
O atual governo foi eleito com um discurso baseado em três conceitos: novo jeito de governar,
fazer mais com menos e transparência na gestão pública. Ao final do primeiro ano, esses três
conceitos foram bombardeados pela realidade dos próprios atos do Executivo. O “novo jeito de
governar” acabou traduzido por uma sucessão de conflitos em áreas estratégicas do serviço
público: Segurança, Educação e Meio Ambiente.
[ . . . ]
A fragilidade maior do principal conceito do governo Yeda acabou revelando-se mesmo na relação
que estabeleceu com sua própria base aliada na Assembléia Legislativa. A derrota estrondosa que
o governo sofreu na segunda tentativa de aprovar uma proposta de aumento de impostos, em
novembro de 2007, escancarou a incapacidade do Executivo de fazer valer a maioria que tem no
Parlamento.
[ . . . ]
“Fazer mais com menos”
O conceito de “fazer mais com menos” também sai enfraquecido ao final do primeiro ano de
governo. A queda na qualidade dos serviços públicos, motivada pelo corte linear de 30% no
orçamento de todas as secretarias, transformou o Palácio Piratini em um palco de protestos de
servidores públicos.
[ . . . ]
“Transparência na gestão”
Por fim, o conceito de “transparência na gestão” chega ao final do ano torpedeado pelo escândalo do
Detran. A Operação Rodin, desencadeada pela Polícia Federal, revelou um esquema de corrupção,
que teria iniciado ainda durante o governo Rigotto, que causou um prejuízo de pelo menos R$ 40 milhões
aos cofres públicos. Entre os presos na operação, nomes importantes do governo, como Flávio Vaz Neto
(presidente do Detran) e Antônio Dorneu Maciel (diretor financeiro da CEEE), e um dos ex-coordenadores
financeiros da campanha de Yeda, o empresário Lair Ferst.
[ . . . ]
* Publicado originalmente no jornal Extra-Classe, do Sindicato dos Professores do RS (Sinpro)
Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3803

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O retorno de um modelo perverso e fracassado

Deu na Agência Carta Maior:
O Estado do RS enfrenta uma grave crise financeira, resultado de medidas implementadas entre 1995 e 1997, no governo Antônio Britto. Agora, o governo do PSDB, que também participou daquele governo, propõe a repetição de um modelo que enfraquece o Estado e penaliza a população com requintes de crueldade.
Miguel Rossetto

Os graves problemas financeiros que o Estado do Rio Grande do Sul vive hoje não são resultado de uma crise de 30, 40 anos, como alguns afirmam, mas sim conseqüência de decisões recentes. Eles têm data de nascimento, nome e sobrenome, que identificam responsáveis por opções que foram feitas e que produziram resultados danosos para o povo gaúcho e para o Estado. A dificuldade de financiamento público que vemos hoje no RS foi produzida por escolhas feitas no governo Antonio Britto, pelo PMDB e pelo PSDB, partido da atual governadora. Esses partidos, durante aquele governo, sustentaram três grandes medidas nos anos de 1995, 1996 e 1997, que são fortemente responsáveis pela crise atual.
[ . . . ]
E, em terceiro lugar, a chamada renegociação da dívida do Estado. O RS, que vinha pagando historicamente uma média de 5% de suas receitas, passou a pagar de 13% a 15% por um prazo de 30 anos. A partir dessa medida, o Estado é diminuído para 87% da sua capacidade de financiamento. Essas três medidas, aprovadas pelos governos do PMDB e do PSDB, prejudicaram estruturalmente a capacidade de financiamento do Estado. Adicione-se a elas a venda de patrimônio público, através das privatizações que renderam cerca de R$ 5,5 bilhões mas não ajudaram a diminuir a dívida do Estado, conforme havia sido prometido. Aliás, onde foi parar este dinheiro?

Um modelo derrotado: tarifaço e privatizações

Quando associamos esses fatores à matriz econômica do RS – agroindustrial, manufatureira e de forte peso exportador -, temos um enorme distanciamento entre a dinâmica econômica real e a capacidade de financiamento público. Sem que enfrentemos esses temas conjuntamente não conseguiremos oferecer um padrão de financiamento público adequado às exigências do povo gaúcho. Por isso, é inaceitável a proposta do atual governo estadual de retomar uma pauta já derrotada no RS: a dos tarifaços e das privatizações. Essa pauta já foi experimentada pelos governos Britto e Rigotto e mostrou que não oferece resultados positivos para a população, provocando um alto custo social. É curioso, não fosse trágico, que estes partidos que estão hoje no governo, são os mesmos que governam o RS há cinco anos.
[ . . . ]
Governos são eleitos para governar e devem governar para melhorar a qualidade de vida das pessoas, não para piorar. O atual governo apresenta requintes de crueldade inaceitáveis, como a recusa em oferecer medicamentos gratuitos para uma parcela da população que morrerá sem eles.

Um falácia: dizer que não há alternativa

Temos uma alternativa para superar a crise. Para enfrentar essa agenda, é preciso chamar a sociedade gaúcha para um debate público com o objetivo de evitar medidas que aprofundam ainda mais a crise do Estado e penalizam a imensa maioria do povo gaúcho. A atual governadora não toma nenhuma iniciativa no sentido de corrigir a Lei Kandir, nenhuma iniciativa em relação à reforma tributária e nenhuma iniciativa de peso em relação à renegociação da dívida. A agenda que interessa ao povo gaúcho é outra. É realizar uma reforma tributária que acabe com essa política de renúncia fiscal e crie uma base de desenvolvimento comum para os Estados. É revisar os efeitos danosos da Lei Kandir para o Estado e enfrentar a questão da renegociação da dívida. É investir na potencialidade da economia gaúcha. Esta é a agenda que interessa. Quando governamos procuramos enfrentar estes temas e, infelizmente, sofremos uma pesada oposição por parte dos partidos que estão governando o Estado há cinco anos. Se a nossa proposta tivesse sido aprovada a situação hoje seria outra.

E esses partidos, agora, resolvem repetir a dose e adotar uma receita fracassada que enfraquece ainda mais o Estado. O Rio Grande do Sul só vai superar a crise tomando iniciativas para enfrentar esses temas, preservando como absoluta prioridade os investimentos em educação e saúde, investindo em um plano de longo prazo para recuperar a capacidade de financiamento do Estado e estimulando nossa economia. Não será destruindo o Estado e o sistema de serviços públicos que chegaremos lá.

Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=3738

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Por que o Rio Grande do Sul é assim (8)

Deu no Diário Gauche,
do Cristóvão Feil:

A militarização do castilhismo

Quando se fala em militarização do castilhismo rio-grandense não deve ser confundido como algo ligado à corporação militar brasileira, recém saída da Guerra do Paraguai (1864-1870). O espírito militarista que predominava no PRR resulta da própria situação meridional de fronteiras rebeldes e instáveis, mas também da arguta visão macropolítica de Júlio de Castilhos. É esta que nos interessa.
[ . . . ]
A verdade é que a “questão militar”, de um simples incidente entre um alto oficial militar que homenageou quem protegia escravos fugidos e um Ministro civil do gabinete monárquico que o destituiu pelo gesto ousado, se transformou num processo político que precipitou não só a Abolição quanto a própria República. Castilhos alimentou a contradição entre militares e o gabinete monarquista, dando espaços diários aos fardados, já prevendo um desfecho favorável às pretensões republicanas provinciais e nacionais.
[ . . . ]
Em 1892 quando Castilhos firma-se no poder, trata de montar um dispositivo militar engenhoso: consolida o que chama de Brigada Militar estatal e forma nos municípios – cerca de setenta, então – milícias paramilitares de 300 a 500 militantes políticos do PRR. Estas unidades civis, administrativamente, chamavam-se Corpo Auxiliar, mas a população chamava-os de “provisórios”. Os intendentes (prefeitos), não raro, eram ao mesmo tempo chefes políticos locais e chefes militares. Havia plena harmonia entre os chefes militares provisórios (civis) e os comandantes militares profissionais da Brigada Militar, que atuavam sob o comando do Presidente do Estado.
[ . . . ]
Os governos castilhistas-borgistas estavam sempre aprimorando suas forças militares, tanto estatal, quanto seus corpos provisórios. Tinham permanentemente contratados instrutores de guerra da França e da Alemanha (duas escolas de guerra distintas) e renovavam seus armamentos, a ponto que, quando ocorre a Revolução de 1923, a Brigada, e mesmo os corpos provisórios, portavam armas que haviam sido lançadas na Primeira Guerra Mundial, em 1914.

O castilhismo, ao contrário dos Farroupilhas, nunca perderam uma só revolução armada, e foram apeados do poder pelo voto, já que o cenário de classes também se modificará bastante nos quase quarenta anos de exercício do poder.

Foto: ex-governador Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), governou em dois longos períodos, de 1898 a 1908 e de 1913 a 1928. Em 1932 apoiou a Revolução Constitucionalista dos paulistas contra o presidente Getúlio Vargas, seu ex-companheiro do PRR.

Certa feita, quando governador, aproximou-se dele um chefe político de Santa Maria dizendo: “Doutor Medeiros, eu penso que...”, quando foi interrompido pela voz firme e calma de Borges, “Meu filho, tu pensas que pensa, mas quem pensa aqui sou eu”. Morreu com 98 anos de idade, em 1961.
Leia na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-parte_25.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (7)

Deu no Diário Gauche,
do
Cristóvão Feil:

O castilhismo e a chamada
“liberdade de imprensa”


Se um dos aferidores da democracia formal é de fato a liberdade de imprensa, então, o RS tinha mais democracia no final do século 19 do que na presente conjuntura.
[ . . . ]
Hoje, este debate está morto. Não temos mais pluralidade nos órgãos de comunicação. Atualmente existe uma única linguagem político-ideológica. A pluralidade é apenas numérica e segundo a modalidade da mídia. De resto, temos uma mídia de pensamento único e inquestionável, a mídia do partido único da mercadoria. Que confunde deliberadamente (ideologicamente) cidadão com consumidor. A democracia que apregoa fica reduzida à miséria espiritual de se escolher entre um celular A, B ou C, uma bugiganga ruim ou uma bugiganga péssima. Os consumidores são laureados “vencedores”, os não-consumidores são indexados como “perdedores”. A velha bandeira liberal-burguesa da cidadania é substituída pelo audór colorido e iluminado do consumidor unidimensional. A proclamada “liberdade de imprensa” é a liberdade embrutecida do consumidor, não do cidadão esclarecido e autônomo.
[ . . . ]
Castilhos se dedicou integralmente ao jornal A Federação, fazendo deste diário um instrumento forte de combate à monarquia. Em janeiro de 1885, ano que seria marcado por “sensacionais combates de Imprensa”, segundo um autor, chegam a Porto Alegre, o Conde D`Eu e a princesa Isabel, sua esposa. Castilhos mostra toda a convicção política e a sua “audácia irreverente em face de membros da família imperial, tanto mais grave por deflagrar num ambiente de província, em meio à aura de bajulação que envolvia o passeio propagandístico dos sucessores do trono” de Pedro 2º.

Júlio de Castilhos escreveu em A Federação: “O 1º Reinado foi a violência. O 2º é a corrupção. Que será o 3º ? O 3º não constituirá mais do que uma esperança dos príncipes que atualmente nos visitam, esperança que há de ser infalivelmente malograda”.
[ . . . ]
A Federação não seria um diário singular na luta política do PRR, inúmeros outros jornais e publicações republicano-positivistas seriam criadas nos quase setenta municípios do Rio Grande do Sul e se constituiram em instrumentos estratégicos de criação e consolidação do poder castilhista-borgista por quase quatro décadas. De outro lado, os opositores do castilhismo, do Partido Federalista, também tinham suas inúmeras publicações de propaganda política, fazendo do Rio Grande do Sul um território de intenso debate e livre manifestação pela cidadania.

Já se vê que no quesito “liberdade de imprensa” o Rio Grande do Sul anda mais atrasado que no fim do século 19.

Leia na íntegra em
http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-parte_24.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (6)

Deu no Diário Gauche,
do Cristóvão Feil:

A revolução vinda de cima

“Revolução vinda de cima” é uma expressão leninista que procurou identificar o caráter da revolução burguesa na Alemanha de Bismark. No Rio Grande, os positivistas também fizeram uma revolução por cima. Embora o processo sulino não tenha tido o caráter reacionário como o apontado por Lênin na Alemanha.

Veja então que temos três modelos distintos de revolução burguesa: o modelo francês de 1789, uma revolução total, arquetípica, democrática e modernizadora em toda a sua expressão; o modelo alemão, reacionário (os de cima contra os subalternos), autocrático, e que operou a chamada modernização conservadora; e o modelo rio-grandense de 1893 (não confundir com a guerra civil Farroupilha de 1835, que nunca foi uma revolução stricto sensu), autoritário, modernizador e progressista – mas sempre burguês.
[ . . . ]
Se os maragatos federalistas-gasparistas, orientados pelo líder bageense Gaspar da Silveira Martins (“idéias não são metais que se fundem”, e muito ligado a Pedro 2º), tivessem vencido a revolução de 1893-95, o professor Maestri teme que o Rio Grande se transformasse caricaturalmente “numa grande Bagé”.

Pode-se imaginar o cenário desolador, contribuição guasca ao dantesco quinto círculo do Inferno:
- grandes latifúndios despovoados e decadentes,
- economia subordinada e sem dinamismo,
- regime pastoril de baixíssima produtividade,
- agricultura estagnada,
- indústria inexistente,
- contrabando crescente,
- aparelho de Estado impotente e desautorizado,
- contas públicas deficitárias,
- confusão promíscua entre público e privado,
- assembléia de representantes loteando o território em zonas de interesse particularista,
- populações errantes perambulando em busca de trabalho e renda que jamais encontrariam,
- infra-estrutura ineficiente ou inexistente,
- isolamento e heteronomia do Estado,
- miséria generalizada,
- riqueza escassa e concentrada,
- possíveis invasões estrangeiras pela fronteira,
- aglomerações urbanas como viveiros privilegiados de doenças e epidemias,
- educação pública zero,
- territórios inteiros tomados por bandoleiros armados,
- bandidagem social,
- anomia social e política,
- guerra civil prolongada,
- razias, saques e prática corrente de aniquilamento de comunidades inteiras,
- intervenção federal militar e civil, etc.

Leia na íntegra em thttp://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-parte_18.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (5)

Deu no Diário Gauche,
do
Cristóvão Feil:

A constituição republicana e revolucionária

Júlio de Castilhos e seus companheiros da vanguarda comtista intuiram que o Rio Grande do Sul estava pronto para se modernizar, mas que essa necessidade histórica não se realizaria por si só. O “espírito revolucionário” exige ações revolucionárias estratégicas materializadas em instrumentos institucionais-constitucionais decisivos. Neste sentido, em primeiro lugar, era preciso um marco jurídico-constitucional para a nova ordem, em segundo, era preciso uma imprensa partidária combativa, e terceiro, uma força militar estatal auxiliada por corpos provisórios politizados e treinados militarmente, a partir de militantes locais do PRR, com capilaridade em todo o território sulino.
[ . . . ]
A Constituição rio-grandense e a prática político-administrativa do castilhismo por quase 40 anos, garantiram ao Estado funcionar praticamente como uma República autônoma do resto da Federação brasileira. Desta forma, o PRR cumpria agora o ideário Farroupilha de 1836, quando da decretação da malograda República Rio-grandense em Piratini.

Como assinala muito bem Luiz Roberto Targa, “essa constituição inédita e original não se baseou na dos Estados Unidos da América, como foi o caso das outras constituições brasileiras, tanto a da União, quanto a dos Estados”.
[ . . . ]
Outro marco importante da gestão castilhista do Estado foi a reforma fiscal, cujo ponto central foi a substituição do imposto de exportação (quase sempre sonegado) pelo imposto territorial. Para tanto, era fundamental discriminar a esfera pública da esfera privada. Na prática, tratava-se de impor medidas efetivas de o Governo retomar as terras públicas ilegalmente apropriadas pela oligarquia rural nas últimas décadas do Império. Retomadas as terras, no período compreendido entre 1895-1906, legitimado pela vitória na guerra civil e com força militar suficiente para garantir o cumprimento da lei e da ordem estatal, o Governo castilhista entregou lotes rurais a posseiros, a companhias de loteamento e a pequenos proprietários.

Essas medidas cada vez mais afirmavam a consolidação do Estado burguês moderno, qual seja a de tornar autônoma a esfera estatal da esfera privada das oligarquias rurais tradicionais e atrasadas.

No Rio Grande do Sul isso foi conquistado a ferro, fogo e vontade revolucionária organizada e materializada em instrumentos concretos de mudança social.

No final desta série de pequenas notas, vamos linkar o artigo completo (que estará publicado num anexo), com bibliografia e indicação de leitura complementar.

Leia na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-parte.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (4)

Deu no Diário Gauche,
do
Cristóvão Feil:


A construção da hegemonia castilhista

Para entender a vanguarda positivista-castilhista militante do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), mas sobretudo compreender aquilo que Nabuco (antes de Lênin) sintetizou como o “espírito revolucionário” de uma dada conjuntura ímpar, original e irrepetível, vamos ver o que Florestan Fernandes considera como elementos que não podem faltar no momento do salto revolucionário (e isto vale tanto para o processo burguês, que estamos comentando, quanto para um processo pós-burguês, do qual estamos muito longe, pelo menos com o lulismo no poder e a autodesconstituição petista).
[ . . . ]
O Rio Grande do Sul vivia a crise terminal do modelo escravagista agro-exportador, crise de mão-de-obra escrava (os cafeicultores paulistas vinham inflacionando o preço unitário da força-escrava pelo menos desde a proibição do tráfico, meados do século 19), aumento da divisão social do trabalho, assalariamento progressivo, novos agentes econômicos mais dinâmicos advindos das comunidades imigrantes (onde, por determinação de Pedro 2º , era proibido trabalho escravo), etc. Ora, se de um lado havia uma crise estrutural do sistema dominante, de outro, florescia uma sociedade baseada em novos valores sociais e culturais.
[ . . . ]
Se a conjuntura histórica por si só quase conspirava para o desfecho de síntese, havia ainda três grandes tarefas instrumentais a realizar: 1) fixar um marco jurídico-constitucional para a nova ordem, depois consubstanciado na Constituição autoritária de 1891; 2) uma imprensa partidária aberta à população, consubstanciado no combativo jornal republicano “A Federação” e inúmeros outros pequenos órgãos regionais de grande influência política; 3) uma força militar que sustentasse a nova ordem, consubstanciada na Brigada Militar como força pública estatal e a arregimentação de militantes do PRR como corpos provisórios militarizados para intervenção nos conflitos comuns no período, pelo menos até 1924 (os intendentes municipais funcionavam como chefes políticos e militares).

Adiante veremos cada uma destas estratégias políticas que garantiram a hegemonia da ordem castilhista por quase 40 anos no Rio Grande do Sul.

Leia na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-iv.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (3)

Deu no Diário Gauche,
do
Cristóvão Feil:

A revolução burguesa no Rio Grande do Sul

Investigar sobre a existência de uma revolução burguesa no limite meridional do Brasil implica em verificar dois fatores preponderantes: 1) a ação de atores das grandes transformações que estejam por trás da desagregação do regime escravocrata-senhorial; 2) a formação de uma sociedade de classes.

Como afirma Florestan Fernandes, no Brasil “a Revolução Burguesa não constitui um episódio histórico”, foi um desdobramento longo de pequenas e continuadas “rupturas com o imobilismo da ordem tradicionalista e a gradual chegada da modernização como processo social”.
[ . . . ]
[Aqui um breve parêntese elucidativo, para quem não leu os dois sueltos anteriores desta pequena série: estamos investigando os motivos que levam a burguesia guasca a renunciar a sua própria revolução social, onde foi francamente vitoriosa, para apegar-se ao passado farroupilha que, embora heróico, foi uma sucessão de fracassos. Por que as fanfarras do Tradicionalismo organizado – e ideologizado – não evocam a vitória modernizante de 1893, preferindo lembrar as derrotas sucessivas de 1835-1845?]
[ . . . ]
A guerra civil começa em 2 de fevereiro de 1893, quando o uruguaio Gumercindo Saraiva invade o Rio Grande com 400 rebeldes armados, em sinal de protesto pela reeleição de Julio de Castilhos à presidencia do Estado, tendo ocorrido sua posse uma semana antes, em 25 de janeiro. Saraiva, um colorado uruguaio, representava mais do que os fazendeiros maragatos, representava sociologicamente uma reação armada do macro sistema baseado no latifúndio e na pecuária de exportação. Dava-se início ao embate sangrento entre o Rio Grande atávico e conservador e o Rio Grande modernizante e planificador. A guerra civil foi obra cruenta, então, das forças oligárquicas reacionárias à Constituição estadual castilhista de 14 de julho de 1891.

A Constituição castilhista de 1891 foi um marco político da hegemonia republicano-chimanga no Estado. Representa uma ordem legal exemplar, que se poderia classificar com um tipo ideal weberiano – segundo Luiz Roberto Targa.

Mas isto veremos no capítulo seguinte.

No final desta série “Por que o Rio Grande do Sul é assim”, este blog indicará a bibliografia usada, bem como as devidas sugestões de leitura para aprofundar o tema aqui tratado.


Leiam na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-iii.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (2)

Deu no Diário Gauche,
do Cristóvão Feil:

A guerra civil de 1893-1895


O Rio Grande do Sul entrou na fase do conflito armado a partir de fevereiro de 1893. A guerra civil durou exatos 31 meses, até agosto de 1895. Morreram cerca de 12 mil pessoas, numa população estimada de um milhão de sul-rio-grandenses.

É considerada a mais bárbara das revoluções americanas, não só pelo número de mortos, mas pela brutalidade e extensão do conflito que incluiu a eliminação quase completa dos prisioneiros, que eram degolados (na foto, o célebre degolador Adão Latorre exibe a sua perícia macabra) impiedosamente pelo adversário, de ambos os lados. Existem relatos de que cerca de trezentos prisioneiros de determinada batalha tenham sido degolados após cessados os combates. Não existiam prisioneiros de guerra, neste sentido.
[ . . . ]
Todos sabem que venceu o grupo castilhista, representado pelo Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Castilhos foi sucedido em 1898 por Borges de Medeiros, da mesma linhagem castilhista-comtiana, que saiu do poder somente em 1928. A revolução de 93 ainda teria recaídas em 1923 e 1924, sempre com os mesmos antagonistas de classe e os mesmos motivos sócio-econômicos e de poder.

Que rivalidades tão profundas eram essas?
[ . . . ]
A vanguarda republicano-castilhistas-borgistas (chimangos) fez a parte da revolução burguesa no País. Florestan Fernandes diz que “a Revolução Burguesa [brasileira] não constitui um episódio histórico” definido singularmente, marcado e datado. O caso brasileiro, segundo Florestan, foi um longo processo de absorção de “um padrão estrutural e dinâmico de organização da economia, da sociedade e da cultura”. Já no Rio Grande, a revolução de 93 é o ponto – sim – inaugural da revolução burguesa na região mais meridional do Brasil.

Mas isso é tema de outro post, nesta série em que estamos examinando por que o Rio Grande do Sul é assim.

Leiam na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

Por que o Rio Grande do Sul é assim (1)

Deu no Diário Gauche,
do Cristóvão Feil:


Se aproxima o dia 20 de setembro, data que marca o início da chamada revolução Farroupilha, no distante ano de 1835. Para quem não conhece o Rio Grande e Porto Alegre, essas informações soam mais distantes ainda. Mas aqui neste blog, nos próximos dias, vamos tentar decifrar esses códigos da cultura gaucheira, esses constructos culturais cuidadosamente recortados da história factual e montados num painel mítico que representa a apropriação do imaginário popular dos indivíduos nascidos no Estado mais meridional do Brasil e , não por acaso, o que apresenta idiossincrasias especiais e um etos social muito particular, rico, variado, objeto da contribuição de inúmeras etnias – autóctones e transplantadas.
[ . . . ]
E outras questões: por que no RS se festeja, se comemora uma derrota, sim porque os farroupilhas de 1835 foram derrotados durante dez longos anos pelas tropas do Império do Brasil, por que? Outra: por que o RS comemora o 20 de setembro e não comemora o 14 de julho? Sabendo-se que foi no 14 de julho de 1891 que a Assembléia Constituinte sul-rio-grandense deu posse a Júlio Prates de Castilhos como primeiro Presidente (hoje é governador) eleito no RS, e pode-se dizer que este é o marco da única revolução burguesa clássica havida no País. Nenhum Estado federado e nem o próprio Brasil teve uma revolução modernizante como o Rio Grande do Sul, através dos positivistas chimangos de Castilhos, e depois através de Borges de Medeiros, pelo menos até 1930, quando se encerra o ciclo modernizante inaugural da transição para o capitalismo nesta região meridional.

Por que a burguesia gaúcha, a direita guasca, comemora uma derrota – a farroupilha – em vez de comemorar uma vitória – a da revolução cruenta de 1893? Intrigante, não?
[ . . . ]
O Rio Grande do Sul tem uma história muito expressiva, tão expressiva quanto o “riso” macabro dos degolados de 1893, dos “engravatados” de 1923 (a “gravata” era a língua exposta da vítima, por baixo e através do largo talho horizontal do corte da lâmina branca), e de uma revolução positivista-burguesa que ousou estatizar empresas estrangeiras ainda em 1920, que cobrou impostos de latifúndio em 1895 e que escolarizou todo o Estado, ainda no início do século 20.

Vamos ver tudo isso, aqui no blog, a despacito no más, um pouco a cada semana.

Leia na íntegra em http://diariogauche.blogspot.com/2007/09/por-que-o-rio-grande-do-sul-assim-se.html