O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Novas tecnologias: uma porta para a democratização dos meios de comunicação

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Entrevista especial com Guillermo Mastrini
Pensar a relação da governabilidade com a comunicação na América Latina é sempre um desafio. Ainda mais quando sabemos que o acesso às novas tecnologias ainda é restrito, que a corrupção nos governos cresce muitas vezes com a ajuda dos meios de comunicação e que a participação da população nesses é ainda muito precária, para não dizer nula. Para debater algumas questões acerca dessa relação, a IHU On-Line conversou por telefone com o pesquisador argentino Guillermo Mastrini.

Mastrini fala sobre o papel dos meios de comunicação na América Latina e da “conivente” relação com os governos e políticas, além de destacar a importância do acesso às novas tecnologias por todos os cidadãos e da necessidade da criação de políticas públicas de acesso a essas tecnologias. “O custo de produção das tecnologias digitais é muito mais baixo do que nas tecnologias analógicas. Isto abre uma porta”, disse.

Guillermo Mastrini é licenciado em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), e doutor em Comunicação, pela Universidade Complutense de Madrid. É professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel dos meios de comunicação latino-americanos na vigilância dos atos dos governos e dos partidos políticos?

Guillermo Mastrini – A história da América Latina em relação à vigilância dos partidos políticos e dos meios é muito diferente. O grande problema aqui é que os meios de comunicação mais importantes têm fortes vínculos com os governos políticos. A função de vigilantes que os meios de comunicação estadunidenses possuem é muito relativa aqui na América Latina. Basta lembrar-se dos notórios casos de corrupção e de controle que tiveram a participação da imprensa e dos meios de comunicação. Eu diria que não se pode comparar a lógica estadunidense ou européia com a lógica latino-america, pois esta última compreende os vínculos estreitos entre os meios de comunicação e os governos e políticos. Há, geralmente, uma conivência entre essas partes, algo como um pacto não escrito, em que, em geral, os governos permitem que os meios de comunicação realizem importantes negócios econômicos e, em troca, eles não se envolvam na organização política e nas negociações econômicas dos governos.
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IHU On-Line – Que tipo de políticas públicas devem ser criadas para a utilização das TIC’s (tecnologias de informação e comunicação), para a obrigatoriedade da prestação de informações de interesse público? Essas políticas públicas deveriam ser unificadas ou trabalhadas país a país?

Guillermo Mastrini – Eu acredito que um dos déficits na América Latina seja a falta de serviços públicos fortes. Por isso, acredito que precisamos desenvolver, e jamais descartar, uma política pública para as novas tecnologias da informação. Creio que seria muito proveitosa para as políticas públicas a utilização das novas tecnologias da informação, e vice-versa. Eles podem ser utilizados para que os governos se aproximem da população e não implicam em um investimento tão alto quanto poderia ser o investimento feito para a criação e manutenção de um canal de televisão público. Obviamente que não é apenas para isso que as novas tecnologias e essa relação servem. Uma política de serviço de público não é suficiente se não for complementada com políticas muito forte no setor privado em relação à informação cultural. Precisamos, aqui na América Latina, de política de acesso, no sentido de estimular o acesso da sociedade às novas tecnologias da informação, isso sem falar de políticas públicas de alfabetização – tanto no sentido literal, ou seja, de aprender a ler, quanto no sentido de compreender o que são essas novas tecnologias da informação e o que implicam seus discursos e saber. Creio, também, que deve haver políticas públicas de descentralização, à medida que um dos problemas graves na América Latina é que o consumo se materializou em tecnologias, daí ser importante uma distribuição equilibrada em nossos países.
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IHU On-Line – Quais são as possibilidades e limites dos Conselhos de Comunicação Social?

Guillermo Mastrini – Creio que a criação dos Conselhos de Comunicação Social seja uma questão que seria muito interessante, no sentido de estimular a participação da cidadania em relação aos meios de comunicação. A história nos mostra que até agora seria impossível implementar isso, o que pode ocorrer ainda no futuro. Tanto acadêmicos quanto militantes políticos e movimentos sociais têm fracassado em relação à implementação disso. Isso porque, como falei no início da entrevista, os grandes meios possuem uma conivência com os governos e políticos e historicamente têm conseguido frear qualquer iniciativa que implicaria numa maior participação da população nos meios de comunicação. Mas precisamos ter consciência de que os Conselhos de Comunicação Social poderão contribuir enormemente para a democratização dos meios de comunicação.

IHU On-Line – Os meios de comunicação na América Latina, em especial o Brasil, estão nas mãos de poucas e poderosas pessoas. O senhor vê alguma forma de democratizar esse formato existente hoje?

Guillermo Mastrini – Percebo que há duas instâncias: uma delas tem a ver com a estrutura legal e política econômica, que irá ajudar a criar recursos em setores minoritários, como a comunicação comunitária e aproveitar todos os resquícios dos grandes meios. A outra teria, evidentemente, relação com o uso das novas tecnologias, a partir de uma produção mais democrática do que a proporcionada pelas tecnologias analógicas. O custo de produção das tecnologias digitais é muito mais baixo do que nas tecnologias analógicas, abrindo uma porta. Precisamos mudar a lógica também do consumo digital, pois sabemos que o consumo está concentrado em muito poucos sites, mas a internet é uma instância em que se pode colocar muitos projetos, processos e informações que, evidentemente, teriam uma dificuldade enorme para transitar nas tecnologias tradicionais no mundo analógico.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=13452

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Mudanças na cultura midiática latino-americana

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Que a cultura midiática latino-americana está mudando, não há dúvidas. Mas é preciso salientar que há mudanças extremamente significativas acontecendo, enquanto que, em outros países, a mudança ainda é tímida. “Essas modificações que começam a aparecer no cenário latino-americano se devem basicamente à ação de governos progressistas, particularmente os governos da aliança bolivariana das Américas: Venezuela, Equador e Bolívia, que entendem que a comunicação é uma questão estratégica para o desenvolvimento social e econômico e têm procurado interferir mais no sistema midiático, no sentido de aumentar a variedade dos conteúdos e das fontes emissoras”, diz o professor Denis de Moraes, entrevistado de hoje pela IHU On-Line. Denis fala ainda sobre a relação entre comunicação e governabilidade, crise das indústrias e conselhos de comunicação. A conversa foi realizada por telefone. Denis de Moraes é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também realizou doutorado em Comunicação e Cultura. É pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, da Argentina. É professor da Universidade Federal Fluminense. É autor de, entre outras obras, O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (Rio de Janeiro: DP&A, 2001) e Cultura mediática y poder mundial (Buenos Aires: Grupo Editorial Norma, 2006). Confira a entrevista.
IHU On-Line - Foucault dizia que não existe o poder, mas existem, sim, aqueles que querem ser dominados. Qual a relação que o senhor faz entre o poder e a cultura midiática presente na América Latina, hoje?
Denis de Moraes – Eu acho que a cultura midiática, tanto na América Latina quanto no mundo em geral, apresenta uma série de características comuns e convergentes. A primeira delas é o que eu defino como midiatização da vida social. Todos os espaços de representação de anseios e aspirações parecem ter se transferido por ação ideológica dos meios de comunicação para telas e monitores. Isso significa que só adquire verdadeira visibilidade social aquilo que os meios de comunicação se incubem de transmitir. Significa também que as outras esferas de representação de interesses passam também a entrar num processo de esvaziamento de sua força junto à opinião pública. Eu me refiro à escola, às associações sociais, ao poder legislativo, que continuam manifestando suas posições, aglutinando interesses, mas não têm o mesmo poder de penetração e de interferência social do que os meios de comunicação. Trata-se de uma distorção perigosa, na medida em que os meios de comunicação se apresentam diante da coletividade como um âmbito de representação da vontade geral, como se eles tivessem a capacidade de resumir tudo aquilo que a sociedade deseja e aspira.

Trata-se de uma manobra ideológica muito poderosa, muito incisiva e que tem como objetivo: 1) ajudar a consolidar a hegemonia do mercado como a esfera de organização societária, ou seja, o mercado elevado à potência máxima; 2) Trata-se de uma tentativa de colocar os meios de comunicação, que são privados, fora do alcance de controles públicos democráticos. Eu me refiro, especificamente, aos meios de comunicação que têm concessões de rádio e televisão e que não desejam se submeter a controles, regras e normas públicas. Isso é uma deturpação muito perigosa também, porque se tratam de canais que pertencem à sociedade e não aos conglomerados midiáticos. Mas, ao se apresentarem como esfera de tradução da vontade geral, eles tentam se colocar fora do alcance de qualquer tipo de controle público-democrático. Como se tivessem uma autonomia tão peculiar, como se fossem a única esfera social, que não precisassem prestar contas à sociedade daquilo que fazem.

Tem que prestar sim, porque são concessionários de licenças. Esse é um exemplo bastante eloqüente do tipo de cultura midiática que nós temos. Trata-se de uma cultura absolutamente singular porque controlada, formulada, executada por meios que querem se colocar fora do alcance da sociedade, acima de qualquer tipo de controle. E fabricam, com uma velocidade espantosa, um volume desproporcional de informações e imagens a pretexto de que isso ampliaria a diversidade, quando na verdade nós sabemos muito bem que, de fato, há um aumento exponencial dos conteúdos transmitidos socialmente. Porém, as fontes de transmissão continuam cada vez mais concentradas nas mãos de poucas empresas que têm um poder absurdo de definir tudo aquilo que a sociedade pode ouvir, ver e ler.
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IHU On-Line - Como o senhor vê a crise das indústrias culturais no mundo e como essa crise afeta os meios de comunicação latino-americanos?
Denis de Moraes – As indústrias culturais fazem parte do modo de produção capitalista, de forma que um dos traços constitutivos desse modo de produção é que ele se depara sempre com crises internas e tem uma extraordinária capacidade de reprocessá-las e, assim, conseguir se reestruturar e seguir adiante. As indústrias culturais apresentam algumas evidências de crise, sobretudo no sentido do esgotamento dos mercados dos países mais industrializados. Entretanto, as corporações desses países entenderam que elas precisam buscar outros mercados através da economia de escala que internacionalizaram suas produções, seus sistemas de difusão, suas estratégias mercadológicas e conseguem enfrentar a crise em seus países de origem, obtendo lucros em países periféricos da América Latina e da Ásia.

De modo que eu não vejo uma crise das indústrias culturais que possa afetar a sua hegemonia no mercado de informação e entretenimento. Eu vejo crises que têm sido enfrentadas sucessivamente por meio de reestruturações empresariais e novos planos mercadológicos com relativo êxito. Basta citar, por exemplo, o caso das grandes corporações estadunidenses que, diante da saturação do mercado nacional, conseguiram, nas últimas décadas, resultados verdadeiramente extraordinários nos demais continentes, compensando, portanto, o esgotamento das possibilidades de crescimento do mercado interno.

Com relação ao mercado de mídia, penso que esse cenário se reproduz com uma impressionante coincidência: as principais corporações de mídia operam, hoje em dia, em escala absolutamente planetária. São grandes conglomerados que têm interesses e exploram uma série de setores tornados convergentes pela digitalização e conseguem atuar em parcerias com aliados regionais e locais desenvolvendo um processo de mais valia, extremamente insidioso e competente, porque distribui para mais de 200 países os mesmo produtos que são elaborados nos estúdios e nos centros de produção das matrizes, obtendo ganhos variados com cd’s, dvd’s, desenhos animados, filmes, etc. Também penso que não há crise tão violenta que possa colocar em risco a posição hegemônica das indústrias de comunicação e cultura.
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IHU On-Line - Para o senhor, quais são as possibilidades e os limites dos conselhos de comunicação social hoje?
Denis de Moraes –
O Brasil tem um conselho de comunicação criado pela constituição de 1988, que teve no saudoso doutor Ulisses Guimarães o seu grande expoente. Esse conselho praticamente não existe mais, deixou de ser do conhecimento público. Até onde sei, não tem se reunido com freqüência e a sua influência como órgão assessor do congresso nacional é uma influência muito pequena e sem ressonância. Atribuo isso ao desinteresse dos quatro últimos governos em fazer avançar medidas que contribuam para a democratização da comunicação do país. Digo isso porque a composição atual do conselho nacional de comunicação social, segundo análises que foram feitas por especialistas e pesquisadores, é a mais conservadora de toda a recente trajetória do conselho. Isso mostra claramente que não há um interesse governamental e do próprio congresso em prestigiar esse órgão como uma esfera de debate dos poderes públicos no campo da comunicação. Digo isso com pesar, porque essa foi uma luta importante das entidades que defendem a democratização dos meios de comunicação no país.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12923

sexta-feira, 28 de março de 2008

A crise do jornalismo na América Latina

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
“O jornalismo está, efetivamente, numa crise, pois o sistema está alentando uma desconfiguração não somente de suas práticas, mas de seus princípios.” A afirmação é do professor boliviano Erick Torrico Villanueva. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, Villanueva falou sobre a relação da comunicação e política na América Latina e das mídias e os governos. Para ele, o jornalismo está realmente passando por uma crise de princípios. “Em vários países latino-americanos se está impondo um anti-modelo jornalístico”, disse ele.

Erick Torrico Villanueva é diretor da pós-graduação em Comunicação e Jornalismo da Universidade Andina Simon Bolívar. É, também, presidente da Associação Latino-americana de Pesquisadores da Comunicação e colunista do jornal La Prensa, de La Paz, na Bolívia.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Com a atual estrutura política latino-americana, como o senhor avalia as mudanças na forma de conduzir o jornalismo no continente?

Erick Torrico Villanueva – O jornalismo latino-americano vive diferentes situações, pois as características políticas variam de uma região para outra. Sem dúvida, os critérios que poderiam servir como elemento de comparação nesse campo são, por um lado, o tipo de legislação existente sobre o particular e o grau de aplicação ou cumprimento da mesma e, por outro lado, a forma de reação que estabelece o jornalismo com a política em cada caso. Nesse sentido, há países que contam com sistemas normativos mais desenvolvidos, outros que têem se conformado parcialmente e alguns que inclusive estão discutindo estas questões agora para introduzir reformas ou criar novos instrumentos. Mas, também, as tensões ou cumplicidades que têm lugar nas interações jornalismo-política condicionam as maneiras em que se desempenham os meios de informação e seus operadores.

O que se adverte, mais além do assinalado, é que hoje existe uma tripla preocupação sobre o jornalismo no continente latino-americano: 1) aquela referida ao papel que devia cumprir no tempo de transição que atravessam hoje todas as sociedades do planeta; 2) a relativa à insatisfação das audiências com o trabalho jornalístico afetado em muitos casos pelo sensacionalismo, a politização explícita e o comercialismo exarcebado; e 3) a que expressa um importante movimento dentro do próprio âmbito jornalístico para impulsionar uma recuperação da qualidade e credibilidade.
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IHU On-Line – Ignácio Ramonet escreveu recentemente que os jornalistas estão em vias de extinção porque o sistema já não quer mais jornalistas. Qual é a sua opinião sobre esta afirmação?

Erick Torrico Villanueva – O jornalismo está, efetivamente, numa crise, pois o sistema está alentando uma desconfiguração não somente de suas práticas, mas de seus princípios. Em vários países latino-americanos se está impondo um anti-modelo jornalístico desenvolvido pela televisão “hiper-comercial”, essa que promove a “teleporcaria”, tende a reconfigurar os fins e as formas profissionais da informação noticiosa.

Podemos resumir as principais hipóteses que descrevem esta situação nestas seis:

- O jornalismo está deixando de ser uma ocupação dos jornalistas;
- muitos novos jornalistas sabem cada vez menos de jornalismo;
- a informação de interesse do público está desaparecendo dos espaços de notícias na televisão e no rádio;
- as notícias estão sendo esvaziadas de seu conteúdo básico: a informação;
- a informação, em negação a sua própria natureza, tende agora a gerar incerteza e alarme;
- a imprensa busca assimilar em forma e conteúdo os padrões dos meios audiovisuais que desvirtuam a atividade jornalística.

Nessa perspectiva, sim, se pode concordar com Ramonet.
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IHU On-Line – Qual é o impacto da comunicação no tecido social que constitui a América Latina, em sua opinião?

Erick Torrico Villanueva – Sem comunicação não há tecido social. As dificuldades que enfrentam hoje a maioria das sociedades latino-americanas são a exclusão e a pobreza, que têm seu correlato em problemas de ordem comunicacional. Há países com altos graus de incomunicação social, quer dizer, de desconhecimento da internet, por exemplo. Lamentavelmente, muitos meios “de comunicação” estão contribuindo de maneira cotidiana a acrescentar essa brecha.

IHU On-Line – Em relação às complexidades do acesso e limitações da participação cidadã, como podemos democratizar as políticas de comunicação?

Erick Torrico Villanueva – Primeiro, falta saber se realmente há políticas de comunicação explícitas e coerentes nos países. Como a comunicação não pode ser desvinculada dos demais processos sociais, a democratização das políticas do setor implica uma profundização da democracia política, social, cultural e econômica, para o que se necessita possibilitar a participação cidadã no debate, a proposição e a gestão de demandas. É indispensável que haja democracia para a comunicação como democracia na comunicação.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12826

terça-feira, 25 de março de 2008

Estratégia continental

Deu na Agência Carta Maior:
A guerra global contra o terrorismo chegou à América Latina – chegou com o Plano Colômbia, mas a incursão no Oriente Médio provocou algum atraso – e assume aqui as mesmas características que adquiriu em outros continentes: utilizar um aliado privilegiado (seja a Colômbia, Israel ou Paquistão).
Boaventura de Sousa Santos
Sobre a incursão do exército colombiano em território do Equador para eliminar um grupo de guerrilheiros das FARC, parece estar tudo dito; principalmente se parece como um caso encerrado, encerrado com sucesso. Mas a verdade é que não é bem assim. O que é revelado sobre a situação é tão importante quanto aquilo que se oculta.
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A guerra contra o terrorismo inclui ações muito visíveis e outras secretas. Entre as últimas estão os atos de espionagem e de desestabilização; Bolívia, Venezuela, a tríplice fronteira (Paraguai, Brasil, Argentina) são os alvos privilegiados. Na Bolívia, bolsistas norte-americanos da Fundação Fulbright são chamados pela Embaixada dos EUA para dar informação sobre a presença de cubanos e venezuelanos e sobre movimentos indígenas suspeitos; enquanto os separatistas extremistas de Santa Cruz são treinados na selva colombiana pelos paramilitares. Novos fatos: nas ações de desestabilização podem participar empresas militares e de segurança privada, contratadas pelos EUA sob o parapeito do Plano Colômbia que, além disso, dota-as de imunidade diplomática e, portanto, de impunidade diante da Justiça nacional.
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Pela mesma razão, a intervenção humanitária a favor dos reféns teve que ser desmontada para que Hugo Chávez não obtivesse crédito político. As forças políticas progressistas ameaçam a dominação territorial dos EUA através de medidas que buscam fortalecer a soberania dos países sobre os recursos naturais e alterar as regras da distribuição dos benefícios da sua exploração.
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Uma vez conhecido tudo isto, não surpreende que o presidente do Peru se pergunte "se não haverá uma internacional terrorista na América Latina". Também não surpreende que atualmente centenas de líderes indígenas do Peru e do Chile tenham sido acusados, ao amparo de leis antiterroristas promulgadas nestes e outros países (por pressão dos EUA), por defender seus territórios. A estratégia fica, então, delineada: transformar os movimentos indígenas na próxima geração de terroristas e, para enfrentá-los, seguir as receitas apontadas no relatório: tolerância zero, reforços para gastos militares, estreitamento das relações com os EUA. A responsabilidade das forças políticas progressistas é conseguir que esta estratégia fracasse.
Artigo publicado originalmente no jornal Página 12 (Argentina)
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Boaventura de Sousa Santos
é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3845

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fúria do Opus Dei na América Latina

Deu no Vermelho:
por Altamiro Borges*


O jurista Ives Gandra da Silva Martins, principal expoente da seita fascista Opus Dei no Brasil,
está preocupado com o avanço das esquerdas na América Latina. Num artigo raivoso na coluna

Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, ele destilou ódio e preconceito contra Hugo Chávez,
Evo Morales, Fidel Castro e Lula. Ele aproveitou também para criticar a “falta de preparo” de
governantes pelo mundo afora e para oferecer seus cursinhos às novas gerações de dirigentes
políticos. “Neste mundo atormentado por falsas lideranças e fantástica mediocridade, creio que
valeria a pena a idéia, que propus em meu livro, de uma ‘escola de governo’... financiada pelos
governos”. No meio do arrazoado direitista, um merchandising para os seus lucrativos negócios!

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A influência da seita fascista
Após criticar o presidente Lula por elevar impostos que atingem principalmente os bancos, IvesGandra encerra a safra latino-americana com mais uma esquizofrenia fascistóide. “É de lembrarque os três presidentes são amigos de um ditador que fuzilou, sem julgamento – os homicídiosperpetrados nos famosos ‘paredóns’ –, muito mais pessoas que Pinochet”. Além de mentir sobre arealidade dos direitos humanos em Cuba, ele não consegue esconder a sua simpatia pelo regime ditatorial do Chile, que sempre teve o ativo apoio do Opus Dei. Até quando critica a “desastrada presidência de George W. Bush”, Ives Gandra alerta para “o risco do voto num outro populista despreparado para conduzir seus destinos” – talvez numa referência doentia a Barack Obama.
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“Catequese” na América Latina
Nos anos 50, a seita aliciou seus primeiros fiéis entre as velhas oligarquias que procuravam se diferenciar dos povos indígenas e pregavam o fundamentalismo religioso. Mas o Opus Dei só adquiriu maior pujança com a onda de golpes a partir dos anos 60. Até então, a sua ação ainda era dispersa. Segundo excelente artigo de Marina Amaral na revista Caros Amigos, “em 1970, Josemaría Escrivá [fundador da seita na Espanha] viajou para o México dando início às ‘viagens de catequese’ pelas Américas que duraram até as vésperas de sua morte em Roma, em 1975”.
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No Chile, a seita fascista foi para o ditador Augusto Pinochet o que fora para Augusto Franco na Espanha. O principal ideólogo deste regime sanguinário, Jaime Guzmá, era um membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Ela ainda apoiou os golpes e participou dos regimes autoritários na Argentina, Paraguai e Uruguai. Segundo Corbière, ela financiou o regime do ditador nicaragüense Anastácio Somoza até sua derrota para os sandinistas. Na década de 90, ainda deu “ativa assistência” à ditadura terrorista e corrupta de Alberto Fujimori, no Peru.
O fundamentalismo neoliberal
Outra fase “próspera” se dá com a ofensiva neoliberal nos anos 90. Gozando da simpatia do papa e de autonomia frente às igrejas locais, ela se beneficia da invasão de multinacionais espanholas, fruto da privatização das estatais. Muitas delas são influenciadas por numerários do Opus Dei. Segundo Henrique Magalhães, em artigo na revista A Nova Democracia, “a Argentina entregou as suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e energia à Telefônica, Repsol, Ibéria e Endesa. A Ibéria já havia engolido a LAN [aviação], do Chile, onde a geração de energia já era controlada pela Endesa. Os bancos espanhóis também chegaram ao continente neste processo”.
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Os tentáculos no Brasil
No Brasil, o Opus Dei fincou a sua raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, o segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral.
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Crescimento na ditaduraDurante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do candidato tucano a presidência em 2006. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Ele tinha quadros em posições importantes, mas sem uma atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.
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Ofensiva recente na região
Na fase recente, o Opus Dei fixou planos mais ousados para conquistar poder político na região. Em abril de 2002, participou ativamente do frustrado golpe contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela. Um dos seus fiéis, José Rodrigues Iturbe, virou ministro das Relações Exteriores do fugaz governo golpista. A embaixada da Espanha, governada na época pelo franquista Partido Popular (PP), de José Maria Aznar – cuja esposa é do Opus Dei –, deu guarita aos seus fiéis. Outro golpista ligado à seita, Gustavo Cisneiros, é o maior empresário das comunicações no país.
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A sua jogada mais ousada, porém, foi a tentativa de eleição de um seguidor no Brasil. Segundo Henrique Magalhães, “as esperança do Opus Dei se voltaram para Geraldo Alckmin, que hoje é um de seus quadros políticos de maior destaque. A Obra tentou fazer dele presidente para formar um eixo geopolítico com os governantes da Colômbia e do México”. A mídia e os tucanos até tentaram esconder esta sombria ligação. Numa sabatina à Folha de S.Paulo, Alckmin garantiu: “Não sou da Opus Dei; respeito quem é, mas não conheço”. Mentiu ao esconder suas estreitas relações com a seita fascista – desde seus tempos de infância, no convívio com seu pai e o tio-ministro do STF da ditadura, até às ilícitas “palestras do Morumbi”. Mas o povo não se deixou enganar. Isto explica as recentes lamúrias elitistas de Ives Gandra, o chefão do Opus Dei.
*Altamiro Borges, Miro é jornalista, Secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição)
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=32039

O Monroe e o Garrincha

A América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e deixar para trás a sua
longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do sistema mundial. Nesta nova
situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística.

José Luís Fiori

Deu na Agência Carta Maior:
Em agosto de 1823, o ministro de relações exteriores da Inglaterra, George Canning, propôs ao embaixador americano em Londres, Richard Rush, uma declaração conjunta, contra qualquer "intervenção externa", na América Latina. O presidente James Monroe,apoiado no seu secretário de estado, John Quincy Adams, declinou o convite inglês. Mas três meses depois, o próprio Monroe propôs ao Congresso Americano, uma doutrina estratégica nacional quase idêntica à da proposta inglesa. Foi assim que nasceu a “Doutrina Monroe”, no dia 2 de dezembro de 1823. Como era de se esperar, os europeus consideraram a proposta de Monroe impertinente e sem importância, partindo de um estado que ainda era irrelevante no contexto internacional. E tinham razão: basta registrar que os Estados Unidos só reconheceram as primeiras independências latino-americanas, depois de receber o aval da Inglaterra, França e Rússia. E mesmo depois do discurso de Monroe, se recusaram a atender o pedido de intervenção dos governos independentes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México.
[ . . . ]
O “Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe”, ficou conhecido por sua defesa do direito de
intervenção dos Estados Unidos nos estados americanos “incapazes” de manter sua ordem
interna, e de cumprir com seus compromissos financeiros internacionais. Já não se tratava,
portanto, de uma estratégia defesa contra inimigos externos, como se pode ver, numa carta
enviada por Roosevelt ao seu secretário de estado, em maio de 1904: “Qualquer país ou povo que
se comporte bem, pode contar com nossa amizade cordial. Se a nação demonstra que ela sabe agir
com razoável eficiência e decência nos assuntos sociais e políticos, se ela sabe manter a ordem e
paga suas dívidas, ela não precisa ter medo da interferência dos Estados Unidos. Um mau
comportamento crônico, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços de civilidade
social podem requerer, na América ou em qualquer outro lugar do mundo, a intervenção de
alguma nação civilizada, e no caso do Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina
Monroe, pode forçar os Estados Unidos a exercer um poder policial internacional.” (Pratt, 1955: 417).
[ . . . ]
Alguns anos depois, em 1914, no início da administração de Woodrow Wilson, o novo presidente
democrata agregou um novo item à política latino-americana dos Estados Unidos, com uma
simples frase de efeito, dita para um interlocutor inglês: “Eu vou ensinar estas republicas
sul-americanas a eleger homens bons” (idem, p:423). Com este objetivo, Woodrow Wilson
completou o desenho da estratégia continental dos Estados Unidos no século XX, baseada em três
direitos de intervenção – auto-atribuídos - em qualquer território do “hemisfério ocidental”: i) em
caso de “ameaça externa”; ii) em caso de “desordem econômica”; e, iii) em caso de “ameaça à boa
democracia”. No período da Guerra Fria, os Estados Unidos patrocinaram em todo continente,
guerras civis, intervenções militares e regimes ditatoriais contra um suposto “inimigo externo”.
Depois do fim da Guerra Fria, patrocinaram nos mesmos países, intervenções financeiras e
reformas econômicas neoliberais, para combater uma suposta “desordem econômica interna” e
garantir o cumprimento dos compromissos financeiros internacionais da América Latina.
E, finalmente, a partir de 2001, os Estados Unidos incentivam forças e opinião publica, contra os
governos “populistas autoritários” latino-americanos que seriam –para eles - uma ameaça à
democracia.

Agora bem: as eleições presidenciais de 2008, já fazem parte de um processo de realinhamento da
estratégia internacional dos Estados Unidos. Este processo deverá tomar alguns anos, mas é muito
pouco provável que os Estados Unidos abram mão dos três “direitos de intervenção” que orientaram
sua política hemisférica, durante o século XX. Assim mesmo, neste início do século XXI, a
“globalização” do sistema inter-estatal, e a acelerada expansão política-econômica da Ásia, criaram
uma pressão competitiva global que já envolve quase todos os “estados-economias nacionais” do
mundo. Por isto, a América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e
deixar para trás a sua longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do
sistema mundial. Nesta nova situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística, e seu
ensinamento universal: a célebre indagação de Garrincha, após ouvir as orientações do técnico
Vicente Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, na Suécia: "o senhor já
combinou com o adversário para deixar a gente fazer tudo isso?" Garrincha sabia que no futebol
não há como “combinar com o adversário”. Da mesma forma que na luta pelo poder e pela riqueza
internacionais, onde só existe um jeito de ganhar o “jogo”: antecipando-se às intenções e impondo
sua própria estratégia, aos concorrentes e adversários.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3817

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Esquerda e direita na América Latina

Deu no Blog do Emir:
Como julgar um governo hoje na América Latina? Como não se julgam as pessoas pelo que elas dizemque são, não se deve julgar um governo pelo que ele diz que é, nem pelo que se diz que ele é, nemtampouco pelo que gostaríamos que ele fosse.
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No período histórico atual, o poder dominante se assenta sobre a hegemonia imperialnorte-americana e o modelo neoliberal. Cada governo deve ser julgado pela medida em que seenfrente a elas e aja concretamente na construção de alternativas que as superem.

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Nesta lista estão os governos do México, do Chile,da Costa Rica e do Peru – que, recentemente,decidiram essa adesão – e da Colômbia – quepleiteia o tratado de livre-comércio com os EUA,mas teve sua solicitação rejeitada pela oposiçãodos democratas no Congresso norte-americano.

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Essa é linha divisória na América Latina e oCaribe, aquela que divide governos que aderiramaos tratados de livre-comércio, se articulamdiretamente com os EUA, se distanciam dos outrospaíses do continente e hipotecam o futuro dosseus países, renunciando à soberania para definirtemas fundamentais do país.

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Isto é possível pelas mudanças nas políticasinternacionais desses países em relação às deseus antecessores, assim como por flexibilizaçõesdo modelo econômico, o que lhes permitedesenvolver políticas sociais redistributivas,com revigoramento do Estado em alguns aspectos,assim como aumento do trabalho formal – mesmo semajoritariamente com empregos de baixa qualificação –, elevação do poder aquisitivo dos saláriose expansão do mercado interno de consumo, entre outros aspectos positivos.

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Tudo isso, em detrimento da democratização econômica e social, da mobilização e da consciênciapopular, da democratização da formação da opinião pública, de políticas econômicas centradas noconsumo interno de caráter popular, na criação de empregos, na diminuição da jornada de trabalho,na reforma agrária, no fortalecimento da economia camponesa, na segurança alimentar, na regulaçãoda circulação do capital financeiro, no apoio às pequenas e medias empresas.

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Em outro grupo se situam países que romperam ou nunca haviam aderido ao neoliberalismo – comoCuba – ou que estão em processo de ruptura com o neoliberalismo – como a Venezuela, a Bolívia, oEquador –, que, além de participarem integralmente nos processos de integração citados, puderamcriar um espaço superior de integração – a Alba –, em que cada país dá o que tem e recebe o quenecessita, no melhor exemplo alternativo ao “livre-comércio” da OMC, como exemplo do que o FSMchama de “comércio justo”, um embrião do “outro mundo possível”.

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A luta central deve ser pela revogação dos tratados de livre-comércio, mediante mobilizações populares que reivindiquem consultas populares e proponham alternativas de integração regionalcomo opção popular e democrática, recuperando a soberania dos Estados e a participação no Mercosule na Alba.

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O objetivo é reconstruir a unidade da esquerda, buscando evitar tanto a subordinação ao governo,assumindo e justificando tudo o que ele faça, quanto o erro oposto, o de perder a visão global doquadro política – incluindo centralmente a direita nacional, regional e o imperialismo – e exerceroposição frontal a tudo o que o governo faça, até mesmo a posições progressistas – como as defortalecimento do papel do Estado, de integração regional, de resistência às políticas de Guerrados EUA – e confundir-se, assim, com as posições da direita.

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Daí a necessidade das mais amplas formas de mobilização, consciência política e organização,assim como de crítica construtiva, desde dentro desses processos. Nunca somar-se, conscientementeou não, às posições da direita, sempre buscar fortalecer o processo, atuando desde o seu interior.Nunca a América Latina teve, simultaneamente, um número tão grande, diverso e expressivo degovernos progressistas. Tem que saber zelar pela unidade interna da esquerda, pelo enfrentamento àhegemonia imperial dos EUA e ao neoliberalismo, e trabalhar na perspectiva de construção de umaAmérica Latina pós-neoliberal.

Postado por Emir Sader às 14:12

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os 'poliglotas descalços'

Deu na Agência Carta Maior:

Sempre causou perplexidade entre os analistas o apoio de Kissinger e de sua diplomacia às truculentas 'intervenções militares' na América do Sul. Mas não é difícil de entender isso quando se olha os interesses dos EUA da perspectiva de longo prazo, traçada por Nicholas Spkyman em 1942.

José Luís Fiori

Heinz Alfred Kissinger, o diplomata norte-americano mais influente, da segunda metade do século XX, nasceu em Fürth, na Alemanha, em 1923. Mas imigrou para os Estados Unidos, e se nacionalizou norte-americano em 1943, antes de doutorar-se na Universidade de Harvard, em 1954, onde foi professor e diretor do seu Centro de Estudos Internacionais e do seu Programa de Estudos de Defesa, até 1971. Apesar disto, Henry Kissinger não foi um acadêmico, foi sobretudo um consultor, funcionário e executivo da segurança nacional, e da política externa norte-americana. Desde 1953, no governo de Dwight Eisenhower, até o final da sua gestão como Conselheiro de Segurança da Presidência, e como Secretario de Estado das administrações de Richard Nixon e Gerald Ford, entre 1968 e 1976. Neste último período, em particular, Henry Kissinger exerceu uma diplomacia pouco convencional e extremamente ágil, como formulador e operador direto de suas próprias decisões, cioso de suas idéias e do seu poder pessoal e institucional. Foi nesta época que ele tomou algumas decisões e liderou iniciativas do governo americano, que deixaram marcas profundas na história da segunda metade do século XX.

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Por outro lado, entre suas decisões e iniciativas “sangrentas”, destacam-se: a autorização do bombardeio aéreo do Camboja e do Laos, tomada sem a autorização do Congresso Americano, em 1969; o apoio à guerra do Paquistão com a Índia, no território atual de Bangladesh, em 1971; o apoio e financiamento ilegal da invasão do Chipre, pela Turquia, em 1974; o apoio à invasão sul-africana de Angola, em 1975; e, finalmente, também em 1975, o apoio à invasão do Timor Leste, pela Indonésia, que se transformou numa ocupação de 24 anos, e custou 200 mil vidas.

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Sempre causou perplexidade entre os analistas o apoio de Kissinger e da diplomacia americana a estas “intervenções militares”, que se caracterizaram por sua extraordinária truculência. Mas não é difícil de entender o que aconteceu quando se olha para os interesses estratégicos dos Estados Unidos e sua defesa na América do Sul, da perspectiva de longo prazo, traçada por Nicholas Spkyman, em 1942. Spykman definiu o continente americano, do ponto de vista geopolítico, como primeira e última linha de defesa da hegemonia mundial dos Estados Unidos. Dentro deste hemisfério, ele considerava improvável que surgisse um desafio direto à supremacia dos Estados Unidos na “América Mediterrânea”, onde ele incluía o México, a América Central e Caribe, mas também a Colômbia e a Venezuela.

Nas décadas de 80 e 90, Henry Kissinger afastou-se da diplomacia direta, mas manteve sua influencia pessoal e intelectual dentro do establishment americano e dentro das elites conservadoras sul-americanas. Em 2001, ele publicou um livro sobre o futuro geopolítico e sobre a defesa dos interesses americanos ao redor do mundo (nota 3). Com relação à América do Sul, o autor atenuou a forma, mas manteve o “espírito” de Spykman: segundo Kissinger, a América do Sul segue sendo essencial para os interesses americanos, e deve ser mantida sob a hegemonia dos Estados Unidos. Só que, hoje, a ameaça à esta hegemonia já não vem da Alemanha, nem da União Soviética, vem de dentro do próprio continente. No plano econômico: dos projetos de integração regional que excluam ou se oponham à Alca. E no plano político: dos populismos e nacionalismos que, segundo ele, estão renascendo no continente, segundo Kissinger. Por fim, mesmo que não tenha escrito de forma explícita, o entusiasmo demonstrado por Kissinger com as reformas liberais dos anos 90 e com os governos de Menem e Cardoso não deixa dúvidas com relação à sua preferência e sua estratégia atual para a “região do ABC”: depois dos militares, os “poliglotas descalços”.

Notas
(1) Na França, Henry Kissinger foi chamado a depor, pelo juiz Roger Lê Loire, no processo sobre a morte de cidadão franceses na Operação Condor, e sob a ditadura militar chilena. O mesmo ocorrendo na Espanha, com a investigação dp juiz Juan Guzman, sobre a morte do jornalista americano Charles Horman, sob a ditadura chilena. E também na Argentina, onde Kissinger está sendo investigado pelo juiz Rodolfo Canicoba, por envolvimento na Operação Condor, assim como em Washington , onde existe um processo na corte federal com acusação, contra Kissinger de haver dado a ordem para o assassinato do Gal Schneider, Comandante em Chefa das Forças Armadas Chilenas, em 1970.

(2) O interesse sobre o assunto foi reavivado recentemente, pelo livro do jornalista Chistopher Hitchens, The Trial of Henry Kissinger(2203), e pela resenha de Kenneth Maxwelll, do livro de Peter Kornbluh, The Pinochet file: a Desclassified Dossier on Atrocity and Accountability, publicado na Revista Foreign Affairs, de Dezembro de 2003, sobre as relações de Kissinger com o regime de Augusto Pinochet, em particular com o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, 1976.

(3) Kissinger, H., (2001), Does America Need a Foreign Policy. Toward a Diplomacy for the 21 st Century, Simon&Schuster, New York.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3792

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Nicholas Spykman e a América Latina

De na Agência Carta Maior:
Para o principal geoestrategista norte-americano do século XX, qualquer ameaça à hegemonia dos EUA na América Latina deverá vir do sul, em particular da Argentina, Brasil e Chile. Uma ameaça à hegemonia nesta região terá que ser respondida através da guerra, escreveu Spykman.
José Luís Fiori
O principal “geoestrategista” norte-americano do século XX, nasceu em Amsterdam, em 1893, e morreu nos Estados Unidos, em 1943. Era de origem holandesa, mas fez seus estudos superiores na Universidade da Califórnia, e foi professor da Universidade de Yale, onde dirigiu o seu Instituto de Estudos Internacionais, entre 1935 e 1940. Morreu ainda jovem, com 49 anos, e deixou apenas dois livros sobre a política externa norte-americana: o primeiro, America’s Strategy in World Politics, publicado em 1942, e o segundo, The Geography of the Peace, publicado um ano depois da sua morte, em 1944. Dois livros que se transformaram na pedra angular do pensamento estratégico norte-americano de toda a segunda metade do século XX, e do início do século XXI.
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Dentro desta tradição, não há dúvida que Nicholas Spykman foi o pai da “escola geopolítica norte-americana”. Ele partiu das idéias de Halford Mackinder, mas modificou sua tese central: para Spykman, quem tem o poder mundial não é quem controla diretamente o “coração do mundo”, é quem é capaz de cercá-lo, como os Estados Unidos fizeram durante toda a Guerra Fria, e seguem fazendo até os nossos dias. Spykman escreveu seus dois livros antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, e por isto chama atenção a sua capacidade genial de prever o que aconteceria depois da guerra, tanto quanto a semelhança entre suas propostas estratégicas e a política externa que os Estados Unidos adotaram efetivamente, durante a segunda metade do século XX, na Europa, Ásia e América.
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E com relação à América, o que foi que previu e propôs Nicholas Spykman? Sobre este ponto, chama a atenção o grande espaço que ele dedica na sua obra à discussão da América Latina, e em particular, à “luta pela América do Sul”. Ele parte de uma separação radical, entre a América dos anglo-saxões e a América dos latinos. Nas suas palavras “as terras situadas ao sul do Rio Grande constituem um mundo diferente do Canadá e dos Estados Unidos. E é uma coisa desafortunada que as partes de fala inglesa e latina do continente tenham que ser chamadas igualmente de América, evocando uma similitude entre as duas que de fato não existe”(p:46). (1)
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Donde, qualquer ameaça à hegemonia americana na América Latina deverá vir do sul, em particular da Argentina, Brasil e Chile, a “região do ABC”. Nas palavras do próprio Spykman: “para nossos vizinhos ao sul do Rio Grande, os norte-americanos seremos sempre o “Colosso do Norte”, o que significa um perigo, no mundo do poder político. Por isto, os países situados fora da nossa zona imediata de supremacia, ou seja, os grandes estados da América do Sul (Argentina, Brasil e Chile) podem tentar contrabalançar nosso poder através de uma ação comum ou através do uso de influências de fora do hemisfério” (p:64) E neste caso, conclui: “uma ameaça à hegemonia americana nesta região do hemisfério (a região do ABC) terá que ser respondida através da guerra”. (p: 62). O mais interessante é que se estas análises, previsões e advertências não tivessem feitas por Nicholas Spykman, pareceriam bravata de algum destes populistas latino-americanos, que inventam inimigos externos e que se multiplicam como cogumelos, segundo a idiotia conservadora.
(1) Spykman, N. , “America’s Strategy in World Politics", Harcourt, Brace and Company, New York,1942
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=378

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O nacionalismo como enigma

Deu no Blog Do Emir:

Os anos 20 e os anos 60 foram chaves no século 20. Dois momentos de crise e de desarticulação do sistema imperial de dominação e, como conseqüência, de sonhos de “assaltar o céu”. Do desenlace das décadas dependeu muito do que aconteceria posteriormente na história contemporânea. A derrota da revolução alemã provavelmente condenou precocemente a revolução soviética ao isolamento e à derrota. Tanto assim que a crise de 1929 não produziu alternativas de esquerda na Europa, mas de direita. A incapacidade de concretizar politicamente as barricadas dos anos 60 levou a nova maré conservadora e à não “transformação de nossos sonhos em realidades”.

A década de 1920 não poderia deixar de estar marcada pela Primeira Guerra — o final de uma época de aparente vida pacífica no mundo, que incubava o conflito bélico mais selvagem, ainda não o dos bombardeios aéreos, mas o das baionetas, da morte cara a cara —, incluindo, necessariamente, o acerto de contas com a questão do nacionalismo. Foi naquele agosto de 1914 que o movimento operário e a esquerda viveram o primeiro grande trauma, quando tiveram que decidir a prioridade entre a questão social — os interesses de classe defendidos pelos que, posteriormente, se assumiram como comunistas — ou a questão nacional — os interesses dos governos burguesas em guerra, defendidos pelos socialdemocratas. A fratura produzida nunca haveria de ser fechada.
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Faltava entender que, na Europa, o liberalismo havia sido a ideologia da burguesia ascendente contra as travas feudais, enquanto o nacionalismo apareceria como ideário conservador, chauvinista, da contraposição dos interesses de cada nação contra a outra. Enquanto que, na periferia, o liberalismo era a ideologia dos setores primário-exportadores, interessados no livre comércio, a do nacionalismo aparecia como protecionista, industrializador, expandindo o mercado interno, contraponto à dominação externa.
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Um historiador argentino — Pedro Enrique Ureña — expressava, naquele momento: “Não é que tenhamos perdido nossa bússola, é que perdemos a dos outros”. Foi uma década de crise de identidade, em que a questão central foi a de “quem somos”, mas também a de “como somos” e também “por que não somos como...” O conceito de nação vinha preencher esse vazio — de forma real ou imaginária.
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Movimentos como a revolução mexicana de 1910 e a boliviana de 1952 foram apenas expressões políticas mais explosivas, mas foi o nacionalismo que dominou a história política do continente ao longo do século 20, com o peronismo, o getulismo, o PRI mexicano, entre outros.
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As novas formas de aparição do nacionalismo — agora antineoliberal, anticapitalista, indigenista, militar, latino-americanista — colocam novos desafios para a esquerda. Decifrá-los é um dos temas fundamentais na era da globalização neoliberal e da hegemonia imperial.

Postado por Emir Sader às 13:09
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=145

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O nacionalismo revolucionário

Deu na Adital:
Elaine Tavares *


Adital -
O nacionalismo sempre foi razão suficiente para os Estados-nacionais latino-americanos empreenderem transformações radicais na organização da vida. Foi na defesa da "nação" que iniciaram os movimentos de independência, ainda que naqueles dias o conceito fosse mais abrangente, uma vez que Bolívar sonhava com uma Pátria Grande, que aglutinasse um conjunto de países. De qualquer forma, as guerras tinham como objetivo primeiro assegurar a soberania dos povos desta parte do mundo diante da colônia. Era uma afirmação da nação.
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E hoje, quando se fala nos governos da Venezuela, Equador e Bolívia, tampouco se pode fugir do conceito de nacionalismo, embora os adversários e inimigos dos governantes em questão insistam em chamar de populismo a forma que eles encontraram de defender os interesses nacionais. Mas, na verdade, a nacionalização das riquezas, a valorização das culturas autóctones e a participação popular direta nada mais são do que elementos de uma receita que os países ricos sempre aplicaram para si, embora não admitam ver florescer nos países ditos "subalternos": o nacionalismo.
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Na América Latina, afirma o professor, o desenvolvimento capitalista apresenta um estado, estrutura de classe e economia muitos particulares. Aqui, burguesia e proletariado não existem de forma tão marcada. Na América Latina a burguesia é incompleta e, por isso, a análise tem de ser muito mais detalhada. "A nossa burguesia não fará a revolução. Ela rompe com o povo e se alia com o imperialismo. Tampouco há um proletariado forte. Dois terços dos trabalhadores não têm carteira assinada e ainda existe o MST que aglutina milhões de pessoas num processo que não cabe no capitalismo. Aqui temos um desenvolvimento no subdesenvolvimento e a relação de trabalho é quase feudal".
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Quando o populismo está hegemonizado pelos trabalhadores, segue o professor, a primeira coisa que os poderosos fazem é condenar o nacionalismo que quase sempre lhe está colado. Mas, isso só ocorre na periferia, pois nos países centrais ninguém se atreve a colocar em questão o nacionalismo. Quem questiona o fervor com que os estadunidenses defendem sua pátria? Então, reforça Nildo, o nacionalismo só pode ser uma arma das classes subalternas se, hegemonizado por elas, caminhar para uma revolução. Assim, as idéias nacionais que hoje tomam conta da Venezuela, Bolívia e Equador, se ainda aparecem apenas como populismo, há que se prestar bastante atenção para ver quem hegemoniza esse debate. Se são as gentes, o povo, os trabalhadores das mais variadas classes (as tantas que existem na América Latina, visto que o proletariado clássico tem pouca expressão), tudo leva a crer que o processo se radicalize, e siga sempre pendendo para o "fora da ordem".
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Na Venezuela, Bolívia e Equador, as comunidades indígenas, os trabalhadores informais, os camponeses, os desempregados são os que parecem estar na frente do processo. Daí as crises com o sindicalismo que, em outros tempos, era quem comandava as lutas. Hoje, na Venezuela, depois de anos sendo nada mais do que apêndices de governos corruptos e entreguistas, ou aristocracias laborais, os trabalhadores sindicalizados começam a correr atrás da hegemonia e encontram dificuldades. Ficaram muito tempo longe das demandas populares e foram ultrapassados pelas gentes que se organizam nos bairros, nos círculos bolivarianos etc.
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O certo é que a luta de classes está mais do que viva nesta Abya Yala. Nos países mais ao norte da América do Sul, ainda há uma disputa acirrada no que diz respeito à hegemonia do processo, mas não dá para deixar de perceber que as reformas empreendidas seguem o rumo do nacional, da defesa dos recursos naturais, da recuperação da soberania, da busca da descolonização e da independência.
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Enquanto isso, anestesiados com a idéia de que são governo, algumas lideranças de trabalhadores - principalmente as ligadas ao sindicalismo - perdem o contato com a realidade e não percebem que estão deixando escapar a possibilidade de tomar nas mãos o processo que iniciou com forte caráter popular. Por outro lado, os movimentos sociais que aglutinam sem-terra, desempregados, informais etc..., ainda não encontraram o caminho para a conquista da hegemonia. Assim, a lógica de Lula de tentar conciliar classes em conflito e a clareza que se tem de que não são as gentes trabalhadoras as que comandam o timão são elementos seguros de análise que levam a seguinte conclusão: ainda não estão dadas as condições para uma viragem significativa no Brasil. Muito trabalho ainda precisa ser feito para que o povo encontre seu lugar de poder no processo político brasileiro.

* Jornalista
Leia na íntegra em
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29702

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Por que abandonamos a América Latina?

Deu no Vermeho:

por Eron Bezerra
Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM,
Deputado Estadual Licenciado,
Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas,
membro do CC do PCdoB.
No início deste mês estive no México, a convite do ministro Reinhold Stephanes, integrando uma “missão de aproximação” do governo brasileiro com os nossos irmãos astecas. A missão foi composta por alguns Secretários de Agricultura e por empresários de diversos ramos do agronegócio, além dos integrantes do Ministério da Agricultura (MAPA), dentre os quais o próprio ministro.
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Isto se explica porque o Brasil, nos governos anteriores, priorizou intercambio com os Estados Unidos, por exemplo, em detrimento de parceiros latinos. Na visita a SAGARPA – o equivalente ao Ministério da Agricultura – isto ficou muito evidente quando eles nos disseram que não se recordavam de ter recebido uma outra missão brasileira, com aquela finalidade, nos últimos 50 anos.
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Fica claro que apesar de estarmos relativamente próximos, falarmos línguas semelhantes e termos até mesmo hábitos culturais parecidos, não temos o México entre os nossos parceiros prioritários, seja na área comercial, industrial, cultural e ou política. O México comercializa com a África, Ásia, Europa, Oceania e, principalmente, com os Estados Unidos da América, de onde importa milhares de toneladas de alimentos todo ano. O Brasil adota basicamente o mesmo comportamento. Mantém relações comerciais com todos esses continentes e desconsidera parceiros fundamentais como o México e demais países da América Latina.

Espero, portanto, que a nossa missão tenha de alguma forma contribuído para eliminar esse fosso, que certamente não foi criado pelo nosso povo, mas sim por uma elite política completamente alheia a realidade de seus países.
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=22714

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Pós-neoliberalismo: da luta social à luta política

Do Blog DO Emir:
31/07/2007

Os movimentos sociais desempenharam o papel estratégico central nas lutas de resistência contra os programas e os governos neoliberais. Seja porque a grande maioria dos partidos aderiram a esses programas, seja porque o neoliberalismo é uma máquina cruel de expropriação de direitos sociais, afetando diretamente aos setores congregados ou representados pelos movimentos sociais.
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A partir desse momento os movimentos sociais passaram a enfrentar dificuldades maiores, porque sua característica está adaptada para a resistência, mas teriam, desse momento para frente, que construir alternativas políticas. Três caminhos distintos trilharam os movimentos sociais: o da renúncia a partir da disputa político-institucional, como foram os casos dos piqueteiros argentinos na eleição presidencial de 2003 e dos zapatistas em todas as eleições mexicanas desde sua aparição em 1994. Um segundo caminho foi o dos movimentos sociais no Brasil e no Uruguai, que não apresentaram alterantivas próprias, nem se abstiveram mas, com críticas, apoiaram os candidatos da esquerda – Lula e Tabaré Vazquez. O terceiro caminho foi o da Bolívia, em que os movimentos sociais construíram seu proprio partido político – o MAS. Um caso especial foi o Equador, em que os movimentos sociais – da mesma forma que na Bolívia – protagonizaram a derrubada de sucessivos governos, que pretendiam manter o modelo neoliberal. Delegaram politicamente a um candidato – Lucio Gutierrez – e foram traídos ainda antes de que este assumisse a presidência. Nas eleições recentes, Rafael Correa triunfou e canalizou a força social e política acumulada para um projeto pós-neoliberal.
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Na Bolívia, no Equador e também na Venezuela – cada um de forma distinta – se caminha para conseguir uma rearticulação entre as lutas sociais e as lutas políticas. Não por acaso é nesses países que se dá a ruptura com o modelo neoliberal, com os que souberam acumular força popular na luta de resistência ao neoliberalismo, mas puderam transformar essa energia em força política.

Postado por Emir Sader às 16:23

Leia na íntegra em: http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=128