O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
Mostrando postagens com marcador União Européia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador União Européia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Recessão mundial assombra a Europa

Deu no Blog do Miro:

Estudos recentes indicam que o fantasma da recessão mundial, temido desde o estouro da bolha especulativa nos EUA, já assombra a Europa. A primeira nação do velho continente a sentir seus efeitos foi a ex-sólida Dinamarca. Na seqüência, as estatísticas apontaram crescimento negativo também nos dois países motores da União Européia. Pela primeira vez nos últimos quatro anos, a Alemanha registrou queda de 0,5% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre, contra 1,3% de crescimento no primeiro. Já na França, a contração do PIB foi de 0,3% no mesmo período.
[ . . . ]
Dura aterrissagem da economia

Chris Giles, articulista do Financial Times, foi um dos que alertou para este risco iminente. Para ele, as notícias dos últimos dias causam “certo choque” para os que acompanham a evolução da economia européia. “O grande medo é o de que a atual desaceleração se torne um ciclo vicioso no qual a fraqueza da economia abala o já frágil sistema financeiro. Para muitos, o que parece certo é a veracidade do velho adágio que diz que, quando os EUA espirram, o resto do mundo pega um resfriado. A conversa sobre descolamento – capacidade das economias de se manterem firmes diante da fraqueza norte-americana – se provou completamente falsa”.
[ . . . ]
Abalo nos emergentes do Bric
[ . . . ]
Roubini é bem mais pessimista do que Chris Giles, que vê vantagens na retração do mercado de commodities dos países chamados emergentes. De qualquer forma, as previsões de ambos, com base nas informações recentes sobre a retração da economia européia, não são nada animadoras. Como diz o ditado, aonde há fumaça, há fogo. O Brasil que se cuide para não arder em chamas.

terça-feira, 8 de abril de 2008

América sem norte

Deu na Consulta Popular:
Especialista em geopolítica, Parag Khanna diz que a hegemonia dos EUA expirou. Agora é disputar o mundo, corpo a corpo, com novas potências. O indiano Parag Khanna, de 30 anos, é pesquisador sênior do American Strategy Program (Programa de Estratégia Americano) da New American Foundation. Durante dois anos, viajou por 45 países localizados em regiões estratégicas do planeta, como Europa Oriental, Ásia Central, América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Parag queria saber como esses lugares, que chama de países do Segundo Mundo, reagem ao crescimento da China e da União Européia e ao declínio dos Estados Unidos. Suas conclusões estão no livro The Second World: Empires and Influence in the New Global Order (em tradução livre, "O Segundo Mundo: Impérios e Influência na Nova Ordem Global"), que será lançado no Brasil pela Editora Intrínseca no segundo semestre deste ano. O artigo abaixo, publicado em The New York Times, foi adaptado do livro.
Se você ligar a TV hoje e pensar que está em 1999, será perdoado. Democratas e republicanos discutem onde e como intervir, se devem agir sozinhos ou com aliados e que tipo de mundo os Estados Unidos deveriam liderar. Os democratas acham que podem apertar o botão "reiniciar". Os republicanos acreditam que o caminho é o moralismo apoiado pela força. É como se a primeira década do século 21 não tivesse existido - e quase como se a própria história não existisse. Mas a distribuição do poder se alterou de maneira fundamental ao longo dos dois mandatos presidenciais de George W. Bush graças a suas políticas e, mais significativamente, apesar delas. Talvez a melhor maneira de entender como a história avança rápido seja olhar adiante.
[ . . . ]
Por quê? Nossa missão não era recuperar os laços com a ONU e reafirmar para o mundo que os EUA podem - e devem - conduzi-lo à segurança e à prosperidade coletivas? De fato, a imagem dos EUA pode ou não ter melhorado, mas isso significa pouco. Condoleezza Rice declarou que os EUA não têm "inimigos permanentes", mas também não têm amigos permanentes. Muitos viram as invasões do Afeganistão e Iraque como símbolos de um imperialismo americano global; na verdade foram sinais de estresse excessivo. As despesas debilitaram as Forças Armadas americanas e cada asserção de poder deixou o país com menos resistência contra redes terroristas, grupos insurgentes e armas "assimétricas", como os homens-bomba. O momento unipolar dos EUA inspirou contramovimentos financeiros e diplomáticos para impedir os americanos de construírem uma ordem mundial alternativa. Essa nova ordem global chegou e é muito pouco o que Hillary, McCain ou Obama possam fazer para conter seu crescimento.
[ . . . ]
Em eras anteriores, o equilíbrio esteve entre potências européias que partilhavam uma cultura. A Guerra Fria não foi realmente uma batalha Leste/Oeste; foi uma disputa sobre a Europa. Hoje, pela primeira vez na história, o que temos é uma batalha multipolar, de civilizações múltiplas.

Em Bruxelas, capital da Europa, tecnocratas, estrategistas e legisladores entendem cada vez mais que sua função é manter o equilíbrio global entre EUA e China. Os europeus jogam dos dois lados e, se atuam bem, os benefícios são enormes. É uma tendência que sobreviverá ao presidente francês Nicolas Sarkozy, autodenominado "amigo dos EUA", e à chanceler alemã Angela Merkel, independentemente de ela visitar o rancho de Crawford. O fato de a Europa ainda não ter um exército comum pode tranqüilizar os conservadores americanos; a questão é que a Europa não precisa de um. Os europeus usam a inteligência e a polícia para prender radicais islâmicos, a política social para tentar integrar populações muçulmanas rebeldes e a força econômica para incorporar a antiga União Soviética. O investimento anual europeu na Turquia também cresce, trazendo-a mais perto da União Européia. E a cada ano um novo oleoduto é aberto, transportando petróleo e gás da Líbia, Argélia ou Azerbaijão para a Europa. Que outra superpotência cresce na média de um país por ano, com outros esperando na fila e implorando para se juntar?

A Europa é de Vênus

Numa frase famosa, Robert Kagan disse que os EUA são de Marte e a Europa, de Vênus, mas na realidade a Europa é mais Mercúrio - carregando consigo uma enorme carteira de dinheiro. O mercado da União Européia é o maior do mundo, as tecnologias européias cada vez mais estabelecem o padrão global e os países europeus fornecem a maior ajuda ao desenvolvimento. Muitos americanos zombaram da introdução do euro, alegando que levaria o projeto europeu ao colapso. Hoje, porém, os exportadores de petróleo do Golfo Pérsico convertem seus ativos financeiros em euro, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad propôs à Opep que o preço do seu petróleo não seja mais cotado em dólares. O presidente Hugo Chávez também sugeriu euros. Não ajudou o fato de o Congresso expor suas cores protecionistas bloqueando o acordo sobre os portos de Dubai em 2006. Com Londres voltando a ser a capital financeira do mundo, em termos de registros de ações na sua Bolsa, não surpreende que os novos fundos de investimentos estatais da China instalem ali os seus escritórios, e não em Nova York. Ao mesmo tempo, o quinhão de reservas cambiais globais dos EUA caiu para 65%. Gisele Bündchen exige ser paga em euros, enquanto que Jay-Z se afogou em notas de 500 euros num vídeo recente.
[ . . . ]

Império do Meio

A Comunidade do Leste Asiático é um exemplo de como a China também está ocupada em restaurar seu lugar como Império do Meio. Por todo o globo envia dezenas de milhares dos seus próprios engenheiros, construtores de hidrelétricas, especialistas em ajuda ao desenvolvimento e militares dissimulados. Na África, a China não é apenas uma compradora de energia; também faz grandes investimentos estratégicos no setor financeiro. O mundo encoraja sua ascensão espetacular, evidenciada pela fatia das operações comerciais no seu PIB. E ela está exportando armas em quantidades que lembram a União Soviética durante a Guerra Fria, encurralando os EUA, ao mesmo tempo que preenche os vazios que consegue encontrar. Todos os países considerados renegados pelos EUA desfrutam de uma corda salva-vidas estratégica, econômica ou diplomática da China, e o Irã é o exemplo mais destacado.
[ . . . ]
Ao mesmo tempo, um grupo de instituições diplomáticas e de segurança asiáticas vem sendo criado de dentro para fora, e com isso o domínio dos EUA da Orla do Pacífico tem diminuído. Da Tailândia à Indonésia e à Coréia, nenhum país - amigo dos EUA ou não - deseja que tensões políticas perturbem seu crescimento econômico. É um fenômeno curioso: pequenos Estados-nação asiáticos precisam se equilibrar frente à próspera China, mas cada vez mais cerram fileiras em torno dela, pelo orgulho cultural asiático e pela compreensão da realidade histórico-cultural do predomínio chinês. E nos antigos países soviéticos da Ásia Central a China é o novo peso pesado, atraindo para sua órbita microestados quase extintos como Quirguistão e Tajiquistão, além do Casaquistão. A Organização de Cooperação de Xangai açambarca esses homens fortes da Ásia Central, China e Rússia e poderá se tornar a "OTAN do Leste".
[ . . . ]
Existem muitas estatísticas que ainda afirmam a predominância global dos EUA: as despesas militares, a participação na economia global e similares. Mas existem estatísticas e existem tendências. Para compreender como o poder americano declina rapidamente, passei os últimos dois anos viajando por cerca de 40 países nas cinco regiões mais estratégicas do planeta. São países que não estão no centro do Primeiro Mundo da economia global, nem na periferia do terceiro. Ficando ao lado e entre as Big Three, são Swing States (Estados indefinidos), que vão determinar quais superpotências estarão em vantagem na próxima geração da geopolítica.
[ . . . ]
Comecemos com o caso mais difícil: a Rússia. Aparentemente estabilizada sob a oligarquia Kremlin-Gazprom, por que não é uma superpotência, mas um Estado do Segundo Mundo indefinido? Apesar de toda a sua musculatura, a Rússia também está desaparecendo. Sua população declina a uma taxa de meio milhão de cidadãos por ano, ou mais, o que significa que não será muito maior do que a Turquia por volta de 2025, espalhada por uma região tão vasta que, como país, não terá mais sentido. As migrações forçadas de povos da Sibéria, na era soviética, hoje retomam o curso oposto, com os filhos desses migrantes indo para o ocidente, para climas mais modernos e toleráveis. Esse espaço está sendo preenchido por centenas de milhares de chineses, literalmente devorando, saqueando, comprando e mais ou menos anexando o extremo oriente da Rússia por causa da madeira e outros recursos naturais. E a Europa, embora parecesse ameaçada pela diplomacia russa, baseada no petróleo, empreende uma aquisição a longo prazo do país, cuja economia continua quase do tamanho da França. Em particular, certas autoridades da União Européia dizem que a anexação da Rússia é apenas uma questão de tempo. Nas próximas décadas, longe de restaurar o poder da era soviética, ela terá de decidir se pretende existir pacificamente como um ativo para a Europa, ou se prefere ser uma petro-vassala da China.

A Turquia também é troféu emblemático do Segundo Mundo. Basta um simples olhar para sua resplandecente linha para perceber que, mesmo que não se torne um membro de fato da UE, é um país cada vez mais europeizado. Recebe mais de US$20 bilhões de investimentos estrangeiros e mais de 29 milhões de turistas a cada ano, a maioria europeus. Noventa por cento da diáspora turca vive na Europa Ocidental e envia para casa mais de US$ 1 bilhão por ano na forma de investimentos e remessas em dinheiro. Esse capital vem financiando o desenvolvimento para o leste, com novos projetos de construção, abertura de fábricas e escolas. Com a entrada da Romênia e da Bulgária na União Européia há um ano, a Turquia hoje, fisicamente, faz fronteira com a UE, simbolizando como o país se torna parte da superpotência européia.

E o Casaquistão?

Diplomatas ocidentais têm familiaridade histórica, embora dramática e tumultuada, com a Rússia e a Turquia. E no que diz respeito a esse grupo de países sem saída para o mar, ricos em petróleo e governados por autocratas? Enquanto a China compra mais petróleo do Casaquistão e os EUA tentam realizar acordos de defesa com esse país, a Europa oferece investimentos sustentados. Um exemplo de até onde os estrangeiros podem chegar para manter boas relações com o presidente Nursultan Nazarbayev é a atual negociação entre um consórcio de gigantes ocidentais do setor energético e a empresa petrolífera estatal do Casaquistão para a abertura de um enorme campo de petróleo em Kashagan, no Mar Cáspio. O consórcio injeta US$ 4 bilhões, além de uma grande transferência de ações, como indenização pelos atrasos na exploração e produção - e assim mesmo o Casaquistão não está satisfeito. A lição oferecida pelo Casaquistão, e pelo seu vizinho também estratégico mas bem menos previsível, o Usbequistão, é de o quão inconstante o Segundo Mundo pode ser, provocando dores de cabeça e maremotos em todas as direções.
[ . . . ]
Mas o desafio que Chávez representa para os EUA é ideológico, enquanto que o deslocamento do Segundo Mundo é realmente estrutural. É o Brasil que ressurge como o líder natural da América do Sul. Junto com Índia e África do Sul, assumiu a liderança nas negociações sobre o comércio global, contestando as tarifas sobre o aço dos EUA e os subsídios agrícolas da Europa. Geograficamente, o Brasil está tão próximo da Europa como dos EUA e é tão ávido para fabricar carros e aviões para os europeus como para exportar soja para os americanos. Além disso, embora tenha sido um leal aliado dos americanos na Guerra Fria, não perdeu tempo para declarar uma "aliança estratégica" com a China. Suas economias se complementam, com o Brasil vendendo ferro, minério, madeira, zinco, carne, leite e soja para a China, e a China investindo nas hidrelétricas, siderúrgicas e fábricas de sapato brasileiras. As ambições de ambos podem em breve alterar a própria geografia das suas relações, com o Brasil se empenhando para a construção de uma Estrada Transoceânica do Amazonas, através do Peru, para a Costa do Pacífico, facilitando o acesso para os cargueiros chineses. Durante séculos a América Latina nunca foi vista em primeiro lugar, mas no século 21 todos competem pelos seus recursos, e ninguém está muito distante.
[ . . . ]
A Arábia Saudita, que por alguns anos continuará sendo a principal produtora de petróleo, está disponível para quem quiser. Nas últimas décadas, a participação americana nos investimentos diretos estrangeiros no reino saudita moldou decisivamente a política externa do país, mas hoje a monarquia mostra-se bem mais prudente, procurando atrair investimentos europeus e asiáticos. Mas não se engane: os EUA nunca foram todo-poderosos apenas por causa do seu predomínio militar. A influência estratégica precisa ter base econômica. Um importante denominador comum entre os principais países do Segundo Mundo é a necessidade de cada uma das Big Three injetar dinheiro onde está envolvida.
[ . . . ]
O interessante é que são exatamente os países produtores de petróleo muçulmanos - Líbia, Arábia Saudita, Irã, Casaquistão (grande maioria muçulmana) e Malásia - que parecem ter ampliado melhor seus alinhamentos, combinando as Big Three simultaneamente: obtendo o que desejam e ao mesmo tempo repelindo a intrusão de outros. Os EUA podem buscar aliados muçulmanos, pensando na sua imagem e na "guerra contra o terror", porém esses mesmos países parecem fazer parte do que Samuel Huntington chamou de "conexão islâmico-confuciana". Além disso, a China vem mantendo simultaneamente laços positivos com pares rivais regionais: Venezuela e Brasil, Arábia Saudita e Irã, Casaquistão e Usbequistão, Índia e Paquistão. A esta altura, os diplomatas ocidentais só tiveram coragem de denunciar, discretamente, as políticas de ajuda chinesas e suas alianças, mas estão longe de poder fazer algo a respeito.

Isso ocorre mais profundamente no Sudeste Asiático. Alguns dos mais dinâmicos países da região, como Malásia, Tailândia e Vietnã, desempenham o papel de pretendentes a superpotência com uma inteligência excepcional. Malásia e Tailândia ainda realizam exercícios militares conjuntos com os EUA, mas também compram armas e têm tratados de defesa assinados com a China, incluindo o Tratado de Amizade e Cooperação pelo qual as nações asiáticas comprometem-se a não se agredirem mutuamente. Como um diplomata malásio me explicou, sem um mínimo de gracejo, "criar uma comunidade entre os amarelos e pardos é fácil, mas não com os brancos". Surpreendentemente, o Vietnã, envolvido em histórias violentas com EUA e China, é quem está mais ávido para firmar contratos de defesa com os americanos (e uma nova fábrica de microchips da Intel) para manter seu equilíbrio estratégico. O Vietnã também não pretende cair na esfera de influência de nenhuma superpotência.

O Cinturão Antiimperial

O novo mapa multicolorido de influência é muito confuso. Mubarak (presidente do Egito), Musharraf (do Paquistão), Mahathir (da Malásia) e um conjunto de líderes do Segundo Mundo estabeleceram um novo padrão de proezas manipuladoras: todos dizem que os EUA são seus amigos, e ao mesmo tempo cortejam ativamente todos os lados.

Além disso, muitos países do Segundo Mundo estão bastante confiantes para formar cinturões antiimperiais, criando eixos diplomáticos, tecnológicos e comerciais do Brasil à Líbia, ao Irã e à Rússia. Os países do Segundo Mundo estão usando cada vez mais fundos soberanos (muitas vezes financiados pelo petróleo) equivalentes a trilhões de dólares para mostrar sua importância, chegando mesmo a intimidar empresas e mercados do Primeiro Mundo. Os Emirados Árabes Unidos (particularmente representado pela sua capital, Abu Dabi), a Arábia Saudita e a Rússia sobem rapidamente na escala dos grandes possuidores de reservas cambiais e dificilmente vendem suas ações de bancos ocidentais (que se tornaram baratas de repente) e empresas de petróleo. O fundo soberano de Cingapura segue o mesmo caminho.
[ . . . ]
A ascensão da China no Oriente e da União Européia no Ocidente alterou um globo que até recentemente gravitava em torno do pró ou antiamericano. À medida que os espíritos da Europa e da China se elevaram na direção de novos domínios de influência, o espírito americano enfraqueceu. A União Européia pode apoiar os princípios das Nações Unidas, que os EUA outrora dominaram, mas por quanto tempo conseguirá manter isso à medida que seus próprios padrões sociais se elevam bem acima desse denominador comum mínimo? E por que China e outros países asiáticos deveriam ser "participantes responsáveis", nas palavras do ex-vice secretário de Estado, Robert Zoellick, numa ordem internacional liderada pelos americanos, quando eles não têm assento na mesa em que as regras são elaboradas? Mesmo com os EUA avançando aos tropeços na direção do multilateralismo, os outros estão saindo do jogo americano e seguindo suas próprias regras.

O auto-enganador universalismo do império americano - segundo o qual o mundo, intrinsecamente, necessita de um único líder e a ideologia liberal americana precisa ser aceita como base da ordem global - resultou, paradoxalmente, no fato de que os EUA são hoje uma superpotência cada vez mais isolada. Da mesma maneira que existe um mercado geopolítico, existe um mercado de modelos de sucesso para o Segundo Mundo copiar, e não apenas o modelo chinês de crescimento econômico sem liberalização política. Como observou o historiador Arnold Toynbee há meio século, o imperialismo ocidental uniu o globo, mas não garantiu que o Ocidente o dominasse para sempre - material ou moralmente. Apesar da "ilusão de imortalidade" que aflige os impérios globais, a única regra confiável da história são seus ciclos de ascensão e declínio, e, como Toynbee observou, a única direção do apogeu do poder é a da queda.
[ . . . ]
O mundo seria ou não mais estável se os EUA conseguissem ser novamente aceitos como principal organizador? É muito tarde para se perguntar, porque a resposta já se revela aos olhos. Nem a China, nem a União Européia substituirão os EUA como líder único do mundo; porém, os três lutarão constantemente para conseguir influenciar sozinhos e se equilibrar um com o outro. Acredito que uma paisagem multicultural, complexa, repleta de desafios transnacionais, do terrorismo ao aquecimento global, é completamente inadministrável por uma única autoridade, sejam EUA ou Nações Unidas.

A globalização resiste a praticamente qualquer tipo de centralização. Em vez disso, o que se observa gradativamente nas negociações sobre mudanças climáticas (como em Bali, em dezembro) e precisamos ver mais, no campo das conversações sobre prevenção da proliferação nuclear e reconstrução de Estados falidos, é um sentido muito maior de divisão de trabalho entre as Big Three, uma divisão concreta do fardo, pois elas serão julgadas não pela sua retórica, mas pelas responsabilidades que assumirem. O arbitrariamente composto Conselho de Segurança não é lugar para se discutir uma divisão de trabalho como essa, tampouco qualquer dos órgãos multilaterais sobrecarregados de votações e opiniões dissonantes e irrelevantes. Os grandes temas devem ser resolvidos pelas Big Three entre elas.
Leia na íntegra em http://www.consultapopular.org.br/artigos-e-textos/america-sem-norte

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

EUA e UE apóiam políticos ligados ao crime organizado

Deu no Brasil de Fato:
Michel Chossudovsky
*
Os Estados Unidos, a União Européia e as Nações Unidas (ONU) estão apoiando um governo no Kosovo encabeçado por um reconhecido criminoso, o primeiro-ministro Hashim Thaci. Esse cargo foi criado pelo governo provisório aprovado pela Missão Interina de Administração das Nações Unidas em Kosovo (UNMIK, na sigla em inglês).
[ . . . ]
O Partido Democrático do Kosovo encabeçado pelo ex-comandante do KLA Hashim Thaci é essencialmente um desdobramento do antigo Exército de Libertação do Kosovo. O apoio encoberto dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao KLA vem desde meados da década de 90. No ano anterior ao bombardeamento de 1999 da Iugoslávia, o KLA era claramente apoiado pela administração Clinton.
[ . . . ]
“Alguns membros do Exército de Libertação do Kosovo [liderados pelo atual primeiro-ministro do Kosovo, Hashim Thaci] financiaram os custos da guerra através da venda de heroína e foram treinados em campos dirigidos pelo fugitivo internacional Osama bin Laden – procurado pelos bombardeamentos em 1998 de duas embaixadas estadunidenses na África, responsáveis pela morte de 224 pessoas, dos quais 12 eram americanos.
[ . . . ]
Os relatórios mostram igualmente que houve terroristas islâmicos que se alistaram ao KLA – membros de Mujahidin – como soldados no seu conflito em curso contra a Sérvia, e que muitos já haviam sido contrabandeados para o Kosovo e juntaram-se ao combate.
[ . . . ]
O Christian Science Monitor, em agosto de 2000, descreve a rede criminosa controlada por Thaci: “Um policial da ONU suspeita que grande parte da violência e intimidação veio de antigos membros do KLA, especialmente dos aliados de Hashim Thaci, o antigo líder do KLA e chefe do Partido Democrático do Kosovo, um dos braços políticos do KLA.
[ . . . ]
Potencialmente, o partido de Thaci tem muito a perder nas eleições, que são apenas municipais. Depois de as forças sérvias terem retirado no ano passado, o KLA ocupou sedes de municípios e de instituições públicas por todo o Kosovo, e criou o seu próprio governo provincial.
[ . . . ]
"Estes sujeitos não estão em vias de abandonar o poder facilmente", diz Dardan Gashi, analista político junto ao International Crisis Group, uma organização de investigação com sede nos EUA e com um gabinete em Pristina.
[ . . . ]
Responsáveis dizem que o problema é pior na região Drenica do Kosovo, a área central do KLA e a fortaleza do partido de Thaci. Srbica, onde Koci é o presidente local do LDK, é uma das cidades principais em Drenica. (Christian Science Monitor)
Fundação Heritage: Apoia o KLA-KDP, apesar das suas ligações ao mundo do crime
Num relatório de Maio de 1999, a Fundação Heritage reconheceu que o KLA é uma organização criminosa. No entanto, pediu à administração Clinton apoio ao KLA.
[ . . . ]
O afastamento agora do KLA privaria os Estados Unidos das vantagens de cooperar com uma força de resistência que é capaz de apoiar as pressões sobre Milosevic para negociar. (Ibid)
[ . . . ]
O KDP manteve as suas ligações ao crime organizado. De uma forma geral, esta é a posição da “comunidade internacional” sobre o Kosovo. Recentemente, a Fundação Heritage, que tem um papel importante nos bastidores que definem a política externa estadunidense, tem pressionado pela “independência” do Kosovo.
Hashim Thaci
É uma evidência que o primeiro-ministro do Kosovo nunca cortou as ligações ao crime organizado.
[ . . . ]
De acordo com o ministro da Justiça sérvio, Vladan Batic, “o processo em Haia no Tribunal Internacional tem mais de 40 mil páginas de provas contra o antigo líder do Exército de Libertação do Kosovo, Hashim Thaci”. (citado por Radio B92, Belgrado, 03/Julho/2003).
[ . . . ]
De uma forma geral, a Missão da ONU atuou como um elemento de proteção de um sindicato do crime. Em novembro de 2003, começaram em Belgrado as acusações contra vários ex comandantes do KLA. Estes incluíam Hashim Thaci, Agim Ceku e Ramush Haradinaj. O nomes de Haradinaj e Ceku estão em listas da Interpol.
Agim Ceku
Agim Ceku é conhecido por sistematicamente ter cometido crimes de guerra na região de Krajina, na Croácia, em meados da década de 90, envolvendo o massacre e a limpeza étnica da população sérvia. Foi brigadeiro-general no Exército croata e um dos planificadores da Operação Tempestade, que levou à expulsão de várias centenas de milhares de sérvios da região de Krajina. Em 1999, foi nomeado comandante do KLA, com o apoio dos EUA e da Otan. Depois foi nomeado comandante da Corpo de Proteção do Kosovo, subsidiado pela ONU (conta da folha de pagamentos) e tornou-se primeiro-ministro do Kosovo em 2006, tendo-lhe sucedido Hashim Thaci, atual primeiro-ministro.
[ . . . ]
A mídia ocidental: desinformação quanto à natureza do governo do Kosovo
O governo do Kosovo está ligado a sindicatos de crime organizado e envolvido em tráfico de narcóticos e seres humanos.
[ . . . ]
Os EUA e a União Européia estão a apoiar a criminalização da política no Kosovo. 12/Fevereiro/2008
* Michel Chossudowsky é do Centro de Pesquisas sobre a Globalização e autor de A globalização da pobreza Este texto foi originalmente publicado em Global Research Tradução de Luís Guedes Leia na íntegra em http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/eua-e-ue-apoiam-politicos-ligados-ao-crime-organizado

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Breve notícia da Europa

Da Agência Carta Maior:
10/08/2007 | Copyleft
POLÍTICA INTERNACIONAL

Dois anos após França e Holanda rejeitarem o projeto constitucional da UE, Berlusconi, Aznar, Chirac, Shroeder e Blair foram embora e o futuro da Europa está nas mãos de Angela Merkel, Gordon Brown e Nicolas Sarkozy. A Europa está cada vez mais parecida com sua longa história. A análise é de José Luís Fiori.

Do outro lado do Canal, o novo presidente frances, Nicolas Sarkozy, empossado no mês de maio, já fez declarações e tomou decisões que colocam a França em confronto direto com a Alemanha, e com quase todos os seus pares da UE. Numa mesma semana, anunciou a decisão de atrasar o cumprimento francês do acordo de eliminação dos déficits orçamentários, estabelecido para 2010, e de levar a frente políticas protecionistas, para defender o emprego dos franceses ameaçado pela globalização liberal. E o que foi mais grave, defendeu a politização da política monetária do Banco Central Europeu, que segundo ele, deveria se submeter à uma estratégia européia de longo prazo, Além disto, a nova ministra da fazenda, Chistine Lagarde, conclamou os banqueiros e financistas a trocarem os Estados Unidos e a Grã Bretanha pela França, para transfomar Paris num grande centro financeiro global, situado na liderança de uma “economia nacional vibrante”, e em declarada competição com Londres e Frankfurt.

A resposta alemã foi imediata e dura: seu ministro da Fazenda, o social-democrata Peer Steinbruck, declarou em Bruxelas, no dia 10 de julho, com tom de deboche, que “ele não tinha nada contra o fortalecimento da moeda européia, pelo contrário, ele amava o euro forte”. E além disto, afirmou em tom mandatório, que todos os estados membros da UE terão que “zerar seus déficits orçamentários até 2010, sem nenhuma exceção”. A própria ministra Angela Merkel saiu à luz e deu uma entrevista seca à televisão alemã, exigindo que o presidente francês “pare de desestabilizar o euro, e a independência do Banco Central Europeu”. E deixou circular, paralelamente, a informação de que seu governo está preparando uma legislação especial - igual a que há nos EUA, Grã Bretanha e França - para impedir a desnacionalização de setores econômicos estratégicos para a segurança nacional alemã, como as telecomunicações, a energia e o setor bancário.

Paradoxalmente, esta briga está clarificando o cenário, depois de dois anos de pasmaceira generalizada. O governo de Angela Merkel unificou a elite política e empresarial alemã, e passou à ofensiva, assumindo a liderança agressiva da unificação européia, e da ocupação econômico-financeira da Europa Central. Além disto, acelerou seu projeto de integração econômica com a Rússia, independente do resto do continente, e voltou à sua posição de sheriff do rigor fiscal e monetário dos demais países europeus, com uma retórica econômica ortodoxa e liberal, característica das potências hegemônicas. Mas o jogo não terminou, e a França parece disposta a dobrar sua aposta. Enquanto Angela Merkel criticava o governo francês, o presidente Sarkozy viajou para a Argélia e a Tunísia, e propôs a criação de uma União Mediterrânea, incluindo os países da costa norte-africana, e a Turquia, sob a liderança francesa, e de costas para a Europa germânica, e para o “global hub” britânico. E ao mesmo tempo, no dia 12 de juilho, liderou um manifesto dos países mediterrâneos da UE, favorável à mudança da posição ocidental, frente à questão palestina, por cima das decisões e instâncias oficiais de Bruxelas.

Cabe saber se a França tem bala na agulha para sair do plano retórico. Mas de qualque maneira, é certo que o distanciamento entre a Alemanha, a França e a Grã Bretanha está se confirmando também no plano da disputa energética. A AIE difundiu nos últimos dias, um informe prevendo problemas graves de oferta de petróleo e gás, nos próximos cinco anos, e o aumento contínuo da sua demanda e dos seus preços. E frente a isto, cada uma das potências européias está buscando solução pelo seu lado: a França, com o petróleo do norte da África; a Grã Bretanha, com o dos países nórdicos; e a Alemanha, com o petróleo e gás, da Rússia.

Como se não fosse pouco, os Estados Unidos insistem em instalar seu “escudo anti-mísseis” na Polônia e Republica Checa, e não abrem mão da independência do Kosovo. Com isto os norte-americanos conseguem irritar a Rússia, e recolocá-la na tradicional posição do “príncipe negro”, que assusta os europeus, desde os tempos de Ivan o Terrível. Primeiro, os russos falaram em abandonar o Tratado das Forças Convencionais na Europa, assinado em 1990. Mas agora, o governo Putin anunciou que responderá ao “escudo” norte-americano, com a instalação de um novo sistema de foguetes em Kalingrado, o enclave russo situado entre a Lituânia e a Polônia, que já foi a capital da Prussia Oriental e terra natal de Immanuel Kant, o filósofo da “paz perpétua”. Todos estes movimentos lembram passos de um minueto, simétricos e previsíveis. Mas não há dúvida que a Europa voltou a se mexer, e está cada vez mais parecida consigo mesmo e com sua longa história passada. Até o papa alemão resolveu entrar na dança, e atacar os protestantes e a Igreja Anglicana, por conta de antiquíssimas divergencias teológicas. Mas neste ponto, pelo menos, a imprensa e todos os governos europeus estão de acordo: como já está se transformando num hábito, uma vez mais, o papa dos católicos exagerou na dose.
* José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Artigo publicado originalmente em espanhol, na revista Sin Permiso, da qual José Luís Fiori faz parte do Conselho Editorial.


Extraído de http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14572&alterarHomeAtual=1, acesso em 14 ago. 2007.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Qual a força do Euro?


Deu no Vermelho:
por Marcelo Fernandes
Num interessante artigo intitulado “O euro destronará o dólar?”, o professor William Silber questiona sobre a possibilidade do euro, a moeda da comunidade européia, ocupar no futuro a posição que o dólar ocupa hoje como moeda de reserva internacional (1). Aparentemente, ensejos para o questionamento não faltam. Segundo Silber, “Entre os anos de 2000 e 2005, o dólar perdeu mais de 25% do seu valor ante o euro. Enquanto isso, a parcela de reservas internacionais mantida em euros aumentou em 18% para 24%, e a fatia do dólar caiu de 71% para 66%. Resumindo, o euro claramente fez algum progresso durante esse período de déficits na balança de pagamentos dos EUA (...).”
[ . . . ]
A questão é que, nesse período, o ouro era o principal ativo, o ativo de última instância para qual os investidores corriam caso houvesse uma turbulência tão grave, que até o papel da libra fosse questionado. O momento atual possui uma diferença fundamental. Desde o fim dos acordos de Bretton Woods em 1971, as moedas nacionais não possuem mais lastro. Assim sendo, caberia perguntar para qual ativo os investidores correriam no caso de uma crise mundial que abalasse a confiança no dólar? Uma crise de grandes proporções teria efeitos perversos na economia mundial e, portanto, não apenas sobre o dólar. O professor Silber aventa a possibilidade que, num caso como esse, ocorresse um retorno ao ouro como ativo de reserva internacional. Mas esta é uma hipótese praticamente descartada. Na globalização financeira a tendência é a forma imaterial de riqueza, de valorização fictícia.

A Europa como ela é


O euro tem a vantagem de ter nascido como moeda internacional, pois substituiu moedas de países que continuaram soberanos. Não obstante, há também grandes desvantagens. A Europa, como bem disse Luis Fiori, “está cada vez mais parecida consigo mesma e com toda a sua longa história passada” (2). Alguns acontecimentos servem para corroborar a afirmação. O professor Fiori lembra que o primeiro ministro britânico “Miliband anunciou ao mundo, com todas as letras, que o governo de Gordon Brown não se submeterá ao sistema monetário europeu, nem aceitará qualquer tipo de soberania imperial ou de política externa unificada sob o comando de Bruxelas”. Já o novo presidente francês Nicolas Sarkozy “fez declarações e tomou decisões que colocam a França em confronto direto com a Alemanha e com quase todos os seus pares da União Européia”. Reconhecidamente autoritário e de tendência xenófoba, Sarkozy insiste, com alguma veemência, que o Banco Central Europeu (BCE) deve intervir para desvalorizar o euro. Por outro lado, a ministra alemã Angela Merkel, fazendo a sua parte como representante da potência líder da Europa, acusa o presidente francês de tentar desestabilizar o euro e a independência do BCE.
[ . . . ]
Os Estados Unidos por meio da OTAN continuam comandando a política de defesa da Europa apesar do fim da Guerra Fria. Mas a Rússia não está disposta a aceitar pacificamente a sua ampliação. Francamente, é difícil imaginar uma Europa com este nível de tensão, que tende até a aumentar, criar as condições necessárias para que o euro substitua o dólar. Como bem ressaltou Silber falta algo imprescindível a comunidade européia: o mesmo nível de comprometimento que os Estados Unidos têm com o dólar.

Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=22851