O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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terça-feira, 6 de maio de 2008

Vilãos ou vilões, questão de opiniãos

Deu na Agência Carta Maior:
A crise provocada pelo aumento dos preços dos alimentos no mundo inteiro era previsível. Ninguém que tinha poderes para alterar o rumo dos acontecimentos fez nada para impedi-la. E agora querem por a culpa no etanol e no biodiesel, isto é, no futuro.
Flávio Aguiar
A crise provocada pelo aumento dos preços dos alimentos, que provocou revoltas populares no Caribe, na África e na Ásia, era previsível. Uma grande parte da produção de alimentos hoje depende de fertilizantes em que derivados do petróleo é componente importante. Com o crescimento das importações e das exportações, além da locomoção interna nos países, a produção, o abastecimento e o consumo de produtos agrícolas dependem cada vez mais do transporte. Na África e em muitas partes da Ásia a agricultura familiar foi completamente desorganizada pelas crises econômicas e financeiras das décadas passadas, e os estados da região tornaram-se impotentes quanto à possibilidade de investimentos em alternativas ou infra-estrutura, graças às políticas neo-liberais de desregulamentação e abertura dos mercados. O protecionismo correlato da Europa e dos Estados Unidos desestimulou a produção agrícola de exportação nesses países. O Haiti, no Caribe, palco de uma daquelas revoltas, é um país cujo solo foi erodido e destruído em termos de capacidade de produção. O empobrecimento, ainda ajudado pelas contínuas guerras ou crises políticas, foi generalizado. O problema maior é que a população não tem dinheiro para comprar alimentos. Tudo isso, em boa parte, gerado por uma política e uma visão unidimensionais de dependência dos combustíveis fósseis, e de um pensamento também fóssil quanto à ordenação do comércio mundial. E agora querem banir, como solução, o biodiesel e o etanol, dizendo que eles vão matar o mundo de fome. Boa parte do mundo já passa fome.
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Produzir empregos demanda energia, demanda transporte, demanda infra-estrutura. Preservar a natureza demanda tudo isso também. E as duas coisas demandam comunicação rápida e eficaz, além de investimento em saúde e educação, sem falar numa cultura de conhecimento do meio-ambiente em suas particularidades e detalhes. E demanda uma rediscussão dos padrões de produção e de consumo no e do mundo inteiro.
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Até o ano passado, o petróleo foi eleito o grande vilão do mundo. O petróleo era como o sistema colonial nas sociedades emergentes: era o vilão do “passado” que se abatia sobre nós. Agora o vilão passou a ser o futuro? Pode ser. Sabemos que é absolutamente necessário encontrar fontes agrícolas (além das hidrelétricas) de energia alternativas, combinando-as com a produção de alimentos. Ou se faz isso, ou a catástrofe vai se tornar inevitável. Mas sabemos também que temos de encontrar e consolidar padrões de consumo compatíveis com a sobrevivência do planeta e da espécie humana, e isso em todo e para todo o planeta.

Não há vilões na natureza. Os vilões não são nem serão “o etanol”, “o biodiesel”, “a cana de açúcar”, nem mesmo “o petróleo”. O problema é o que se faz com eles, quem faz, por quê, como, e como diziam os romanos, “cui prodest?”, isto é, quem lucra com isso. É hora de voltar à excelente entrevista que o professor Ignacy Sachs deu à Carta Maior no ano passado. Não há vilões na natureza, e o mundo já produz grãos suficientes para alimentar todo o mundo. O problema é que as pessoas pobres não têm dinheiro para comprar alimentos, e os países pobres não têm como subsidiar os seus pobres para que eles os comprem, enquanto os países ricos subsidiam os seus alimentos, e as agências por estes controladas desregulamentam e desorganizam as possibilidades daqueles se organizarem.
Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3881

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Brasil mudou de lugar

Deu na Agência Carta Maior:
Nas últimas décadas, e a passo acelerado nos últimos anos, “o Brasil mudou de lugar”, ou de plataforma. No cenário político nacional, porém, há um "turvamento" das vistas que se recusa a enxergar isso.
Flávio Aguiar
Um dos problemas mais graves da política brasileira é que há uma espécie de “turvamento” das vistas no que se refere às relações entre as questões nacionais e as internacionais. Acontece que nas últimas décadas, e a passo acelerado nos últimos anos, “o Brasil mudou de lugar”, ou de plataforma.
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Falemos da saúde. Com todas as mazelas, o SUS, como conceito e como realização média, é avançadíssimo, não só em relação aos países pobres, como também em relação a países ricos e mais organizados do que o Brasil. A situação da saúde pública nos Estados Unidos, por exemplo, para os mais pobres, é calamitosa. Para os remediados, é desorganizada e caríssima.
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Os “menos” iguais hoje são menos desiguais do que antes; e os “mais” iguais hoje se sentem “menos mais iguais”. Podem puxar as estatísticas de plantão, mas o clima cultural que essa afluência nova dentro da sociedade brasileira sugere é conspícuo. Pode até ser que, num segundo momento, consolidada a afluência desses 20 milhões a um patamar mais amplo de consumo, uma parte deles se volte para políticas conservadoras que fechem os caminhos para os que ainda não saíram da vala comum da miséria. Mas isso é apenas uma possibilidade. Até porque duvido que alguém, nas oposições, tanto à esquerda quanto à direita, esteja pensando nisso como preocupação. A preocupação maior é ainda a de negar que isso tenha acontecido, ou de negar a sua pertinência ou ainda sua importância.
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A China é a nova potência mundial, sem dúvida, mas a custo de uma exploração do trabalho de fazer corar um capitão de indústria do século XIX. Na América Latina e no Brasil está acontecendo o contrário: a exploração, sem desaparecer, “por supuesto”, recua, e os pobres tornaram-se, pelo menos de momento, afluentes política, econômica e culturalmente.
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Por tudo isso pode-se imaginar o desastre de proporções continentais que será a volta da coligação PSDB – DEM, aliás, PFL, ao Palácio do Planalto em 2010. Esse lado da nossa oposição perdeu completamente sua inserção internacional, ou, se a tem, é com o que há de pior, como quando, ao realizar sua convenção, o finado (ou transgenicamente transformado?) PFL teve Aznar como convidado de destaque (quem sabe da próxima vez vem Berlusconi?). Pautado por comentaristas da nossa grande imprensa, cuja visão, além de reacionária, é de todo anacrônica, esse lado da oposição simplesmente não consegue mais “ver” o mundo, tanto quanto aqueles jornalistas também não o “vêem”. Falam de um mundo da carochinha, um “primeiro mundo” que não existe mais. Falam de um mundo de “países sérios”, onde, é óbvio, o Brasil não entra, sem se darem conta de que estão cuspindo para cima. Defendem um ideário, baseado ainda no Consenso de Washington, que tentam dourar com pílulas sociais recém descobertas, cujo invólucro feito às pressas não consegue disfarçar as receitas fanadas que defendiam há poucos anos nem o amargo desprezo que sentem por que o povão, parece, não os escuta.

A oposição à esquerda também não consegue mais “ver” o Brasil nesse “novo mundo”, em que tudo, até o futuro, está em rediscussão. No plano ideológico aferra-se a um universo doutrinário do passado, que perdeu o pé diante dos fracassos dos países ex-comunistas e também diante dos fracassos das recentes receitas neo-liberais. Na prática, tornam-se caudatárias das proposições moralistas, ex-udenistas, de uma direita que não tem moral para falar mal de ninguém.
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Mas como sabemos, é mais fácil um rico entrar no céu do que mudar a visão de mundo de alguém, a menos que esse alguém esteja disposto a aprender, ou que passe por grandes hecatombes. Mas não percamos a esperança: o Brasil hoje é uma catástrofe positiva, em meio à contínua hecatombe do esboroamento de um sistema econômico e político mundial que não consegue mais ter controle sobre as contínuas crises que provoca. Esse sistema não vai mudar tão cedo nem de uma hora para outra, mas pelas fendas que deixa aparecer vislumbra-se, quem sabe, um outro mundo possível. Uma dessas fendas é o Brasil, com a América Latina.
Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3876

domingo, 16 de setembro de 2007

O vôo da galinha

Deu na Agência Carta Maior:
DEBATE ABERTO
O Brasil vai melhor? Dava para ouvir o choro e o ranger, não, o rilhar de dentes da élite e de seus arautos nas redações e alhures. Assim não dá: os “formadores de opinião” não vão mais “formar” coisa nenhuma mesmo, desligados que estão da nação que querem formatar.
Flávio Aguiar


Vejam as manchetes:

População brasileira sobre 1,42% e atinge 187,2 milhões.
Desemprego tem a maior queda em 10 anos e renda sobe.
Trabalho infantil recua em 2006.
Acesso a telefone sobe em todas as regiões em 2006.
Aumenta parcela de brasileiros que se dizem negros.
(A propósito: com isso, a parecela dos brasileiros que se declaram negros, pardos, índios e amarelos passou de 50% da população).
Número de estudantes no nível superior cresce 13,2%.
Alta da renda do brasileiro é a maior desde 95.
Desemprego em 2006 é o menor em 10 anos.
População do país está envelhecendo.
Acesso à internet cresce mantendo disparidades regionais.


Não, internautas, não eram manchetes de uma Carta Maior às vêzes acusada de ser “chapa-branca” por fazer o contraponto à mídia conservadora e marrom que pretende ter a hegemonia do enquadramento da opinião pública para que esta espelhe seus interesses.
Eram manchetes colhidas a esmo nas páginas virtuais dos jornalões brasileiros, que espelhavam os dados do Pnad do IBGE. Depois, nas páginas impressas, viriam análises, algumas tentando favorecer FHC e o ano de 96, sem se dar conta de que assim só sublinhavam a débâcle que foram os anos subseqüentes de seu governo.
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E tais notícias saem quando esses mesmos grotões perdem, ainda que momentaneamente, o renânico véu com que tentavam tapar a visão do país verdadeiro e profundo. Não perdem por esperar, contudo. Com certeza o renânico personagem, que os serviu tão bem durante tantos anos, e que ao longo deles foi tão calorosamente acolhido e preservado, voltará a lhes dar motivos para baterem o bumbo do moralismo dirigido.
Mas no momento, enquanto tais índices afloravam à superfície das manchetes, o odiado Presidente Lula era recebido com festejos protocolares Europa à fora, como a primeiro dignatário de uma grande nação (com problemas graves sem dúvida) que é, e não como o bufão de um paiseco bananeiro, que é como as élites e seus arautos gostariam de impingir à opinião pública que somos.
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É isso que as élites e os economistas neo-liberóides (porque liberal, Liberal, assim com letra maiúscula, é outra coisa) detestam e de tudo fazem para impedir, alegando riscos inflacionários, bolhas e vôos de galinha.
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Pois é isso que apavora a élite e seus arautos: perceber que a galinha está escapando do cercado. Por cima dele.

Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3724