O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A crise financeira sem mistérios

Deu no Le Monde Diplomatique - Brasil:


Para apresentar os principais encadeamentos da crise financeira é preciso partir dos mecanismos que a desencadearam; a deterioração dos mecanismos e das instituições de regulação, e o papel chave que os Estados Unidos desempenham. Na avaliação dos impactos, quem deverá em última instância pagar pela bancarrota do cassino?

Ladislau Dowbor

(25/01/2009)

“Os benefícios fundamentais da globalização financeira são bem conhecidos: ao canalizar fundos para os seus usos mais produtivos, ela pode ajudar tanto os países desenvolvidos como os em via de desenvolvimento a atingir níveis mais elevados de vida.” IMF, Finance & Development, March 2002, p. 13.

“Os administradores de fundos enriqueceram e os investidores viram o seu dinheiro desaparecer. E estamos falando de muito dinheiro, em todo esse processo” ­- Paul Krugmann, Folha de São Paulo, 30-12-2008

Tirando a roupa (financeira)

As pessoas imaginam profundas articulações onde, em geral, há mecanismos bastante simples. Nada como alguns exemplos para ver como funciona. Há poucos anos estourou o desastre da Enron, uma das maiores e mais conceituadas multinacionais americanas. Foi uma crise financeira e um dos principais mecanismos de geração fraudulenta de recursos fictícios, foi um charme de simplicidade. Manda-se um laranja qualquer abrir uma empresa laranja num paraíso fiscal como Belize. Esta empresa reconhece por documento uma dívida de, por exemplo, 100 milhões de dólares. Esta dívida entra na contabilidade da Enron como “ativo”, e melhora a imagem financeira da empresa. Os balanços publicados ficam mais positivos, o que eleva a confiança dos compradores de ações. As ações sobem, o que valoriza a empresa, que passa a valer os cem milhões suplementares que dizia ter.

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Partimos deste exemplo da Enron porque é simples, representa um mecanismo de fraude honesto e transparente. Não viu quem não quis. E também para marcar o que é uma cultura da área financeira, onde vale rigorosamente tudo, conquanto não sejamos pegos. Não é o reino dos inteligentes (tanto assim que quebram), mas dos espertos. E os que buscam produzir bens e serviços realmente úteis são levados de roldão, em parte culpados porque toleraram idiotas disfarçados em magos de finanças e marketing. Qualquer semelhança com empresas nacionais que se lançaram em aventuras especulativas é mera coincidência.

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As empresas financeiras que juntam desta forma uma grande massa de “junk” assinados pelos chamados “ninjas”, começam a ficar preocupadas, e empurram os papéis mais adiante. No caso, o ideal é um poupador sueco, por exemplo, a quem uma agência local oferece um “ótimo negócio” para a sua aposentadoria, pois é um “sup-prime”, ou seja, um tanto arriscado, mas que paga bons juros. Para tornar o negócio mais apetitoso, o lixo foi ele mesmo dividido em AAA, BBB e assim por diante, permitindo ao poupador, ou a algum fundo de aposentadoria menos cauteloso, adquirir lixo qualificado. O nome do lixo passa a ser designado como SIV, ou Structured Investment Vehicle, o que é bastante mais respeitável. Os papéis vão assim se espalhando e enquanto o valor dos imóveis nos EUA sobe, formando a chamada “bolha”, o sistema funciona, permitindo o seu alastramento, pois um vizinho conta a outro quanto a sua aposentadoria já valorizou.

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Mas onde a agência bancária encontrou tanto dinheiro para emprestar de forma irresponsável? Porque afinal tinha de entregar ao Ninja um cheque de 300 mil para efetuar a compra. O mecanismo, aqui também, é rigorosamente simples. Ao Ninja não se entrega dinheiro, mas um cheque. Este cheque vai para a mão de quem vendeu a casa, e será depositado no mesmo banco ou em outro banco. No primeiro caso, voltou para casa, e o banco dará conselho ao novo depositante sobre como aplicar o valor do cheque na própria agência. No segundo caso, como diversos bancos emitem cheques de forma razoavelmente equilibrada, o mecanismo de compensação à noite permite que nas trocas todos fiquem mais ou menos na mesma situação. O banco, portanto, precisa apenas de um pouco de dinheiro para cobrir desequilíbrios momentâneos. A relação entre o dinheiro que empresta – na prática o cheque que emite corresponde a uma emissão monetária – e o dinheiro que precisa ter em caixa para não ficar “descoberto” chama-se alavancagem.

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A vantagem de se emprestar dinheiro que não se tem é muito grande. Por exemplo, a pessoa que aplica o seu dinheiro numa agência verá o seu dinheiro render cerca de 10% ao ano. O banco tem de creditar estes 10% na conta do aplicador. Se emprestar este dinheiro para alguém a 20%, por exemplo, terá de descontar dos seus ganhos os 10% da aplicação. Mas quando empresta dinheiro que não tem, não precisa pagar nada, é lucro líquido. A alavancagem torna-se portanto muito atraente. E a tentação de exagerar na diferença entre o que tem no caixa e o que empresta torna-se muito grande. Sobretudo quando vê que outros bancos tampouco são cautelosos, e estão ganhando cada vez mais dinheiro. É uma corrida para ver quem agarra o cliente primeiro, pouco importa o risco. E os ganhos são tão estupendos...

A ficção da regulação

A “bolha” imobiliária vinha sendo comentada há pelo menos três anos. Greenspan previa um “soft landing”, ou seja, um esvaziamento suave da bolha, e não o “crash landing” que finalmente aconteceu. É interessante comparar a frase ufanista do FMI em 2002, que colocamos em epígrafe no início deste artigo, com a avaliação bastante mais cautelosa e até alarmante que aparece já em 2005: “Ainda que seja difícil ser categórico sobre qualquer coisa tão complexa como o sistema financeiro moderno, é possível que estes desenvolvimentos estejam criando mais movimento procíclicos que no passado. Podem igualmente estar criando uma probabilidade maior (mesmo que ainda pequena) de um colapso catastrófico (catastrophic meltdown). ”

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Quando os pequenos bancos locais se transformam em gigantes planetários, a imprensa apresenta a evolução como positiva, dizendo que os bancos ficam ‘mais sólidos”. A realidade é que ficam mais poderosos, logo menos controlados. No conjunto, o que aconteceu com a globalização financeira é que os papéis circulam no planeta todo, enquanto os instrumentos de regulação, os bancos centrais nacionais, estão fragmentados em cerca de 190 nações. Na prática, ninguém está encarregado de regular coisa alguma. E se algum país decide controlar os capitais, estes fugirão para lugares mais hospitaleiros (market-friendly), em processo muito parecido com os mecanismos de guerra fiscal entre municípios. Nas análises das Nações Unidas, isto é chamado de race to the bottom, corrida para o fundo, de quem reduz mais as suas próprias capacidades de controle.

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Haveria ainda de se considerar o papel regulador das agências avaliadoras de risco. O muito conservador The Economist chega a se indignar com o peso que adquiriu este oligopólio de tres empresas – Moody’s, Standard & Poor (S&P) e Fitch – que “fazem face a críticas pesadas nos últimos anos, por terem errado relativamente a crises como as da Enron, da WorldCom e da Parmalat. Estes erros, a importância crescente das agências, a falta de competição entre elas e a ausência de escrutínio externo estão começando a deixar algumas pessoas nervosas”. O The Economist argumenta também que as agências de avaliação são pagas pelos que emitem títulos, e não por investidores que utilizarão as avaliações de risco, com evidentes conflitos de interesse. O resultado é que “a mais poderosa força nos mercados de capital está desprovida de qualquer regulação significativa”.

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Nesta discrepância entre finanças globais e regulação nacional, jogam um papel complementar importante os paraísos fiscais, cerca de 70 “nações”, ilhas da fantasia onde frequentemente existem mais empresas registradas do que habitantes, e onde não se pagam impostos nem exigem relatórios de atividades. Estes paraísos exercem hoje o papel que no século 18 desempenhavam algumas ilhas do Caribe que constituíam abrigos permanentes de piratas, onde os produtos da ilegalidade podiam ser estocados, trocados e comercializados. Mudou apenas o tipo de produto, encobrindo não só caixa dois, como evasão fiscal, tráfego de armas e lavagem de dinheiro. Não haverá um mínimo de ordem financeira mundial enquanto subsistirem estes off-shores de ilegalidade.

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O papel dos Estados Unidos

O epicentro da atual crise está nos Estados Unidos, e o eixo desencadeador foi o mercado imobiliário. Mas a diferença relativamente às crises dos hedge funds ou do Long Term Capital Management (LTCM) de poucos anos atrás, é a nova fragilidade dos Estados Unidos. A tradição ideológica exige que se considere os EUA à beira do colapso ou como poderoso bastião do capitalismo, segundo as posições. A realidade é que se trata sim de um poderoso bastião, mas impressionantemente fragilizado.

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O endividamento como nação se reflete na situação das famílias. O americano adulto médio tem oito cartões de crédito, e gasta um terço da sua renda com o pagamento de dívidas. Apresentado no momento da concessão, o crédito aparece como um instrumento de dinamização da conjuntura, pois aumenta a capacidade de compra da família. No entanto, cada dívida significa não só reembolso, como pagamento de juros e, na realidade, o que se consegue com endividamento é uma antecipação de consumo, e não o seu aumento. Quando chega a hora de pagar, o efeito se inverte. Até onde irão as famílias norte-americanas no faz-de-conta de prosperidade?

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Neste final de 2008, as matrizes norte americanas de multinacionais estão comprando dólares nos mercados do mundo para se recapitalizar, e inúmeras empresas com dívidas denominadas em dólar buscam igualmente a moeda, além de especuladores tentando “realizar” papéis podres transformando-os em moeda real, gerando uma valorização. O médio prazo deste processo é simplesmente um ponto de interrogação, em particular considerando a gigantesca massa de dólares que os EUA emitiram quando estes eram – e ainda são em parte – ao mesmo tempo moeda nacional e moeda-reserva mundial.

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Quem paga a conta?

A conta da irresponsabilidade norte-americana, devidamente imitada em outros países que até ontem nos davam lições, ainda está por ser apresentada. A curtíssimo prazo, e buscando conter o pânico entre eleitores, os governos dos países mais afetados procuraram tranquilizar os milhões de pequenos depositantes. Neste sentido, vários países passaram a assegurar que no caso de quebra de um banco, por exemplo, o governo ressarciria as perdas dos correntistas até 100 mil dólares, ou até sem limite, segundo os países. O processo é interessante, pois o correntista seria ressarcido do seu próprio dinheiro com dinheiro que pagou para o governo sob forma de impostos. A generosidade governamental escapa à compreensão de muitos, que acham que talvez devessem ser debitados os especuladores que afinal especularam precisamente com o dinheiro dos poupadores.

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Um drama que ainda se desenrola, e de dimensões imprevisíveis, é o dos que pouparam a vida inteira para formar um fundo de pensão, e dos próprios grandes fundos que tinham os seus ativos aplicados em ações que perderam valor. É preciso lembrar que os administradores das grandes instituições de especulação trabalham essencialmente com dinheiro de terceiros, e que têm os seus salários – em geral na faixa de dezenas de milhões ao ano – garantidos, foram os primeiros a saber como realocar o que tinham em opções empresariais. Mas os detentores de ações perderam massas avassaladoras de recursos, mais de 30 trilhões neste início de 2009. Quando uma pessoa tem mil dólares em dinheiro, enquanto não houver um surto inflacionário, tem o seu poder de compra garantido. Mas quando os seus dólares foram transformados em papéis que perderam todo valor, estão arruinados. Muita gente procurou dólares para se livrar de ações de empresas perfeitamente produtivas, e que fazem coisas úteis, buscando a segurança do dinheiro vivo, agravando o processo.

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Temos assim um processo desequilibrado, em que por um lado os impressionantes avanços tecnológicos permitiram fortes aumentos de produtividade sistêmica no planeta, mas por outro lado a apropriação dos excedentes gerados se dá na mão de intermediários, não de produtores, e muito menos dos trabalhadores. Este desvio das capacidades financeiras, do investimento produtivo para as esferas da especulação, está no centro da perversão sistêmica que enfrentamos.

Especulação e concentração de renda

Num plano mais amplo, portanto, o próprio sistema é desequilibrado em termos de alocação e de apropriação de recursos, mesmo quando não há crise. Marjorie Kelly produziu nesta área um estudo particularmente interessante, intitulado “O direito divino do capital”. Analisando o mercado de ações dos Estados Unidos, Kelly constata que a imagem das empresas se capitalizarem por meio da venda de ações é uma bobagem, pois o processo é marginal: “Dólares investidos chegam às corporações apenas quando novas ações são vendidas. Em 1999 o valor de ações novas vendidas no mercado foi de 106 bilhões de dólares, enquanto o valor das ações negociado atingiu um gigantesco 20,4 trilhões. Assim que de todo o volume de ações girando em Wall Street, menos de 1% chegou às empresas. Podemos concluir que o mercado é 1% produtivo e 99% especulativo”. Mas naturalmente, as pessoas ganham com as ações e, portanto, há uma saída de recursos: “Em outras palavras, quando se olha para as duas décadas de 1981 a 2000, não se encontra uma entrada líquida de dinheiro de acionistas, e sim saídas. A saída líquida (net outflow) desde 1981 para novas emissões de ações foi negativa em 540 bilhões”...”A saída líquida tem sido um fenômeno muito real – e não algum truque estatístico. Em vez de capitalizar as empresas, o mercado de ações as tem descapitalizado.

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Esta forma de drenar a riqueza produzida pelas empresas está baseada num pacto de solidariedade nas próprias corporações, em que os acionistas são bem remunerados pelos seus aportes iniciais, e os administradores levam salários nababescos (na faixa de dezenas e frequentemente centenas de milhões de dólares anuais mais opções). Encontramos aqui a boa e velha mais valia, onde a produtividade do trabalho aumenta de forma acelerada graças às novas tecnologias, mas a participação da remuneração do trabalho declina. O FMI apresenta uma tabela bem clara referente aos países mais desenvolvidos (ver tabela abaixo). Constatamos que a parte da renda destinada à remuneração do trabalho cai sistematicamente entre 1980 e 2005 nos países avançados. É o efeito prático mais direto do neoliberalismo. É interessante lembrar que em 1980 se inicia, com Reagan e Margareth Thatcher, a onda neoliberal. E é bom recorrer a estatísticas do Fundo, pouco suspeito no caso.

IMF, Finance&Development, June 2007, p. 21

A compreensão deste “pano de fundo” é importante, pois não se trata apenas de um sistema bom que entrou em crise por movimentos conjunturais: a financeirização dos processos econômicos vem há décadas se alimentando da apropriação dos ganhos da produtividade que a revolução tecnológica em curso permite, de forma radicalmente desequilibrada. Não é o caso de desenvolver o tema aqui, mas é importante lembrar que a concentração de renda no planeta está atingindo limiares absolutamente obscenos.

Fonte: Human Development Report 1998, p. 37

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Os lucros financeiros no Brasil

Finalmente, e antes de entrar nas propostas, um comentário sobre a situação particular da intermediação financeira no Brasil. Basicamente, cinco grupos dominam o mercado. A ANEFAC, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contábeis, apresenta mensalmente a taxa média de juros efetivamente praticada junto ao tomador final, pessoa física ou pessoa jurídica.

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A situação aqui é completamente diferente dos bancos dos países desenvolvidos, que trabalham com juros baixos e alavancagem altíssima. Essencial para nós, é que sustentar no Brasil juros que são da ordem de mil por centos relativamente aos juros praticados internacionalmente, só pode ser realizado mediante uma cartelização de fato. Para dar um exemplo, o Banco Real (Santander Brasil) cobra 146% no cheque especial no Brasil, enquanto o Santander na Espanha cobra 0% (zero por cento) por seis meses até cinco mil euros. Os ganhos dos grupos estrangeiros no Brasil sustentam assim as matrizes. Lembremos ainda que a Anefac apresenta apenas os juros, sem mencionar as tarifas cobradas. Os resultados são os spreads fantásticos e lucros impressionantes que o setor apresenta, sobre um volume de crédito no conjunto bastante limitado (39% do PIB) para uma economia como o Brasil. A intermediação financeira tornou-se assim um fator central do chamado “custo Brasil”, e um vetor central da concentração de renda. Os lucros são tão impressionantes, que ao abrigo deste cartel mesmo grupos de comércio, em vez de se concentrar em prestar bons serviços comerciais, hoje se concentram na intermediação financeira.

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Os números apontam para o bom momento econômico e social do país. Entretanto, é preciso estar atento para o fato de que o mundo do trabalho ainda não é capaz de repassar ao trabalhador parte significativa dos ganhos obtidos nos últimos anos. A Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE indica, por exemplo, que entre 2001 e 2008, houve aumento de produção física da indústria brasileira na ordem de 28,1%, com ganhos de produtividade do trabalhador de 22,6%. A folha de pagamento por trabalhador, em contrapartida, cresceu, em termos reais, 10,5% no mesmo período de tempo. Por conta disso, o Custo Unitário do Trabalho (CUT) – entendido como a razão entre o rendimento real médio por trabalhador ocupado e a produtividade – apresentou queda de 10,2% no mesmo período de tempo. Noutras palavras, a remuneração dos trabalhadores não tem acompanhado plenamente os ganhos de produtividade da indústria brasileira. Se não são os salários a incorporar completamente os ganhos de produtividade, não podem ser percebidos sinais de pressão sobre os custos de produção, o que poderia sugerir alguma pressão inflacionária. Sem o repasse pleno da produtividade aos trabalhadores, estimula a expansão do estrato superior na distribuição de renda no Brasil.

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No geral tanto nos países desenvolvidos, como no Brasil, cada vez mais os lucros corporativos estão alimentando atravessadores financeiros, gerando uma ampla classe de rentistas. A questão, vista do ponto de vista de “quem paga”, tende a deslocar-se, na visão das pessoas, para pensar melhor em “a quem pagamos”. Trata-se de poupanças da população. Este ponto é essencial, pois tratando-se de um cassino gerado com dinheiro da população, proteger os especuladores pode legitimamente ser apresentado como uma proteção à própria população, pois é o dinheiro dela que está em risco. Isto gera, evidentemente, uma posição de chantagem, e uma correspondente posição de poder. E permite deixar de lado o que deve ser a questão central da canalização das poupanças: não se os intermediários estão ganhando ou perdendo dinheiro, mas a que agentes econômicos, a que atividades, a que tipo de desenvolvimento e com que custos ambientais devem servir estas poupanças. Bastará assegurar que não quebre um sistema cujo produto final não está servindo?

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As medidas propostas: salvar o sistema ou transformá-lo? Naturalmente, dado o peso político do sistema especulativo mundial engendrado nas últimas décadas, predomina na mídia e nas tomadas públicas de posição a busca de um simples conserto, um “arreglo” como dizem os hispânicos, que permita aos especuladores voltar aos bons dias. Inclusive, quase não se encontram explicações sobre os mecanismos: a mídia se concentra no que se tem chamado de “economia de elevador”, jogando diariamente cifras sobre porcentagens de ganhos e perdas, e entrevistando magos que decifram o futuro dos altos e baixos, sobre os quais em geral não têm a mínima ideia. A palavra chave, que protege o consultor, é sempre que “o mercado está nervoso”, o que implica cientificamente que tudo é possível.

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Segundo, se já depois do calote de Nixon em 1971, com a desvinculação do dólar da sua cobertura em ouro, já se falava na morte do sistema Bretton Woods, hoje a visão torna-se muito mais ampla, pois houve uma falência generalizada dos mecanismos de regulação que se acreditava serem funcionais. Em particular, a regulação financeira havia sido montada como instrumento destinado a impedir o comportamento irresponsável por parte dos países em desenvolvimento, e a crise surge nos países que se propunham como modelo. Não há instrumentos de regulação multilateral para esta situação. A imagem de um Bretton Woods II, no sentido de uma reformulação sistêmica dos processos regulatórios e das regras do jogo, está no horizonte.

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Quarto, e particularmente importante para nós, com a reunião do G20 em 15 de novembro de 2008, há pela primeira vez um reconhecimento planetário de que o mundo dito “em desenvolvimento” existe não apenas como fonte de matérias primas e de problemas, mas como fator essencial da construção de soluções.

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Não é o caso aqui de entrar no detalhe da enxurrada de propostas que surgem, veremos apenas os rumos gerais. É interessante consultar as 47 propostas elencadas na sequência da reunião do G20 em novembro de 2008, a bateria de sugestões desenvolvidas por Barack Obama para reequilibrar a economia norte-americana (indo bastante além do mercado financeiro), a consulta organizada por Eichengreen a um conjunto de especialistas dias antes da reunião do G20, as propostas preliminares do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia. Trata-se por enquanto de propostas, não mais do que isto.

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Agrupando as propostas segundo os seus eixos de impacto, as mais significativas vêm na área da governança, já que claramente ninguém estava governando coisa alguma.22 A principal questão envolve a existência ou não de um instrumento supranacional de regulação financeira global, na linha de uma World Financial Organization (WFO) análoga à Organização Mundial do Comércio (WTO na sigla inglesa). Dado o caráter internacional dos processos especulativos, a sua evolução para sistemas racionais de canalização de capitais em função de necessidades reais do desenvolvimento terá de alguma forma ser coordenada ao nível mundial. Na reunião do G20, qualquer opção neste sentido foi vetada pelos Estados Unidos, que colocaram nas resoluções a afirmação de que os problemas serão resolvidos antes de tudo pelos “reguladores nacionais”. Os Estados Unidos assim preservam a sua capacidade de agir mundialmente, mas de se regularem nacionalmente. Com esta visão, evidentemente, simplesmente não haverá regulação.

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Neste plano tem sido ainda colocado um argumento central: com a regulação fragmentada atual, qualquer país que passe a exercer algum controle sobre o movimento de entrada e saída de capitais, visando assegurar o seu uso produtivo e evitar os movimentos pró-cíclicos, passa imediatamente a ser discriminado nos movimentos, tanto pelos investidores institucionais como pelas agências de risco. A regulação, nestas condições, ou é planetária ou ineficiente.

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Este tipo de recomendações constitui uma visão de que o sistema deve se manter, mas a sua governança deve melhorar. O problema básico, naturalmente, é o das próprias condições da governança. O elefante no meio da sala – o que não dá para não ver, e que é grande demais para mover – é o pequeno clube de gigantes mundiais que maneja todo este processo, que desencadeou o caos e que chamamos por alguma razão misteriosa de “forças de mercado”. A delicadeza com que se trata este grupo comove. Na declaração do G20 de 15 de novembro, merece apenas três linhas: “As instituições financeiras também (!) devem arcar com a sua parte da responsabilidade na confusão (turmoil), e deveriam fazer a sua parte para superá-la, inclusive reconhecendo as perdas, melhorando a informação (disclosure) e fortalecendo a sua governança e práticas de gestão de risco”.

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No conjunto, é óbvio que um sistema onde um país detém o poder de emitir uma moeda cujo uso é internacional, é estruturalmente desequilibrado. Qualquer proposta de se regular gigantes planetários sem haver um sistema supranacional efetivo é estruturalmente ineficaz. Na realidade, estamos aqui no reino do “wishful thinking”, de propostas destinadas a negociar a transição até sairmos magicamente do fundo do poço, para saudar a volta dos happy days e esperar a próxima crise. A grande incógnita neste início de 2009, é o próximo presidente dos Estados Unidos, que recebe um país profundamente desmoralizado e caótico nos planos político, militar, econômico e sobretudo ético. O caos gerado nesta presidência Bush, em que o poder de fato foi exercido não por um presidente, mas por corporações, políticos corruptos e fundamentalistas religiosos, abre espaço para mudanças profundas. Se as forças que estão se agregando em torno a Barack Obama terão dinamismo suficiente para gerar mudanças institucionais, é um ponto de interrogação, mas em todo caso é um potencial e uma oportunidade. Aliás a crise, ao cimentar a eleição de Obama, algo de positivo já trouxe.

A convergência das crises: um outro desenvolvimento, outras instituições

Tivemos portanto de imediato numerosas propostas de consertos do sistema, sem mexer na sua lógica. A intenção é claramente mostrar que no futuro será diferente, pois teremos governos severos e austeros que cobrarão resultados. Haverá postura e ética no sistema reformado. E os grupos responsáveis por tudo isto, que aliás aparecem tão pouco na mídia quando os dias são bons, passarão a se comportar de maneira socialmente responsável. As propostas surgem mesmo sem muita base institucional ou elaboração técnica, porque uma massa de poupadores no planeta está sendo atingida diretamente – da classe média para cima – pelo derretimento das suas poupanças e das suas esperanças de aposentadoria.28 E na medida em que o caos financeiro gerado pelos especuladores está atingindo os produtores efetivos de bens e serviços, é o povo em geral que passa a sofrer as consequências. Dentro do sistema, há uma clara consciência da volatilidade política da situação. Propostas, em consequência, surgem rapidamente. A sua implementação – a não ser os trilhões demandados pelos grandes grupos – obedecerá a outros ritmos.

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As propostas que estão surgindo vêm de pessoas como Jeffrey Sachs, que propõe que o uso dos recursos financeiros seja formalmente vinculado à construção das Metas do Milênio. Stiglitz trabalha com uma visão de fazer os objetivos de qualidade de vida nortearem a alocação de recursos, e não apenas o chamado Produto Interno Bruto. Hazel Henderson resgata a importância da taxa Tobin, que cobraria um imposto sobre transações internacionais especulativas para financiar um desenvolvimento socialmente mais justo. Ignacy Sachs trabalha com a visão de uma convergência da crise financeira com a crise energética e a necessidade de repensarmos de forma sistêmica o nosso modelo de desenvolvimento. Não se trata aqui de um idealismo excessivo, e sim de uma apreciação fria dos nossos desafios.

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Estamos aqui entre pessoas que entenderam que se trata de um sistema que sem dúvida deixou de funcionar, e que está portanto em crise, mas que sobretudo é um sistema que quando funciona é inviável. As soluções têm de ser mais amplas. Esta visão mais ampla pode – e apenas pode – viabilizar mudanças mais profundas.

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A perda de empregos por parte de gente que estava cumprindo bem as suas funções produtivas, porque uns irresponsáveis gostam de ganhar dinheiro com poupança dos outros, gera indignação. A perda da base de sobrevivência de cerca de 300 milhões de pessoas no planeta que viviam de pesca artesanal, porque grandes empresas de pesca oceânica estão acabando com a vida nos mares, está gerando outra faixa de irritações políticas. O caos climático está trazendo as primeiras amostras do seu potencial, e está gerando outros desesperos, além de tomadas mais amplas de consciência. A contaminação da água doce por excessos de quimização, insuficiências clamorosas de saneamento, e esgotamento de lençóis freáticos, está levando a um conjunto de crises setoriais que envolvem desde a redução da pesca até à tragédia de 1,8 milhão de crianças que morrem anualmente por não ter acesso à água limpa, e à ameaça de regiões rurais que dependiam de uma segunda safra com irrigação.

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Ignacy Sachs resume bem o dilema: que desenvolvimento queremos? E para este desenvolvimento, que Estado e que mecanismos de regulação são necessários? Não há como minimizar a dimensão dos desafios. Com 6,7 bilhões de habitantes – e 70 milhões a mais a cada ano – que buscam um consumo cada vez mais desenfreado, e manejam tecnologias cada vez mais poderosas, o nosso planeta mostra toda a sua fragilidade. A questão básica que se coloca para a reformulação do sistema de intermediação financeira é que é criminoso o desperdício das nossas poupanças e do potencial mundial de financiamento no cassino global, quando temos desafios sociais e ambientais desta dimensão e urgência, e que necessitam vitalmente de recursos.

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As alternativas não serão construídas da noite para o dia. Algumas medidas são óbvias, e já estão sendo amplamente discutidas: controlar os paraísos fiscais, taxar os movimentos especulativos, organizar sistemas de controle e regulação sobre os intermediários financeiros, voltar a separar as atividades propriamente bancárias dos investidores institucionais, criar sistemas locais de financiamento e assim por diante. Mas numa visão mais abrangente, temos de estar conscientes de que estamos enfrentando a construção de uma nova institucionalidade. O planeta não sobrevive – e muito menos o bípede curiosamente chamado de homo sapiens – sem amplos processos colaborativos, visão de longo prazo, planejamento e intervenções sistêmicas. O papel do Estado precisa ser resgatado, já não como socorro de iniciativas corporativas irresponsáveis, mas como articulador de um desenvolvimento mais justo e mais sustentável, e com forte participação da sociedade civil organizada.

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Viável? Lamentavelmente, esta não é a questão. As medidas terão de ser tomadas. O aquecimento global, por exemplo, está se dando, e a opção de se queremos ou não enfrentá-lo não está na mesa, e sim o como. A crise financeira representa apenas uma oportunidade – e não uma garantia – para organizarmos uma convergência de forças da sociedade interessadas num desenvolvimento que tenha um mínimo de viabilidade econômica, de equilíbrio social e de sustentabilidade.

Leiam na íntegra em http://diplo.uol.com.br/2009-01,a2772

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Recessão mundial assombra a Europa

Deu no Blog do Miro:

Estudos recentes indicam que o fantasma da recessão mundial, temido desde o estouro da bolha especulativa nos EUA, já assombra a Europa. A primeira nação do velho continente a sentir seus efeitos foi a ex-sólida Dinamarca. Na seqüência, as estatísticas apontaram crescimento negativo também nos dois países motores da União Européia. Pela primeira vez nos últimos quatro anos, a Alemanha registrou queda de 0,5% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre, contra 1,3% de crescimento no primeiro. Já na França, a contração do PIB foi de 0,3% no mesmo período.
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Dura aterrissagem da economia

Chris Giles, articulista do Financial Times, foi um dos que alertou para este risco iminente. Para ele, as notícias dos últimos dias causam “certo choque” para os que acompanham a evolução da economia européia. “O grande medo é o de que a atual desaceleração se torne um ciclo vicioso no qual a fraqueza da economia abala o já frágil sistema financeiro. Para muitos, o que parece certo é a veracidade do velho adágio que diz que, quando os EUA espirram, o resto do mundo pega um resfriado. A conversa sobre descolamento – capacidade das economias de se manterem firmes diante da fraqueza norte-americana – se provou completamente falsa”.
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Abalo nos emergentes do Bric
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Roubini é bem mais pessimista do que Chris Giles, que vê vantagens na retração do mercado de commodities dos países chamados emergentes. De qualquer forma, as previsões de ambos, com base nas informações recentes sobre a retração da economia européia, não são nada animadoras. Como diz o ditado, aonde há fumaça, há fogo. O Brasil que se cuide para não arder em chamas.

domingo, 17 de agosto de 2008

As três crises

Deu no Le Monde Diplomatique:
Cada vez mais intensos, os solavancos das finanças mundiais podem provocar crise sistêmica, e depressão semelhante à de 1929. A esta derrocada estão entrelaçadas a escassez de alimentos e da alta dos combustíveis. Vivemos as conseqüências de 25 anos de neoliberalismo. Mas quando diremos basta?
Ignacio Ramonet
Nunca havia acontecido antes. Pela primeira vez na história da economia moderna, três crises de grande amplitude – financeira, energética e alimentar – estão em conjunção, confluindo e combinando-se. Cada uma delas interage sobre as demais, agravando, de modo exponencial, a deterioração da economia real.
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Como temíamos, a crise financeira continua aprofundando-se. Aos descalabros de prestigiosos bancos norte-americanos, como o Bear Stearns, o Merrill lynch e o gigante Citigroup, somou-se o recente desastre do lehman Brothers, quarto maior banco de negócios, que anunciou, em 9 de junho, um prejuízo trimestral de 2,8 bilhões de dólares. Como foi a primeira perda desde o lançamento de suas ações na Bolsa, em 1994, o resultado teve efeito de um terremoto financeiro, nos já violentamente traumatizados EUA.
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A crise começou nos Estados unidos, em agosto de 2007, com a desconfiança nas hipotecas de má qualidade (subprime) e propagou-se por todo o mundo. Sua capacidade de se transformar e se espraiar por meio da contaminação de complexos mecanismos financeiros faz com que se assemelhe a uma epidemia fulminante, impossível de controlar. As instituições bancárias já não emprestam dinheiro entre si. Todas desconfiam da saúde financeira de suas rivais.
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Da esfera financeira, o problema passou para o conjunto da atividade econômica. De um momento para outro, as economias dos países desenvolvidos sofreram um desaquecimento. A Europa encontra-se em franca desaceleração e os Estados Unidos estão à beira da recessão.
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Da crise financeira passamos à crise social. E políticas autoritárias voltaram a surgir. O Parlamento Europeu aprovou, em 18 de junho passado, a infame “diretiva retorno” [1]. Imediatamente, as autoridades espanholas declararam sua disposição em favorecer a saída da Espanha de um milhão de trabalhadores estrangeiros...
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Como se todo esse contexto não fosse bastante sombrio, a crise alimentar agravou-se repentinamente e chega para nos lembrar que o espectro da fome continua ameaçando quase um bilhão de pessoas. Em cerca de 40 países, a carência de alimentos provocou levantes e revoltas populares. A reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), foi incapaz, em 5 de junho, em Roma, de chegar a um consenso para retomar a produção de alimentos no mundo. Aqui também os especuladores, fugindo do desastre financeiro, têm parte de responsabilidade — porque apostam num preço elevado das futuras colheitas. Até mesmo a agricultura está se “financeirizando”.

Este é o saldo deplorável de 25 anos de neoliberalismo: três veneosas crises entrelaçadas. Já está na hora de os cidadãos gritarem: “Basta!”.

Leiam na íntegra em http://diplo.uol.com.br/2008-08,a2516

domingo, 8 de junho de 2008

A fugaz falência de um grande banco

Deu no Congresso em Foco:
Osvaldo Martins Rizzo*

A confraria financeira internacional está atônita. Um dos maiores bancos de investimento do mundo – o Bear Stearns – entrou em processo de insolvência e faliu em menos de três dias. Enroscado em uma teia de papéis de derivativos de crédito sem lastro, a instituição passou a perder a confiança dos investidores e, em menos de 72 horas, quebrou. Como se sofresse um enfarto fulminante, o quase centenário banco nem chegou a agonizar.
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Muitos aplicadores que, até às vésperas da bancarrota, possuíam cotas dos fundos mútuos administrados pelo banco, enxergando uma oportunidade de auferir lucros, as venderam e passaram a apostar contra o Bear Stearns acelerando a sua quebra. Como chacais famintos, esses ex-parceiros decidiram que a caça estava ferida e mataram-na, temporariamente saciando sua sede de sangue.
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Para mitigar o risco sistêmico, numa operação de socorro que não se via desde a Grande Depressão da década de 1930, montada em um domingo, o Banco Central dos EUA (o Fed) emprestou dinheiro do contribuinte para que outro banco (o JP Morgan) comprasse as ações do Bear Stearns por um preço inferior ao de um hamburger.

Como um gigante desmorona assim tão rapidamente? O que deu tão errado?
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Para tentar saciar a gula dos investidores, alguns pré-enfartados executivos adotam táticas que incluem, até mesmo, fraudar os dados contábeis das empresas visando o anúncio de pseudos lucros suficientes para inflar o valor das ações. Descoberta a fraude, gera-se desconfiança naqueles mesmos que, até então, pressionavam pela obtenção de taxas de retorno acima da média.
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Entorpecidos pelos efeitos alucinógenos causados pela insana ganância, os financistas estão esquecendo que terras, casas, prédios, máquinas, etc são os verdadeiros e únicos ativos. Os papéis (bônus; ações; títulos; etc) não são bens, mas apenas indicam quem é o proprietário deles num determinado momento histórico. O valor do título de propriedade como objeto é ínfimo perante o bem material correspondente.

A realidade da Petrobras, por exemplo, são as suas instalações fabris (plataformas de extração de petróleo; refinarias; oleodutos; etc) capazes de gerar riqueza, e não as suas ações que trocam de mãos nos pregões todo dia. Se uma praga de traças roesse todas as ações, a Petrobras poderia continuar a produzir. Contudo, se as instalações fossem destruídas por bombardeios aéreos, as ações por si só não gerariam outra petrolífera.
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Um grande banco de investimento não existe mais. Certamente a humanidade não sentirá sua falta.
*Osvaldo Martins Rizzo é engenheiro e ex-conselheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Leia na íntegra em http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=22667

domingo, 20 de abril de 2008

Os vigaristas

Deu no Vermelho:
por Sérgio Barroso*
Como podemos errar tanto?
(Alan Greenspan, Valor Econômico/Financial Times, 18/3/2008)
Deus se apiedará da alma – em chamas – desse senhor. Greenspan, chefão do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), por nada menos que 18 anos, multiplicou a riqueza de poucos e iludiu multidões. Desgraçou a vida de incontáveis seres humanos. Como?
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Karl Marx, o inglês J. Hobson – e mesmo um ex-diretor do Fed, o economista C. Kindleberger –, a exemplo, apontaram a especulação como fenômeno endógeno do modern capitalism. Para Marx, as formas do capital (como portador de juros e como fictício) são indissociáveis do desenvolvimento do moderno sistema de crédito. Ao brotar lucro e juros no capitalismo atual – dinheiro que cria dinheiro –, reproduzem uma “nova aristocracia financeira, nova espécie de parasitas... um sistema completo de especulação e embuste” – fulminou Marx (O Capital, Livro 3, Cap. XXVII). Disse Hobson, um liberal: os financistas do final do século 19 especulavam com títulos como numa “casa de jogo”; que “planejavam golpe (coup) contra a Bolsa de Valores” (Evolução do capitalismo moderno, Cap. X).
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Primeiro, porque ele, seguindo mais ou menos os conselhos de Greenspan, passou pelo crivo de um grupelho da alta finança americana – como não podia deixar de ser. Não à toa o liberal Paul Krugman escreveu, comparando: as medidas são “para esconder a falta de idéias práticas sobre o que fazer”; tomadas por “dirigentes [que] gostam de promover grande algazarra quando reorganizam caixinhas e linhas de um organograma informando quem se reporta a quem”.
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Segundo, porque elas fora publicizadas exatamente quando se soube das violentas perdas bancárias com a crise, registradas oficialmente até 1º de abril, a superar os US$ 140 bilhões (blog Deal Journal,The Wall Street Journal, 1/4/2008). As baixas contábeis do banco suíço UBS totalizaram as maiores (US$ 27 bilhões).
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Sexta passada, a Bloomberg subiu o rombo para US$ 195 bilhões; e o banco Lehman Brothers (quarto maior de investimentos dos EUA) declarou a liquidação de três de seus Fundos. Na segunda, seguradoras chiaram o estrago de US$ 38 bilhões.

A quebradeira prosseguirá.
Artigo publicado originalmente em O Jornal (AL), 16/4/2008
*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB. Leia na ńtegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36286

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Estados Unidos: O pior da crise está por vir

Deu na Agência Carta Maior:
Os dois maiores temores atuais são a corrida bancária e uma queda ainda mais pronunciada do dólar. O montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.
Johan Galtung*
TÓQUIO (IPS) – Dia a dia recebemos notícias que soam velhas sobre a crise econômica. E, como é habitual, essas notícias se referem à crise para os ricos e à "economia" como um sistema, mas nunca à miséria no fundo desse sistema. A esta crise dão nomes como “restrições ao crédito”, “falta de liquidez” ou “crise de investidores’. Naturalmente existe uma restrição de crédito e não há dinheiro disponível porque as pessoas da área financeira sabem melhor que ninguém quanto se tornou instável a economia e de que modo as dívidas, incluindo as hipotecas, são empacotadas, vendidas e revendidas até que a dívida original se torne irreconhecível.
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Por que fazem tudo isto? Por que são ardilosos e ambiciosos? Essa é parte da verdade, mas, também procuram garantir seus próprios interesses antes que venha a crise verdadeira. Por boas razões: as instituições financeiras já estão quebrando, os juros das dívidas não estão sendo pagos e a cadeia de instrumentos financeiros (incluindo os seguros) também está desmoronando. Então, por que não tentar obter algum reembolso enquanto existe algum dinheiro e muito poucas normas?
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O mesmo ocoreu nos Estados Unidos, com fundos privados ou federais, com a tentativa de cortar pela raiz uma profecia que por sua própria natureza contribui para não se concretizar. Não se pode saber se terão êxito, ou não. Deve-se dizer que a corrida bancária dos anos 30, não a crise econômica de 1929, esteve na raiz da depressão. O pior está por vir. O dinheiro retirado dos bancos pode se desvalorizar drasticamente, pelo menos por três razões:

Primeiro, o montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.
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Terceiro. Essa dívida é sustentada por bônus norte-americanos em mãos de estrangeiros que estão ansiosos para se livrarem deles. Assim, o mercado se verá inundado de dólares que se agregarão aos recém-impressos, o que depreciará os bônus, os dólares e os Estados Unidos.

As exportações podem se beneficiar se a redução de preços for embolsada pelo comprador e não pelo comerciante. Mas, quanto atraente são atualmente os bens norte-americanos, especialmente os serviços, a qualquer custo? Em sua maioria, o que está subjacente nisto é a “especulação”. O que é isso. Uma expressão mais de uma economia enferma que leva a riqueza para os ricos, de modo que as pessoas morrem abaixo e nadam na liquidez acima. Eles usam a liquidez para obter mais dinheiro, mas, já que a economia real é lenta giram a economia financeira em bens para comprar e vender, não para o consumo, que valorizam rapidamente. Com essa grande liquidez extraída criam uma bolha destinada a se desfazer. Assim foi há alguns anos com as empresas.com e agora com as moradias.
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E o que ocorre? Os bancos que foram, inclusive, criminosos são recompensados com resgates financeiros, enquanto as pessoas, a maior parte delas honesta, são castigadas pela má ação dos bancos. Isto é abominável. Todo dinheiro deveria ser usado pelo menos para amortizar as hipotecas, beneficiando, dessa forma, tanto devedores quanto credores.
* Johan Galtung, professor de Estudos sobre a Paz e fundador da Transcend, rede global sobre paz e desenvolvimento. Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14941

segunda-feira, 31 de março de 2008

Crises e hecatombes

Deu na Agência Carta Maior:
A crise atual poderá ser mais ou menos extensa e profunda, mas não será a crise terminal do poder americano, muito menos do capitalismo. Pode-se pensar numa hecatombe que destrua moedas e estados, mas com certeza, não será o caminho mais curto, nem o mais pacífico, para um mundo melhor.
José Luís Fiori
No início da década de 1970, o economista norte-americano, Charles Kindelberger, formulou uma teoria que exerceu grande influencia acadêmica e política, dentro e fora dos Estados Unidos. Segundo Kindelberger, “a economia mundial liberal precisa de um país estabilizador e só um país estabilizador" . Um país que forneça aos demais, alguns “bens públicos” indispensáveis ao bom funcionamento da economia internacional, como a moeda, o livre-comércio, e a coordenação das políticas econômicas nacionais.
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Os participantes deste debate tinham posições teóricas diferentes, mas quase todos compartiam a tese de que os Estados Unidos estariam vivendo seu “declínio hegemônico”, depois da “crise dos anos 70”. E mais recentemente, quase todos consideram que o fracasso americano no Oriente Médio, e o “derretimento do dólar”, neste início do século XXI, fazem parte já agora, de uma “crise terminal” da hegemonia americana.
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Começando pela “crise dos 70”: hoje se pode ver que não houve declínio, pelo contrário, foi na década de 70 que se definiram as novas políticas e regras responsáveis pela multiplicação exponencial da riqueza e do poder americano, no último quarto do século XX. Foi quando os Estados Unidos deixaram de ser “credores”, e passaram para a condição de “grandes devedores” da economia mundial. Mas ao mesmo tempo, sua dívida e sua capacidade de endividamento se transformaram no primeiro motor da economia mundial, destes últimos 30 anos. Foi também na década de 70, que o “padrão dólar-ouro” foi substituído pelo novo sistema monetário internacional “dólar-flexível”, lastreado, em última instancia, no poder americano, e nos seus títulos da dívida publica.
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Agora de novo, depois do fracasso das Guerras do Afeganistão e do Iraque, e da desvalorização do dólar, provocada pela crise financeira de 2007 e 2008, volta-se a falar no “colapso” e na “crise final” da hegemonia americana . Mas até o momento, ainda não se configurou uma crise estrutural ou global, nem existe sinal de que os Estados Unidos venham a desocupar sua liderança capitalista. Pelo contrário, apesar das suas dimensões, tudo indica ser uma crise “regular”, dentro de um sistema que é, por excelência, contraditório, instável e conflitivo. Dentro das novas regras e estruturas criadas a partir da crise dos 70, os Estados Unidos definem de forma exclusiva o valor de uma moeda que é nacional e internacional, a um só tempo, e que está lastreada nos títulos da dívida pública do próprio poder emissor da moeda.
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Por isto, as “bolhas” são sempre uma ameaça potencial para a economia mundial, mas não são apenas “capital fictício”, nem são apenas “especulação”. São mais do que isto, é um ciclo específico de valorização do capital, que só é possível dentro de um sistema monetário e financeiro desregulado e atrelado diretamente ao endividamento publico do governo americano.

A crise atual poderá ser mais ou menos extensa e profunda, mas não será a crise terminal do poder americano, nem muito menos, do capitalismo. Por enquanto, não é provável uma “fuga do dólar”, porque o euro, o yuan e o yen, não tem fôlego financeiro internacional. E acreditar na criação de uma moeda supra-nacional, é fugir para o mundo da fantasia, desconhecendo o sistema mundial em que vivemos. “Dentro deste sistema, não existe a menor possibilidade de que a liderança da expansão econômica do capitalismo possa sair das mãos dos “Estados-economias nacionais” expansivos e conquistadores, com suas moedas nacionais e com seus “grandes predadores”..” Por fim, como “ciência ficção”, pode-se pensar numa hecatombe que destrua moedas e estados, mas com certeza, não será o caminho mais curto, nem o mais pacífico, para um “mundo melhor”.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3856

Um vôo de galinha

Deu no Vermelho:
por Umberto Martins*
Vôo de galinha foi uma expressão cunhada por alguns economistas para caracterizar os ciclos de produção do capitalismo brasileiro desde que por aqui se instalou o que o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Marcio Pochmann, chamou de crise do desenvolvimento.

O problema começou com a crise da dívida externa, que eclodiu em 1982 através da moratória mexicana e foi causada em grande medida pela violenta alta dos juros nos EUA, promovida de maneira unilateral para salvar o padrão dólar. Nessa crise foi comprometido seriamente o desenvolvimento das economias nacionais em quase toda a América Latina.

Os ciclos de crescimento tornaram-se mais curtos e instáveis, as recessões se sucederam com maior freqüência que durante o nacional-desenvolvimentismo (1930-80) e o resultado geral foi um recuo sensível das taxas médias de crescimento do PIB, a hiperinflação e a estagnação da renda per capita. O encurtamento do ciclo de prosperidade neste período motivou a comparação com o vôo tímido da galinha, ao qual a metáfora contrapõe o vôo da águia, mais alto e mais longo.

Singularidade da crise

Anos atrás, alguns observadores ainda apontavam o exemplo do comportamento da economia estadunidense, aparentemente muito saudável, em contraposição ao desempenho medíocre do PIB no Brasil, também designado de stop and go (pára e arranca). Hoje, já não se fala mais nisto, pois quem parece estar experimentando um autêntico vôo de galinha são os EUA, com a economia mergulhada em grave e profunda crise.
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A recessão de 2001

Os EUA viveram sua última recessão em 2001. Aparentemente, foi uma crise breve, que teria durado apenas os dois primeiros trimestres, em que o valor global da produção recuou. Reagindo aos estímulos do governo e à redução dos juros, o PIB voltaria a apresentar sinais positivos no segundo semestre daquele fatídico ano, apesar dos atentados contra as torres gêmeas em 11 de setembro.
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Fim das ilusões

O vôo de galinha da economia estadunidense transparece quando comparamos o crescimento do seu último ciclo com o anterior. Se considerarmos que a recuperação econômica teve início no segundo semestre de 2001, como sugere o comportamento oficial do PIB, verificamos uma expansão de seis anos.
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Ciclo parasitário

Ao longo do festejado boom verificado na última década do século 20, o Departamento de Comércio dos EUA inventou o falso conceito de Nova Economia (depois amplamente difundido) para caracterizar o ciclo de prosperidade, sugerindo que as tecnologias que revolucionaram as comunicações, criando a internet, subverteram as leis que orientam o processo de reprodução do capitalismo ianque de tal modo que as crises cíclicas teriam sido abolidas. A falácia certamente serviu à propaganda imperialista e ao unilateralismo da Casa Branca, mas não resistiu ao tempo.
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Unidade de contrários

Talvez mais do que em qualquer outra época, o novo ciclo de crescimento iniciado em 2001 refletiu os efeitos do crescente parasitismo no processo de reprodução do capitalismo nos EUA. Estimulado pela dramática redução das taxas de juros e ampliação do crédito, o crescimento da economia após a recessão de 2001 foi puxado pelo consumo, que passou a representar 70% do PIB (equivalia, em média, a 62% do valor da produção nos anos 1980).
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Expansão distorcida

O extraordinário avanço do consumismo não teve contrapartida na produção industrial doméstica, configurando o que o economista americano Robert Brenner chamou de “uma via distorcida de expansão” e que podemos caracterizar também como um ciclo de reprodução parasitário (3). Registre-se que o consumo esteve em expansão, de forma inusitada, mesmo durante a recessão de 2001, o que à primeira vista pode parecer um contra-senso. Todavia, já se sabe que o hiato entre produção e consumo encontra sua explicação nas relações que o imperialismo americano estabelece com o resto do mundo e no seu histórico desequilíbrio comercial.
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Ascensão da China

Graças ao avanço do déficit comercial entre 1992 e 2001, o comércio varejista criou 2,4 milhões de empregos, um aumento de 19%. No mesmo período, a taxa de lucro do ramo subiu todos os anos, num total de 57%, tendo inclusive um aumento de 8% mesmo durante a recessão de 2001, de acordo com Brenner.
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Atividade improdutiva

Se quisermos aprofundar a compreensão do processo de reprodução do capitalismo norte-americano é indispensável recorrer ao juízo fundamental e muito útil de Karl Marx sobre o caráter essencialmente improdutivo da atividade comercial (4). Recordemos que o comércio não produz valor. A criação de valor, ainda hoje, ocorre principalmente nos setores industrial, cujo comportamento, no interior da potência capitalista hegemônica, tem sido desastroso. Assim como os juros, aluguéis e impostos, o lucro comercial é subtraído da mais-valia criada no setor produtivo durante o processo social de redistribuição dos lucros entre os vários ramos em que se repartem os investimentos capitalistas.
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Taxa de acumulação

Com um pouco de imaginação, não será difícil deduzir que a hipertrofia do consumo e do comércio varejista, assim como dos bancos, em associação com a crônica anemia da indústria, são sinais de que o excedente econômico (mais-valia, lucro) gerado no setor produtivo está estagnado ou em queda.
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Em contrapartida, “entre 1994 e 2000 o lucro do setor financeiro dobrou”, de acordo com Brenner. “Já que, no mesmo período, o lucro do setor empresarial não-financeiro” (incluindo o comércio, que como vimos acima vai muito bem) “só aumentou 30%, o lucro do setor financeiro, em relação ao lucro empresarial total, pulou de 23% para 39%”. Uma das expressões do parasitismo é o avanço espetacular das atividades improdutivas, que em nada contribuem para a formação de poupança interna, muito pelo contrário.

Corrosão da poupança

O consumismo, quando exacerbado, revela-se inimigo da poupança. Ao aumento do consumo das famílias correspondeu uma redução substancial da taxa de poupança familiar, que em poucos anos declinou de 8% do PIB para um percentual inferior a 1%. Assim, a outra face da baixa acumulação no setor produtivo é a corrosão da poupança interna, que se tornou negativa ou “chocantemente baixa” nas palavras do economista Joseph E. Stigritz, o que amplia a necessidade de financiamento externo e traduz o parasitismo da sociedade estadunidense. Por definição, a diferença entre poupança e investimentos internos é igual ao déficit em conta corrente, que em 2007 alcançou mais de 800 bilhões de dólares, ou cerca de 7% do PIB norte-americano, e está recuando agora em função da forte queda do dólar.
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Explosão do endividamento

Sem o respaldo da poupança interna, o consumo parasitário, ou seja, maior que a renda produzida no país, só podia ser bancado (como de fato foi) pela explosão do crédito e do endividamento. O aumento dos gastos militares promovido por Bush, por seu turno, ampliou o déficit e a dívida pública, de modo que o modesto crescimento do PIB desde 2001 foi muito mais uma expansão da dívida do que da produção.
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Crise do imperialismo

Marcado de forma acentuada pelo parasitismo, a crise nos Estados Unidos não deve ser encarada como mais uma crise cíclica de curta duração, da qual a potência hegemônica tende a sair com tranqüilidade e mais forte do que antes, como sugerem alguns analistas (5). A turbulência financeira atual “é expressão da crise do imperialismo” e esta não é apenas conjuntural, conforme já assinalou o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo (6).
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Fim de uma era?

A reprodução do capitalismo norte-americano não pode ser bem compreendida se focalizarmos apenas o mercado interno. A forma com que a necessidade de financiamento externo do império vem sendo satisfeita determina o que Brenner chamou de padrão de desenvolvimento econômico internacional, que data da primeira metade da década de 1980 (quanto Tio Sam deixou de ser credor e passou a acumular sua gigantesca dívida externa).

“O aumento pronunciado da importação de produtos industrializados pelos Estados Unidos e do seu déficit comercial”, nota o economista estadunidense, “amplia o déficit norte-americano de transações corrente, expande o endividamento externo do país e alimenta o crescimento baseado em exportações de boa parte do resto do mundo, em especial do leste da Ásia”. Se o dólar continuar afundando, a hegemonia monetária dos EUA irá para o ralo e este padrão de desenvolvimento não será mais sustentável e terá de ser substituído. Não estamos diante de uma hecatombe ou de um colapso, mas o crescimento dos países ditos emergentes, com destaque para a China, em conexão com a redução da importância relativa do mercado estadunidense para o mundo, sugere que já ingressamos numa fase de transição e mudanças, embora ninguém possa antecipar o que virá, pois os partos e as transformações históricas não são indolores. Quem viver verá.


Notas

1-As referências do grande líder da revolução soviética ao conceito de parasitismo, que parece ter sido formulado originalmente pelo economista e historiador inglês John A. Hobson, podem ser encontradas no livro “O imperialismo, fase superior do capitalismo” e nos “Cadernos” de anotações acerca do tema, entre outros textos de W. I. Lênin.

2-No texto intitulado “Para a crítica da economia política”, de acordo com a tradução de José Arthur Giannotti e Edgar Malagodi, o pensador alemão disse o seguinte: “A produção é, pois, imediatamente consumo; o consumo é, imediatamente, produção. Cada qual é imediatamente o seu contrário. Mas, ao mesmo tempo, opera-se um movimento mediador entre ambos. A produção é mediadora do consumo, cujos materiais cria e sem o qual não teria objeto. Mas o consumo é também mediador da produção ao criar para os produtos o sujeito para o qual são produtos. O produto recebe seu acabamento final no consumo (...) Sem produção não há consumo, mas sem consumo tampouco há produção.”

3-A opinião de Robert Brenner pode ser conferida no seu excelente e profético ensaio intitulado “Novo boom ou nova bolha?”, publicado no livro “Contragolpes”, uma seleção de artigos da revista New Left Review, organizado por Emir Sader e editado pela Boitempo.

4- A diferenciação e interação entre o processo de produção e o processo de circulação das mercadorias foram exaustivamente analisadas por Karl Marx. No livro 3 de “O Capital”, em que disseca o processo global da produção capitalista, ele reitera suas idéias sobre o caráter eminentemente improdutivo do capital mercantil (comercial e financeiro). “O capital mercantil é capital que só funciona na esfera da circulação. O processo de circulação é uma fase do processo global de reprodução. Mas, no processo de circulação não se produz valor, nem mais-valia portanto. A mesma quantidade de valor experimenta apenas mudança de forma. Na realidade ocorre somente a metamorfose das mercadorias, a qual por si nada tem com criação ou variação de valor” (Karl Marx, “O capital”, livro 3, capítulo 16, CB, tradução de Reginaldo Sant´ana). O capital comercial, assim como o capital financeiro, apropriam-se, porém, de parte do lucro produzido no setor produtivo, que pode ser maior ou menor do que o lucro retido na indústria, na agricultura e nas atividades que produzem valor e mais-valia.

5- É o caso do professor José Luíz Fiori, cujo artigo intitulado “Crises e Hecatombes”, publicado pelo “Vermelho” dia 26 de março, (leia aqui) sugere que a hegemonia dos EUA, supostamente reafirmada no final dos anos 1970, ainda não está em questão.

6-Ver matéria publicada no “Vermelho” dia 19-08-2007 sob o título “Turbulência financeira é expressão da crise do imperialismo, diz Renato” (leia aqui)
* Umberto Martins, Jornalista, membro da Secretaria Sindical Nacional do PCdoB.
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=34977

terça-feira, 25 de março de 2008

Um mundo cada vez mais perigoso

Deu no Blog do Alon:
Alon Feuerwerker
Brasília, DF - Brasil
O que impressiona na crise americana desencadeada pelos créditos podres no mercado imobiliário é que os especialistas parecem tão ou mais perdidos que os leigos. Claro que os verdadeiros especialistas, os dignos do nome, estão ganhando dinheiro enquanto os supostos especialistas cuidam de dar opinião. Este post me coloca na segunda e populosa categoria, dos que dão palpites. No feriado, tentei chegar a uma definição relativamente sintética das raízes da crise do subprime. Aí vai a opinião do leigo. A economia dos Estados Unidos tomou um tranco porque o país mais rico do mundo não produz riqueza suficiente para, simultaneamente, 1) alimentar o altíssimo nível médio de consumo de seus cidadãos, 2) manter uma máquina militar atuante e capaz de garantir sua hegemonia planetária na era das guerras assimétricas e da emergência de múltiplos países candidatos a potência e 3) poupar e captar poupança suficiente para alavancar um crescimento sustentado. Há quem busque as explicações para a crise na esfera da circulação e das finanças. Eu, que não sou especialista, prefiro enveredar pela observação da produção e do estado da economia nacional da superpotência. Os fatos indicam a atualidade do conceito de imperialismo e a fragilidade das idéias alicerçadas na ilusão de um mundo "globalizado", em que as fronteiras e os estados nacionais perdem progressivamente a importância. Mais de um ano atrás, escrevi em O ambientalismo num só país:
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Clique para ler O ambientalismo num só país. Os crentes na globalização que tentam, por exemplo, viajar à Espanha, sabem do que estou falando. Leia En Barajas se habla portugués, no El País. Veja também este trecho do já célebre discurso de Barack Obama, semana passada, sobre a questão racial nos Estados Unidos. Ele discorria sobre a repetição sistemática de manobras diversionistas nas eleições americanas:
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Uma boa tradução para o português do discurso de Obama está na Folha Online. Na era do imperialismo, o capital financeiro, resultante da fusão de capitais produtivos com capitais originalmente bancários, captura os estados nacionais e os transforma em alicerce da sua expansão. Que tem por objetivo atrair e aprisionar em sua órbita mercados consumidores, força de trabalho e fontes de matérias-primas. Um erro cometido por críticos contemporâneos do imperialismo é imaginar que essa expansão se dá necessariamente promovendo a pobreza e a exclusão social. Leia Deng 2010. Por compreender mal a essência do imperialismo (reflexo disso é a adoção do conceito eclético de "neoliberalismo", que a rigor não significa nada, ainda que todos nós o utilizemos, mesmo que só de vez em quando), a esquerda acaba tentada a imaginar que a luta de classes contemporânea se dá entre ricos e pobres. O que, além de um equívoco intelectual, é também um atalho para o isolamento político e a radicalização sem futuro. Os capitais exportados para a periferia do sistema são um suporte para a criação de valor pelo trabalho -e uma parte desse valor ajuda a elevar o padrão de vida dos trabalhadores. O problema está em outros aspectos. Está na distribuição injusta e desigual do valor criado, na drenagem da riqueza para o centro do sistema e na submissão dos países periféricos aos hegemônicos. O neocolonialismo. De volta à crise dos Estados Unidos. Por que os tomadores de empréstimos para casa própria passaram a ter dificuldade de honrar os compromissos? Ora, porque faltou dinheiro. Mas quando os credores emprestaram dinheiro para as pessoas não o fizeram para tomar calote. Alguma coisa deu errado para que se travasse a roda da bicicleta do crédito imobiliário no Estados Unidos. Assim, é mais razoável supor que o ritmo insuficiente de crescimento da economia americana esteja na raiz da crise do subprime do que o contrário. E por que a economia dos Estados Unidos está de língua de fora? Pela impossibiliade de combinar pacificamente as variáveis descritas no início deste texto. E qual é saída? Em países sem força imperial suficiente, coisas assim resolvem-se habitualmente com inflação e ajuste fiscal. Corta-se o consumo, desvalorizam-se a moeda e os salários e a vida segue, no mais das vezes sob um novo governo. Já os países imperialistas dispõem de outra saída, menos dolorosa para eles e mais problemática para os demais. Eles podem optar por aumentar agressivamente as demandas pela abertura de mercados para seus capitais e por acesso privilegiado a matérias-primas (e energia). Daí que o imperialismo tenda a sair das crises recorrendo à guerra. E, como bem vem notando Barack Obama, o capital é mestre em mobilizar forças internas nas situações de crise explorando o ódio racial, étnico e social. Uma questão chave para a economia americana são as fontes de energia. Os Estados Unidos são, de longe, o maior consumidor de energia, notadamente de petróleo. Os países produtores de petróleo, em sistema de cartel, cuidam de evitar que o preço caia. O ideal para os Estados Unidos seria um mundo em que o fornecimento de petróleo fosse abundante, de modo a que o preço descesse a níveis em que fosse possível manter o padrão de consumo atual dos americanos, mas custando bem menos. O resultado dessa contradição é o crescimento das pressões, militares principalmente, sobre os detentores de óleo. Tratei do assunto quando escrevi sobre a importância da Colômbia na estratégia americana em relação à Venezuela, o país líder no movimento para fortalecer a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Por mais que a paz seja uma aspiração universal legítima, é forçoso admitir que os ventos internacionais não ajudam. Os mais espertos já devem, nesta altura do campeonato, ter lembrado da velha máxima segundo a qual se você deseja a paz deve preparar-se para o cenário contrário.
Leia na íntegra em http://blogdoalon.blogspot.com/2008/03/um-mundo-cada-vez-mais-perigoso-2403.html

quinta-feira, 20 de março de 2008

O poderoso dólar

Deu no SINTAF-RS:
João Pedro Casarotto,
diretor do Sintaf/RS e ex-presidente da Afisvec
A aparente fraqueza do dólar é justamente a maior demonstração da sua força, pois ele está impondo aos demais países o pagamento da conta do ajuste do déficit comercial e das irresponsáveis aventuras financeiras, dos mercados norte-americanos. Eles só estão aplicando o “freio de arrumação“ que além de aglomerar na marra os passageiros mostra quem está no comando.

É como nas guerrinhas “cirúrgicas“, no fim apresentam a conta para todos. E todos mansamente, porque não têm alternativa, pagam!

Estamos presenciando a mais pura demonstração da supremacia dos irmãos do norte. Algumas demonstrações:

1. vendem porcaria a preço de brilhante (papéis do subprime);
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3. provocam uma colossal transferência de renda das demais economias para a sua, via juros, dividendos e lucros;
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5. desdenham o apelo dos impotentes aliados que imploram um mínimo de moderação no seu ajuste;
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7. equilibram a sua balança comercial mediante o aumento das exportações de suas empresas sem competitividade e sem mercado interno; etc.etc.

Inadvertidamente alguns vendem o sonho da breve quebra da hegemonia econômica dos EUA e a conseq¨ente deterioração do padrão-dólar. Puro ilusionismo; hoje ninguém tem força para tanto, pois o Yene e o Euro já ajoelharam e o Yuan está começando a flexionar os joelhos. O nosso sonho de testemunhar a queda do império está longe de acontecer.

Dois exemplos de sonhos que também, para alguns, “indicavam“ a queda do império:

1) FATO: o desmonte da União Soviética e o fim da bipolaridade mundial, SONHO: iniciar-se-ia a formação de vários blocos mundiais (América, Europa, Árabes, Oriente) iniciando a era da multipolaridade mundial;

2) FATO: ataque às torres gêmeas, SONHO: o império reconheceria a sua fragilidade e passaria a ser mais solidário com o resto do mundo.

Esta hegemonia outorga ao Dólar as categorias de parâmetro e de reserva internacional, definidoras da economia dominante. Portanto pensar que os EUA, com sua exuberante hegemonia militar, permitirão ameaças a sua moeda não é sonho, é delírio.
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Assim como no filme famoso, na vida real também o dólar furado salva o mocinho. A única diferença é de que no filme a moeda foi furada pelo bandido e na vida real ela foi furada pelo dedo do proprietário do patacão.
Leia na íntegra em http://www.sintaf-rs.org.br/inf_noticia_detalhe.asp?cod_noticia=2099

quarta-feira, 19 de março de 2008

A China e a crise norte-americana

Deu no Correio da Cidadania:
Escrito por Wladimir Pomar 18-Mar-2008
As previsões "pessimistas" sobre a capacidade da China de sair ilesa da crise norte-americana não estão relacionadas apenas aos seus problemas econômicos. Estão relacionadas, principalmente, com sua nova dimensão internacional, tendo as Olimpíadas de Pequim, em 2008, como fulcro de uma campanha de boicote. Esta envolve "direitos humanos", "liberdades democráticas", "autonomia nacional" e outras pretensas questões negativas que, bem manejadas, podem empanar as Olimpíadas como símbolo do sucesso das reformas chinesas.
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Começando pela economia, em 2007 a moeda chinesa (o yuan ou renminbi-RMB) teve uma valorização superior a 6% contra o dólar americano. E o superávit na conta corrente chinesa foi superior a 370 bilhões de dólares, representando 11,9% de seu PIB, enquanto em 2004 havia sido apenas de 69 bilhões de dólares, ou 3,6% do PIB. Com um superávit dessa ordem, causado pela balança comercial positiva e pelo investimento direto estrangeiro, a China acumulou mais de 1,5 trilhão de dólares em reservas internacionais. Estas representam 25% das reservas mundiais e 44% do PIB chinês.
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Para muitos, esse é o caminho do desastre. No entanto, embora a situação econômica chinesa deva ser vista no bojo dos desequilíbrios macroeconômicos globais, que não podem ser resolvidos unilateral ou bilateralmente, as previsões a respeito do desempenho econômico da China, em 2008 e nos próximos anos, permanecem positivas. É o que veremos nos próximos comentários.
Wladimir Pomar é escritor e analista político. Leia na íntegra em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1568/46/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Poder Mudial e Dinheiro Mundial

Deu na Exit!:
A função económica da máquina militar dos Estados Unidos no capitalismo global e os motivos ocultos da nova crise financeira
por Robert Kurz
Nota prévia (22.01.2008): O texto que segue foi escrito em Novembro de 2007 para a revista de debates de esquerda "Widersprüch" (Zurique) e aí foi publicado no início de Janeiro [nº 53]. Sob o signo da crise financeira em curso e do mais recente crash bolsista, ele adquire uma actualidade insuspeitada.
Desde 1989, quando se fala do "fim de uma era", na maior parte dos casos as pessoas referem-se à queda da RDA e do socialismo de Estado, na Rússia e na Europa Oriental; na sua sequência, ao fim da guerra-fria entre os blocos e ao desaparecimento das guerras "quentes" por procuração, nos pátios das traseiras do mercado mundial. Segundo os eufóricos da liberdade de então, a suposta vitória do capitalismo, paralelamente à generalização inevitável da "economia de mercado" e à constituição de um espaço económico unificado global segundo o padrão ocidental, deveria anunciar uma nova era de prosperidade global, desarmamento e paz. Esta expectativa revelou-se completamente ilusória. Nos últimos 17 anos desenvolveu-se realmente bem o contrário dos prognósticos interesseiros dos optimistas profissionais. A globalização trouxe, em levas sucessivas, cada vez mais zonas de pobreza em massa, guerras civis sem perspectiva, e um terrorismo pós-moderno neo-religioso que não se pode qualificar senão como bárbaro. O Ocidente, sob a direcção da última potência mundial, os Estados Unidos da América, reagiu a tudo isso com "guerras de ordenamento mundial" com igual falta de perspectivas e com uma precária administração da crise planetária (sobre isso vd. Kurz, 2003).
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A interpretação aqui esboçada a traços largos no fim dos anos 90 era considerada com cabimento e até plausível, pelo menos junto de parte da crítica social de esquerda. Entretanto, as pessoas habituaram-se a que o capital pareça poder de algum modo viver, mesmo com uma acumulação simulada de bolhas financeiras ("jobless growth"). E a mais recente industrialização para exportação na Ásia, sobretudo na China, não apontará para uma nova era de crescimento real, só que já não na Europa? Simultaneamente as guerras de ordenamento mundial parecem reduzir-se, de forma muito banal, aos ordinários interesses do petróleo, pois ameaça faltar o "produto" para a cultura de combustão capitalista. Perante este pano de fundo, será que vem aí uma nova concorrência imperialista de blocos, por exemplo entre os Estados Unidos, a União Europeia e a China? Com tais considerações, a esquerda regride em grande parte, com certas modificações, ao seu velho padrão de pensamento anterior à mudança de era. Existem, porém, boas razões para crer que esta reinterpretação fornece uma mera caricatura da realidade que, vista mais de perto, se apresenta de modo completamente diferente. Neste contexto é essencial o estatuto político-económico da última potência mundial, os Estados Unidos da América, no capitalismo de crise global.

A crise do dinheiro e do sistema monetário mundial

A crise mundial da terceira revolução industrial e da globalização das últimas duas décadas remonta, por assim dizer, a uma crise do dinheiro que já há muito tempo está a cozinhar em lume brando, nomeadamente desde a primeira guerra mundial. Até aí o carácter do dinheiro, como "mercadoria à parte" (equivalente geral) dotada de uma substância de valor autónoma, era reconhecido de forma quase unânime. Por isso as moedas dos grandes países capitalistas tinham de ter "cobertura" em reservas de ouro nos bancos centrais. O ouro era o verdadeiro dinheiro mundial, a "lingua franca" do mercado mundial; e a libra esterlina da potência mundial de então, a Grã-Bretanha, só pôde funcionar como moeda mundial graças ao seu "padrão-ouro". Contudo, as economias industriais de guerra das duas guerras mundiais e as forças produtivas da segunda revolução industrial (produção em massa fordista, linha de montagem, "automobilização") deixaram de poder ser expressas, mesmo numa circulação acelerada, na "vinculação ao ouro" do dinheiro, que por isso teve de ser cortada. Por outras palavras: a substância de valor do dinheiro, que se baseia na substância condensada de trabalho do metal nobre ouro, não podia ser mantida. Por isso a "dessubstancialização" se fez sentir no plano do dinheiro, equivalente geral como "mercadoria-rainha" e forma de aparência do capital, já muito mais cedo do que no plano da vulgar "ralé da mercadoria", onde ela só hoje se torna manifesta, na terceira revolução industrial. A consequência foi a "inflação secular", completamente desconhecida no século XIX, a ininterrupta desvalorização do dinheiro – ora galopante (hiperinflação), ora latente.
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Contudo, uma vez que não chegou a vir a grande catástrofe, apesar da crise monetária mundial dos anos 70, o problema do dinheiro e da moeda é considerado desde então empiricamente resolvido, mesmo entre os teóricos de esquerda: contrariamente à opinião de Marx, o carácter do dinheiro como "mercadoria à parte", com substância de valor própria, teria passado definitivamente à história (veja-se por exemplo Heinrich 2004). Mas a prática, de modo algum segura, de relações monetárias flexíveis no espaço de tempo historicamente curto de poucas décadas nada de essencial diz ainda sobre a sustentabilidade da nova constelação, tanto mais que as crises monetárias na periferia, nos anos 90 na Ásia e após a viragem do século na Argentina, apontam para um problema que continua latente.

Do dólar-ouro ao dólar-armamento

A crise monetária mundial dos anos 70 apenas terminou sem grandes prejuízos porque o dólar, apesar da perda da convertibilidade em ouro, conseguiu manter quase intacta a sua função de dinheiro mundial, isto é, como moeda de reserva e do comércio mundial, à falta de uma alternativa credível. Caso contrário, o resultado teria sido já então a repetição da catástrofe dos anos 30, elevada a um patamar superior, pois sem a função de um dinheiro mundial o mercado mundial tem de implodir. No entanto, a reconstituição do dólar como moeda mundial ocorreu sobre um fundamento completamente novo. Em lugar da substância de valor do dinheiro alicerçada em ouro surgia agora, efectivamente, uma espécie de garantia "política", contudo não apenas jurídico-formal, mas essencialmente militar. A moeda da potência mundial, ou "superpotência" do hemisfério ocidental, assumia agora a sua função de dinheiro mundial apenas em razão desta base de poder.
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A astronómica dívida ligada a este processo de militarização económica deixou de poder ser financiada com as poupanças próprias já nos anos 80. Mas a potência económica da máquina militar também se repercutiu nas relações externas. Era precisamente o poder militar dos EUA como "polícia mundial" que parecia oferecer um "porto seguro" aos mercados financeiros globais. Esta impressão iria ainda reforçar-se consideravelmente após a suposta vitória sobre o sistema contrário do Leste. O dólar conservou a sua função de dinheiro mundial ao metamorfosear-se de dólar-ouro em dólar-armamento. E o carácter estratégico das guerras de ordenamento mundial, nos anos 90 e após a viragem do século, no Próximo Oriente, nos Balcãs e no Afeganistão, consistia em primeira linha em perpetuar o mito do "porto seguro" e, com ele, o dólar como moeda mundial através da demonstração de capacidade de intervenção militar global. Nesta base, em última instância irracional, o capital monetário excedentário na terceira revolução industrial (já não susceptível de investimento real rentável) fluiu cada vez mais de todo o mundo para os EUA, financiando assim indirectamente a máquina militar e do armamento.

A maior bolha financeira de todos os tempos e o milagre do consumo dos Estados Unidos

O limite interno da valorização real do capital na terceira revolução industrial promoveu por todo o lado a fuga para a superstrutura do crédito e para uma economia de bolhas financeiras. Esta economia de crise do capital financeiro teve forçosamente que se concentrar no suposto "porto seguro" do espaço do dólar. Quanto mais capital monetário excedentário vagueava pelos mercados financeiros globais, tanto maior se tornava a força de sucção dos EUA para absorver estas torrentes monetárias. Deste modo se formou in Gods own country "a mãe de todas as bolhas financeiras". Através da venda de títulos do tesouro americanos em todo o mundo não só se financiou o boom do armamento endividado. Paralelamente a isso também inflaram nos EUA os mercados de acções nos anos 90 e os mercados imobiliários após a viragem do século. Assim se lançaram as bases de uma nova qualidade do endividamento.
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O boom do consumo alimenta-se, até hoje, não tanto de rendimentos salariais regulares como, e em primeiro lugar, das bolhas financeiras dos mercados de acções e do imobiliário. Os ganhos diferenciais, provenientes dos aumentos fictícios do valor dos respectivos títulos de propriedade, devido à sua ampla dispersão, reflectiram-se em milhões de casos de endividamento com cartões de crédito e créditos hipotecários, numa escala nunca antes vista. A garantia era constituída precisamente pelos preços acrescidos, primeiro das acções e depois do imobiliário. O ingresso maciço do capital monetário excedentário de todo o mundo para o suposto porto "seguro" do dólar foi encaminhado para financiar, não apenas o consumo armamentista endividado, mas igualmente o consumo privado endividado. Esta é a maravilhosa máquina do dinheiro que tem alimentado o milagre do consumo dos Estados Unidos.

O circuito do deficit do Pacífico e a conjuntura mundial

A fraqueza da economia real dos EUA no mercado mundial revelou-se num deficit da balança comercial que não parou de se avolumar. Em termos relativos, na economia interna da última potência mundial, dominada pelo complexo armamentista e pela prestação de serviços, foram sendo produzidas cada vez menos mercadorias industriais; em algumas áreas a regressão foi mesmo absoluta. A maior parte dos cidadãos americanos, que se puderam endividar com base no crescimento duradouro do preço das acções e dos imóveis, consumiam cada vez mais mercadorias produzidas noutros países. Assim foi impulsionado um circuito do deficit global, que se fez notar pela primeira vez nos anos 80, acelerou nos anos 90 e hoje começa a sobreaquecer. Se, em primeiro lugar, tinha sobretudo deslizado para negativo a balança comercial com o Japão, o deficit não tardou a crescer também face aos pequenos Estados asiáticos e face à Europa, para finalmente transbordar de forma incrível, no tráfego de mercadorias com os colossos Índia e China. Hoje quase já não existe uma zona industrial do mundo que não tenha saldo positivo no comércio com os EUA.
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A estrada de sentido único da exportação da Ásia sobre o Pacífico para os EUA transformou entretanto o circuito do deficit num volante que move toda a economia mundial. A indústria europeia não só fornece, como outras regiões do mercado mundial, uma parte dos seus excedentes aos EUA por via directa, como ao mesmo tempo exporta cada vez mais componentes de produção para a máquina trituradora da exportação asiática (sobretudo no sector da construção de máquinas). A famigerada "retoma" dos últimos anos deve-se quase exclusivamente a esta economia-vudu. É verdade que, periodicamente, há avisos para o perigo destes crescentes "desequilíbrios da economia mundial" sob a forma dos deficits externos acumulados dos EUA. Mas, uma vez que tudo de algum modo se tem passado bem há tanto tempo, na maior parte dos casos o alarme é desactivado logo a seguir.

O cenário da crise do crédito e do dólar que aí vem

Durante o ano de 2007, contudo, concentraram-se ameaçadoras nuvens negras no horizonte da economia mundial. Tal não podia deixar de acontecer: Está a esvaziar-se a bolha do imobiliário americano, principal combustível do consumo nos últimos anos, e os preços das casas estão a baixar a olhos vistos. Deste modo, os créditos hipotecários no sector "subprime" (devedores sem capital próprio digno de menção) começam a ficar em maus lençóis a uma escala maciça. A dimensão que a crise financeira crescente poderá assumir já se revelou em poucos meses: De repente, bancos e caixas de poupança de muitos países viram-se sob uma pressão maciça no sentido de amortizarem crédito mal parado, porque os títulos da dívida americana circulam à escala global. Mas isto foi apenas o começo. Em virtude dos ciclos de rotação do capital de crédito e do capital real, que muitas vezes se estendem ao longo de anos, a verdadeira dimensão da crise do crédito só se tornará visível nos anos de 2008 a 2010. Se, neste espaço de tempo, o consumo americano sofrer uma ruptura profunda, não só se tornará efectivo o revés nos mercados globais de acções, mas também ficará paralisado o circuito do deficit do Pacífico e, com ele, a conjuntura mundial. Ninguém pode prever com exactidão a sua dimensão, mas a crise ameaça ultrapassar todos os fenómenos de crise da terceira revolução industrial dos últimos 20 anos.
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O lugar do dólar, porém, não pode ser ocupado por nenhum outro dinheiro mundial, ainda que haja muita propaganda a favor do Euro nesse sentido. O Euro não pode assumir o lugar do dólar porque não tem bases para isso, nem em ouro, nem em armamento. A crise do dinheiro mundial e o potencial de inflação a ela associado apontam para uma amadurecida crise do dinheiro em geral. É o que se esboça também na imparável subida do preço do ouro, com sucessivos novos recordes, que acompanha a crise monetária em formação: O carácter de mercadoria do dinheiro, com substância de valor própria, impõe-se na crise. O ouro, de simples matéria-prima, torna-se novamente no "verdadeiro" dinheiro, ou dinheiro mundial, mas as forças produtivas da terceira revolução industrial já não podem ser mediadas como movimento do mercado mundial com base no ouro. Seria como tentar esvaziar o oceano como uma colher de café em ouro. A situação do período entre as duas guerras ameaça regressar, mas num nível de desenvolvimento muito mais elevado.

Crise mundial, ideologia mundial e guerra civil mundial

O que se espera da crítica social emancipatória nesta situação de um limite interno histórico do capitalismo é a redefinição de socialismo, para lá das formas fetichistas da mercadoria, do dinheiro, do Estado nacional e das relações de género que lhes estão associadas. Porém, na medida em que a esquerda, em vez disso, regressa aos seus velhos padrões de interpretação e procura uma nova "força" imanente às novas constelações mundiais, susceptível de ser ocupada positivamente, ela própria ameaça tornar-se reaccionária. Nestas circunstâncias, a crítica do capitalismo converte-se muitas vezes em anti-americanismo e anti-semitismo aberto ou estrutural. As "formas de pensamento objectivas" (Marx) do fetiche capital, que incluem uma "inversão da realidade", constituem (se não forem destruídas) o fundamento para uma digestão ideológica da crise, como a que já no período entre as duas guerras levou a resultados devastadores. No contexto da globalização do capital, o resultado é uma ideologia mundial assassina. Causas e efeitos são invertidos: a crise do crédito surge, não como efeito do esgotamento da acumulação real, mas como resultado da "avidez do capital financeiro" (uma ideia desde há 200 anos ligada aos clichés anti-semitas); o papel dos Estados Unidos e do dólar-armamento surge, não como condição comum transversal a todo o capital globalizado, mas como opressão imperial sobre o resto do mundo.
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A crise mundial da terceira revolução industrial, que vai amadurecendo e para cuja administração não há nenhum novo "modelo de regulação" à vista, certamente não vai simplesmente prosseguir o seu caminho económico. Na situação económica insuperável da nova constelação de crise global que se vislumbra, mais ainda que em anteriores rupturas na história da modernização, espreita o perigo de uma "fuga para a frente" irracional, em direcção à guerra mundial. Porém, no nível de desenvolvimento da globalização, esta já não pode ser nenhuma guerra entre blocos de poder, entre impérios nacionais, por uma "nova partilha do mundo". Haveria que falar antes de uma nova guerra civil mundial de tipo novo, tal como já se apresentou nas guerras de "desestatização" e de ordenamento mundial, desde a queda da União Soviética, que talvez não tenham passado dos seus prenúncios. Nunca a palavra de ordem "socialismo ou barbárie" teve tanta actualidade como hoje. Mas, simultaneamente, no final da história da modernização, o socialismo tem de ser reinventado.

Bibliografia

Hardt, Michael/Negri, Antonio (2004): Multitude. Krieg und Demokratie im Empire [Multitude. Guerra e Democracia no Império], Frankfurt/Nova Iorque

Heinrich, Michael (2004): Die Wissenschaft vom Wert [A Ciência do Valor], Münster

Kennedy, Paul (1993): In Vorbereitung auf das 21. Jahrhundert [A Preparação para o Século XXI], Frankfurt/Main

Knapp, Georg Friedrich (1905): Staatliche Theorie des Geldes [A Teoria Estatal do Dinheiro], Munique e Lípsia

Kurz, Robert (2003): Weltordnungskrieg. Das Ende der Souveränität und die Wandlungen des Imperialismus im Zeitalter der Globalisierung [A guerra de ordenamento mundial. O fim da soberania e as metamorfoses do imperialismo na era da globalização], Bad Honnef

Kurz, Robert (2005): Das Weltkapital. Globalisierung und innere Schranken des modernen warenproduzierenden Systems [O Capital Mundial. A Globalização e os limites internos do sistema produtor de mercadorias moderno], Berlim

Thurow, Lester (1996): Die Zukunft des Kapitalismus [O Futuro do Capitalismo], Düsseldorf/Munique

Original WELTMACHT UND WELTGELD. Die ökonomische Funktion der US-Militärmaschine im globalen Kapitalismus und die Hintergründe der neuen Finanzkrise in www.exit-online.org. Publicado no nº 53 da Revista Widersprüch (Zurique), Janeiro de 2007 http://www.widerspruch.ch/53.html

Robert Kurz Nascido
em 1943, estudou Filosofia, História e Pedagogia. Vive em Nurenberg como publicista autónomo, autor e jornalista. É co-fundador e redator da revista teórica EXIT! - Kritik und Krise der Warengesellschaft (EXIT! - Critica e Crise da Sociedade da Mercadoria). A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a critica do iluminismo e a relação entre cultura e economia. Publica regularmente ensaios em jornais e revistas na Alemanha, Áustria, Suiça e Brasil. O seu livro O Calapso da Modernização (1991), também editado no Brasil tal como O Retorno de Potemkine (1994) e Os Últimos Combates, (1998) provocou grande discussão e não apenas na Alemanha. Mais recentemente publicou Schwarzbuch Kapitalismus (O Livro Negro do Capitalismo) em 1999 e weltordnungskrieg (A Guerra de Ordenamento Mundial) Die Antideutsche Ideologie (A Ideologia Anti-alemã) em 2003, e Blutige Vernunft (Razão Sangrenta) em 2004 não editados em português. Leia na íntegra em http://obeco.planetaclix.pt/rkurz283.htm