Textos seletos de política internacional, nacional (Brasil) e local (Rio Grande do Sul e Porto Alegre).
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
O declínio da hegemonia dos EUA e os desafios para um projeto de esquerda
Deu na Agência Carta Maior:Carta Maior - O título do seu livro mais recente, “Fórmula para o Caos – A derrubada de Salvador Allende, 1970 1973”, sinaliza desde logo a interferência de forças desestabilizadoras na trajetória das lutas sociais na América Latina. Mas sua análise tampouco hesita em apontar equívocos nos projetos abraçados pelos partidos e organizações progressistas da região. Poderia ter sido diferente no Chile, se a esquerda tivesse conduzido o processo com maior flexibilidade política? Moniz Bandeira – No prefácio à sua obra "Crítica à Economia Política" (Zur Kritik der Politschen Ökonomie), Karl Marx sustentou, como conclusão de suas pesquisas, que uma formação social nunca desmorona sem que as forças produtivas dentro dela estejam suficientemente desenvolvidas, e que as novas relações de produção superiores jamais aparecem, antes de que as condições materiais de sua existência sejam incubadas nas entranhas da própria sociedade antiga. Este não era o caso do Chile, um país economicamente muito mais atrasado que o Brasil, inserido no mercado mundial capitalista, do qual pesadamente dependia para suas exportações de cobre e até mesmo para a importação de alimentos. E Marx jamais concebeu o socialismo como via de desenvolvimento ou modelo alternativo para o capitalismo, senão como conseqüência da expansão das forças produtivas do capitalismo.A hegemonia dos EUA na América Latina se desvanece como decorrência do fracasso das ditaduras militares e das políticas neoliberais aplicadas por governos democráticos. O neoliberalismo desmoralizou-se, o Estado voltou assumir função de organização do sistema produtivo. Mas a esquerda segue sem uma plataforma. "Grande parte da esquerda, sem conhecer o pensamento de Marx, continua a pensar conforme os parâmetros gerados ao tempo de Stalin", avalia o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira.
Redação - Carta Maior
Ganhe quem ganhar as eleições desta terça-feira, o novo presidente dos EUA tomará posse em 20 de janeiro de 2009, em meio a uma crise mundial que alguns avaliam como igual, ou pior que a de 1929. Daquela emergiu a liderança transformadora de Franklin Roosevelt nos EUA; mas também houve Hitler, na Alemanha e ambos se viabilizaram através de uma Guerra Mundial.A única certeza, desta vez, é que não será uma simples troca de guarda no trono do império. Os EUA constituem o epicentro de um colapso que marca o fim da supremacia dos mercados financeiros desregulados em todo o planeta. A implosão dessa engrenagem liberou massas de instabilidade descomunais. Dia a dia sua propagação avança em movimentos assimétricos, sem que se possa antever ainda, com toda clareza, qual será a real extensão dos abalos econômicos, bem como os desdobramentos políticos que ela trará.
Um marcador inaugural do ciclo que agora se fecha poderia ser 11 de setembro de 1973.
O local, o Chile, de Salvador Allende. A parteira da história: as baionetas, metralhadoras e caças aéreos mobilizados para atacar La Moneda, o palácio presidencial onde o médico socialista Salvador Allende morreria. Pelas mãos da Junta militar liderada pelo General Augusto Pinochet, o neoliberalismo radical de Hayek e Friedman deixaria os laboratórios de economia de Chicago para voltar à história. O ensaio chileno antecederia em quase uma década as políticas consagradas pelo Consenso de Washington que agora desabam ruidosamente.
Depois de um ciclo que começou em sangue, e termina agora em desastre econômico planetário, qual será o passo seguinte da história? Que lições o passado oferece ao futuro para evitar a repetição de erros, ilusões e tragédias? Em que medida a crise amplia ou restringe o espaço de autonomia política dos povos latino-americanos? Até que ponto ela enfraquece a capacidade de intervenção norte-americana, inviabilizando novos golpes e ações violentas como a que derrubou Allende? Quais os trunfos, e limites, para um avanço das agendas progressistas na região?
Para responder a essas e outras urgências, Carta Maior entrevistou o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira. Professor titular de História da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília (UnB), hoje aposentado, Moniz Bandeira é autor de mais de 20 livros que o credenciam como uma voz obrigatória nesse momento. O título de sua obra mais recente, lançada simultaneamente no Brasil e no Chile, sintetiza essa pertinência: “Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende (1970-1973)”.
Da Alemanha onde mora há treze anos, tendo sido professor visitante nas Universidades de Heidelberg e Colônia, Moniz Bandeira respondeu por email às perguntas de Carta Maior. Suas palavras estão marcadas pela ênfase nas diferenças entre a América Latina de Allende e a atual de Lula, Chávez e Morales. Ainda que anteveja um declínio do intervencionismo norte-americano, por conta da crise em marcha, o cientista lembra que a CIA não deixou de operar na região. Ele não vê risco de a crise enfraquecer as lideranças regionais, transformando-as potencialmente em novos “Allendes”, mas insiste que não há espaço para erros de avaliação estratégica. A natureza e a extensão das transformações regionais, no seu entender, obedece a limites impostos pelo grau de desenvolvimento do capitalismo na realidade latino-americana.
A seguir entrevista de Moniz Bandeira à Carta Maior:
O próprio Lenin acentuou, por volta de 1905, que o proletariado russo sofria mais por causa do atraso do capitalismo do que pelo seu desenvolvimento. E a Rússia possuía um parque industrial, com 4 milhões de operários, quando correu a revolução de 1917. Não obstante, o presidente Salvador Allende tentou mudar o modo de produção no Chile, isto é, implantar o socialismo em um país imensamente mais atrasado que a Rússia em 1917, sem que houvesse condições econômicas e sociais, bem como condições externas, alinhando-se com Cuba e a União Soviética, dentro do contexto da Guerra Fria. No meu livro "Fórmula para o Caos" analiso todos esses problemas, tanto do ponto de vista teórico quanto empírico, com base nos documentos da época.
Esta cláusula foi argüida pelo Brasil para impedir o reconhecimento do golpe contra Chávez, em 2002, isolando os Estados Unidos, que terminaram capitulando. Quanto a Chávez e Morales, ao contrário de Salvador Allende e da Unidade Popular, eles não têm nenhum projeto definido, visando à mudança do modo de produção, e ainda assim as iniciativas que tomam defrontam-se com enorme resistência interna, tanto na Venezuela quanto na Bolívia. Ambos os países estão politicamente fraturados e não se pode dizer que a situação, sobretudo na Bolívia, seja estável.
A atual valorização (do dólar) se deve ao fato de que as corporações multinacionais estão vendendo suas posições nas bolsas de valores, seus ativos no exterior, a fim de remeter dólares para cobrir os buracos nas suas matrizes, seja nos Estados Unidos ou na Europa. A partir de outubro, parte substancial dos recursos, que entrou nos Estados Unidos, proveio do socorro por fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio, que adquirem títulos conversíveis em ações de bancos americanos, como o Citigroup, cujas ações ordinárias foram compradas pelo fundo soberano de Abu Dhabi por US$ 7,5 bilhões. Também foram incrementadas as operações de resgate por parte dos bancos centrais para evitar que os bancos pusessem à venda ativos podres, o que precipitaria a débâcle.
Se todos os conservadores de Washington dizem “agora somos todos keynesianos, i. e., passaram a reconhecer que o Estado deve ser a instância superior de comando e organização do sistema produtivo, os governantes, considerados progressistas, na América do Sul não podem dizer “agora somos todos Allendes”. Allende viveu sob o impacto da Revolução Cubana e imaginou que podia implantar o socialismo no Chile, um país economicamente dependente, e contar com o apoio da União Soviética, sem saber que ela já estava enfrentando severa crise econômica.
Na verdade, a União Soviética buscava um entendimento com o Ocidente, consulado com o Tratado Quatripartite, que resolveu a questão de Berlim e das duas Alemanhas. A época atual é outra, bem distinta da existente nos anos 1960 e 1970. Allende foi um grande homem, um idealista, que tinha um projeto bem definido. Mas é o passado de uma ilusão. E tanto Evo Morales quanto Hugo Chávez surgiram em outras circunstâncias históricas e exprimem as idiossincrasias sociais e políticas de seus respectivos países, que não são as mesmas do Chile. E, de qualquer forma, nenhum deles tentou mudar completamente o modo de produção, o que é impossível em países atrasados, isoladamente, pois estão inseridos dentro de uma economia mundial de mercado, regida pelas leis do capitalismo. O capitalismo foi o único modo de produção que teve capacidade de expandir-se mundialmente e abrange não apenas as potências industriais, mas também todos os países periféricos, em desenvolvimento ou atrasados. É necessário que a esquerda volte a ler Marx, Rosa Luxemburgo e abandone os estereótipos gerados pelo stalinismo.
O Muro de Berlim, monumento da Guerra Fria, do conflito Leste-Oeste mundial, esbarrondou-se, o que possibilitou a reunificação da Alemanha, em 3 de outubro de 1990. A confrontação de poder bipolar, marcada pelo antagonismo ideológico, político e militar, desvaneceu-se, e a própria União Soviética, em 1991, desintegrou-se, confirmando a previsão feita em 1935 por Leon Trotsky, segundo a qual, se não houvesse uma revolução política e não fosse restabelecida a democracia, com plena liberdade dos sindicatos e dos partidos políticos, a restauração da propriedade privada dos meios de produção tornar-se-ia inevitável e a nova classe possuidora, para as quais as condições estavam criadas, encontraria seus servidores entre os burocratas, técnicos e dirigentes, em geral, do Partido Comunista.
A expansão do capitalismo, para a qual as fronteiras do Leste Europeu se reabriram, voltará ao ponto em que fora atalhada, prematuramente, pela tentativa de implantação do socialismo em uma Rússia atrasada. Nela, a renda pública per capita era oito a dez vezes inferior à dos Estados Unidos, com baixa produtividade do trabalho, devido ao pequeno peso específico da indústria na sua economia.
CM - O keynesianismo de Brown e Sarkozy deve ser levados a sério?
MB – As medidas consideradas keynesianas de Brown e Sarkozy foram determinadas pela necessidade, em face da crise financeira. É bom recordar que, segundo Marx e Engels, quando o Estado intervém na economia, não debilita, antes fortalece a propriedade privada, o capitalismo. E os velhos esquemas ideológicos não mais funcionam na Europa, porque não se renovaram, não acompanharam as mudanças ocorridas na sociedade. Grande parte da esquerda ainda imagina um proletariado que não mais existe na realidade, que não é mais o mesmo que nos tempos de Marx ou no início do século XX.
Leiam na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15349
sábado, 11 de outubro de 2008
A importância geopolítica da América do Sul na estratégia dos Estados Unidos
Deu na Revista Espaço Acadêmico:
Luiz Alberto Moniz Bandeira*
“Procuremos precisar quais os interesses em jogo na questão. Petróleo! Exclamam de todos os lados. O petróleo opera prodígios, tem ditado a política internacional das grandes potências, assentou e derrubou governos, abalou uma dinastia, criou fortunas fabulosas e conta entre os seus servidores estadistas dos mais notáveis”.O conflito entre a Rússia e a Geórgia mostrou que o “arc of crisis”, que Zbigniew Brzezinski dizia estender-se do Paquistão até a Etiópia, circundando o Oriente Médio, é muito mais amplo e abrange toda a Ásia Central e o Cáucaso. Diante de tal situação, a importância geopolítica da América do Sul aumentou ainda mais, na estratégia de segurança dos Estados Unidos, que buscam fontes de fornecimento de gás e petróleo em regiões mais estáveis. O próprio Halford J. Mackinder, na sua conferência sobre o "The Geographical Pivot of History, em 1904, ressaltou que o desenvolvimento das vastas potencialidades da América do Sul podia ter “decisive influence” sobre o sistema internacional de poder e fortalecer os Estados Unidos ou, do outro lado, a Alemanha, se desafiasse, com sucesso, a Doutrina Monroe.[4]Embaixador José Joaquim Moniz de Aragão, secretário-geral do Itamaraty, durante a Guerra do Chaco, 1934[1]“No matter how selfless America perceives its aims, an explicit insistence on predominance would gradually unite the world against the United States and force into impositions that would eventually leave it isolated and drained”.Henry Kissinger[2]“A América é a terra do futuro, na qual, em tempos vindouros, haverá algo como uma contenda entre a do Norte e a América do Sul, e onde a importância da História Universal deverá manifestar-se”.[3]G. W. F. Hegel
Os Estados Unidos e a Alemanha, desde fim do século XIX, já se haviam tornado as duas maiores potências industriais do mundo e conseqüentemente rivais. Porém, ao contrário da Alemanha, que não possuía qualquer domínio importante, ao qual pudesse estender o círculo de consumo para o capital, os Estados Unidos dispunham de enorme espaço econômico. As Américas Central e do Sul, assim como o Caribe, configuravam uma espécie de colônia, a única região do mundo, em que não havia séria rivalidade entre as grandes potências. Lá os Estados Unidos eram, praticamente, “soberanos” e seu fiat tinha força de lei, conforme o secretário de Estado, Richard Olney, escreveu em 1895. E acrescentou que os “infinite resources” da América (Estados Unidos), combinados com sua posição isolada, tornavam-na “master of the situation and practically invulnerable as against any or all other powers”. [5] Nem a Alemanha nem a Grã-Bretanha nem a França quiseram desafiar a Doutrina Monroe, expressão de uma política unilateral dos Estados Unidos, formulada em 2 de Dezembro de 1823, pelo presidente James Monroe (1817-1825).
O que disse Halford J. Mackinder a respeito do "closed heartland of Euro-Asia", afirmando que o Estado que o controlasse teria condições de projetar o poder de um lado para o outro lado da região e era inaccessível a uma força naval, aplica-se aos Estados Unidos, mas no sentido inverso. Com um território distendido ao longo da América do Norte, entre dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, os Estados Unidos não tinham vizinhos que pudessem ameaçar sua segurança. Seu extensivo litoral impedia que qualquer bloqueio fosse efetivamente mantido[6]. E, ao ascender ao primeiro lugar no ranking das maiores potências industriais, nos anos 1890, os Estados Unidos começaram a robustecer seu poder naval, até então menor que o do Brasil, Argentina ou Chile. [7] Assim puderam projetar sua influência, para um lado e para o outro, i. e., para o Ocidente e o Oriente, avançando sobre os mares, que a Grã-Bretanha ainda controlava, como o “chief builder and shipowner”, com “vast imperial responsabilities” na Ásia e na África.[8]
O comandante Alfred T. Mahan foi quem racionalizou a construção do poder naval dos Estados Unidos, argumentando que a grandeza de uma nação dependia do seu comércio no além-mar, o comércio dependia do poder naval e o poder naval, de colônias. Sem estabelecimentos no estrangeiro, colonial ou militar, os navios de guerra dos Estados Unidos seriam como pássaros sem terra, incapazes de voar muito além de suas próprias costas. Tornava-se, portanto, necessário o estabelecimento de bases e depósitos de carvão, para o abastecimento dos navios, numa extensa cadeia de ilhas, que possibilitassem a sustentação do poder naval e permitissem a expansão marítima e comercial dos Estados Unidos. O domínio de Cuba, bem como de Porto Rico e das Ilhas Virgens, cuja cessão o presidente William McKinley (1897 – 1901) solicitara à Dinamarca, afigurava-se fundamental para a segurança das rotas no Golfo do México e a defesa do canal, que os Estados Unidos projetavam abrir no istmo do Panamá. E o presidente McKinley, em 1898, aproveitou a luta pela independência de Cuba para declarar guerra à Espanha, visando a conquistar o que ainda restava do seu vasto império colonial. No entanto, a campanha militar contra a Espanha, impulsionada por interesses econômicos e objetivos estratégicos, não se limitou às ilhas do Caribe. Estendeu-se ao arquipélago das Filipinas, cuja conquista possibilitaria sua penetração nos mercados da Ásia, particularmente da China. Esta guerra permitiu que os Estados Unidos, como salientou Sir Halford Mackinder, conquistassem importantes possessões em ambos oceanos – o Pacífico e o Atlântico – e assumissem a construção do Canal do Panamá, com objetivo de ganhar a vantagem da insularidade para a mobilização de suas frotas de guerra. [9]
Realmente, em termos estratégicos, a projeção geopolítica dos Estados Unidos, na direção da Ásia, e a vastidão do seu próprio território continental, que separava o litoral do Atlântico do litoral do Pacífico, constituíam um problema para a defesa, dado que era difícil separar e, quando necessário, reunir suas frotas, em caso de guerra. Esta foi uma das razões pelas quais o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) apressou a abertura de um canal inter-oceânico, no istmo do Panamá, território pertencente à Colômbia, a fim de consolidar os alicerces do império, cuja soberania se expandira de Cuba e Porto Rico, no Caribe, até Tutuila, no arquipélago de Samoa, e Guam, ao sul do Pacífico, quinze milhas a leste das Filipinas, possibilitando que suas frotas pudessem circular livremente e reunir-se, no momento e no local em que as circunstâncias táticas e estratégicas o exigissem. Motivos, tanto militares quanto civis, faziam “imperativo” o estabelecimento de “fácil e rápida” comunicação por mar, entre o Atlântico e o Pacífico[10].
Continue lendo em http://espacoacademico.com.br/089/89bandeira.htm
O mito do colapso americano
Apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os Estados Unidos.José Luís Fiori“Como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar”.
N. Maquiavel, O Príncipe, 1513
Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise financeira americana desembarcou na Europa, e repercutiu em todo mundo, de forma violenta. As principais Bolsas de Valor do mundo tiveram quedas expressivas, e governos e Bancos Centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o crédito de seus sistemas bancários. Neste momento, não cabem mais dúvidas: a crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global, destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza, e deverá atingir de forma mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA, e de todos os países do mundo.
Resumindo: “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada maior entre a China e os Estados Unidos” (2).
(1) Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão 'dólar-flexível' e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro, P : 83 (Prelo)
(2) Fiori, J.L. (2008) “O sistema mundial, no início do século XXI”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO, Editora Record, Rio de janeiro, p: 65 ( NO PRELO).
* Artigo publicado originalmente no jornal Valor Econômico (08/10/2008)
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leiam na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3994
sábado, 23 de agosto de 2008
Ai dos que crêem no Império
Deu no Le Monde Diplomatique Brasil:O mundo assistiu a uma mini-guerra no Cáucaso este mês. A retórica, embora apaixonada, foi muito irrelevante. A geopolítica é uma série gigantesca de jogos de xadrez a dois, nos quais os jogadores buscam vantagens de posição. Nestes jogos, é crucial saber as regras que permitem os movimentos. Cavalos não podem mover-se em diagonal.Ainda que muito breve, a guerra entre Geórgia e Rússia revelou algo chocante para o pensamento convencional. Menos de vinte anos após vencerem a Guerra Fria, os EUA já perderam a condição de poder mundial solitário. Na verdade, deixaram até mesmo de ser superpotência...Immanuel Wallerstein (23/08/2008)
Quem joga o xadrez geopolítico precisa conhecer suas regras. Do contrário, corre o risco de ficar emparedado.
Leiam na íntegra em http://diplo.uol.com.br/2008-08,a2568
terça-feira, 29 de julho de 2008
"É o petróleo, estúpido!"
Deu no Brasil de Fato:Acordo entre o ministério iraquiano do Petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas sobre a invasão do Iraque pelos EUANoam Chomsky
29/07/2008
O acordo que se perfila entre o ministério iraquiano do petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas quanto aos motivos da invasão e da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Estas questões deviam ser levantadas pelos candidatos às eleições presidenciais e discutidas seriamente nos Estados Unidos, assim como no Iraque ocupado, onde parece que a população desempenha apenas um papel menor - se é que desempenha - na definição do futuro do país.Os últimos relatórios evocam atrasos na apreciação das ofertas. O essencial desenrola-se sob o signo do segredo e não seria surpreendente que surgissem novos escândalos.
"Não há guerra por procuração no Iraque", conclui Rosen, "porque os Estados Unidos e o Irã partilham o mesmo testa de ferro".
Noam Chomsky é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)Leia na íntegra em http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/e-o-petroleo-estupido
domingo, 27 de julho de 2008
Lá vem a quarta frota Lá vem a quarta frota
Frei Betto *
Adital -
No dia 12 de julho os EUA decidiram reativar sua IV Frota Naval - a que vigia os mares do Sul -, atuante entre 1943 e 1950, em decorrência da Segunda Guerra, e desde então desativada. Compõem a frota 22 navios: quatro cruzadores com mísseis; quatro destróieres com mísseis; 13 fragatas com mísseis; e um navio-hospital.
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Segundo o almirante Gary Roughead, chefe das operações navais, a IV Frota visa a combater o tráfico de drogas, de armas e de pessoas, bem como a pirataria que ameaça o fluxo do livre comércio nos mares do Caribe e da América do Sul.
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É a velha história do lobo-mau pretendendo enganar o chapeuzinho vermelho. Quem acredita que nariz tão grande é apenas para cheirar a netinha? Não é muita "coincidência" a IV Frota ser reativada no momento em que Cuba aprimora sua opção socialista, Daniel Ortega volta a presidir a Nicarágua, o Brasil descobre reservas petrolíferas sob a camada pré-sal, e a América do Sul se vê governada por pessoas como Chávez, Lula, Correa, Kirchner, Morales e, em breve, Lugo, que não morrem de amores pelo Tio Sam e se empenham em reduzir a dependência de seus países em relação aos EUA?
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Os EUA sentem-se incomodados com a atual conjuntura latino-americana. Em especial, com o fato de o presidente Lula empenhar-se na criação da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e do Conselho Sul-Americano de Defesa (agora apoiado até pela Colômbia), dois organismos que, como o Mercosul e a Alba, excluem a participação dos EUA e tornam inócuos o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa, que sempre estiveram sob controle da Casa Branca.
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Ainda por trás da fantasia de vovozinha, Tio Sam quer impedir que a China tome conta dos mares do Sul. Hoje, 90% do comércio mundial depende de navios, e Pequim se empenha em ampliar e proteger suas rotas, incluindo as que conduzem ao nosso Continente.
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Com tantas embarcações de alta tecnologia e poder de fogo em nossos mares, os usamericanos poderão pesquisar a plataforma submarina e controlar a navegação de nossos países rumo à África e à Ásia.
Ensina a zoologia que todo animal acuado se defende com ferocidade. É o caso de Tio Sam, cuja moeda perde poder de compra, a economia mergulha numa crise de longo prazo, o atoleiro no Iraque não mostra nenhuma luz no fim do túnel, e os brancos republicanos se vêem na iminência de transferir o poder para um negro democrata.
[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros].
* Frei dominicano. Escritor.
terça-feira, 3 de junho de 2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
O Pentágono admite que cremou fuzileiros mortos no Iraque em crematórios para cachorros
EFE. 11.05.2008 - 11:59h
- El Departamento de Defensa de EE UU pide perdón a las familias y asegura que no volverá a ocurrir.
- Ocurrió en el estado de Delaware, también con soldados de Afganistán.
- Según la versión oficial, nunca se incineraron juntos cuerpos de animales y personas.
"No hay misión más importante que el retorno digno a sus familias de nuestros héroes caídos", señaló Geoff Morrell, portavoz del Departamento de Defensa, al hacer el anuncio. Fuentes militares aseguraron que no se incineraron animales y seres humanos juntos, pero precisaron que de ahora en adelante, el Departamento de Defensa solo utilizará instalaciones de incineración de casas funerarias.
"Es insensible e inadecuado
para el tratamiento digno
de los caídos"
El secretario de Defensa, Robert Gates, piensa que es "insensible y totalmente inadecuado para el tratamiento digno de quienes han caído", dijo Morrell y agregó que "el secretario ofrece sus más profundas disculpas a los familiares" de quienes han muerto.
Sacrificio
"Este departamento hará todo lo posible para respetar el principio de que los restos de todos los miembros de las Fuerzas Armadas sean tratados con la dignidad y el respeto que exige su sacrificio", prometió. La denuncia se conoció después de que un soldado asistiera a la incineración de un militar que murió en combate, y dijese que el crematorio se encontraba en una zona industrial que anunciaba sus servicios para personas y animales.
Más de 4.070 soldados han muerto en Irak desde que las tropas estadounidenses invadieron ese país en 2003. Casi 500 han perecido en Afganistán desde que las tropas norteamericanas derribaron el régimen talibán a finales de 2001.
Extraído de http://www.20minutos.es/noticia/377557/0/cadaveres/soldados/irak/ acesso em 13 maio 2008.
domingo, 11 de maio de 2008
Os navios fantasmas da Quarta Frota
Deu na Agência Carta Maior:É o momento de amplificar o alerta de Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz: "O anúncio da recriação da Quarta Frota norte-americana, destinada a realizar missões navais agressivas nas regiões do Caribe, América Central e América do Sul é uma grave ameaça à paz, à segurança e à soberania de todos os povos e nações da América Latina".Gilson Caroni Filho
Ao anunciar a reativação da Quarta Frota, desativada há 58 anos, para “patrulhar os mares da América Latina", a marinha estadunidense encena, em versão farsesca, a sina do capitão magistralmente criado por Wilhelm Richard Wagner, em 1841.
A nova constelação governos latino-americanos que, assumindo posições contrárias às do governo dos Estados Unidos, opõe-se à concessão de bases para as forças militares do Império, é o mar revolto a ser vencido. Se o personagem wagneriano tinha em “Senta” sua possibilidade de redenção, ao governo americano resta apenas Uribe como promessa de rendição.
O que movia o cenário internacional podia, sem riscos de reducionismo, ser descrito em poucas linhas. O maior império da história, governado por uma "junta" oriunda do segmento petrolífero, precisava desesperadamente invadir o Iraque, ex-aliado no Oriente Médio, para se apossar de uma reserva estimada em 112 bilhões de barris. Às voltas com um crescente déficit público e uma produção doméstica de combustível que correspondia a 50% do consumo interno, ao governo americano parecia não haver outra alternativa que não fosse o uso de sua inconteste supremacia militar.
Tendo chegado ao poder em eleições marcadas por fortes evidências de fraude, George W. Bush, apoiado pela direita fundamentalista americana, é a expressão acabada de uma superpotência que, enfraquecida como projeto hegemônico, busca manter a supremacia pela truculência bélica e a chantagem econômica. Unilateralismo na política externa e a elisão de direitos civis são as duas faces da mesma moeda.
Política expansionista e Estado policial são a marca distintiva dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. Ante-sala do horror contemporâneo, a cruzada americana teve em seu aparelho propagandístico o pânico interno como dispositivo para construção do consenso.
Sua maior colaboração residiu, como ainda reside, na capacidade de transformar em evento o que é processo, tirando da história qualquer possibilidade de apreensão dialética. Operam em restrita lógica binária, usando, para potencializar sua eficácia , o que Ignacio Ramonet classificou como "fascínio pelo espetáculo do evento".
É o momento de amplificar o alerta de Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz:
"O anúncio da recriação da Quarta Frota norte-americana, destinada a realizar missões navais agressivas nas regiões do Caribe, América Central e América do Sul é uma grave ameaça à paz, à segurança e à soberania de todos os povos e nações da América Latina. Recentemente, ao respaldar a ação militar da Colômbia em território equatoriano, o governo estadunidense intentou dar vigência em nosso continente aos pressupostos da guerra preventiva, uma doutrina fascista a serviço do terrorismo de Estado". O que os Estados Unidos anunciam é o fomento à militarização do continente, a corrida armamentista e a ameaça nuclear.
O mais caro, sem dúvida, seria a retomada das discussões em torno de uma Nova Ordem Informativa. Mesmo levando-se em conta a mudança radical da configuração geopolítica existente à época e o surgimento de novas meios de produção, difusão e intercâmbio de dados, a atualidade do relatório produzido, em 1980, pela Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas da Comunicação (a Unesco sediou os debates) é inconteste. Como não deixar de referendar as palavras do presidente da comissão, Sean MacBride, no prólogo do relatório?
"Gostaria de parafrasear H. G. Wells e dizer que a história humana se transforma cada vez mais numa corrida entre a comunicação e a catástrofe. O emprego total da comunicação é vital para assegurar que a humanidade venha a ter mais história (...) do que nossos filhos tenham futuro" (Um mundo e muitas vozes)"
É uma agenda inadiável.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa. Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3884
domingo, 4 de maio de 2008
Um roteiro literário sobre a história e política dos Estados Unidos da América
Artigo de Antonio Ozaí da Silva publicado no seu blog Literatura Política & Sociedade:______________________
ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972 (230p.)
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Allen TATE – The Fathers (Os Patriarcas)Sobre a Virginia. Vários líderes, considerados os “pais fundadores”, são deste Estado. Washington, Jefferson, Madison e Monroe (primeiro, terceiro, quarto e quinto presidentes dos Estados Unidos) eram da Virgínia.
Este romance expressa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (85).
Allison LURIE – The Nowhere City (A Cidade Imaginária)
Sobre o conflito entre o estilo de vida da tradição acadêmica da Nova Inglaterra e o estilo “mais livre” californiano, mais especificamente Los Angeles. Também expressa o “movimento para a fronteira”.
Bret HARTE – The Outcast of Poker Flat
Sobre a prática do linchamento onde a justiça e a lei não tinha alcance.
Caroline GORDON - None Shall Look Back (Ninguém olhará para trás)
Sobre a Virginia e os virginianos...
Edgar Allan POE – Os Assassinatos da Rua Morgue e A Carta Roubada
Ambos contextualizados em Paris, onde o autor jamais esteve.
Edgar Allan POE “freqüentemente parece o pornográfico da morte” (157). POE teve uma vida tumultuada, órfão por duas vezes. Ele era sulista e se identificava com os valores aristocráticos, anti-burguês e escravagistas. “Como homem da Virginia, Poe também estava livre da tirania da consciência puritana” (159). Ele foi pioneiro em estórias policiais e de detetives.
Ernest HEMINGWAY – The Old Man and the Sea ( O velho e o mar)
Livro baseado na sociedade cubana. O mais famoso escritor do Centro-Oeste foi um homem deslocado.
F. Soctt FITZGERALD – The Great Gatsby (1925)
Início da década de 1920, era da proibição. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação norte-americana surgiu de uma concepção platônica de si mesma. Gatsby expressa o self made man, o homem que se fez sozinho – um dos fundamentos da ideologia americana.
“Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana” (8). “The Great Gatsby é uma clebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (9).
Fanny KEMBLE – Journal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39)A autora, inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreve sobre o período no qual viveu na Geórgia, e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata.
Fenimore COOPER – Os Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840), O Caçador (1841).
Os romances expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização – representado pelo movimento para o Oeste. O autor foi o primeiro a escrever sobre este tema.
O Último dos Moicanos é contextualizado no ano de 1757, época das guerras de fronteira entre franceses e ingleses, na qual os índios se envolvem lutando ora de um lado, ora de outro.
A obra de COOPER apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.
George SANTAYANA - The Last Puritan
Expressa a ideologia mestra do norte-americano, o ideal do “povo escolhido” e pretensamente superior aos demais.
Graham GREENE – O Americano tranqüilo
Crítica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual fundamenta-se numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo.
Sobre a fuga para o Oeste, enquanto expressão da possibilidade de ascensão social. O centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. O autor cita o personagem de Charles Dickens (Micawber ), que fora à bancarrota em Londres e fez fortuna na “colônia”. Esta era “um l ugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (66).
Harriet Beecher STOWE – A Cabana do Pai Tomás (1855)
Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (81). Segundo Walter Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (83).
Henry ADAMS – Democracy (1880)
“A atitude do cavalheiro norte-americano, poder-se-ia mesmo dizer, do aristocrata norte-americano, para com o governo, é demonstrada claramente” neste romance. Uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil.
Henry JAMES – The Portrait of a Lady, The Wings of the Dove e Os Europeus
A exemplo de W. Cather, H. Roth e J. T. Farrell, os livros deste autor “servem para demonstrar, entre outras coisas, a complexidade do relacionamento norte-americano com a Europa” (101). Nos romances de JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos cos tumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplifica “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa. (Id.) Isto também se aplica à obra Os Europeus.
“O cenário são as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (99). Ver, também, a obra de Willa CATHER e James T. FARRELL. Nas obras destes autores, incluindo ROTH, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (103).
Henry THOREAU – Desobediência Civil e Walden, or Life in The Woods
O autor trabalhou como jardineiro de Ralph Waldo Emerson, de quem foi amigo. Defensor da idéia da resistência passiva influenciou Tolstoi e Gandhi. Defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância...” (142).
J. D. SALINGER – O Apanhador no Campo de Centeio (1951)
Na trilha de Vinhas da Ira, romance de J. Steinbeck, “O Apanhador no Campo de Centeio descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana” (58). Para Allen: “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidad es brutais da vida norte-americana” (59).
James HOGG – Confessions of a Justified Sinner
Contexto: Escócia no fim do século XVIII. Relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata do triunfo absoluto do puritanismo, a exemplo dos Estados Unidos.
James T. FARRELL – Studs Loningan (1932-35) e The Face of Time (1954)
O tema é a imigração [a exemplo de Willa CARTHER e Henry ROTH]. “Studs Loningan deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” – o título se refere a um menino irlandês (100). The Face of Time “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (101).
John dos PASSOS - The 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936)
Livros que compõe a trilogia U.S.A.; uma tentativa de revelar a totalidade da América. O autor utiliza recursos como utilizar manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inserir capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Segundo Allen, “sua crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova Yorque e Los Angeles” (207).
John STEINBECK – In Dubious Battle (1936), Vinhas da Ira (1938) e Of Mice and Men
Vinhas da Ira simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada... É o romance de protesto norte-americano mais bem sucedido. A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBECK assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (211).
Mark TWAIN – As Aventuras de Huckleberry Finn, Idade Dourada (1873) e As Aventuras de Tom Sawyer (1876)
Um dos livros que retrata o fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste. Este movimento “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (57).
As Aventuras de Huckleberry Finn é considerado um clássico da juventude e foi escrito na seqüência de As Aventuras de Tom Sawyer.
“Dramatiza o sonho de liberdade de cada um, ou melhor, o sonho de liberdad e roubada na juventude, de cada homem. Era o sonho de liberdade do próprio Twain” (170).
MELVILLE – Moby Dick
A temática é a luta do bem contra o mal e, a exemplo de HAWTHORNE, tem a influência da herança calvinista.
Michael STRAIGHT – Carrington
ALLEN alerta para a literatura, como a de Willa Carther e Fenimore Cooper, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. É um tipo de literatura que “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios”. Carrington representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (200).
Nathaniel HAWTHORNE – The House of the Seven Gables (A Casa das Sete Torres) e The Scarlet Letter (A Letra Escarlate, 1850)
“O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento” (125).
Ralph Waldo EMERSON – The American Scholar (O Intelectual Americano)
Ensaio que traduz o tema da auto-suficiência para um plano nacional. “Um ataque ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna...” (140).
Sinclair LEWIS – Main Street (Rua Principal) e Babbitt
Crítica do modo de vida norte-americano. O autor foi o primeiro norte-americano a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930.
Main Street é uma sátira do estilo de vida numa pequena cidade imaginária, que expressa a realidade de muitas cidades americanas. O autor “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (196).
Babbitt tem como tema os pequenos homens de negócios nos Estados Unidos, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalme nte formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (197).
[Na mesma linha temática de Babbitt: Dickens, Our Mutual Friend e H. G. Wells, Mr. Polly]
Sobre o estilo de vida na Virginia, espacialmente no período anterior à guerra civil.
Theodore DREISER – The Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy
Retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada”, da mesma forma que Democracy (91). A “idade dourada” corresponde à fase pós- guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos...
Thomas WOLFE - Look Homeward, Angel, Of Time and the River, The Web and the Rock e You Can’t Go Home Again
Todos os livros baseiam-se na vida do autor, nascido em 1900, na Carolina do Norte (sul dos EUA). Expressa a tentativa de revelar o modo de vida norte-american o.
Walter Van TILBURG – The Incident Ox-Bow
Sobre Nevada na década de 1880 e a prática de linchamento. Esta era uma prática comum executada por grupos particulares. O termo deriva do nome Charles Lynch, grande proprietário da Virgínia, que suprimiu uma conspiração fazendo justiça com as próprias mãos.
Willa CATHER – My Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927)
Expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que política ou econômica. Relata a história de uma família imigrante checa. “Essa perda cultura, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934” (99). Segundo ALLEN, a autora “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (200). Este último romance exemplifica-o.
William FAULKNER – Absalom! Absalom!
Um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (88).
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Você leu alguma das obras relacionadas? Envie sua reflexão e/ou comentário. Estamos abertos à sua contribuição.
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Extraído de http://antoniozai.blogspot.com/2008/05/um-roteiro-literrio-sobre-histria-e.html acesso em 04 maio 2008.
domingo, 20 de abril de 2008
Os vigaristas
Deu no Vermelho:
por Sérgio Barroso*Como podemos errar tanto?(Alan Greenspan, Valor Econômico/Financial Times, 18/3/2008)
A quebradeira prosseguirá.
Artigo publicado originalmente em O Jornal (AL), 16/4/2008
*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB. Leia na ńtegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36286
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Estados Unidos: O pior da crise está por vir
Deu na Agência Carta Maior:
TÓQUIO (IPS) – Dia a dia recebemos notícias que soam velhas sobre a crise econômica. E, como é habitual, essas notícias se referem à crise para os ricos e à "economia" como um sistema, mas nunca à miséria no fundo desse sistema. A esta crise dão nomes como “restrições ao crédito”, “falta de liOs dois maiores temores atuais são a corrida bancária e uma queda ainda mais pronunciada do dólar. O montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.Johan Galtung*
quidez” ou “crise de investidores’. Naturalmente existe uma restrição de crédito e não há dinheiro disponível porque as pessoas da área financeira sabem melhor que ninguém quanto se tornou instável a economia e de que modo as dívidas, incluindo as hipotecas, são empacotadas, vendidas e revendidas até que a dívida original se torne irreconhecível.Primeiro, o montante da moeda em circulação nos Estados Unidos é mantido em segredo, sinal seguro de está sendo impresso dinheiro dia e noite e que cedo ou tarde a inflação vai disparar.
As exportações podem se beneficiar se a redução de preços for embolsada pelo comprador e não pelo comerciante. Mas, quanto atraente são atualmente os bens norte-americanos, especialmente os serviços, a qualquer custo? Em sua maioria, o que está subjacente nisto é a “especulação”. O que é isso. Uma expressão mais de uma economia enferma que leva a riqueza para os ricos, de modo que as pessoas morrem abaixo e nadam na liquidez acima. Eles usam a liquidez para obter mais dinheiro, mas, já que a economia real é lenta giram a economia financeira em bens para comprar e vender, não para o consumo, que valorizam rapidamente. Com essa grande liquidez extraída criam uma bolha destinada a se desfazer. Assim foi há alguns anos com as empresas.com e agora com as moradias.
* Johan Galtung, professor de Estudos sobre a Paz e fundador da Transcend, rede global sobre paz e desenvolvimento. Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14941
terça-feira, 8 de abril de 2008
América sem norte
Deu na Consulta Popular:Especialista em geopolítica, Parag Khanna diz que a hegemonia dos EUA expirou. Agora é disputar o mundo, corpo a corpo, com novas potências. O indiano Parag Khanna, de 30 anos, é pesquisador sênior do American Strategy Program (Programa de Estratégia Americano) da New American Foundation. Durante dois anos, viajou por 45 países localizados em regiões estratégicas do planeta, como Europa Oriental, Ásia Central, América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Parag queria saber como esses lugares, que chama de países do Segundo Mundo, reagem ao crescimento da China e da União Européia e ao declínio dos Estados Unidos. Suas conclusões estão no livro The Second World: Empires and Influence in the New Global Order (em tradução livre, "O Segundo Mundo: Impérios e Influência na Nova Ordem Global"), que será lançado no Brasil pela Editora Intrínseca no segundo semestre deste ano. O artigo abaixo, publicado em The New York Times, foi adaptado do livro.
Em Bruxelas, capital da Europa, tecnocratas, estrategistas e legisladores entendem cada vez mais que sua função é manter o equilíbrio global entre EUA e China. Os europeus jogam dos dois lados e, se atuam bem, os benefícios são enormes. É uma tendência que sobreviverá ao presidente francês Nicolas Sarkozy, autodenominado "amigo dos EUA", e à chanceler alemã Angela Merkel, independentemente de ela visitar o rancho de Crawford. O fato de a Europa ainda não ter um exército comum pode tranqüilizar os conservadores americanos; a questão é que a Europa não precisa de um. Os europeus usam a inteligência e a polícia para prender radicais islâmicos, a política social para tentar integrar populações muçulmanas rebeldes e a força econômica para incorporar a antiga União Soviética. O investimento anual europeu na Turquia também cresce, trazendo-a mais perto da União Européia. E a cada ano um novo oleoduto é aberto, transportando petróleo e gás da Líbia, Argélia ou Azerbaijão para a Europa. Que outra superpotência cresce na média de um país por ano, com outros esperando na fila e implorando para se juntar?
Numa frase famosa, Robert Kagan disse que os EUA são de Marte e a Europa, de Vênus, mas na realidade a Europa é mais Mercúrio - carregando consigo uma enorme carteira de dinheiro. O mercado da União Européia é o maior do mundo, as tecnologias européias cada vez mais estabelecem o padrão global e os países europeus fornecem a maior ajuda ao desenvolvimento. Muitos americanos zombaram da introdução do euro, alegando que levaria o projeto europeu ao colapso. Hoje, porém, os exportadores de petróleo do Golfo Pérsico convertem seus ativos financeiros em euro, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad propôs à Opep que o preço do seu petróleo não seja mais cotado em dólares. O presidente Hugo Chávez também sugeriu euros. Não ajudou o fato de o Congresso expor suas cores protecionistas bloqueando o acordo sobre os portos de Dubai em 2006. Com Londres voltando a ser a capital financeira do mundo, em termos de registros de ações na sua Bolsa, não surpreende que os novos fundos de investimentos estatais da China instalem ali os seus escritórios, e não em Nova York. Ao mesmo tempo, o quinhão de reservas cambiais globais dos EUA caiu para 65%. Gisele Bündchen exige ser paga em euros, enquanto que Jay-Z se afogou em notas de 500 euros num vídeo recente.
A Comunidade do Leste Asiático é um exemplo de como a China também está ocupada em restaurar seu lugar como Império do Meio. Por todo o globo envia dezenas de milhares dos seus próprios engenheiros, construtores de hidrelétricas, especialistas em ajuda ao desenvolvimento e militares dissimulados. Na África, a China não é apenas uma compradora de energia; também faz grandes investimentos estratégicos no setor financeiro. O mundo encoraja sua ascensão espetacular, evidenciada pela fatia das operações comerciais no seu PIB. E ela está exportando armas em quantidades que lembram a União Soviética durante a Guerra Fria, encurralando os EUA, ao mesmo tempo que preenche os vazios que consegue encontrar. Todos os países considerados renegados pelos EUA desfrutam de uma corda salva-vidas estratégica, econômica ou diplomática da China, e o Irã é o exemplo mais destacado.
A Turquia também é troféu emblemático do Segundo Mundo. Basta um simples olhar para sua resplandecente linha para perceber que, mesmo que não se torne um membro de fato da UE, é um país cada vez mais europeizado. Recebe mais de US$20 bilhões de investimentos estrangeiros e mais de 29 milhões de turistas a cada ano, a maioria europeus. Noventa por cento da diáspora turca vive na Europa Ocidental e envia para casa mais de US$ 1 bilhão por ano na forma de investimentos e remessas em dinheiro. Esse capital vem financiando o desenvolvimento para o leste, com novos projetos de construção, abertura de fábricas e escolas. Com a entrada da Romênia e da Bulgária na União Européia há um ano, a Turquia hoje, fisicamente, faz fronteira com a UE, simbolizando como o país se torna parte da superpotência européia.
Diplomatas ocidentais têm familiaridade histórica, embora dramática e tumultuada, com a Rússia e a Turquia. E no que diz respeito a esse grupo de países sem saída para o mar, ricos em petróleo e governados por autocratas? Enquanto a China compra mais petróleo do Casaquistão e os EUA tentam realizar acordos de defesa com esse país, a Europa oferece investimentos sustentados. Um exemplo de até onde os estrangeiros podem chegar para manter boas relações com o presidente Nursultan Nazarbayev é a atual negociação entre um consórcio de gigantes ocidentais do setor energético e a empresa petrolífera estatal do Casaquistão para a abertura de um enorme campo de petróleo em Kashagan, no Mar Cáspio. O consórcio injeta US$ 4 bilhões, além de uma grande transferência de ações, como indenização pelos atrasos na exploração e produção - e assim mesmo o Casaquistão não está satisfeito. A lição oferecida pelo Casaquistão, e pelo seu vizinho também estratégico mas bem menos previsível, o Usbequistão, é de o quão inconstante o Segundo Mundo pode ser, provocando dores de cabeça e maremotos em todas as direções.
Isso ocorre mais profundamente no Sudeste Asiático. Alguns dos mais dinâmicos países da região, como Malásia, Tailândia e Vietnã, desempenham o papel de pretendentes a superpotência com uma inteligência excepcional. Malásia e Tailândia ainda realizam exercícios militares conjuntos com os EUA, mas também compram armas e têm tratados de defesa assinados com a China, incluindo o Tratado de Amizade e Cooperação pelo qual as nações asiáticas comprometem-se a não se agredirem mutuamente. Como um diplomata malásio me explicou, sem um mínimo de gracejo, "criar uma comunidade entre os amarelos e pardos é fácil, mas não com os brancos". Surpreendentemente, o Vietnã, envolvido em histórias violentas com EUA e China, é quem está mais ávido para firmar contratos de defesa com os americanos (e uma nova fábrica de microchips da Intel) para manter seu equilíbrio estratégico. O Vietnã também não pretende cair na esfera de influência de nenhuma superpotência.
O novo mapa multicolorido de influência é muito confuso. Mubarak (presidente do Egito), Musharraf (do Paquistão), Mahathir (da Malásia) e um conjunto de líderes do Segundo Mundo estabeleceram um novo padrão de proezas manipuladoras: todos dizem que os EUA são seus amigos, e ao mesmo tempo cortejam ativamente todos os lados.
Além disso, muitos países do Segundo Mundo estão bastante confiantes para formar cinturões antiimperiais, criando eixos diplomáticos, tecnológicos e comerciais do Brasil à Líbia, ao Irã e à Rússia. Os países do Segundo Mundo estão usando cada vez mais fundos soberanos (muitas vezes financiados pelo petróleo) equivalentes a trilhões de dólares para mostrar sua importância, chegando mesmo a intimidar empresas e mercados do Primeiro Mundo. Os Emirados Árabes Unidos (particularmente representado pela sua capital, Abu Dabi), a Arábia Saudita e a Rússia sobem rapidamente na escala dos grandes possuidores de reservas cambiais e dificilmente vendem suas ações de bancos ocidentais (que se tornaram baratas de repente) e empresas de petróleo. O fundo soberano de Cingapura segue o mesmo caminho.
O auto-enganador universalismo do império americano - segundo o qual o mundo, intrinsecamente, necessita de um único líder e a ideologia liberal americana precisa ser aceita como base da ordem global - resultou, paradoxalmente, no fato de que os EUA são hoje uma superpotência cada vez mais isolada. Da mesma maneira que existe um mercado geopolítico, existe um mercado de modelos de sucesso para o Segundo Mundo copiar, e não apenas o modelo chinês de crescimento econômico sem liberalização política. Como observou o historiador Arnold Toynbee há meio século, o imperialismo ocidental uniu o globo, mas não garantiu que o Ocidente o dominasse para sempre - material ou moralmente. Apesar da "ilusão de imortalidade" que aflige os impérios globais, a única regra confiável da história são seus ciclos de ascensão e declínio, e, como Toynbee observou, a única direção do apogeu do poder é a da queda.
A globalização resiste a praticamente qualquer tipo de centralização. Em vez disso, o que se observa gradativamente nas negociações sobre mudanças climáticas (como em Bali, em dezembro) e precisamos ver mais, no campo das conversações sobre prevenção da proliferação nuclear e reconstrução de Estados falidos, é um sentido muito maior de divisão de trabalho entre as Big Three, uma divisão concreta do fardo, pois elas serão julgadas não pela sua retórica, mas pelas responsabilidades que assumirem. O arbitrariamente composto Conselho de Segurança não é lugar para se discutir uma divisão de trabalho como essa, tampouco qualquer dos órgãos multilaterais sobrecarregados de votações e opiniões dissonantes e irrelevantes. Os grandes temas devem ser resolvidos pelas Big Three entre elas.
Leia na íntegra em http://www.consultapopular.org.br/artigos-e-textos/america-sem-norte