O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

2008 - Um retrospecto sóbrio

Escrito por Wladimir Pomar
22-Dez-2008


Passados seis anos de governo Lula, com a participação do PT, continua válida a hipótese de que as vitórias de 2002 e 2006 não representaram revoluções políticas ou sociais. No entanto, também continua válida a tese de que elas representaram revoluções culturais, na medida em que romperam com os medos históricos e permitiram a vitória democrática e popular no contexto das regras eleitorais burguesas.
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Nesse período, independentemente das teorias correntes e dos zigue-zagues, conformou-se uma frente ampla de apoio ao governo Lula, teoricamente para enfrentar as conseqüências de mais de dez anos de hegemonia neoliberal.

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A classe dos trabalhadores assalariados, apesar do aumento das taxas de emprego, permanece uma classe dispersa (pela dispersão das unidades produtivas) e fragmentada (pelos desempregos estrutural e conjuntural, ainda presentes). A classe dos camponeses pequeno-proprietários também continua submetida a intenso processo de fragmentação, com a destruição de unidades familiares e a expulsão de camponeses das terras em que trabalham.
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As classes médias, embora tenham pago a principal cota pela continuidade parcial da política monetária, se beneficiaram da melhoria do ambiente econômico dos anos mais recentes. Com isso, estão ampliando seu apoio ao governo Lula, como mostra pesquisa recente, que aponta 70% de aprovação para o presidente. Por outro lado, como ainda se encontram em processo de proletarização, com seus padrões de vida ameaçados de rebaixamento, e fragmentadas social e politicamente, essa inflexão a favor do governo pode mudar diante de qualquer evento que suponham negativo.
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O problema é que, mesmo sendo de nível elementar, as reivindicações desses segmentos populares não dependem apenas de políticas compensatórias e do crescimento econômico. Tanto aquelas reivindicações quanto as políticas que pretendem atendê-las confrontam-se com a crescente tendência de concentração da riqueza e, portanto, com o agravamento da distribuição desigual da renda.
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Como isso não ocorreu até o momento, o governo Lula tem se pautado pela timidez no atendimento às demandas dos micros, pequenos e médios capitalistas, urbanos e rurais, que o apoiaram. Esses setores, desestruturados em virtude do desarranjo neoliberal, tinham expectativa no crescimento das atividades produtivas, proteção contra a competição selvagem das grandes corporações, abertura de mercados para seus produtos e redução dos custos de mão-de-obra e dos tributos.
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Quando lutaram contra a candidatura Lula, em 2002, as burguesias estrangeiras já viviam uma situação de crise econômica. Procuravam sair dela através da corrida armamentista e da produção de guerras (caso explícito das burguesias norte-americana e inglesa) e por meio da especulação financeira, segmentação produtiva, organização de blocos regionais, domínio das organizações multilaterais etc.
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Já a segmentação produtiva, com a industrialização de países com grandes contingentes agrários, contribuiu para a elevação da taxa média de lucro do capital, mas teve efeitos indesejados. Transferiu postos de trabalho, aumentou a dependência econômica das grandes potências em relação aos países emergentes e criou concorrentes efetivos que enfraqueceram o poder econômico, não só das corporações capitalistas, como dos seus países de origem, reduzindo suas pretensões de dominar as organizações multilaterais.
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O mesmo ocorreu com a grande burguesia nativa. Ela também se encontrava no redemoinho da crise econômica mundial, mas viu-se beneficiada pelas novas taxas de crescimento do Brasil. Assim, embora seu viés ideológico tenha se mantido fortemente anti-Lula e anti-PT, ela foi obrigada a entrar numa certa defensiva, para evitar que a oposição social e política interferisse negativamente sobre seus lucros.
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Por outro lado, o neoliberalismo perdeu, mas não morreu, e continua tendo algum poder de influência. A burguesia, até hoje, não perdeu a esperança de construir um outro projeto, capaz de arrancar as taxas médias de lucro que lhe permitam a reprodução ampliada.
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Essa crise contribui para colocar as burguesias em defensiva ainda maior, pelo menos momentaneamente. De certo modo, ela também ameaça as políticas sociais e de crescimento do governo Lula. Este, por outro lado, tem que levar em conta que as forças sociais que sustentam o sistema dominante ainda são relativamente fortes, apesar de estarem em dificuldades. E que as forças sociais que constituem sua base de sustentação ainda são relativamente fracas.

Mas a crise também é uma oportunidade para a mudança desse quadro. Em termos teóricos, o governo Lula pode transformar suas forças de sustentação social e política, relativamente fracas, em relativamente fortes. E as forças sociais e políticas relativamente fortes do sistema econômico dominante em relativamente fracas. Tudo vai depender de como aproveitará os desafios das condições atuais.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.
Leiam na íntegra em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/2734/46/

domingo, 27 de abril de 2008

Instituto Cultiva: Análise de Conjuntura janeiro-abril 2008

Deu no Instituto Cultiva:
1. A Crise dos EUA e a Era Lula

O ano começou com prenúncio de crise mundial. Na manchete do jornal Folha de S.Paulo aparece, em letras garrafais: “Cresce nos EUA temor de crise econômica em 2008”. Pesquisa Gallup informava que 70% dos norte-americanos avaliavam que já viviam em cenário recessivo. Os “detonadores” da crise seriam a crise habitacional, os custos de saúde e energia. A crise dos EUA foi tomando corpo ao longo do trimestre. Mas afetou pouco a economia dos BRICs (os quatro grandes emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China).
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2. Uma crise que ainda não se globalizou

As incertezas do cenário internacional intensificaram, na primeira quinzena de janeiro, a venda de ações em países emergentes. Neste período, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) registrou saldo negativo de 1,88 bilhão de reais.

Logo na segunda quinzena do primeiro mês do ano, o Presidente George Bush anunciou um pacote de medidas para conter a crise no curto prazo. O primeiro passo, anunciado em 18 de janeiro, foi a redução temporária de impostos no valor de 150 bilhões de dólares e incentivos fiscais às empresas. Em 23 de janeiro, o banco central dos EUA (FED ou Federal Reserve), em reunião extraordinária, reduziu a taxa básica em 0,75%. No Brasil, Delfim Netto avaliou que havia certo terrorismo no ar, já que as expectativas inflacionárias estariam bem “ancoradas”. Posição inversa a de Armínio Fraga, para quem a recessão atingirá o Brasil.
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Leia na íntegra em http://www.cultiva.org.br/mostradestp.php?id=1066

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Crescimento econômico ou desenvolvimento humano e social?

Deu na Adital:
Marcos Arruda*
Adital -
ASSEMBLÉIA NACIONAL DA CPT
CRESCIMENTO ECONÔMICO OU DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL?
OS IMPASSES DA ATUAL CONJUNTURA NACIONAL E GLOBAL
(Goiânia, 8 de abril de 2008)

1. Vivemos uma mudança de época, uma transição a outra civilização.

1.1. O sistema do capital mundial e seu modelo de desenvolvimento estão mais poderosos do que nunca. Traços principais:

1.1.1. Produtivismo e consumismo: produção em função do máximo lucro levando a crises da sobreprodução e colapso econômico; usando tecnologias sempre mais sofisticadas, independente do seu impacto social e ambiental, para aumentar a produtividade do capital; visando o máximo consumo, que gera diversas doenças sociais, desde a obesidade, o desperdício, o excesso de lixo, a distorção dos valores culturais e humanos.

1.1.2. Alto endividamento público: resulta do papel do Estado reduzido pelo capitalismo neoliberal a subsidiário dos interesses privados das grandes corporações. O Estado se endivida, o capital privado se beneficia, os bancos enriquecem ilimitadamente. A população paga uma dívida sem fim, que custa muito mais do que os benefícios que a dívida supostamente gerou. Dívida irresponsável, odiosa (no caso da ditadura), ilegal e ilegítima (no caso da atual dívida interna e externa).

1.1.3. Financeirização: movimento crescente de investimentos financeiros que produzem retornos independentes da produção de bens e serviços. A economia mundial e a brasileira tornaram-se um grande cassino. O Governo Lula estimulou este processo, ampliando a abertura do setor financeiro e bancário ao capital estrangeiro, e isentando de imposto de renda os investidores estrangeiros. Hoje mudam de mão diariamente nos mercados financeiros globais mais de US$ 2 trilhões por dia (economia virtual). O comércio internacional de bens e serviços (economia real) faz circular apenas cerca de US$ 8 trilhões por ano!

1.1.4. Totalitarismo de mercado: "o mercado deu um golpe contra a política e tomou as rédeas da vida social". A globalização neoliberal ergueu o mercado como o deus da sociedade mundial: é ‘ele’ quem decide o que produzir, com quem, para quem, com que tecnologia. Os próprios seres humanos, sobretudo as mulheres, foram convertidos em mercadoria. Se não têm valor de mercado, são excluídos e se tornam invisíveis aos olhos dos ricos e poderosos. Foram incapazes de competir e promover-se, como outros conseguem. Esta lógica desumanizadora resulta da lógica materialista e patriarcal que permeia as relações sociais no mundo do capital globalizado. Na verdade, o neoliberalismo está matando a humanidade e o planeta. O grande capital, presente nas grandes empresas, nos governos e nas instituições multilaterais, só tem um discurso: "O Brasil, a América Latina precisam reduzir os gastos públicos"... Este é o outro lado do discurso do Governo Lula: "Não podemos fazer auditoria, temos que pagar os juros das dívidas para manter a credibilidade do país e do governo". Assim, tira dinheiro do desenvolvimento social para pagar juros aos super-ricos banqueiros brasileiros e estrangeiros. Na verdade, tanto no setor bancário quanto no setor industrial do Brasil é o capital transnacional que está no comando.

1.1.5. Patriarcalismo: significa governança de cima para baixo, do macho para a sociedade; significa hierarquia e autoritarismo; significa relações sociais de competição, agressividade, comandadas pela consciência "egológica" ou egocêntrica característica do masculino. Desigualdade econômica, social e doméstica de gêneros ainda grave em quase todo o mundo, e certamente no Brasil.

1.1.6. Corporatocracia: domínio das grandes corporações não apenas sobre a economia e as finanças, mas também sobre a política. Capacidade de influir hegemonicamente nas políticas do Estado, por meio da entrada de grandes empresários nos poderes do Estado como pelas doações corporativas a candidatos, como pela corrupção de políticos através de comissões diversas. São os interesses corporativos do setor privados dos EUA que estão fazendo (corporações do petróleo) e operacionalizando (privadas contratadas pelas Forças Armadas) a guerra do Iraque e a invasão do Afeganistão. Os interesses transnacionais da biotecnologia, do agronegócio, do hidronegócio têm conseguido vitórias importantes junto ao Governo brasileiro (transgênicos, biomassa para agrocombustível, controle crescente de terras com mananciais, cursos d’água doce e orlas marítimas, megaprojeto de transposição do Rio São Francisco e outros).

1.1.7. Lucro acima da vida: para o capital mundial toda atividade que rende lucros faz parte legítima da sua lógica. Isto inclui a corrupção política e corporativa, o narcotráfico, a prostituição, inclusive infantil, o tráfico de órgãos, o comércio da morte através de armas e armação de guerras, trabalho escravo, destruição de ecossistemas. Mata-se por dinheiro, por prestígio e poder. Mata-se para conquistar o controle dos recursos naturais de outros. O outro lado desta lógica é a degradação humana, a perda de sentido ético, a autodesvalorização, a alienação, a doença, o suicídio, a degradação ambiental pondo em risco a própria vida na Terra.

1.1.8. Desenvolvimento reduzido a crescimento econômico: modelo atual centrado em tiranossauros corporativos disputando mercados globais entre si, canibalizando-se uns aos outros em busca do ideal "Big Brother" corporativo - o monopólio (no caso de um único vendedor) e o monopsônio (no caso de um único comprador). Concentração de capital, de saber (pesquisa, tecnologia, ciência a serviço do lucro) e de poder (econômico, político, militar, midiático, ideológico). Crescimento econômico como objetivo estratégico, ilimitado, ignorando as necessidades humanas reais e os limites dos recursos da Terra. O Governo Lula optou por este modelo e suas políticas econômica, monetária, cambial, tributária e energética são coerentes com esta escolha. Trata-se de tornar o Brasil uma plataforma avançada de um modelo agromineroexportador. O PAC (Programa de aceleração do crescimento) investe em projetos de infraestrutura que fazem parte de um projeto maior - o IIRSA, Integração da Infraestrutura da Região Sul-Americana - que faz parte de um projeto de integração da infraestrutura das Américas, cuja origem é o projeto ALCA - Área de Livre Comércio das Américas. Desenvolvimento concebido de cima para baixo, sem consulta nem debate público, a partir dos interesses das megacorporações, das elites nacionais e dos governos dos países ricos, realizados através de megaprojetos que demandam megainvestimentos e alta tecnologia. Tudo para distanciá-los do povo trabalhador, que fica reduzido a objeto dos projetos ou é excluído ou mesmo eliminado (populações indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos, pescadores, etc.).

1.2. - Mas o capitalismo globalizado está dando diversos sinais de crise. A proximidade destas crises exige medidas urgentes, pois suas conseqüências serão terríveis, não só para os povos mas também para o próprio sistema do capital. Ainda mais se houver uma conjunção de duas ou mais destas crises. São elas:

1.2.1. Crise social: enquanto a riqueza acumulada aumenta sempre mais com o ilimitado crescimento econômico, esta riqueza vai se concentrando em cada vez menos famílias. O patrimônio das mil pessoas mais ricas do mundo em 2007 seria suficiente para pagar a dívida externa dos países empobrecidos. No Brasil em 2003, 80 mil famílias tinham um patrimônio de US$ 1 trilhão e 750 bilhões, enquanto a estatística oficial indicava 53 milhões de pobres e 21 milhões de indigentes e famintos. Na França, as desigualdades estão levando a manifestações de rua e crescentes confrontos do povo com as elites. Os dirigentes franceses de grandes corporações ganham em média 15 mil euros por dia, ou 430 vezes o salário médio dos trabalhadores de suas empresas. Nos EUA, país mais rico e poderoso do mundo, 15% da população é pobre ou miserável. Em conseqüência, as ondas migratórias do Sul para o Norte crescem e a instabilidade social nos dois hemisférios ameaça explodir.

1.2.2. Crise econômico-financeira: 95% das transações financeiras no mundo são especulativas - sem fundamento em riqueza real. Dólar em risco: sobre-endividamento externo EUA (US$ 8 trilhões) > risco de crise monetária internacional. Dinheiro sujo: refúgios fiscais e jurisdições secretas (e=US$ 11 trilhões); preços abusivos de transferência; contas secretas; subornos; buracos nas leis > influxo de fundos criminosos e sonegação fiscal. Descapitalização do Sul em favor do Norte (e=US$ 500 bilhões por ano). Crise da especulação imobiliário-financeira dos EUA já levou à falência, ou quase, vários bancos e financeiras, estadunidenses e estrangeiras. Vários só se salvaram devido à injeção de recursos dos fundos públicos pelos bancos centrais do Norte. É quando o Estado vem salvar o capital de risco. Risco da bolha global explodir em 5-10 anos.

1.2.3. Crise da militarização: aumento dos conflitos e dos gastos bélicos. Guerras imperiais localizadas > geopolítica e recursos naturais: Oriente Médio e Ásia Menor. Gastos militares: muito acima de US$ 1 trilhão/ano. Armas atômicas dos países ricos aos seus satélites (Israel, cerca de 250 ogivas nucleares) - nenhum sinal de desarmamento. Polarização possível entre China-Rússia x EUA no futuro. Multiplicação das bases militares dos EUA, em especial na América Latina e Caribe (ver mapa anexo). Probabilidade de alastrar-se em conflitos multiregionais > uso de armas atômicas > possível guerra mundial...

1.2.4. Crise ecológica:

1.2.4.1. Aquecimento global: aceleração exponencial aproxima o planeta de uma crise global grave. Antártica: maior concentração CO2 em 800.000 anos - CO2 em bolhas no gelo - ritmo de degelo: em 17 anos o mesmo que o dos 1000 anos anteriores! Ártico: degelo acelerado: 20% falta de superfície reflexiva já desapareceu - ameaça à vida em águas salgadas. Elevação do nível do mar pode chegar a 6m até o fim do século. Prejuízos atuais do aquecimento excedem $60 bi/ano; em 2050, e=$300 bi/ano gastos para consertar estragos. Previsão aumento de 3-3,5o C na temperatura até 2100 foi revisto para 4-4,5o C (1,2-1,5o C em 2050) > aumento de 3oC levará Floresta Amazônica ao colapso.

1.2.4.2. Energia: esgotamento das fontes não renováveis: crescimento anual = 2% demanda global x declínio de 3% das reservas. 1970 - pico já alcançado nos EUA. Daí busca febril de controlar reservas de outros países, inclusive mediante invasão militar e guerra.Gráfico dos milênios, antes da era dos hidrocarbonetos: deserto energético cheio de potenciais naturais. Depois dela: deserto energético com potenciais naturais esgotados ou destruídos. Desenvolvimento de fontes renováveis em ritmo insuficiente para evitar crise global ainda neste século.

1.2.4.3. Água: Escassez crescente priva hoje cerca de um terço da humanidade do direito humano à vida. Esta previsão era para 2025, mas chegou 20 anos antes (IIGA). Fatores: uso excessivo pela indústria e agricultura; desperdício nas cidades e moradias; desmatamento; mau uso do solo; poluição química e humana; privatização; carência de políticas de conservação de mananciais; aquecimento global! Riscos: desertificação, secas agravadas. Brasil 2007: 18.000 km2 de deserto no Nordeste. Austrália 2006: cada 4 dias 1 suicídio de agricultor desesperado.

1.2.4.4. Desmatamento: tem se acelerado com a política agromineroexportadora. Está ligado ao endividamento externo dos países do Sul (exportar para captar divisar e viabilizar pagamentos). Expansão da fronteira agrícola e pecuária. Queimadas. O desmatamento é responsável por 20-25% das emissões globais de CO2. É a principal forma de emissão no Brasil. Desmatamento da Amazônia:
Governo Lula: 84,4 mil km2 em quatro anos (mais de duas Suíças)
Governo FHC: 154,7 mil km2 em oito anos (quase duas Áustrias)
Total de 1977 até 2006: 331,3 mil km2 (Itália mais Bélgica). Florestas tropicais encolhem 5% ao ano. Risco: desertificação, secas, destruição de mananciais, da biodiversidade, de espécies de plantas e animais - quebra dos ciclos.

1.2.5 - Crise espiritual:

1.2.5.1. Crise de sentido da vida, colapso do sentido do Sagrada, materialismo exacerbado, apego aos bens materiais e à acumulação de riquezas palpáveis. Esvaziamento do sentido espiritual da vida na Terra. Vazio de espiritualidade. Redução do Divino ao culto imediato do ter e do prazer, sem partilha. Mercantilização das pessoas e até da religião. Enraizamento da cultura da exterioridade, típica da era patriarcal que estamos atravessando. Divórcio profundo entre o masculino e o feminino, e predomínio absoluto do masculino. Divórcio profundo entre o mundo humano e a Mãe-Natureza, ao ponto de colocarmos em risco, com nossa avidez de acumular riquezas e de consumir, a própria vida no Planeta! Redução da relação com o Divino a cultos exteriores e momentos isolados da semana ou do mês. Culto do Ego, às custas do sentido maior da vida humana, a unidade da diversidade, com o outro e com todas as formas de vida. Dogmatismos e fundamentalismos, apegos a verdades absolutas, arrogância intelectual e ética - tudo isso esvazia de sentido tanto a relação viva e dinâmica com o Divino quanto a ação pela transformação do mundo.

1.2.5.2. Trabalhar pela transformação pessoal, pelo desenvolvimento em si da espiritualidade do cotidiano e da espiritualidade histórica e cósmica, construindo em si a nova mulher e o novo homem. Ensinar pelo exemplo e pelo testemunho, mais que pelas palavras. Superar a cultura patriarcal e machista. Promover a espiritualidade integrada com a ação social e política. Ajudar a juventude a dar sentido à sua vida. Introduzir e consolidar na própria vida o amor como acolhimento do outro como legítimo outro na partilha e na comunhão da vida. Assumir como eixo da própria Espiritualidade o desafio: "Que eles sejam UM, como tu e eu somos um."
Trabalhar a dimensão simbólica da luta, resgatando o jejum solidário como forma de ação não violenta de alto valor político e espiritual.

2. Governo Lula

2.1. Conseguiu domar a inflação, o que beneficiou a economia inteira. Mas isto, às custas de uma política monetarista de altas taxas de juros e o câmbio semilivre, o que fez aumentar os juros pagos aos banqueiros e diminuir a capacidade de investimento da economia.

2.2. Instituiu programas sociais eficazes para combater o fenômeno da fome, fazendo com que cerca de 45 milhões de famintos passassem a comer.

2.3. Contudo, não deu os passos seguintes ao de dar de comer a quem tem fome: a estratégia de geração de trabalho e renda, a viabilização da cidadania econômica dos excluídos, ajudando-os a reintegrar-se de forma produtiva e solidária na sociedade. O caráter assistencial destes programas arriscam gerar imobilismo, dependência e clientelismo, e fracassar a longo prazo.

2.4. Não quis tocar nos fatores que geram a fome, a miséria e a exclusão. Nem auditoria da dívida pública, nem projeto nacional de desenvolvimento econômico, social e humano, nem inversão de prioridades na gestão do orçamento, nem reforma tributária progressiva, nem política racional de Seguridade Social, nem avanço na mudança do perfil exportador do país, no sentido de substituir importações e exportar produtos de maior valor agregado.

2.5. Optou pela continuidade da política econômica neoliberal de Collor e FHC, com temperos de política social. O pagamento dos juros da dívida pública continua sendo a primeira prioridade na gestão do Orçamento da União.

ORÇAMENTO GERAL DA UNIÃO - 2007 Executado até 31.12.2007
(sem refinanciamento para pagar amort.)% (com financiamento para pagar amort.)%
Juros e amort. da Dívida Pública 30,69 Juros e amort. da Dívida Pública 53,21
Saúde 5,17 Saúde 3,49
Educação 2,58 Educação 1,74
Reforma Agrária 0,46 Reforma Agrária 0,31
Gestão Ambiental 0,17 Gestão Ambiental 0,12
Saneamento 0,01 Saneamento 0,00
Habitação 0,00 Habitação 0,00
Fonte: Orçamento Geral da União (Sistema Access da Câmara dos Deputados)

2.6. Rejeitou a proposta do Plano Nacional de Reforma Agrária, apresentado em 2003, alegando falta de recursos. O plano propunha o assentamento produtivo de um milhão de famílias sem terra em três anos (2004-2006) ao custo de R$ 8 bilhões por ano, ou R$ 24 bilhões nos três anos. Contudo, em 2006, pagou em média R$22,8 bilhões por mês como juros e amortizações aos bancos, ou quase o total necessário para assentar um milhão de famílias em três anos! Em 2007, pagou mensalmente R$ 19,7 bilhões por mês aos bancos e destinou apenas R$ 3,5 bilhões à Reforma Agrária para todo o ano. Esta é uma escolha política, que contribui para definir o caráter de classe do governo Lula.

2.7. Tomou atitudes positivas na política internacional, fazendo corpo mole nas negociações da ALCA, desenvolvendo relações com outros países do Sul e participando das iniciativas para a integração da América do Sul, tais como a criação do Banco do Sul.

2.8. Contudo, não demonstrou vontade política de promover um projeto de soberania nacional e desenvolvimento próprio, como têm feito alguns países irmãos do continente, em particular a Venezuela, a Bolívia e o Equador:

2.8.1. reconquista da soberania sobre seus recursos naturais

2.8.2. distanciamento das diretrizes da potência estadunidense

2.8.3. desenvolvimento ativo de alternativas regionais de integração do continente, baseadas na cooperação e na solidariedade

2.8.4. desprivatização das águas

2.8.5. Estado a serviço do desenvolvimento social e humano

2.8.6. reconfiguração institucional para viabilizar uma governança transformadora (via Assembléia Constituinte).

2.9. Aprofundou a abertura do Brasil aos capitais estrangeiros, sobretudo nos campos da biotecnologia, do agro e hidronegócio, e na exploração de recursos naturais. Também aprofundou a opção por um modelo agromineroexportador, que perpetua a condição subalterna e dependente do Brasil frente ao grande capital internacional e aos mercados mundiais.

2.10. No plano político, o governo Lula conseguiu condicionar o Partido dos Trabalhadores e as centrais sindicais às suas opções de política econômica. Apresentou uma fachada de governo acima das classes, capaz de gerar uma falsa conciliação de classes, melhorando um pouco a condição dos mais pobres, e melhorando muito a condição dos muito ricos. A ilusão de que já não há luta de classes tem sido nefasta para o mundo do trabalho, e tem sido causa de divisões profundas no seio das organizações populares, dos partidos e das esquerdas. Isto significa que o setor majoritário da sociedade está enfraquecido e sem condições de lutar unido contra as políticas que reforçam o modelo concentrador e corporativista de crescimento econômico, nem a favor de um outro caminho de desenvolvimento para o Brasil.

2.11. O argumento de que Lula faz a "política do possível" repete FHC, e não tem consistência histórica. É verdade que o Legislativo brasileiro está dominado por representantes das classes ricas - grandes fazendeiros, banqueiros e grandes empresários. Mas o Congresso e as instituições de governo são apenas um dos espaços de luta política; o outro é a própria sociedade civil. Foi ela que elegeu e reelegeu o atual governo, é ela que pode ser consultada, educada e mobilizada para apoiar uma política que lance as bases para um projeto de desenvolvimento endógeno, soberano, sustentável e solidário para o Brasil. É o que têm feito os presidentes Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Através de um diálogo assíduo e aberto com a sociedade, plebiscitos, e outras formas de consulta, educação e mobilização, foram capazes de criar um novo marco institucional e jurídico para seus países e estão levando adiante políticas transformadoras, apesar das imensas contradições e pressões internas e externas que sofrem dos setores historicamente privilegiados pela ‘ordem’ anterior. Sendo o Brasil muito maior, mais forte, mais populoso e mais rico que esses países, o governo Lula teria tido êxito se tivesse escolhido um caminho semelhante que, afinal, era aquele para o qual seus eleitores o haviam eleito e reeleito.

2.12. O governo Lula perdeu ou desperdiçou a oportunidade histórica de fazer a única revolução imediata que estava ao seu alcance: a da comunicação e da educação das massas, aquela que criaria o ambiente propício para o empoderamento das bases da sociedade para assumirem um papel de cidadania ativa no desenvolvimento econômico, tecnológico, social e humano em harmonia com o ambiente natural. Lula tem promovido espaços de interação com representantes populares, como o PPA (plano plurianual), os conselhos, etc. Mas são espaços com cartas marcadas. A própria composição do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social é reveladora. Seus membros foram nomeados pelo Governo Federal e não escolhidos pelos diversos setores da sociedade brasileira. Os empresários e banqueiros são a maioria, embora representem apenas 1% da população economicamente ativa. Os projetos do governo já chegam prontos, e há pouca ou nenhuma possibilidade de que sejam substancialmente alterados ou mesmo cancelados pela sociedade organizada. Por outro lado, não há consulta sobre as questões estratégicas do desenvolvimento, nem respeito por manifestações de peso da sociedade sobre temas estratégicos. É o caso das pressões que a setores expressivos da população, liderados pela AEPET, Associação de Engenheiros da Petrobrás e alguns sindicatos de petroleiros, tem feito pelo cancelamento dos leilões dos blocos petrolíferos. É o caso do megaprojeto de Transposição do rio São Francisco e também do plebiscito popular sobre a declaração de nulidade do leilão que privatizou ilegalmente a Vale do Rio Doce em 1997 (e que o Governo Lula se recusa a investigar). Em torno de 3,7 milhões de brasileiras e brasileiros exigiram a declaração de nulidade, mas Lula fez ouvidos moucos e, recentemente, avalizou e megaempréstimo do BNDES à Vale privatizada para um investimento conjunto com um grupo transnacional de base japonesa.

2.13. Por tudo isto, concluímos que a ambiguidade de caráter de classe do Governo Lula é apenas aparente. O povo que vivia privado do mais essencial para uma existência digna apoia o governo, por ver nele uma melhora real e imediata da sua condição de vida. Mas este não é o traço principal que define o governo Lula. O que define estrategicamente o Governo são suas políticas econômicas, suas alianças e aqueles a quem essas políticas mais beneficiam. O governo Lula, estrategicamente, está identificado com os interesses das elites transnacionais (de base brasileira e estrangeira), isto é, o grande capital. É preciso ajudar a população a ver além do imediato, a exigir mudanças profundas não apenas conjunturais, mas na própria estrutura do capitalismo subalterno que o Brasil hoje se contenta em edificar.

3. Movimentos Populares

A conjuntura é de retração e de fragmentação, conforme dito acima. É tempo de acumular forças, educar e organizar as bases da sociedade para uma nova etapa de ofensiva do projeto libertador. É tempo de desenvolver o diálogo entre os diferentes movimentos e redes a fim de fortalecer o poder de negociação com os centros de poder.

3.1. As três estratégias

3.1.1. Pesquisar, pensar criticamente a realidade e denunciar as injustiças e desigualdades, assim como os fatores que as originam e sustentam.

3.1.2. Pressionar os centros de poder em favor de reformas que diminuam as privações e carências da maioria trabalhadora e excluída, e contemplem os seus direitos humanos e ecossociais.

3.1.3. Criar o novo no interior do velho sistema, inaugurando novos modos de consumir, de produzir, de comercializar, de poupar, trabalhando pela transformação pessoal e das relações interpessoais e sociais, sendo hoje a mudança que desejo para o mundo.

3.2. Assembléia Popular: é uma conjunção de movimentos e redes que atuam na mobilização em torno do Brasil Que Queremos. A cartilha publicada em 2005 resume as propostas engenhadas em mais de 250 assembléias populares realizadas em todo o Brasil. A inovação é dupla: por um lado, os movimentos sociais superam a postura mais denunciatória e reivindicadora do passado, e adotam uma atitude propositiva e uma agenda própria de ação. Por outro, incluem dois recortes propositivos: o setorial e o dos biomas. No livreto fica evidente que o Brasil pode ser repensado a partir dos grandes ecossistemas vivos que o constituem. Esta abordagem abre uma perspectiva inovadora para repensarmos as diversas reformas, a começar pela Reforma Agrária. O livreto O Brasil Que Queremos foi entregue ao Governo Lula, mas as propostas têm sido sistematicamente ignoradas por ele. A A.P. foi uma das principais forças sociais realizadoras do plebiscito de 2007, cujo foco principal foi a renacionalização da Cia. Vale do Rio Doce. Atualmente, a A.P. está realizando seminários descentralizados de formação em todo o país, e trabalhando para aprofundar e detalhar o conjunto de propostas já elaboradas.

3.3. Os movimentos do campo têm sido os mais ativos e ofensivos: o MST, o MPA, o MAB, os povos indígenas e os quilombolas têm avançado mais do que os movimentos urbanos, mas carecem ainda de maior integração orgânica com os movimentos das cidades. É importante que aqueles movimentos se unam a outras articulações que trabalham em busca de alternativas de organização e de projeto de outro Brasil, e participem ativamente de redes criadoras de sinergia.

3.4. O movimento da Economia Solidária tem feito significativos progressos em todo o País, que atualmente estão articulados no espaço do FBES - Fórum Brasileiro de Economia Solidária. O FBES acaba de realizar sua quarta Plenária Nacional, e oferece experiências ricas de construção de práticas inovadoras de produção, trocas, moeda, finanças, intercâmbio tecnológico, educação cooperativa, etc. Especialmente importante é o desenvolvimento, ainda que incipiente, de redes de colaboração e cadeias produtivas solidárias. A SENAES - Secretaria Nacional de Economia Solidária - tem sido um fator importante de estímulo à promoção da Economia Solidária no Brasil. O FBES faz parte de articulações de âmbito latino-americano, intercontinental. Surge no horizonte, portanto, a perspectiva de uma outra economia para um outro mundo possível, para uma globalização não mais do capital, mas da solidariedade, do respeito à diversidade, e da igualdade de direitos e deveres em vista do bem-viver, do trabalho emancipado e do desenvolvimento humano e social.

4. Estratégias para Outro Modo de Desenvolvimento

4.1. Temos dois desafios: 1) visualizar outro Brasil possível; e 2) definir estratégias e táticas de ação para a transição entre a situação atual, com suas contradições, e o Brasil que queremos.

4.2. Simplificadamente, aqui estão os elementos centrais da visão, para discussão. O trabalho de definição de estratégias e táticas é tarefa de todas e todos:

4.2.1. Recentrar a economia no Ser Humano como ser-relação, e não como indivíduo absoluto. Daí decorre a visão de um desenvolvimento endógeno (que nasce de dentro da pessoa e do povo e mobiliza os recursos destes), soberano (não conduzido nem dominado por atores externos), solidário (consciente da sua interconexão com os outros e disposto a partilhar com outros aquilo que lhe sobra) e sustentável (em harmonia com o meio natural). Daí decorre também o conceito de Economia Solidária, cujo objetivo é a reprodução e manutenção da Vida como sentido primeiro da atividade econômica.

4.2.2. Introduzir práticas informais e formais de posse compartilhada dos bens e recursos produtivos, a começar pela terra. Reorientar a produção de bens e serviços para as necessidades da vida, em vez de para o consumo excessivo de uma minoria. A economia do suficiente inspira novos comportamentos de consumo social e ecologicamente consciente. A produção autogestionária destaca o sentido social da atividade produtiva e promove a responsabilidade de cada trabalhadora e trabalhador sobre o empreendimento, o produto, a cadeia produtiva até o consumidor, e o meio ambiente.

4.2.3. Introduzir pesquisa e desenvolvimento de tecnologias adequadas à produção responsável e ao consumo consciente, e apropriáveis pelos sujeitos da atividade produtiva. O desenvolvimento econômico e técnico, na Economia Solidária, não são fins mas meios para favorecer o desenvolvimento social e humano.

4.2.4. Recriar as finanças e a moeda como meios a serviço da produção e reprodução da vida. É o que chamamos finanças solidárias. Elas são um instrumento importante de controle do desenvolvimento pelos seus detentores. As finanças do povo têm que estar nas mãos do povo para que este possa ser o protagonista do seu próprio desenvolvimento. No âmbito nacional e internacional, multiplicam-se não só práticas de microcrédito solidário, mas também de bancos éticos e de empreendimentos autogestionários de poupança e crédito. Também está em discussão uma nova arquitetura financeira para a América do Sul, iniciada a partir do seu primeiro elo, o Banco do Sul.

4.2.5. Democracia em vez de corporatocracia: desenvolver novas formas de organização social que superar a estrutura hierárquica que caracteriza os partidos, os sindicatos e as igrejas; formas orgânicas, em que cada membro se empodere para apreender o saber e assumir a responsabilidade de levar a termo o que lhe cabe de modo eficiente para si e também para o sistema de que faz parte. Neste espaço, o Estado (nos seus diversos níveis) pode conceber uma crescente diminuição do seu papel condutor, usando sua autoridade e sua visão abrangente como instrumentos que orquestrem, num projeto comum de desenvolvimento, a diversidade das comunidades humanas que protagonizam o desenvolvimento de forma ao mesmo tempo autônoma e solidária. Democracia: sistema em que cada pessoa e cada comunidade de trabalhadores assume o papel de sujeito do seu próprio desenvolvimento, em colaboração com outras pessoas e comunidades, formando um tecido único, ligado pelos fios do acolhimento e do respeito mútuo, e da partilha de um projeto comum de humanidade.
* Socioeconomista e educador do PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Rio de Janeiro, e sócio do Instituto Transnacional
Extraído de http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=32628
acesso em 18 abr. 2008

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Análise de Conjuntura abr. 2008

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Recebemos e publicamos, na íntegra, a análise de conjuntura que foi apresentada no dia 02-04-2008, na Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, por Pedro A. Ribeiro de Oliveira, professor na PUC-Minas e no ISER-Assessoria.
Eis o texto.

Apresentação

No momento em que a Assembléia Geral da CNBB define as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, esta análise de conjuntura quer trazer uma visão dos desafios trazidos pela realidade atual. Posto que a evangelização se dá no contexto da cultura (modo de cada grupo humano pensar, falar, produzir, consumir, reproduzir-se, expressar-se artisticamente, relacionar-se com o sagrado, enfim, um modo de vida partilhado de uma geração a outra) e ela é dinâmica, trata-se de decifrar as linhas de força hoje atuantes em nossa cultura.

O problema metodológico – nunca satisfatoriamente resolvido – reside no fio condutor da análise: sendo a cultura uma totalidade complexa, ela é melhor entendida a partir dos seus elementos materiais (as relações sociais que moldam a produção, a reprodução, o consumo e o poder) ou a partir dos seus elementos ideais (pensamento, valores e expressões artísticas e religiosas que dão sentido aos comportamentos)? Se é evidente que não se pode reduzir a cultura a um de seus hemisférios, não há consenso sobre qual deles tem o peso determinante. Nossa opção metodológica pelos elementos materiais da cultura como ponto de partida dá realce às desigualdades no ter, no poder e no saber, trazendo à luz o sofrimento dos perdedores no jogo do mercado. Ao colocar como ponto de chegada os valores que impulsionam o agir, ela assinala as tendências em curso no mundo e interpela a Igreja quanto à eficácia de sua ação evangelizadora.

Já foi dito que, mais que uma época de mudanças, vivemos uma mudança de época: após o longo domínio da civilização ocidental, estamos passando a uma época planetária, fruto da globalização cultural e econômica. Essa nova época, que agora se esboça em meio a graves crises – ecológica, econômica e social – poderá ser um tempo de divisões, com a exclusão dos povos e grupos empobrecidos, sem voz no concerto mundial, mas pode também ser o início de uma nova harmonia mundial, onde as diferenças sejam valorizadas num sistema multipolar, no qual nenhum povo exerça sozinho o poder sobre os demais e onde sejam considerados os direitos da Terra e das gerações vindouras.

Vivemos então um período contraditório, no qual várias tendências se entrecruzam. Crescimento econômico nos últimos cinco anos e concentração da riqueza em poucas mãos; lucratividade do capital financeiro e desvalorização do trabalho; megaurbanização e campo transformado em agroindústria; desenvolvimento das comunicações e desinformação de grandes setores sociais; fortalecimento do poder econômico e enfraquecimento do poder político; emergência da consciência ecológica e devastação do Planeta (Amazônia!); movimentos sociais que proclamam que “outro mundo é possível” e desalento geral com a política. Este é um ambiente cultural propício ao desenvolvimento de atitudes individualistas que se manifestam também no campo religioso.

Esta análise não pretende abordar todos esses problemas, mas quer dar uma visão global da realidade brasileira situando-a no continente americano e no mundo atual, a partir de três focos: a crise do sistema financeiro mundial, o quadro político mundial e latino-americano, e o papel que os movimentos sociais nele desempenham. Ela termina, como de hábito, com um breve apanhado do Congresso Nacional.

I . Sistema financeiro mundial abalado – e o Brasil?

Situação do dólar

Como é possível que a inadimplência em empréstimos imobiliários de segunda categoria nos Estados Unidos provoque uma crise global? Para entendê-la, é preciso ter em conta que a globalização é fundamentalmente financeira e que o sistema financeiro se interliga num grau mais alto do que o sistema produtivo (de bens ou de outros serviços), pois o crédito (no sentido estrito de confiança) é seu ingrediente mais importante.

Em 1944, em Bretton Woods, foi proposta uma moeda internacional, mas os EUA se opuseram porque era o dólar moeda internacional. Foi estabelecido que o dólar estaria lastreado pelas reservas americanas de ouro e o Tesouro americano se comprometia a resgatar com o peso em ouro cada dólar apresentado. Em 1971, porém, o governo dos EUA desvinculou unilateralmente o dólar do padrão ouro, alegando que o verdadeiro lastro do dólar era a confiança do mundo na economia americana. Isso lhe possibilitou emitir moeda para atender as exigências de consumo da sua população e seus gastos militares. E até hoje a maior parte dos depósitos bancários, do comércio e das transações financeiras internacionais, se fazem em dólar.

Enquanto o dólar foi aceito e buscado por todo o mundo porque o mundo todo o aceitava e buscava, a política econômica norte-americana pôde satisfazer a “sociedade de consumo” mesmo aumentando o déficit externo e a dívida pública (que atualmente se aproxima dos US$ 4 trilhões). Mas se a confiança no dólar diminui, entra em ação o círculo vicioso, pois a queda do dólar reduz a confiança. Fora dos Estados Unidos, quem detém poupanças em dólar começa a desfazer-se delas. Essa estratégia de fuga em busca de papéis mais seguros, pode elevar os preços das matérias-primas, pois não há ouro bastante para servir como reserva de valor. O petróleo, por exemplo, que amanhã pode ser revendido (à China ou a outros) antes mesmo de ter saído do chão.

A economia brasileira e o vendaval financeiro

A política econômica do atual governo tem três prioridades macro-econômicas: a estabilidade (dos preços internos e das regras estabelecidas), o crescimento econômico e a redução da miséria (sendo este um objetivo extrínseco, dependente da ação corretiva do governo e não da política macro-econômica).

Comparados os seis anos do atual governo com os anteriores, vê-se que essas prioridades estão se realizando: a inflação está sob controle (às custas de juros nas alturas), o Brasil voltou a crescer de forma continuada (média de 4,5% de 2004 a 2007) e sem perda de impulso, e os programas de combate à pobreza e à miséria reduziram a percentagem de pessoas abaixo da linha estatística de miséria e aumentaram os setores médio-baixos (1). Esse êxito tem sua explicação no excepcional crescimento econômico mundial puxado pela China e sustentado pela livre exploração dos recursos naturais da Amazônia e do Cerrado, hoje usados como fontes de produtos primários de exportação. Além disso, a capacidade produtiva brasileira tem crescido mais rapidamente do que o consumo puxado pelo mercado interno. O que está em questão é o atual modelo produtivista, que requer muitos investimentos na geração de energia elétrica. Se desejamos preservar o meio-ambiente para as gerações vindouras, temos que rever o modelo desenvolvimentista do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

Diferentemente de outros surtos de crescimento, cujos desequilíbrios e contradições internas os levaram à exaustão, o atual só pode ser barrado “de fora para dentro”, seja por pela crise internacional, seja pela obsessão monetarista com a estabilidade (que eleva os juros e premia quem só empresta). Hoje a economia nacional é menos vulnerável, por ter a política externa diversificado nossos parceiros econômicos, ampliado o leque de trocas e reduzido o papel dos EUA. Persiste, porém, o “calcanhar de aquiles” da dívida pública: deixamos de dever em dólar (que está derretendo) para dever e pagar em real (que se valoriza) (2).

Diante desse quadro de crise financeira, é bom lembrar que ao longo de toda nossa história, crise externa significou oportunidade para o Brasil avançar internamente, sempre de forma imprevista e original(3). Hoje, nosso “setor externo” é mais diversificado e tudo depende de como a provável recessão norte-americana afetará a China e outros compradores. Embora nosso crescimento esteja assentado em fatores internos, a propagação do clima de instabilidade financeira pode levar os investidores externos a retirar seus recursos do Brasil (4) para liquidar suas contas, deseqilibrando assim as contas externas.

II . O cenário político

A palavra crise hoje tão utilizada corresponde a uma realidade. Fala-se de crise global, sistêmica, ou de civilização; é uma crise de muitas faces, cujo emblema é a crise ambiental cada dia mais grave. Entre elas, destaca-se a crise das instituições de poder. A absolutização do mercado leva ao esvaziamento da democracia e das instituições reguladoras (Estado, educação, seguridade social, partidos políticos, igrejas, família, polícia), prejudicando os processos (eleições, alocação do trabalho, comunicações, migrações) que deveriam assegurar o bom funcionamento da sociedade.

Quando as relações se desfazem e se desarticulam, os valores tradicionais perdem o seu sentido. Valores de solidariedade, de co-responsabilidade, de ajuda e confiança são abafados pelos valores da concorrência, da competição e do individualismo; do materialismo também. As relações sociais e humanas são mediadas pelo dinheiro. As pessoas valem pela sua conta bancária. A democracia – arte de viver em sociedade participadamente – está sendo atacada e ameaçada de destruição pela lógica do capital, do lucro, do enriquecimento. As empresas mundiais (bancos, mineradoras, armamentistas, farmacêuticas, biogenéticas, etc.) ditam suas regras aos Estados e governos. O mercado deu um golpe contra a política e tomou as rédeas da vida social.

Num mundo marcado pela globalização, os problemas locais ganham alcance mundial e necessitam de instituições e mecanismos de governança também mundiais. Mas enquanto os países emergentes reivindicam uma distribuição mais eqüitativa dos frutos do crescimento, as instituições que estabelecem as regras da economia mundial – em particular o FMI e o Banco Mundial - asseguram vantagens aos países mais ricos. A ONU – a mais multilateral das instituições mundiais – sofre sob o unilateralismo dos EUA.

A ausência de governança democrática mundial abre o caminho para a violência, a insegurança, os conflitos e as guerras. Esperava-se que o término da guerra fria desse início a um período de paz e de desenvolvimento, mas multiplicam-se as disputas e guerras por fontes de energia e matérias primas. A repressão de Israel sobre os palestinos está no centro do confronto entre o Ocidente e os povos árabes e populações muçulmanas.

Neste contexto de crise das instituições da vida social é a sociedade civil mesma que supre as falhas da democracia representativa e aponta alternativas de maior participação. Multiplicam-se os fóruns, movimentos, redes, campanhas, plataformas, círculos, etc. criando novas formas de expressão e mobilização. Muitas vezes, os movimentos sociais e populares estão na dianteira dos partidos políticos para expressar as necessidades e aspirações dos cidadãos e para encarar os desafios do futuro. Na medida em que contestam eficazmente o modelo hegemônico em crise e oferecem propostas novas e críveis, os movimentos sociais se tornam alvo de repressão e violência. Com frequência, são demonizados e acusados de serem eles próprios a causa dos males que denunciam.

O desafio é desenvolver e consolidar a articulação dos movimentos e organizações que brotam em vários campos da vida social. As igrejas e tradições religiosas podem desempenhar um importante papel na construção de alternativas fundadas sobre valores de paz, justiça, solidariedade e cuidado ecológico.

A América Latina: Dependência e Movimentos sociais

Nas duas últimas décadas, os movimentos sociais deram nova configuração ao cenário político da região. O fim das ditaduras militares inaugurou um período de restauração democrática na região, mas o povo ficou frustrado com seus parcos resultados, pois a defesa dos direitos humanos não resultou em melhor distribuição do poder e da riqueza. A política, os partidos e o poder judiciário perderam credibilidade diante da corrupção e do corporativismo que favorecem a impunidade.

Desde o fim da década de 1980 o ideário neoliberal do “estado mínimo” bloqueia o desenvolvimento prometendo a utopia do mercado capaz de satisfazer todos os desejos (5). Nesse contexto, os sindicatos perdem a função de defensores dos interesses populares e criam-se outras formas de movimentos com forte consciência política, capazes de conciliar a defesa de objetivos sociais específicos (indígenas, sem-terra, Direitos Humanos, dívida externa, negros, desempregados, mulheres, jovens...) com os interesses coletivos gerais, de modo a formar-se um amplo arco de alianças populares. Nessa diversidade de organizações e de lutas, integram-se dimensões de identidade étnica, busca da paz e combate à militarização e aos armamentos, a proteção do planeta, a defesa de tendências sexuais, de valores éticos e espirituais. As organizações são fluidas, horizontais, dinâmicas, em rede. Demandas pontuais, às vezes locais, substituem os grandes projetos. E essas articulações bem vivas multiplicam-se rapidamente pelo acesso à internet.

Esses novos movimentos sociais projetam-se sobre um cenário antigo: a América Latina e Caribe como espaço aberto à exploração dos recursos naturais. Nesta hora em que a maior biodiversidade do planeta e a rica sócio-diversidade representada por seus povos e culturas ganham evidência, é preciso reconhecer as condições desiguais dessas culturas face à cultura do mercado, hoje globalizada. Esta segue uma dinâmica de concentração do poder, da riqueza, da informação e dos recursos naturais, e exclui sem piedade quem é insuficientemente capacitado e adaptado. Aí irrompem os novos atores sociais que promovem outro modelo de desenvolvimento, visando não o produtivismo mas a produção, as trocas e o consumo solidários, conforme o princípio da subsidiariedade e regidos pelo respeito aos direitos humanos e aos direitos da Terra. Destacam-se, nesse quadro, os povos indígenas dos países andinos, que não só reivindicam o reconhecimento de seus direitos individuais e coletivos, mas propõem uma nova regulação da economia, das finanças e do comércio mundial, em substituição à atual globalização do mercado.

As eleições nesta última década assinalam a emergência de novas maiorias políticas que defendem a integração regional e uma agenda de desenvolvimento autônomo. A despeito dos habituais mecanismos de subordinação das massas, como o clientelismo e a manipulação da mídia, essas eleições expressam a rejeição popular aos “donos do poder”. É o caso de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Nicarágua, Uruguai e Venezuela, que tomam distância das diretrizes norte-americanas e criam alternativas regionais(6). Não sem enfrentamentos com as elites, está em curso a recuperação do controle das riquezas minerais, a desprivatização das águas, um novo papel do Estado a serviço do desenvolvimento social, reconfigurando as instituições políticas para garantir os direitos dos setores tradicionalmente desconsiderados pelos “donos do poder”. Estes não hesitam em desrespeitar as instituições democráticas e em manipular as informações na mídia para assegurarem seus privilégios.

Neste embate entre os novos movimentos sociais e a “elite do poder” há vitórias e derrotas em ambos os lados. Os Tratados de Livre-Comércio assinados por países da América Central e do Sul são uma vitória das forças neoliberais, tanto quanto a rejeição da ALCA foi uma vitória das forças de esquerda (7). Diante do desmonte de suas estratégias geopolíticas para a América Latina, o governo dos EUA introduziu um novo ingrediente nesses tratados: a parceria norte-americana para a segurança e a prosperidade, que introduz a noção de segurança nos processos econômicos e comerciais. Assim, a defesa da ordem democrática (leia-se a liberdade do mercado) iria de par com o direito de intervenção em caso de alteração desta ordem. Não por acaso, a segurança pública no continente tem sido militarizada. O caso mais evidente é o da Colômbia, onde conselheiros militares norte-americanos, operadores militares privados e companhias de segurança privadas envolvem-se em operações militares sem a anuência do Congresso dos Estados Unidos. A política do uso da força contra os inimigos tem sido estimulada desde Washington(8), daí resultando o bombardeio e a invasão de território equatoriano pela Colômbia, a ação do exército mexicano contra o tráfico de drogas, ou a intervenção militar em favelas cariocas. Aliás, até hoje não foram unificadas as polícias civil e militar no Brasil, e permanece em vigor o modelo repressor do regime militar dito “de segurança nacional”.

Talvez os processos mais inovadores estejam no Equador e na Bolívia, onde os movimentos dos povos indígenas são fortes, provocando a reação de quem nunca reconheceu a cidadania indígena. Na Bolívia, a oposição vem de governadores de regiões petrolíferas e de agronegócio, que acusam o presidente de querer instalar um governo totalitário. No Equador, a Assembléia constituinte é a oportunidade histórica para transformar as estruturas do país e recuperar sua soberania econômica. Essa “revolução cidadã”, visceralmente odiada por uma poderosa mídia, gerou grande esperança no seio da população, embora em seu caminho se escondam muitas serpentes.

O desafio político para os movimentos sociais da América Latina e Caribe consiste não só em libertar-se da dominação econômica e política de uma oligarquia subordinada aos centros financeiros do capitalismo, mas também evitar um populismo que muda os governantes sem mudar as estruturas oligárquicas do poder. Cuba, Bolívia, Equador e Venezuela optaram pelo enfrentamento contra os “donos do poder”, assumindo o risco da radicalização. Chile, Argentina, Uruguai e Brasil escolheram o caminho da negociação com as forças do mercado mundial e as oligarquias locais. Isto significa um custo econômico, social e político que as classes subalternas continuam a pagar em favor das classes privilegiadas. Invocar o risco de bi-polarização das sociedades latino-americanas é próprio do discurso das classes hegemônicas. Na V Conferência do Episcopado da América Latina e Caribe, em Aparecida, os bispos mostraram-se atentos a esses processos. Resta saber em que medida os fiéis leigos e leigas conseguirão colocar-se à altura de suas responsabilidades nas diversas estruturas de ordem temporal.

III . Atualidade dos Movimentos Sociais no Brasil

Comparado ao dinamismo social e político de outros países latino-americanos, o Brasil vive um tempo de pouca mobilização popular. A novidade maior vem dos povos indígenas que estão se afirmando como conjunto de povos e formulando propostas políticas pluri-étnicas onde os brancos e europeus não são mais os únicos protagonistas. Convém lembrar que neste momento está em debate a legislação sobre a mineração em terras indígenas e que os interesses em jogo são enormes. O embate não se dá mais apenas com os tradicionais exploradores das riquezas amazônicas (grileiros, madeireiros, garimpeiros), mas há sinais de que eles se incluem numa estratégia mais geral de criminalizar os movimentos sociais que se colocam contra os interesses das grandes corporações (como Vale, Syngenta, Monsanto, Aracruz Celulose).

Situação dos povos indígenas

A identificação e demarcação das terras indígenas continuam lentas. De um total de 850 terras indígenas reconhecidas, 126 aguardam identificação e 225 terras ainda não foram objeto de providências, ficando expostas a invasões e violências de todo tipo. A ênfase do governo federal na execução do PAC, sem o necessário cuidado com as questões ambientais e com as populações tradicionais, traz o risco de intensificação de invasões comandadas até mesmo por empresas do agronegócio e de mineração. A ânsia de crescimento econômico no modelo produtivista favorece a destruição do patrimônio dos povos indígenas e geralmente ameaça a saúde, o equilíbrio psíquico e social, a cultura e a harmonia das comunidades, que perdem a esperança de um futuro melhor.

Mais grave ainda é a situação dos povos sem contato com organismos da sociedade nacional. São grupos pequenos e frágeis, sem defesa imunológica e cultural, que perambulam pelos rios e matas, evitando o contato com o mundo branco. O CIMI tem recebido denúncias de organização de grupos de extermínio com o objetivo de “limpar a área” eliminando todos os membros desses povos, para nãoe correr o risco de vir a ser reconhecida como de ocupação tradicional.(9)

Duas outras situações reclamam urgente intervenção do governo e da sociedade organizada. A primeira, é a violência sofrida pelo povo Guarani Kaiová, no Mato Grosso do Sul, cujo território não tem espaço suficiente para sustentar toda sua população. Nos dois últimos anos ocorreram 59 suicídios, inclusive de crianças e adolescentes. Além disso, suas lideranças são vítimas de perseguição, como a rezadeira Xuretê Lopes, de 72 anos, assassinada por pistoleiros. Se medidas radicais não forem tomadas, o povo Guarani Kaiová corre o risco de ser exterminado sem defesa.

A segunda situação é a da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, homologada em 2005, quando um grande número de invasores foi realocado pelo Incra. Um grupo de cinco grandes arrozeiros, contudo, não acata qualquer medida judicial nem aceita prazo para sair da terra indígena por eles ocupada. Eles têm sido responsabilizados por vários crimes, como seqüestro (de religiosos, funcionários públicos e lideranças indígenas), ameaça de morte a lideranças indígenas, ataque armado a comunidades indígenas, destruição de centros de ensino da Missão Consolata e crimes ambientais por uso de agrotóxicos. Respaldados por políticos e certos de sua impunidade, desafiam os poderes executivo e judiciário, e afirmam que vão ampliar a área invadida.

Foi agora iniciada uma operação da Polícia Federal, a Upatakon 3, para retirar definitivamente esses invasores da terra indígena Raposa Serra do Sol. Houve choques entre a polícia e empregados dos arrozeiros que bloquearam uma estrada, tendo sido detido um de seus líderes, mas liberado após pagar fiança. É importante acompanhar os desdobramentos desta operação, porque os arrozeiros têm fortes aliados nos três poderes da República, no estado de Roraima e na mídia local e nacional.

Outros movimentos sociais

Os Movimentos Sociais no Brasil começam agora a ser propositivos, ou seja, além de defenderem suas causas específicas, apresentam projetos para o futuro da sociedade brasileira no seu conjunto. Convém notar que neste aspecto os movimentos do campo (MST, MAB e de povos indígenas) têm conseguido avançar mais do que os movimentos urbanos (principalmente os sindicatos que nos anos 1970 e 80 estiveram na linha de frente dos movimentos sociais). Um passo importante foi a realização, em outubro de 2005, da Assembléia Popular em parceria com a 4ª. Semana Social Brasileira, quando foi delineado o primeiro esboço desse projeto para a sociedade brasileira.

Esse passo em direção a uma articulação propositiva dos Movimentos Sociais, contudo, não tem sido acompanhado de um avanço equivalente nas bases. Ora, sua força reside na sua capilaridade social, isto é, sua capacidade de penetração e de mobilização desde as bases populares. Para isso eles sempre contaram com a preciosa colaboração das pastorais sociais e das CEBs normalmente atuantes nos setores sociais excluídos das benesses do mercado, tanto nas periferias urbanas quanto nas áreas de agricultura familiar e de posseiros. Hoje, porém, essa colaboração das bases eclesiais está sofrendo certa retração, como se o campo dos Movimentos Sociais não fosse área de atuação própria a grupos da Igreja. Esse relativo distanciamento entre Movimentos Sociais, de um lado, e as pastorais sociais e CEBs, de outro, diminui tanto a capilaridade social dos Movimentos quanto a influência social e política da Igreja na elaboração de um projeto para a sociedade brasileira a partir das bases populares.

Duas outras questões merecem destaque na atual conjuntura dos Movimentos Sociais. A primeira é a paralisação dos processos de reconhecimento de áreas quilombolas pelo INCRA, para não prejudicar o PAC. A segunda é o avanço da consciência ecológica nos setores populares. O noticiário sobre o aquecimento global começa a penetrar nas camadas populares e os Movimentos Sociais lhe dão o colorido político, que a mídia sistematicamente omite. O tema da ecologia vem sendo politicamente assumido pelos Movimentos Sociais na medida em que eles percebem que as soluções apontadas pela tecnologia só beneficiam quem pode pagar por elas, e buscam soluções tecnológicas a partir dos interesses dos pobres. Nesse sentido, o debate sobre o modelo produtivista de desenvolvimento e o modelo ecológico-social, abordado na análise de conjuntura de fevereiro passado, é um dos temas do momento nos Movimentos Sociais. As pastorais sociais e as CEBs são hoje chamadas a dele participar mais ativamente, para que a Igreja não fique alheia ao que está sendo tratado nos setores populares.

Cabe também apontar um debate que hoje permeia os Movimentos Sociais: quais propostas teriam hoje maior capacidade de mobilização massiva? As questões urbanas – transporte público, segurança, moradia e saúde – parecem ser as mais capazes de retomar o impulso nas áreas urbanas. Por outro lado, a Reforma Agrária está praticamente paralisada, e sem ela não há verdadeiro desenvolvimento nacional. Qual a prioridade? Talvez tenhamos que escutar melhor o clamor do nosso povo por uma vida digna e pacífica.

Enfim, é preciso ter presente que este é um ano eleitoral e isso representa uma grande ocasião para a Igreja realizar seu papel de educadora para o bem-comum. A experiência mostra que sua influência política reside menos em sua capacidade de eleger candidatos de seu agrado, e mais em criar um clima favorável à ética na e da política. É quando ela assume o papel de formação das consciências, seja assumindo a campanha contra a corrupção eleitoral, seja difundido folhetos ou cartilhas que informam e alimentam a reflexão dos fiéis leigos e leigas, que sua influência na decisão dos rumos do País (a começar da esfera municipal) é mais forte e duradoura.

IV. Notícias do Congresso Nacional

Introdução

Desde o início da sessão legislativa, em 8 de fevereiro, dois grandes óbices condicionam o Congresso a cumprir sua missão de legislar: o clima pré-eleitoral e a avalanche de Medidas Provisórias (MPs) que trancam a pauta para a votação normal de projetos de lei.

O ano eleitoral já repercute no Legislativo. 127 deputados são pré-candidatos nas eleições municipais de 5 de outubro. No Senado, apenas 3 dos 81 senadores lançaram seus nomes para as eleições deste ano. Nem todos têm chances reais de vitória, mas a certeza de manter o mandato parlamentar permite a alguns participar da disputa para firmarem seu nome para as eleições de 2010.

A pauta do plenário da Câmara permanece travada por MPs. Os deputados terão pela frente mais de uma dezena delas a impedir a votação de quaisquer outras proposições. Há um consenso de que a Medida Provisória exige um novo regime de tramitação. Uma comissão já trabalha alternativas para superar os obstáculos que elas têm criado ao andamento do Legislativo, pois basta uma MP não ser apreciada em 45 dias para provocar o trancamento de pauta, comprometendo sua agenda de trabalhos. O mal-estar manifestado pelos parlamentares deve-se sobretudo porque raramente elas têm a “relevância e a urgência” prescritas pela norma legal.

Desde sua criação, a MP tem despertado o interesse de cientistas políticos, da comunidade jurídica, dos parlamentares e do cidadão em geral. A polêmica transcende as discussões jurídicas e acadêmicas, desafiando qualquer posição extremada. Dura tarefa é sustentar a extinção do instituto ou atribuir-lhe importância absoluta. Se, por um lado, o governante necessita de um instrumento ágil para atender demandas relevantes e urgentes da sociedade diante da lentidão dos processos no Congresso, por outro, considerá-lo como o mais essencial instrumento de governabilidade não parece muito defensável.

Para completar o quadro, o crescente número de CPIs (das Ongs e dos cartões corporativos) vem acirrar os ânimos e alimentar os noticiários para um público curioso por penetrar os meandros da política e seus escândalos.

Busca de paz no trânsito

O projeto de lei nº 2733/08, que restringe o horário para publicidade de bebidas, e a medida provisória 415/08, que proíbe a venda de bebidas alcoólicas no varejo às margens das estradas, são motivos de tensão da Câmara. O cerco do governo às propagandas de álcool e à venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais enfrenta no Congresso o pesado lobby da indústria de bebidas. Integrantes da Frente Parlamentar em Defesa do Trânsito Seguro se reuniram com o relator da MP que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas margens de rodovias federais, e propuseram punições mais rigorosas para motoristas embriagados envolvidos em crimes de trânsito. O presidente da Frente afirmou que "pouco adianta, por exemplo, o governo ser duro com os comerciantes instalados às margens das rodovias, se não consegue ser eficiente na fiscalização do motorista infrator". Não será fácil a votação. Acontece que 51 deputados e 11 senadores declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) terem recebido R$ 4,5 milhões de fabricantes de cerveja, vinho e cachaça na campanha eleitoral. Como votarão agora propostas que contrariam os interesses da indústria de bebidas alcoólicas?

Regulamentação das Centrais Sindicais

Os deputados finalizaram a votação do projeto que regulamenta as centrais sindicais e aprovaram uma emenda do Senado que mantém o desconto obrigatório da contribuição na folha de pagamento, sem autorização prévia do trabalhador. Foi rejeitado o destaque que pretendia manter essa autorização. Agora aguarda a sanção presidencial. De autoria do Executivo, a proposta reconhece as Centrais como entidades coordenadoras da representação dos trabalhadores, repartindo com elas um percentual da arrecadação obtida com a contribuição sindical obrigatória.

Reforma Política

Embora permaneça entre as prioridades na pauta do Conselho de Líderes da Câmara para o ano em curso, a Reforma Política ainda não recebeu providências para sua execução. Entidades da sociedade civil lamentam que temática de tamanha relevância para a democracia seja subestimada pelos nossos representantes legislativos. Apesar de tudo, elas se empenham em prol de uma real Reforma Política e pretendem apresentar um projeto de iniciativa popular para mudar o sistema político e eleitoral brasileiro, tendo como conteúdo a “proibição de candidatura para quem responda em primeira instância a processo criminal ou civil por improbidade administrativa”(10).

Alguns projetos de lei referentes à Reforma Política estão exigindo atenção especial:

- Dar ao eleitor o direito de cassar o mandato do eleito/a que trair as promessas de campanha (de autoria do senador Pedro Simon);

- Regulamentar o artigo 14 da Constituição que trata de plebiscitos e referendos.

Projetos de Lei dão título de teólogo a religiosos

Dois projetos de lei em tramitação no Congresso estão causando polêmica pela liberalidade com que conferem o título de teólogo a líderes religiosos. Para ser teólogo bastaria ter vida de oração ou praticar ação social na comunidade, por exemplo. O primeiro projeto é do senador Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. O outro é do ex-deputado Vitório Galli (pastor da Assembléia de Deus que apresentou também um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil e mudar a lei que decreta o dia 12 de outubro como feriado nacional) (11). Este último define o teólogo como “o profissional que realiza liturgias, celebrações, cultos e ritos, dirige e administra comunidades; forma pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições; orienta pessoas; realiza ação social na comunidade; pesquisa a doutrina religiosa; transmite ensinamentos religiosos, pratica vida contemplativa e meditativa e preserva a tradição”.

Tanto a SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião) como a CNBB têm acompanhado esses projetos. Já estão previstas audiências públicas sobre o assunto.

Código Florestal

Setores organizados da sociedade estão lançando uma Campanha de Comunicação em Defesa do Código Florestal e do fim do Desmatamento em todos os biomas do país. Seu objetivo é aprovar a MP que dá reconhecimento legal ao Código Florestal e rejeitar um Projeto de Lei (PL), já aprovado no Senado, que reduz a reserva legal na Amazônia de 80% para 50% e permite que um desmatamento feito em São Paulo, por exemplo, seja compensado com o plantio de árvores na Amazônia. Se aprovado, é possível que vastas regiões do país fiquem sem florestas – por isso é conhecido como “Projeto Floresta Zero”.

Moral sexual e estatuto da Família

Questões relacionadas à moral sexual e ao estatuto da Família (homossexualismo, células-tronco embrionárias, aborto) têm ganhado cada vez mais espaço no Congresso (e no Supremo Tribunal Federal). Dado que nem sempre levam ao aperfeiçoamento de critérios éticos, mas apenas respondem às novas demandas da subjetividade exacerbada e de cunho hedonista, elas geram conflitos e provocam a reação de quem valoriza a Família como instituição(12). A título de exemplo, vejamos dois projetos de lei com destaque na opinião pública e de acentuada intransigência. Eles têm recebido a devida atenção da CNBB:

O Projeto de Lei 122/2007, que criminaliza a homofobia, define “os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”. Além da falta de clareza destes conceitos, o projeto defende teses com conseqüências éticas complexas e penas desproporcionais. Por exemplo, os artigo abaixo consideram crime:

“Art. 4o. Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta. Pena: reclusão de dois a cinco anos.” - “Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares. Pena: reclusão de três a cinco anos.”- “Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs. Pena: reclusão de dois a cinco anos.”

O Projeto de Lei 1135/91, que descriminaliza o aborto no Brasil e autoriza sua prática até o 9o. mês de gestação, foi várias vezes arquivado e novamente desarquivado. Apresentado em 1991, revoga o artigo 124 do Código Penal que prevê detenção de um a três anos para a gestante que provocar aborto em si mesma ou consentir que outro o faça.

Itaici, 02-04- 2008

Notas:

1.- Isto não significa redução das desigualdades entre os ricos e pobres. Ao contrário: a renda gerada por juros continua crescendo mais que a dos lucros do capital produtivo e esta mais que a do trabalho.

2.- Um especulador norte-americano disse ter lucrado US$2,3 bilhões em 2007, apostando no real. O Brasil é um dos raros cassinos onde os jogadores ganham mais do que a banca. Em fevereiro, as despesas com os juros ultrapassaram R$15 bilhões, bem acima dos quase R$9 bilhões economizados como superávit primário.

3.- Quando em 1932 Getúlio Vargas decidiu comprar os excedentes de café por razões políticas, confidenciou a seus íntimos haver perpetrado um desastre econômico. O êxito daquela medida, porém, fez que dez nos depois discursasse triunfalmente sobre sua “antevisão histórica”.

4.- Hoje é elevada a participação estrangeira nas Bolsas do Brasil.

5.- Este tema foi desenvolvido na análise de conjuntura de fevereiro, para o Conselho Permanente da CNBB.

6.- Em breve o Paraguai fará uma opcão decisiva quanto a seu modelo de desenvolvimento.

7.- O exemplo do México é esclarecedor. Segundo organizações campesinas, após de 14 anos de livre-comércio, foram perdidos dois milhões de empregos agrícolas e oito milhões de agricultores migraram para os Estados Unidos, porque as subvenções à produção são desiguais: 700 dólares para o mexicano e 21.000 dólares para o estadunidense.O México perdeu sua soberania alimentar e importa 40% de suas necessidades em cereais, gastando mais de um terço da receita de exportação petroleira. Em contrapartida, tornou-se grande fornecedor dos Estados Unidos em frutas e legumes, produzidos por grandes empresas agrícolas com trabalhadores nas piores condições. Houve um aumento do emprego industrial, mas nas maquiladoras, por ser o México um país de mão-de-obra barata. Um terço da população depende das remessas de familiares que migraram para o país vizinho (US$ 23 bilhões em 2006, contra 3,6 bilhões em 1995). Não custa lembrar que quem primeiro denunciou o NAFTA, no dia 1º de janeiro de 1994, foram os indígenas de Chiapas. Povos que sobreviveram a cinco séculos de decretos de extermínio têm credibilidade para apresentar-se como guardiões de saberes milenares de convivência harmônica com a natureza.

8.- Para os dirigentes do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, no quadro da guerra contra o terror trata-se de enfrentar os inimigos da ordem - terroristas, contrabandistas e narcotraficantes. Assim como os movimentos sociais foram incluídos na categoria de “comunistas” durante a guerra-fria, hoje são incluídos numa dessas categorias para serem combatidos dentro da guerra global.

9.- Os dados referentes à situação dos povos indígenas no Brasil estão no Relatório de Violência contra os Povos Indígenas, Anos 2006 – 2007, organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

10.- Outro Projeto de Lei de iniciativa popular que desponta de um grupo de parlamentares em conexão com grupos da Igreja (sobretudo os Focolari) “estabelece a execução obrigatória de Lei Orçamentária Anual”. Sua justificativa é de ser um grande passo na responsabilidade fiscal e, também, para levar a sociedade a participar de modo efetivo na elaboração, implementação e execução do orçamento.

11.- Esse projeto propõe que Nossa Senhora Aparecida seja considerada padroeira apenas dos “brasileiros católicos apostólicos romanos” e substitui “culto” a Nossa Senhora por “homenagem”. O projeto está na Comissão de Educação e Cultura da Câmara, com acompanhamento especial.

12.- No dia internacional da Família, 15 de maio, haverá um seminário no Congresso sobre A Família no Parlamento, tratando as Influências da Mídia sobre a Família (com uma exposição sobre "A internet, os jogos eletrônicos e a educação dos filhos"); e Prevenção de situações de risco que afetam a família: “A influência do álcool nos membros da família".

sábado, 22 de setembro de 2007

Análise de Conjuntura set. 2007.

Esta é a análise de conjuntura apresentada à reunião do CONSEP da CNBB.
Deu na Adital:
Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

Apresentação

Após um intervalo de seis meses, a análise de conjuntura retoma sua forma habitual para apresentação na reunião do CONSEP. Inicia-se com um breve panorama das grandes questões da atualidade mundial e latino-americana; em seguida, examina os rumos que vêm sendo traçados pelo segundo mandato do Presidente Lula e as reações da sociedade; conclui com um informe sobre problemas e projetos do Congresso Nacional.

I. Instabilidades de âmbito mundial

É sensível o clima de instabilidade mundial, que se torna bem nítido em quatro grandes campos: a diminuição da hegemonia dos EUA, as diversas formas de violência entre os povos, o desequilíbrio ecológico e a crise financeira global. Este tópico se conclui com uma breve análise dos reflexos dessas instabilidades no processo de integração regional.

Rumo a um mundo multipolar

Assistimos a uma evolução rápida e profunda da paisagem política mundial. Os EUA estão perdendo sua hegemonia (situação na qual o poder é aceito e consentido pelos subalternos, porque acreditam que é exercido em prol do bem geral) e apóiam-se apenas sobre sua força tecnológica e militar. Mas não há outro país ou região capaz de contrabalançá-los. A União Européia é economicamente forte, mas até agora não conseguiu construir uma política comum para os 27 países membros. O Japão, que nos anos 1980 despontara como novo pólo econômico mundial, foi forçado a valorizar sua moeda e sua economia perdeu o dinamismo. Neste contexto, aumenta o peso dos países emergentes, tanto no campo econômico quanto no político.

A China está na frente, seguida de perto pela Índia. A onda de crescimento econômico atinge toda a região asiática, que abriga também centros importantes de tecnologia de ponta. A Rússia, que dispõe de imensos recursos naturais, especialmente no campo energético, conserva sua força militar, assegurando assim um lugar privilegiado nas negociações internacionais. O Brasil, que se junta à China, Índia e Rússia, como um dos "novos grandes" emergentes, só tem posição estratégica no agronegócio. Os imensos investimentos para a produção de bioenergia aumentam suas perspectivas de poder no mercado mundial. Estes quatro países empenham-se em mudar as regras do comércio mundial, sempre favoráveis aos mais poderosos, mas a "rodada de Doha" continua em ponto morto. Além disso, as rédeas do FMI e do Banco Mundial permanecem nas mãos dos EUA e da Europa.

A China já se constitui num novo pólo mundial, na medida em que dela depende a estabilidade financeira do sistema (por ser a principal compradora dos títulos do tesouro americano) mas sua economia está superaquecida e há uma grande rivalidade entre ela e os outros países, que temem a sua supremacia. Isso pode ser percebido na África, que começa a reagir diante da compra geral do continente pela China.

Ruídos de guerra

A guerra-raiz dos principais conflitos mundiais no último meio-século é a guerra não declarada entre o Estado de Israel e o Povo palestino, porque está na base das tensões entre o Ocidente e o Islã. A divisão entre as duas principais organizações palestinas - o Fatah e o Hamas - afastam ainda mais as perspectivas de retomada do processo de paz.

O isolamento político de Bush deixa aumentar a pressão do Congresso e da população em favor da retirada das tropas do Iraque. As eleições para a Casa Branca em novembro de 2008, podem sinalizar mudanças, mas ainda não se vê medidas viáveis para a reconstrução do Iraque, dilacerado pela violência da ocupação dos Estados Unidos e seus aliados. A situação caótica no Iraque gera mais violência em quase todo o Oriente Médio. O presidente do Irã não nega que o país esteja a caminho da construção de armas nucleares e há uma real ameaça de destruição de suas usinas por Israel, com ou sem a cumplicidade do Ocidente. Há atentados no Afeganistão, onde os talibãs estão de volta, no Paquistão e até na Argélia. Bin Laden está vivo e as guerras de Bush lhe deram muitos seguidores. O terrorismo não acabou, muito pelo contrário: os serviços de segurança desarmaram, no último momento, atentados no Reino Unido e na Alemanha. Por que na Alemanha que nunca apoiou a guerra no Iraque e que acaba de construir uma mesquita em Berlim? Em vários países, inclusive da Europa, o clima de terrorismo é propício ao desrespeito aos direitos humanos, a exemplo do que ocorre nos EUA.
Na África registram-se pequenos avanços em relação ao conflito de Darfur, que desde 2003 matou 300.000 pessoas, deslocou mais de 2 milhões e atingiu a vida de 4 milhões de pessoas, porque o Sudão declara-se disposto a aceitar a presença de uma força de segurança com 33.000 soldados da União Africana e da ONU. A ajuda humanitária em zona de conflitos torna-se impotente; mas, ao ser protegida por soldados, desfigura-se.

O aquecimento do Planeta

A situação climática piorou. Nos últimos meses houve um aumento das inundações, canículas, incêndios e furacões. Nenhum continente escapou dessas situações climáticas extremas. Na Ásia, a pior monção na lembrança humana fez mais de 2.200 mortos e 30 milhões de sinistrados. O aquecimento global acentuou as inundações. Os muitos estudos recentes não são animadores. A penúria de água poderá atingir três bilhões de pessoas. Enquanto em Viena se preparam as negociações pós-Kioto, os EUA nem ao menos assinaram aquele protocolo. Se, por um lado, cresce no mundo a consciência da população sobre a responsabilidade humana pelo desequilíbrio ecológico, por outro lado cresce também a indústria automobilística e o consumo de combustíveis.

Mercado financeiro

A crise financeira se desenvolve além e aquém do contexto geopolítico global acima observado, mostrando ao mesmo tempo a vulnerabilidade e fragilidade do sistema, bem como a sua força de integração. Ao inundar o mercado mundial de liquidez monetária, os bancos centrais impediram a paralisia do sistema bancário. Se houvesse a mesma coordenação e rapidez de esforços para salvar vidas humanas e construir a paz, o mundo seria bem melhor... A Pacem in Terris lançou a idéia da instância governativa mundial - federativa, democrática, pluralista e participativa - para administrar as questões de interesse global. Mas as instâncias políticas internacionais nem de longe têm a mesma vontade e capacidade de intervenção que os diretores de bancos centrais, sempre cuidadosos quando se trata da "saúde" do mercado financeiro.

Dada sua atualidade, cabe aqui um breve esclarecimento sobre a natureza dessa crise.

Quando em 1929 (começando nos Estados Unidos) as bolsas desabaram, os estados nações entenderam, pelo caminho penoso dos fatos, que precisavam de bancos centrais com função reguladora. O problema decorre da capacidade das entidades financeiras para gerar meios de pagamento. Um exemplo: Tiago deposita R$1.000, o banco empresta 800 a Tadeu, que os paga a Bartolomeu que compra debêntures com os R$800, depositando o cheque em outro banco. Se o dinheiro continuar rodando, aqueles "mesmos" R$1.000 iniciais permitirão que diversas empresas e indivíduos paguem quantia muito maior. Os bancos centrais têm a função de regular e determinar parâmetros de depósitos, empréstimos e investimentos, de modo a controlar essa capacidade bancária de gerar meios de pagamentos desproporcionais à economia real. Algo semelhante se passa com o aumento de valor das ações de uma empresa devido à expectativa de terceiros quanto ao aumento de seus lucros. Como o desenrolar da economia real é bem mais lento que os processos financeiros, pode ocorrer um enorme hiato entre o valor financeiro dos papéis e o valor real do patrimônio da empresa. Na atual crise, o hiato se deu no mercado imobiliário: a facilidade de empréstimos elevou o preço das casas, que agora são vendidas muito abaixo daquele valor.

A globalização dos mercados, nos últimos 30 anos, permitiu às instituições financeiras uma atuação transnacional e praticamente fora de controle, dado seu sucesso em convencer a opinião pública, da necessidade de bancos centrais autônomos perante os governos , em nome de resguardar decisões técnicas contra a influência de políticos. Mesmo na Alemanha, cuja primeira ministra vem se empenhando em criar mecanismos internacionais de controle das mega-operações financeiras, os bancos têm mais poder real sobre os parceiros da Alemanha - e sobre o governo alemão - que o inverso.

É fantástica a diversidade dos fundos financeiros em matéria de especulação, pois podem assentar-se sobre cinco até sete "andares" de reservas de valor e meios de pagamento escriturais (em papel ou virtuais). Basta que se instale a desconfiança no primeiro andar (a operação geradora dos "derivativos") para que os detentores de títulos corram a resgatá-los. Para evitar essa corrida, os bancos centrais europeus injetaram bilhões de dólares no circuito bancário. Não tendo meios de ação preventiva, resta-lhes evitar que "o pior" aconteça. Boa parte do custo dessa operação recai sobre os contribuintes, uma vez que os bancos receberão empréstimos públicos em condições especiais. Mais: a operação de salvamento assegura aos banqueiros que podem correr riscos porque serão resgatados pelos bancos centrais. Não abrirão falência como em 1929 e poderão manter a estratégia de privatização dos ganhos e socialização dos prejuízos.

Reflexos na América Latina

A globalização dos mercados puxa necessariamente a integração econômica regional. Nos 15 últimos anos, com altos e baixos, a América Latina veio passando por um processo irreversível de integração. O que está em jogo é se essa integração vai se dar de forma autônoma, ou se subordinada à economia estadunidense, como foi a proposta da ALCA.

Lula e Kirchner fizeram avançar a consolidação do Mercosul, com o Parlatino. Mas ainda lhe falta melhor definição institucional. A Unasul (União de Nações Sul-Americanas) é o novo nome da Comunidade Sul-americana das Nações, criada em 2004, com o objetivo de integrar o Mercosul e o Pacto Andino. Até agora o processo de integração foi sobretudo comercial, mas a questão energética e as negociações para a criação de um banco comum- o Banco do Sul - abrem novas dimensões para a integração.

Empresas transnacionais e grandes bancos, com o apoio dos organismos financeiros internacionais, também querem implementar projetos de infra-estrutura (vias de transporte e energia), na linha da privatização dos planos de desenvolvimento e integração regionais.
Há problemas de ordem política a serem superados. Uruguai e Paraguai queixam-se de ser tratados como menores, e esta é uma questão a ser encarada realisticamente. O presidente Chávez, da Venezuela, quer uma definição política para a integração, sem deixá-la ao sabor do mercado, mas encontra fortes resistências, inclusive do Congresso Brasileiro. Ele aponta a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) como meio de superar uma integração limitada ao econômico e realizar uma integração que chegue também à área política e cultural, com ênfase na saúde e na educação dos povos. Na realidade, cada governo defende seus interesses, sem subordiná-los aos interesses comuns e que só podem ser alcançados se houver unidade regional.

Atualmente, o processo de integração autônoma é puxado por oito países (Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Venezuela). No entanto, sua unidade se dá mais em contraposição ao projeto da ALCA - ou aos TLCs igualmente danosos - do que em torno a um projeto comum. O Brasil tem andado um pouco sozinho. Faz o seu jogo, mas não cumpre a função de locomotiva.

A situação política (perda de hegemonia dos EUA) e econômica (anos seguidos de crescimento do PIB mundial) favorecem a integração, mas falta uma tradição de negociação entre os países região e ainda há a oposição dos EUA a qualquer projeto de integração que possa diminuir sua influência.

II. A política econômica e os rumos do segundo governo Lula

O governo brasileiro está festejando nossa imunidade diante da crise financeira. De fato, nossas reservas, as exportações e a confiança dos mercados financeiros na estabilidade política (leia-se: na continuidade da política econômica) blindaram nossa economia. É como o dono da birosca na favela, que paga "pedágio" para não ser assaltado. O que está em questão é o custo econômico, social e político dessa blindagem.

A atual política econômica dá continuidade à linha implantada desde o governo Collor, com ampla abertura dos mercados brasileiros aos capitais externos. A diferença reside no atual aquecimento da economia mundial, puxada pelos países asiáticos, que fez crescer enormemente as exportações brasileiras puxadas pelo agronegócio e pela mineração. Ou seja, o Brasil encontrou seu lugar na economia globalizada: produtor de matérias-primas de alto custo ecológico e pouco valor agregado. Enquanto as economias mais avançadas precisarem de soja, carnes, produtos florestais, açúcar e álcool, bem como minerais e ferro-gusa, a economia brasileira poderá crescer sem inflação, por causa do superávit na balança comercial. Além disso, a abertura cambial e a manutenção das altas taxas de juros, atraem muito capital para o mercado financeiro. As reservas cambiais já superam 160 bilhões de dólares. Elas blindam o Brasil contra um ataque especulativo, mas são praticamente esterilizadas porque aplicadas em títulos do Tesouro dos EUA, cujas taxas de juros são irrisórias, se comparadas às taxas pagas pelo Tesouro brasileiro a seus credores. O Brasil continua sendo um porto seguro e um paraíso para a especulação financeira.

Um sinal dessa subordinação da política econômica ao sistema financeiro é o aumento do superávit primário (isto é, a economia de receitas realizada pelo poder público para o serviço da dívida) desde o primeiro governo Lula. No primeiro semestre deste ano ele atingiu quase R$80 bilhões. Isso corresponde a 5,58% do PIB, superando a meta estipulada pelo governo de 3,8% do PIB (no último ano do governo FHC chegou a 3,89%). Apesar do enorme esforço, essa quantia não tem sido suficiente para pagar a totalidade dos juros (R$160 bilhões em 2006), o que faz aumentar o total da dívida pública (hoje quase R$ 1,3 trilhão). Tem sido eficiente, contudo, para reduzir a relação da dívida do setor público sobre o PIB: hoje ela corresponde a 44,4% , enquanto no final do governo FHC ela havia chegado a 55,5%.

Esta situação de estabilidade monetária, com a inflação sob controle, seria ideal para impulsionar um projeto de desenvolvimento do país, mas falta vontade política que obrigue os capitais especulativos a se transformarem em investimentos produtivos. O governo brasileiro abriu mão do controle sobre o Banco Central, que está a serviço do sistema financeiro globalizado (ao contrário dos EUA, cujo banco central - FED - é acionado para implementar uma política de crescimento e garantir o nível do emprego). Assim, a economia brasileira segue a reboque dos países mais dinâmicos, e já é motivo de festejo o anúncio de que neste ano ela não crescerá menos do que a média mundial.

Esses fatos recentes confirmam o que havíamos dito na análise de conjuntura do mês de março. Apontando o primado das finanças sobre a produção e a hegemonia do agronegócio de exportação no setor produtivo, como os dois tentáculos que cerceiam o desenvolvimento brasileiro, ela concluía criticando o dualismo político do governo Lula: "por um lado, prevaleceu o culto aos contratos, o pagamento fiel dos juros, a defesa e o perdão das dívidas de grandes proprietários e as isenções fiscais para o capital financeiro e as grandes fortunas, enquanto o volume de impostos e taxas sobre o conjunto da população subiu a quase 40% do PIB. Por outro lado, deu um novo papel aos bancos públicos, para favorecer o acesso dos pobres (abertura de 3,8 milhões de contas até 2006 e mais de 3 milhões de empréstimos, com valor médio de R$ 400,00.) Também mudou o papel do BNDES, antes utilizado para a privatização de empresas públicas, hoje fortalecendo o desenvolvimento industrial, apoiando empresas em crise e ainda impulsionando cooperativas de trabalhadores. Vai no mesmo sentido a recuperação do salário mínimo, o incentivo à agricultura familiar, o investimento no setor de energia e saneamento, a Bolsa Família, o incentivo às escolas técnicas, a implementação do ProUni, a manutenção do piso das aposentadorias e pensões do INSS, sem esquecer o avanço em políticas públicas para mulheres e a promoção da igualdade étnico-racial." Hoje poderíamos acrescentar o avanço na política de Direitos Humanos, com a publicação do livro "Direito à Memória e à Verdade", pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Ao que tudo indica, este será o rumo do governo Lula até 2010: deixar o comando da política econômica nas mãos do capital financeiro e do agronegócio e implementar políticas sociais em benefício das massas empobrecidas. Enquanto as exportações derem bom retorno financeiro e o PIB crescer, esse dualismo político poderá funcionar, ficando satisfeitas tanto a casa-grande quanto a senzala. Caso sobrevenha uma crise de âmbito global, o custo terá que recair sobre o conjunto da população, mas - como de hábito -a casa grande provavelmente estará blindada.

III . Sinais de reação na Sociedade

A reeleição de Lula não aumentou a participação da sociedade civil organizada na definição das políticas de governo. Ao contrário, no atual mandato o governo está menos aberto ao diálogo com os setores sociais descontentes do que antes. O presidente demonstra ter consciência de que seu governo não abala as estruturas herdadas da colônia e que mantém o Brasil em posição subordinada no sistema econômico mundial. Seu projeto de modernização - evidente em seu fascínio pelo etanol e outras fontes de bioenergia - deixa praticamente intocada a estrutura fundiária (a reforma agrária saiu da agenda), não se opõe ao clientelismo imperante na política, nem contraria os interesses econômicos e financeiros dos milionários. Essa diferença entre o candidato da Frente Popular em 1989 e o atual Presidente da República repercute nas suas relações com a sociedade.

Reações diferenciadas

Deixando de lado a "maioria silenciosa" - favorável ao governo Lula mas que só tem peso político no período eleitoral - pode-se distinguir na sociedade brasileira três tipos de manifestações públicas em relação ao governo.

A primeira é formada pelos setores conservadores, que por diversas razões prefeririam ter outra pessoa que não Lula na presidência da República. Este setor da opinião pública se faz muito presente na mídia, principalmente por meio de colunistas e editorialistas que sempre encontram uma maneira de responsabilizar o presidente pelos males do país. A cobertura do acidente da TAM, no aeroporto de Congonhas, é um bom exemplo. O movimento "cansei", que já nasceu com pouco fôlego, é outro exemplo. Essas manifestações da opinião pública criticam não só as políticas sociais do governo, mas principalmente a forma de Lula governar: com corrupção, gastos exorbitantes, mal gerenciamento dos recursos, excesso de impostos, apadrinhamento etc. Seu efeito político é manter o governo na defensiva, gastando energia no inútil esforço para mostrar o outro lado da realidade ou até mesmo para desmascarar afirmações enganosas ou levianas.

A segunda corrente é formada por pessoas e grupos que acreditam na proposta política representada por Lula e/ou pelo PT e que se colocam em posição de defesa do seu governo, ainda que de modo crítico (1). Eximem-se de opinar sobre a política econômica, alegando a complexidade do problema, e realçam os feitos do governo Lula em benefício dos mais pobres. Esta corrente, que era muito forte no início do primeiro mandato, veio perdendo substância. Ela continua sendo importante, contudo, como contraposição à primeira, pois é do seu agrado ver Lula na presidência da República.

A terceira corrente pode ser definida como uma dissidência da segunda. Gente que acreditou na proposta representada por Lula, mas que foi perdendo a confiança à medida que se definiam os rumos do governo. O ponto crítico é, certamente a política econômica que multiplica os ganhos financeiros e comprime os investimentos públicos, mas o "ponto de mutação" dessa atitude política situa-se na percepção de que o governo Lula não fará reforma agrária. Aí se dá a ruptura entre essa terceira corrente e o governo Lula. Talvez este seja o dado político mais relevante da atual conjuntura e por isso convém aprofundar mais um pouco a análise.

As eleições de 2002 representaram um grande avanço político para os movimentos sociais e populares, mas os rumos tomados pelo governo Lula os confundiram. Além disso, setores importantes do sindicalismo, da CUT em particular, foram incorporados ao governo e esvaziaram as articulações populares de âmbito mais amplo. Desde então, assistimos a muitas iniciativas rearticulação. A 4ª Semana Social Brasileira e a Campanha das Assembléias populares locais "reinventando a democracia" tiveram um papel positivo para manter alguma mobilização, articular as bases e buscar uma unidade em torno ao debate sobre "o Brasil que queremos". Elas se juntaram para realizar a "Assembléia Popular, Mutirão por um novo Brasil", em outubro de 2005. Mas a dispersão das forças populares ainda é grande: CUT, Conlutas, Intersindical, MST, UNE, Pastorais sociais, Grito dos Excluídos, CMS, Assembléia Popular e muitas outras organizações se esforçam para alcançar melhor articulação e certa unidade, mas tais objetivos ainda parecem distantes. Enfim, há dinamismo organizativo nas bases da sociedade, mas falta-lhes articulação de âmbito nacional. Uma experiência importante, neste sentido, foi o recente Plebiscito popular.

A experiência do 3º Plebiscito popular

A proposta de organizar um 3º Plebiscito Nacional Popular e uma 2ª Assembléia Nacional popular surgiu no começo de 2007, como ações unitárias e autônomas dos movimentos sociais, não pautadas nem pelo apoio nem pela oposição ao governo Lula. Houve convergência sobre o tema "anulação do leilão de privatização da companhia Vale do Rio Doce", mas não sobre os demais (superávit primário, tarifas da energia elétrica e reforma da previdência), porque os setores pro-governamentais os consideraram como contrários ao governo Lula.
A mobilização foi importante, mas tardia. As perguntas - de difícil compreensão - só foram elaboradas em junho, enquanto nos plebiscitos anteriores, a preparação foi bem mais longa. Apesar disso, o plebiscito foi para muitos uma importante escola de formação política e de participação cidadã: um canteiro de construção da democracia participativa. O apoio da Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, não só animou as bases católicas, mas explicitou a participação da Igreja no esforço da sociedade para construir um Brasil melhor. Outros apoios, como do 3º Congresso do PT, tiveram pouco efeito prático.

Como de hábito, a mídia defendeu os interesses do capital privado, silenciando-se sobre o tema. Nas raras vezes em que deu notícias do plebiscito, foi para defender a privatização da Vale e vituperar contra o que ela chama de "atraso" (leia-se todo projeto de desenvolvimento econômico e social não pautado pelo ideário neoliberal).

O próximo passo da mobilização popular deveria ser a 2ª Assembléia Popular em outubro, em Brasília. Mas não é certo que ela venha a realizar-se. Não somente porque o plebiscito consumiu muitas energias, como faltam articulação política, recursos materiais e financeiros.

Dessa experiência fica a constatação de desunião dos movimentos sociais, resultando na distribuição de cédulas diferentes (com quatro ou apenas uma questão). Essa desunião reduziu o alcance do plebiscito, pois não houve a mobilização esperada (2). É bem verdade que a Companhia Vale do Rio Doce articulou campanha contrária, vendendo uma imagem positiva da sua atuação em prol do Brasil. A receptividade dos setores populares ao tema, contudo, mostra que o plebiscito poderia ter recebido muito maior número de votos, se as organizações populares tivessem se envolvido com vontade e se conseguissem atuar coordenadamente. De todo modo, o plebiscito evidencia a rejeição das bases populares ao modelo neoliberal e seu anseio por um modelo de desenvolvimento mais nacionalista, democrático e redistributivo.

Outros itens na pauta dos movimentos sociais

Nos próximos meses serão colocados em pauta dois temas de grande apelo para os setores populares, pois o Executivo prepara duas importantes reformas: a trabalhista e a da previdência social. Estes são campos de luta social e política onde está em jogo a Justiça Social, pois elas podem retirar direitos tanto de trabalhadores e trabalhadoras na ativa, quanto de aposentados e pensionistas.

A Reforma da Previdência realizada no primeiro mandato de Lula pegou desprevenidos os setores populares, obrigando-os a ficar na posição de resistência, que afinal se revelou impotente contra o projeto neoliberal. Hoje é perceptível a mudança na estratégia. Ao verem seus direitos ameaçados, os movimentos sociais estão partindo para a ofensiva, no sentido de dialogar com a população brasileira que não tem sido informada sobre o andamento do projeto nas entranhas do poder executivo. É preciso que a Previdência pública seja reformada, sim, mas para acolher um maior número de brasileiros e brasileiras hoje sem cobertura previdenciária, e não simplesmente para diminuir um pretenso déficit do INSS (que não existiria se 20% dos recursos a ela constitucionalmente destinados não fossem desviados para o pagamento dos juros da dívida pública). Assim, a perspectiva é contrapor ao projeto do governo uma proposta includente. A CNBB tem contribuído para levar o diálogo com o Governo Federal nesse patamar.

A Reforma Política também tem ocupado lugar importante na agenda dos movimentos sociais, pois só será feita sob pressão da sociedade civil. Sobre ela voltaremos mais adiante.

Para concluir, o movimentos dos Povos Indígenas traz as boas notícias: as mudanças no Ministério da Justiça abriram novos horizontes para a política indigenista. Pelo menos três fatos relevantes devem ser assinalados:

• A aprovação pela ONU, da Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, com o voto favorável do Brasil e demais países sul-americanos, exceto a Colômbia;
• A assinatura das portarias que declaram como terra indígena os 18 mil hectares reivindicados pelos povos Tupinikim e Guarani e que estavam sob a posse da empresa Aracruz Celulose, no norte do Espírito Santo;
• Criação da Comissão Nacional de Política Indigenista, formada por 20 lideranças de todas as regiões do País (10 com direito a voz e voto e 10 sem voto), 13 representantes de ministérios com ações voltadas a povos indígenas e 2 entidades indigenistas (uma delas é o Cimi).

IV. Notícias do Congresso Nacional

Diminui a confiança no Congresso Nacional

O caso do senador Renan Calheiros, em contínua degradação, e a votação da CPMF atropelaram, nos últimos meses, o andamento de um Congresso já desgastado, diminuindo a confiança dos brasileiros em seus legisladores e na democracia.

Sem dúvida, a cada nova crise envolvendo parlamentares, juízes ou políticos é abalada a confiança dos brasileiros no funcionamento da democracia. Essa é a conclusão de uma pesquisa coordenada por José Álvaro Moisés, da USP, em 2006. O número de pessoas que dizem preferir a democracia a qualquer outro sistema ficou em 68,1%. Em 1989, eram 51%. Apesar dessa preferência, 81% das pessoas desconfiam dos partidos, e 76%, do Congresso. O estudo mostra que 31,5% dos entrevistados acreditam que a democracia pode funcionar sem partidos e 28,7% acham que pode funcionar sem o Congresso. Além disso, 51,8% concordam em algum grau com a idéia de que, "quando há uma situação difícil no Brasil, não importa que o governo passe por cima das leis, do Congresso, das instituições para resolver os problemas do país". A pesquisa também testou o grau de desconfiança. As três instituições em que mais confiam são bombeiros (86,1%), Igreja (75,3%) e Exército (61,4%).

Os brasileiros tendem a ser muito críticos com a corrupção dos políticos. Mas seriam bem mais lenientes se fossem colocados na mesma situação. Enquanto 97,6% condenam o desvio de recursos públicos para uso em campanha eleitoral, 19,4% dizem que, se fossem políticos, fariam caixa 2 "se não tivesse outro jeito", 6,3% fariam às vezes e 4% fariam sempre. A pesquisa conclui que a corrupção "é o sinal mais evidente de que a qualidade da democracia ainda está em questão".

Levantamento recente sobre os parlamentares revela que até o último dia 29/08 havia em tramitação no STF 172 inquéritos e ações penais contra 92 deputados e outras 23 contra 13 senadores. Além do mensalão, em 52 casos o Supremo já encontrou elementos suficientes para transformar 23 deputados e cinco senadores em réus de ações penais. O restante das investigações está na fase de inquérito. Um em cada seis parlamentares da atual legislatura está, então, sob investigação na mais alta corte do país.

Esta realidade constatada apela urgentemente por uma Reforma Política que proporcione instrumentos de reforma da democracia representativa, libertando-a das amarras do clientelismo e da corrupção eleitoral e consolidando a democracia participativa sobre bases éticas.

Reforma Política ainda por vir

Há quase 10 anos em hibernação no Congresso, acreditava-se que a reposição em pauta da reforma política reunia razoável convergência de vontades para aprová-la sem grandes atropelos. Os vários projetos sobre a matéria vêem sendo decantados desde 2003, o que se supunha expressar a média das tendências partidárias e de suas representações no Legislativo. Levadas à ordem do dia, contudo, desde o início da atual sessão legislativa, as alterações propostas quase em nada avançaram.

O reconhecimento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que os mandatos pertencem aos partidos, foi novo complicador. O risco de que a interpretação do TSE pudesse "virar lei" pela falta de legislação sobre o tema "incentivou" a votação da matéria da fidelidade partidária. Para o deputado Rubens Otoni, relator do projeto da Reforma Política, a aprovação do projeto de lei complementar que tratou da fidelidade partidária "é a busca" de uma regra mais eficaz para "garantir" o mínimo de fidelidade.

Então, qual é o futuro da reforma política? As organizações sociais tinham expectativas de que a votação em lista fechada pudesse ser um primeiro passo na consolidação dos partidos. O Executivo, apesar de ter sinalizado seu apoio a uma reforma política profunda, com lista fechada para possibilitar o financiamento público exclusivo de campanha, acabou liberando sua base parlamentar para votar conforme sua inclinação ou seu bloco partidário.

A posição de J. A. Moroni, da direção da ABONG e do INESC, que atuou decididamente em favor de uma real reforma política, bem revela o estado da questão:

Diz ele: "Para nós, o que está sendo discutido no Congresso não é uma verdadeira reforma política. Ela trata de apenas alguns pontos de uma reforma eleitoral, mas não é a reforma política que nós entendemos e para a qual estamos trabalhando. Para nós, a reforma política é a reforma do próprio poder, de quem o exerce, em nome de quem se exerce, quais os mecanismos que se tem de controle do poder. O que está sendo pautado neste momento é uma reforma eleitoral de alguns pontos do processo eleitoral e da vida partidária, porque tudo diz respeito à questão das eleições".

Continua: "Outros pontos como o fortalecimento da democracia direta, o fortalecimento da democracia participativa, a democratização da comunicação e da informação e democratização do Judiciário, não estão sendo nem tocados". Falou também de dois grandes desafios: "O primeiro: criar realmente um movimento por uma reforma política ampla, democrática e participativa, com maior densidade social e política na sociedade. As pessoas estão, pouco a pouco, desconsiderando essa luta institucional. O outro grande desafio é criar força política para que o Congresso vá além da reforma eleitoral, o que só será conquistado com muita mobilização e pressão da sociedade".

Temos, então, três posições sobre a Reforma Política: a) os que ainda acreditam que o Congresso possa dar novos passos; b) os que só acreditam no processo em andamento com forte participação da sociedade; daí a Frente Parlamentar com a participação da sociedade civil; c) os que defendem uma Assembléia Constituinte. Esta última posição ganha espaço entre alguns partidos políticos e na própria OAB. Partindo do princípio de que o Congresso e os partidos estão desgastados, o professor Fábio Comparato apresentou ao Conselho Federal da OAB uma proposta de uma Assembléia Nacional Revisora - de representantes do povo, exclusivamente para esta finalidade. A OAB ainda não se pronunciou a respeito.

A questão do aborto

Entre os tantos projetos em tramitação sobre o aborto, há um que se sobressai porque vem sendo motivo de muitos conflitos. É o projeto recentemente desarquivado, que tem como autora a ex-deputada Jandira Feghali. Este projeto, após muitas tensões e muito barulho, tinha sido arquivado no final da legislatura anterior. É um projeto polêmico, com muitas implicações constitucionais (direito à vida), implicações jurídicas e éticas. A Comissão de Seguridade Social e Família, onde o projeto está alojado, está dividida num clima conflitivo. Estão sendo feitas audiências públicas numa tentativa de buscar consensos. Ainda faltam duas audiências públicas a serem realizadas até novembro. O próprio presidente da Comissão, deputado Jorge Tadeu Mudalen, assumiu a relatoria. Ele está recebendo muitas pressões em favor do aborto. Em entrevista recente, anunciou que só divulgará seu parecer após o Supremo Tribunal Federal definir sobre quando se inicia a vida humana.

Trabalho no comércio aos domingos

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, no dia 5/9, uma Medida Provisória (MP) para regulamentar o trabalho no comércio aos domingos. A MP, já em vigor, autoriza o trabalho aos domingos nas atividades do comércio em geral, observada a competência dos municípios de legislar sobre assuntos de interesse local. De acordo com ela, o repouso semanal remunerado deverá coincidir, pelo menos uma vez no período máximo de três semanas, com o domingo, respeitadas as demais normas de proteção ao trabalho e outras a serem estipuladas em negociação coletiva.

Tribunal Superior da Probidade Administrativa

O deputado Paulo Renato fez visitas às principais entidades da sociedade, apresentando uma PEC que propõe criar um Tribunal Superior da Probidade Administrativa: com onze membros, indicados pelo STF, sabatinados pelo Senado Federal e nomeados pelo Presidente da República. Este Tribunal terá competência para julgar crimes contra a Administração Pública e atos de improbidade administrativa praticados pelas altas autoridades. Visitou a CNBB e a OAB. Tanto a Comissão Brasileira de Justiça e Paz-CNBB como a Ordem dos Advogados do Brasil tiveram reações mais ou menos na mesma linha: o Supremo Tribunal Federal está preparado para julgar esses casos. O problema é que, infelizmente, a legislação não é aplicada.

Filhos de brasileiros que vivem no Exterior poderão ser registrados

A Câmara dos Deputados aprovou o projeto que permite o registro no exterior de filhos de brasileiros nascidos fora do País. Trata-se de uma emenda à Constituição estabelecendo que o registro possa ser obtido nas embaixadas e consulados. A Constituição, após a emenda de 1994, prevê a necessidade de a pessoa morar no Brasil para optar pela nacionalidade brasileira, o que obrigou muitos pais a voltarem ao País para pedirem o registro. Esta nova aprovação retira a obrigatoriedade dessa condição. Mais de 200 mil brasileiros nascidos no exterior devem ser beneficiados pelo projeto.

Sobre o ensino religioso

Está em tramitação no Congresso Nacional um projeto de lei do Deputado Lincoln Portela sobre o Ensino Religioso (ER). Altera o artigo 33 da LDB, no sentido de que o ER na educação básica seja ofertado mediante autorização dos pais ou representantes legais dos alunos, e que o desempenho dos estudantes nessa matéria não seja levado em conta para efeito da avaliação escolar regular. Desta forma o ER perderia o pouco que conquistou até o momento. Pensemos as conseqüências de uma Lei que, para o aluno ter ER, necessite da autorização dos pais! E mais, o ER seria dado sem ônus para os cofres públicos.

Todo o esforço da CNBB em 1997, para conseguir a aprovação da Lei nº 9475/97, que alterou o art. 33 da LDB para incluir novamente o encargo do pagamento do professor de ER, ficaria anulado. O deputado Odair Cunha está acompanhando com cuidado o Projeto na Comissão de Constituição e Justiça.

Notas:
(1) Não estão incluídas nesta corrente pessoas que participam do governo ou que ocupam posições privilegiadas no aparelho estatal (gestão de fundo de pensão, empresas estatais, autarquias, etc), cuja defesa do governo é óbvia.
(2) Ao redigir esta análise ainda não dispomos dos resultados finais.

(Contribuíram para esta análise Pe. Antonio Abreu SJ, Pe. Bernard Lestienne SJ, Daniel Seidel, Pe. José Ernanne Pinheiro e Pe. Thierry Linard. - Não é documento oficial da CNBB)

* Membro da equipe de ISER-Assessoria e da Coordenação Nacional do Movimento Fé & Política
Extraído de http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29651 acesso em 22 set. 2007