O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Os nomes do jogo

Deu no Congresso em Foco:
Márcia Denser*
Com o propósito de associar o dogma à realidade, ideologia à lógica, o neoliberalismo é o jogo que inventa novos nomes para velhas desgraças, eleva-as ao máximo e as vende de volta aos trouxas como bênçãos. Bilhões de trouxas. É bem verdade que a linguagem cria o pensamento e vice-versa, só que o mesmo não se dá com o real a não ser magicamente. Sem contar que o intelecto ao manusear valores apega-se a fórmulas vazias (o neoconservadorismo é o que?), conquanto idéias vivas possuam valor e substância, logo não é necessário se apegar a elas. Infelizmente o nominalismo mais canalha é a bola da vez, relegando o universalismo ao lixo conceitual.
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O contraste com a década de 60 é total: há quarenta anos a guerra ideológica entre as duas potências gerou idéias para abolir a pobreza do mundo e reabrigar os favelados. E hoje, o que temos? Um Pensamento Único e Um Favelão Estratosférico no lugar do que chamávamos mundo, emprego e futuro nenhum, aliás o futuro é atualmente o lugar mais perigoso da existência, melhor não pintar por lá em hipótese alguma!
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Os ideólogos neoliberais – também altamente borgianos, mas no pior sentido, pelo fato de aplicarem o realismo mágico discursivo à vida dos outros – chegaram a dizer que essa humanidade excedente era “uma colméia frenética de protocapitalistas cobiçosos por direitos formais de propriedade e pelo espaço competitivo não-regulamentado” – não é um primor retórico? Ainda bem que estão longe do ramo, esses caras batem de longe os ficcionistas.Sem contar que essa massa transbordante não consiste de proletários legais oprimidos mas de pequenos empresários extralegais comprimidos. Comprimidos onde? Em sua versão mais absurda, os ideólogos retro e supra chegam a redefinir favela como “sistema de gerenciamento urbano estratégico de baixa renda”.
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Em primeiro lugar, o emprego informal é ausência de poder de barganha, de regulamentos, direitos e contratos formais. De acordo com Jan Breman, a pequena exploração infinitamente franqueada, é sua essência. A falácia da “revolução invisível” do capital informal de Hernando de Soto na verdade se refere a uma miríade de redes invisíveis de exploração caracterizadas pela tecnologia antiquada, baixo investimento de capital, natureza manual da produção, elevada taxa de lucro não tributada.
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Em terceiro lugar, a informalidade garante o abuso extremo de mulheres e crianças.
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Em quinto, por enfrentar condições tão desesperadoras, os pobres apelam com cega esperança para uma “terceira economia de subsistência urbana”, que inclui o jogo, loterias e outras formas semimágicas de apropriação de riqueza. Indo no popular: aqui o nome do jogo é jogo do bicho, forma semimágica de apropriação de riqueza que no Brasil é mais velha do que andar para trás.
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Em síntese: a retórica demonizadora das várias “guerras” internacionais ao terrorismo, às drogas e ao crime são um apartheid semântico: constroem paredes epistemológicas ao redor das favelas que impossibilitam qualquer debate honesto sobre a violência cotidiana da exclusão econômica.

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

Leiam na íntegra em http://congressoemfoco.ig.com.br/DetArticulistas.aspx?articulista=487&colunista=11

sábado, 11 de agosto de 2007

Em foco, os lobbies no Congresso

Do CongressoEmFoco: Por Márcia Denser, escritora paulistana,
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP,
pesquisadora de literatura brasileira contemporânea,
jornalista e publicitária


A revista Caros Amigos publicou recentemente uma grande reportagem do jornalista João de Barros sobre como funcionam os lobbies no Congresso em Brasília (1), matéria bastante ampla, complexa, que ilumina a questão de vários ângulos.

Como linha tênue que separa a cooptação da corrupção, os lobistas têm inúmeras formas de abordar políticos e funcionários públicos – desde o envio de correspondência, passando por visitas, promoção de eventos, viagens, oferta de presentes, festas de arromba, até orgias em hotéis cinco estrelas incluindo suítes/jantares/bebidas e garotas idem. Isso, por bem. Quando não, usa-se a intimidação, o abuso do poder econômico, a concorrência desleal ou fraudulenta etc.

Existem lobbies para tudo, mas certas bancadas suprapartidárias facilitam a ação dos grupos de pressão, trabalhando abertamente na defesa de alguns interesses, tais como dos ruralistas, da comunicação, da saúde, da educação, dos evangélicos. Mas as três que atuam mais fortemente junto ao Congresso Nacional são as dos empreiteiros, chefiada pelas “cinco irmãs” – Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Mendes Júnior –, a dos bancos cacifados pela Febraban e, recentemente, a da informática.

Mas o que mais me impressionou foi o depoimento dum funcionário com 20 anos de serviço público que, segundo João de Barros (a quem cruzei por e-mail)... “embora a entrevista tenha sido gravada, firmei o compromisso com o entrevistado de não revelar a fonte. Posso dizer apenas que é assessor de um influente senador da República.”

Assinalo que o texto a seguir não está disponível no site www.carosamigos.com.br, nem mesmo para assinantes da revista, como eu:


[trechos do depoimento que foi publicado por Márcia Denser]
“Quando cheguei aqui 20 anos atrás, muitos jornalistas tinham mais de 45 anos, eram pessoas experientes, que discutiam, praticavam jornalismo investigativo. Hoje, principalmente na televisão, tem uma meninada que entra aqui e quer saber só aquilo que o editor pediu. Hoje, você corre o risco de não ter uma leitura da verdade. A visão do Brasil real nós perdemos. A imprensa cuida de levar a população ao diversionismo. Não é só a gente conhecer como funciona o lobby, há lobby dentro da imprensa, fazendo a gente não conhecer, também, quem está escondido lá atrás. (...)”

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“Sabe onde existe um grande lobby no Brasil? Na imprensa. Muitos jornalistas agem como lobistas, conscientes ou não. Há certos comentários econômicos que se ouve e se percebe que, por trás, há um interesse envolvido. Se houvesse uma grande operação Mãos Limpas, seria necessário quebrar também os sigilos bancários e fiscal de uns dez ou 20 jornalistas.”


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“Será, por exemplo, que tantos comentários sobre a necessidade de uma nova reforma do regime geral de previdência não tem, por trás, os interesses dos capitães da previdência complementar? Ora, no momento em que você tiver a perspectiva de só se aposentar com três salários mínimos, vai recorrer à previdência complementar de quem? Do Estado? Ou do banco? Quantas pessoas, com medo da reforma, já não correram para os grandes bancos? Não estou discutindo o déficit da Previdência, mas o grande lobby pró-previdência complementar. Quero discutir esse lobby que faz com que você corra para a previdência complementar porque estão dizendo que você é o grande responsável pela quebra da Previdência, que não vai poder se aposentar com mais de três salários, que vai precisar ter 65 anos para se aposentar, mas, pois é, discutir o pequeno lobby também é diversionismo, para escamotear quem vem lá atrás, escondido.”

Realmente é um depoimento impressionante. E revelador.

Deixo aos leitores os comentários.

(1) Caros Amigos, número 123, junho/2007, pág. 26.