O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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sábado, 11 de outubro de 2008

O mito do colapso americano

Deu na Agência Carta Maior:
Apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os Estados Unidos.

José Luís Fiori

“Como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar”.
N. Maquiavel, O Príncipe, 1513
Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise financeira americana desembarcou na Europa, e repercutiu em todo mundo, de forma violenta. As principais Bolsas de Valor do mundo tiveram quedas expressivas, e governos e Bancos Centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o crédito de seus sistemas bancários. Neste momento, não cabem mais dúvidas: a crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global, destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza, e deverá atingir de forma mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA, e de todos os países do mundo.
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De todos os pontos de vista, acabou a “era Tatcher/Reagan” e foi para o balaio da história o “modelo neoliberal” anglo-americano, junto com as idéias econômicas hegemônicas nos últimos 30 anos. Como contrapartida, mesmo sem fazer proselitismo explícito, deverá ganhar pontos, nos próximos meses e anos, em todas as latitudes, o “modelo chinês” nacional-estatista, centralizante e planejador.
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Comecemos pelo paradoxo da “fuga para o dólar”, em resposta à crise do próprio dólar. Aqui é preciso entender algumas características específicas e fundamentais do sistema “dólar-flexível”. Desde a década de 1970, os EUA se transformaram no “mercado financeiro do mundo”, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema “dólar-flexível”.
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Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados, pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”. (FSP, 24/11).
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Em primeiro lugar, quase todas as grandes crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência hegemônica. Em segundo lugar, estas crises são provocadas quase sempre pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio) das potências capazes de atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria expansão. Em terceiro lugar, o sucesso econômico e a expansão do poder da potência líder é um elemento fundamental para o fortalecimento de todos os demais estados e economias que se proponham concorrer ou “substituir” a potência hegemônica. Por isto, finalmente, as crises provocadas pela “exuberância expansiva” da potência líder, afetam, em geral, de forma mais perversa e destrutiva aos “concorrentes” do que ao próprio hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os demais.

Resumindo: “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada maior entre a China e os Estados Unidos” (2).

(1) Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão 'dólar-flexível' e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro, P : 83 (Prelo)

(2) Fiori, J.L. (2008) “O sistema mundial, no início do século XXI”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO, Editora Record, Rio de janeiro, p: 65 ( NO PRELO).

* Artigo publicado originalmente no jornal Valor Econômico (08/10/2008)
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leiam na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3994

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A ópera, a guerra e a ressurreição russa

Deu no Le Monde Diplomatique Brasil:
Como já fizera três vezes, desde o século 18, o país ressurge, superando o trauma da derrota soviética na Guerra Fria. Além de grande potência geopolítica, recompôs sua base econômica e cresce aceleradamente. O "espírito russo" parece saltar da obra de Prokofiev direto para a vida real
José Luís Fiori
(30/05/2008)
Relembro, porque causou profunda impressão, uma montagem russa, da ópera Guerra e Paz, de Serguei Prokofiev, na Bastilha. Era 1998, a União Soviética havia desaparecido, e a Rússia estava humilhada e destruída. A ópera estreou no Teatro Maly, em Leningrado, no dia 12 de junho de 1946, pouco depois da expulsão das tropas alemãs e da vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Conta a história da invasão e expulsão das tropas francesas e da vitória da Rússia na guerra contra Napoleão Bonaparte, em 1812. Na última cena, o povo e os soldados russos cantam juntos uma peroração apoteótica, proclamando a eternidade do “espírito russo”. Com força, emoção, convencimento: inesquecível. E, de fato, depois da destruição de 1812, a Rússia reconstruiu-se e se transformou numa das principais potências européias do século 19. Após 1945, a União Soviética voltou a levantar e se transformou na segunda potência militar e econômica do mundo, na segunda metade do século 20. A exemplo de como já havia acontecido antes, em 1709, depois invasão e expulsão das tropas suecas de Carlos XII, por Pedro o Grande, quando a Rússia começou sua fantástica modernização do século 18.
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Em 1991, imediatamente depois da dissolução da União Soviética, os Estados Unidos e a União Européia atribuíram-se a tarefa de “administrar” a desmontagem do “império russo”. Por causa das conseqüências econômicas da queda e do problema geopolítico da Europa Central. Para os Estados Unidos, o objetivo fundamental era impedir o surgimento de uma “terra de ninguém” no leste europeu. Por isso, lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN e a ocupação das posições militares que haviam sido abandonadas pelos soviéticos na Europa Central. Tal ofensiva estratégica da OTAN e da União Européia, e sua posterior intervenção militar nos Bálcãs, foi uma humilhação para os russos e provocou uma reação imediata e defensiva, que começou exatamente pela vitória eleitoral de Vladimir Putin, em 2000, e a retomada de uma estratégia militar agressiva pelo seu governo, depois de 2001. Durante seus dois governos sucessivos, o presidente Putin manteve a opção pela economia de mercado, mas rescentralizou o poder e reconstruiu o estado e a economia russa. Refez o complexo militar-industrial e nacionalizou os recursos energéticos. A Rússia ainda detém o segundo maior arsenal atômico do mundo, e o governo Putin aprovou uma nova doutrina militar que autoriza o uso de armamento nuclear, mesmo no caso de um ataque convencional à Rússia, no caso em que fracassem outros meios para repelir o agressor.
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Ou seja, quinze anos depois da derrota e do colapso da União Soviética, o estado russo retomou o comando de sua economia e de sua inserção internacional. E tudo indica, nesse início do século 21, que está recuperando sua importância estratégica, como maior estado territorial do mundo, o único com capacidade de intervenção por terra, por meio de suas próprias fronteiras, em todo o continente eurasiano. Por isso, é uma rematada bobagem falar da Rússia como uma potência ou uma economia emergente, quando, na verdade, se trata de uma velha e grande potência que está reocupando sua posição tradicional, na Europa, Ásia Central e Oriente Médio.

Mas nenhum analista internacional consegue prever os caminhos futuros da nova ressurreição do “espírito russo”, até porque a Rússia sempre foi mais misteriosa e imprevisível do que a União Soviética. Há algumas semanas, Andre Klimov, líder liberal da Duma, afirmou que seria um erro grave, nesse momento, alguém pensar que possa "fazer com a Rússia o que bem entenda” [2]. Palavras que soam como uma advertência suave, como quem quisesse relembrar, às demais potências, a mensagem final de Serguei Prokofiev, na sua grandiosa ópera Guerra e Paz: o “espírito russo é eterno” e ressurgirá sempre, e com mais força, toda vez que o seu sagrado território for invadido; ou que o povo russo for humilhado, como aconteceu várias vezes, na história, e voltou a acontecer, no final do século 20.
José Luís Fiori é colaborador do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Leia na íntegra em http://diplo.uol.com.br/2008-05,a2420

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Provavelmente, Deus não é africano

Deu no Brasil de Fato:
A África é, hoje, o grande espaço de "acumulação primitiva" asiática e uma das principais fronteiras de expansão econômica e política da China e da Índia
23/04/2008 José Luis Fiori
A África ocupou mais da metade do tempo da última reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas nesta terceira semana do mês de abril de 2008. Na pauta: o impasse nas eleições presidenciais do Zimbabwe e as crises políticas da República Democrática do Congo e da Kenya, além dos conflitos armados, na Somália, e em Darfur, no Sudão. Trazendo de volta a imagem de um continente aparentemente inviável com "Estados falidos", "guerras civis" e "genocídios tribais", com apenas 1% do PIB mundial, 2% das transações comerciais globais e menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos.
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A independência africana, depois da Segunda Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de "libertação nacional" e seus projetos de desenvolvimento, que foram muito bem-sucedidos - em alguns casos - durante os primeiros tempos de vida independente. Este desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes e regimes militares e pela crise econômica mundial da década de 1970, que atingiu todas as economias periféricas e provocou um prolongado declínio da economia africana até o início do Século XXI. Mesmo na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e de investimento globais.

Novo ciclo

Depois de 2001, entretanto, a economia africana ressurgiu, acompanhando o novo ciclo de expansão da economia mundial. O crescimento médio, que era de 2,4% em 1990, passou para 4,5, %, entre 2000 e 2005, e alcançou as taxas de 5,3% e 5,5%, em 2007 e 2008. E, no caso de alguns países produtores de petróleo e outros minérios estratégicos, estas cifras alcançaram níveis ainda mais expressivos, como em Angola, Sudão e Mauritânia. Esta mudança da economia africana - como no resto do mundo - deveu-se ao impacto do crescimento vertiginoso da China e da Índia, que consumiam 14 % das exportações africanas no ano 2000 e hoje consomem 27%, igual à Europa e aos Estados Unidos, que são velhos parceiros comerciais do continente africano.
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Depois da frustrada "intervenção humanitária" dos Estados Unidos na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia de "baixo teor" para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização dos seus mercados nacionais. Mas, depois de 2001, os Estados Unidos mudaram radicalmente sua política africana em nome do combate ao terrorismo e da proteção dos seus interesses energéticos, sobretudo na região do "Chifre da África" e do Golfo da Guiné, que até 2015 deverá fornecer 25% das importações norte-americanas de petróleo.
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Interesse europeu

Este aumento da presença militar americana, entretanto, não é um fenômeno isolado porque a União Européia e a Grã-Bretanha, em particular, têm dedicado uma atenção cada vez maior à África. E a Rússia acaba de assinar um acordo econômico e militar com a Líbia e, logo em seguida, assinará um outro, com a Nigéria, envolvendo venda de armas e dois projetos bilionários de suprimento de gás para Europa, através da Itália e do deserto do Saara. Num jogo de xadrez que se complicou ainda mais nos últimos dias com a descoberta de um carregamento de armas chinesas enviadas para o governo de Robert Mugabe, no Zimbabwe, através da África do Sul, e com o apoio do governo sul-africano de Thabo Mbeki, segundo denúncia do líder da oposição, no Zimbabwe, Morgan Tsvangirai.
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Depois, de novo, na "Era dos Impérios", no final do século XIX, as potências européias conquistaram e submeteram - em poucos anos - todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, neste início do século XXI, tudo indica que a África será - pela terceira vez - o espaço privilegiado da competição imperialista que está recém começando. A menos que exista um outro Deus, que seja africano.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ
Leia na ítegra em http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/provavelmente-deus-nao-e-africano

segunda-feira, 31 de março de 2008

Crises e hecatombes

Deu na Agência Carta Maior:
A crise atual poderá ser mais ou menos extensa e profunda, mas não será a crise terminal do poder americano, muito menos do capitalismo. Pode-se pensar numa hecatombe que destrua moedas e estados, mas com certeza, não será o caminho mais curto, nem o mais pacífico, para um mundo melhor.
José Luís Fiori
No início da década de 1970, o economista norte-americano, Charles Kindelberger, formulou uma teoria que exerceu grande influencia acadêmica e política, dentro e fora dos Estados Unidos. Segundo Kindelberger, “a economia mundial liberal precisa de um país estabilizador e só um país estabilizador" . Um país que forneça aos demais, alguns “bens públicos” indispensáveis ao bom funcionamento da economia internacional, como a moeda, o livre-comércio, e a coordenação das políticas econômicas nacionais.
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Os participantes deste debate tinham posições teóricas diferentes, mas quase todos compartiam a tese de que os Estados Unidos estariam vivendo seu “declínio hegemônico”, depois da “crise dos anos 70”. E mais recentemente, quase todos consideram que o fracasso americano no Oriente Médio, e o “derretimento do dólar”, neste início do século XXI, fazem parte já agora, de uma “crise terminal” da hegemonia americana.
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Começando pela “crise dos 70”: hoje se pode ver que não houve declínio, pelo contrário, foi na década de 70 que se definiram as novas políticas e regras responsáveis pela multiplicação exponencial da riqueza e do poder americano, no último quarto do século XX. Foi quando os Estados Unidos deixaram de ser “credores”, e passaram para a condição de “grandes devedores” da economia mundial. Mas ao mesmo tempo, sua dívida e sua capacidade de endividamento se transformaram no primeiro motor da economia mundial, destes últimos 30 anos. Foi também na década de 70, que o “padrão dólar-ouro” foi substituído pelo novo sistema monetário internacional “dólar-flexível”, lastreado, em última instancia, no poder americano, e nos seus títulos da dívida publica.
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Agora de novo, depois do fracasso das Guerras do Afeganistão e do Iraque, e da desvalorização do dólar, provocada pela crise financeira de 2007 e 2008, volta-se a falar no “colapso” e na “crise final” da hegemonia americana . Mas até o momento, ainda não se configurou uma crise estrutural ou global, nem existe sinal de que os Estados Unidos venham a desocupar sua liderança capitalista. Pelo contrário, apesar das suas dimensões, tudo indica ser uma crise “regular”, dentro de um sistema que é, por excelência, contraditório, instável e conflitivo. Dentro das novas regras e estruturas criadas a partir da crise dos 70, os Estados Unidos definem de forma exclusiva o valor de uma moeda que é nacional e internacional, a um só tempo, e que está lastreada nos títulos da dívida pública do próprio poder emissor da moeda.
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Por isto, as “bolhas” são sempre uma ameaça potencial para a economia mundial, mas não são apenas “capital fictício”, nem são apenas “especulação”. São mais do que isto, é um ciclo específico de valorização do capital, que só é possível dentro de um sistema monetário e financeiro desregulado e atrelado diretamente ao endividamento publico do governo americano.

A crise atual poderá ser mais ou menos extensa e profunda, mas não será a crise terminal do poder americano, nem muito menos, do capitalismo. Por enquanto, não é provável uma “fuga do dólar”, porque o euro, o yuan e o yen, não tem fôlego financeiro internacional. E acreditar na criação de uma moeda supra-nacional, é fugir para o mundo da fantasia, desconhecendo o sistema mundial em que vivemos. “Dentro deste sistema, não existe a menor possibilidade de que a liderança da expansão econômica do capitalismo possa sair das mãos dos “Estados-economias nacionais” expansivos e conquistadores, com suas moedas nacionais e com seus “grandes predadores”..” Por fim, como “ciência ficção”, pode-se pensar numa hecatombe que destrua moedas e estados, mas com certeza, não será o caminho mais curto, nem o mais pacífico, para um “mundo melhor”.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3856

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Cuba

Deu na Agência Carta Maior:

Do ponto de vista dos EUA, Cuba lhes pertence, e está incluída na sua “zona de segurança”. Além disto, aos seus olhos, a posição soberana dos cubanos transforma a ilha num aliado potencial dos países que se propõem a exercer influência no continente americano, de forma competitiva com os Estados Unidos.
José Luís Fiori
Foi logo depois da conquista da Flórida, em 1819. Os Estados Unidos só tinham 40 anos de idade, e seu território não ia além do Rio Mississipi. James Monroe era o presidente dos Estados Unidos, mas foi seu Secretário de Estado, John Quincy Adams, quem falou, pela primeira vez, da atração norte-americana por Cuba. Quando disse, numa reunião ministerial do governo Monroe, que “existem leis na vida política que são iguais às da física gravitacional: e por isto, se uma maçã for cortada de sua árvore nativa - pela tempestade - não terá outra escolha senão cair no chão; da mesma forma que Cuba, quando se separar da Espanha, não terá outra alternativa senão gravitar na direção da União Norte Americana. E por esta mesma lei da natureza, os americanos não poderão afastá-la do seu peito”. Naquele momento, o desejo de Quincy Adams ainda não era conquistar a ilha, era preservá-la, e por isso deu ordem ao seu embaixador em Madrid, que comunicasse ao governo espanhol a “repugnância americana à qualquer tipo de transferência de Cuba para as mãos de outra Potência”.
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Logo depois da sua vitória contra a Espanha, o presidente William McKinley repetiu, frente ao Congresso Americano, em dezembro de 1889, a velha tese de Quincy Adams: “a nova Cuba precisa estar ligada a nós americanos, por laços de particular intimidade e força, para assegurar de forma duradoura, o seu bem estar” . E foi isto que aconteceu: os cubanos aprovaram sua primeira Constituição independente, em 1902, mas tiveram que anexar ao seu texto, uma lei aprovada pelo Congresso Americano e imposta aos cubanos, em 1901 – The Platt Amendement – que definia os limites e as condições de exercício da independência dos islenhos.
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Depois da Revolução Cubana de 1959, entretanto, a ilha deixou de ser a “maçã” de Quincy Adams, sem deixar de ser o “objeto do desejo” dos norte-americanos. O novo governo revolucionário assumiu o comando da sua economia e da sua política externa, e provocou a reação imediata e violenta dos Estados Unidos. Primeiro foi o “embargo econômico”, imposto pela administração Eisenhower, em 1960, e logo depois, a ruptura das relações diplomáticas, em 1961. Em seguida, foi a administração Kennedy, que promoveu e apoiou a frustrada invasão da Bahia dos Porcos, a expulsão cubana da Organização dos Estados Americanos, e vários atentados contra dirigentes cubanos.
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Esta atração precoce e a obsessão permanente dos Estados Unidos não autorizam grandes ilusões, neste momento de mudanças nos dois países. Do ponto de vista americano, Cuba lhes pertence, e está incluída na sua “zona de segurança”. Além disto, aos seus olhos, a posição soberana dos cubanos transforma a ilha num aliado potencial dos países que se propõem exercer influencia no continente americano, de forma competitiva com os Estados Unidos. Por fim, Cuba já se transformou num símbolo e numa resistência que é intolerável por si mesma, para os seus vizinhos norte-americanos. Por isto, o objetivo principal dos Estados Unidos, em qualquer negociação futura, será sempre o de fragilizar e destruir o núcleo duro do poder cubano. Por sua vez, Cuba não tem como abrir mão do poder que acumulou a partir de sua posição defensiva, e de sua resistência vitoriosa. A hipótese de uma “saída chinesa” para Cuba, é improvável, porque se trata de um país pequeno, com baixa densidade demográfica, e com uma economia que não dispõe da massa crítica indispensável para uma relação complementar e competitiva, com os norte-americanos. Por isto, apesar da mobilização internacional a favor de mudanças nas relações entre os dois países, o mais provável é que os Estados Unidos mantenham sua obsessão de punir e enquadrar Cuba; e que Cuba se mantenha na defensiva e lutando contra a lei da gravidade, formulada por John Quincy Adams, em 1819.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3831

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O Monroe e o Garrincha

A América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e deixar para trás a sua
longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do sistema mundial. Nesta nova
situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística.

José Luís Fiori

Deu na Agência Carta Maior:
Em agosto de 1823, o ministro de relações exteriores da Inglaterra, George Canning, propôs ao embaixador americano em Londres, Richard Rush, uma declaração conjunta, contra qualquer "intervenção externa", na América Latina. O presidente James Monroe,apoiado no seu secretário de estado, John Quincy Adams, declinou o convite inglês. Mas três meses depois, o próprio Monroe propôs ao Congresso Americano, uma doutrina estratégica nacional quase idêntica à da proposta inglesa. Foi assim que nasceu a “Doutrina Monroe”, no dia 2 de dezembro de 1823. Como era de se esperar, os europeus consideraram a proposta de Monroe impertinente e sem importância, partindo de um estado que ainda era irrelevante no contexto internacional. E tinham razão: basta registrar que os Estados Unidos só reconheceram as primeiras independências latino-americanas, depois de receber o aval da Inglaterra, França e Rússia. E mesmo depois do discurso de Monroe, se recusaram a atender o pedido de intervenção dos governos independentes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México.
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O “Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe”, ficou conhecido por sua defesa do direito de
intervenção dos Estados Unidos nos estados americanos “incapazes” de manter sua ordem
interna, e de cumprir com seus compromissos financeiros internacionais. Já não se tratava,
portanto, de uma estratégia defesa contra inimigos externos, como se pode ver, numa carta
enviada por Roosevelt ao seu secretário de estado, em maio de 1904: “Qualquer país ou povo que
se comporte bem, pode contar com nossa amizade cordial. Se a nação demonstra que ela sabe agir
com razoável eficiência e decência nos assuntos sociais e políticos, se ela sabe manter a ordem e
paga suas dívidas, ela não precisa ter medo da interferência dos Estados Unidos. Um mau
comportamento crônico, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços de civilidade
social podem requerer, na América ou em qualquer outro lugar do mundo, a intervenção de
alguma nação civilizada, e no caso do Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina
Monroe, pode forçar os Estados Unidos a exercer um poder policial internacional.” (Pratt, 1955: 417).
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Alguns anos depois, em 1914, no início da administração de Woodrow Wilson, o novo presidente
democrata agregou um novo item à política latino-americana dos Estados Unidos, com uma
simples frase de efeito, dita para um interlocutor inglês: “Eu vou ensinar estas republicas
sul-americanas a eleger homens bons” (idem, p:423). Com este objetivo, Woodrow Wilson
completou o desenho da estratégia continental dos Estados Unidos no século XX, baseada em três
direitos de intervenção – auto-atribuídos - em qualquer território do “hemisfério ocidental”: i) em
caso de “ameaça externa”; ii) em caso de “desordem econômica”; e, iii) em caso de “ameaça à boa
democracia”. No período da Guerra Fria, os Estados Unidos patrocinaram em todo continente,
guerras civis, intervenções militares e regimes ditatoriais contra um suposto “inimigo externo”.
Depois do fim da Guerra Fria, patrocinaram nos mesmos países, intervenções financeiras e
reformas econômicas neoliberais, para combater uma suposta “desordem econômica interna” e
garantir o cumprimento dos compromissos financeiros internacionais da América Latina.
E, finalmente, a partir de 2001, os Estados Unidos incentivam forças e opinião publica, contra os
governos “populistas autoritários” latino-americanos que seriam –para eles - uma ameaça à
democracia.

Agora bem: as eleições presidenciais de 2008, já fazem parte de um processo de realinhamento da
estratégia internacional dos Estados Unidos. Este processo deverá tomar alguns anos, mas é muito
pouco provável que os Estados Unidos abram mão dos três “direitos de intervenção” que orientaram
sua política hemisférica, durante o século XX. Assim mesmo, neste início do século XXI, a
“globalização” do sistema inter-estatal, e a acelerada expansão política-econômica da Ásia, criaram
uma pressão competitiva global que já envolve quase todos os “estados-economias nacionais” do
mundo. Por isto, a América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e
deixar para trás a sua longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do
sistema mundial. Nesta nova situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística, e seu
ensinamento universal: a célebre indagação de Garrincha, após ouvir as orientações do técnico
Vicente Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, na Suécia: "o senhor já
combinou com o adversário para deixar a gente fazer tudo isso?" Garrincha sabia que no futebol
não há como “combinar com o adversário”. Da mesma forma que na luta pelo poder e pela riqueza
internacionais, onde só existe um jeito de ganhar o “jogo”: antecipando-se às intenções e impondo
sua própria estratégia, aos concorrentes e adversários.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3817

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os 'poliglotas descalços'

Deu na Agência Carta Maior:

Sempre causou perplexidade entre os analistas o apoio de Kissinger e de sua diplomacia às truculentas 'intervenções militares' na América do Sul. Mas não é difícil de entender isso quando se olha os interesses dos EUA da perspectiva de longo prazo, traçada por Nicholas Spkyman em 1942.

José Luís Fiori

Heinz Alfred Kissinger, o diplomata norte-americano mais influente, da segunda metade do século XX, nasceu em Fürth, na Alemanha, em 1923. Mas imigrou para os Estados Unidos, e se nacionalizou norte-americano em 1943, antes de doutorar-se na Universidade de Harvard, em 1954, onde foi professor e diretor do seu Centro de Estudos Internacionais e do seu Programa de Estudos de Defesa, até 1971. Apesar disto, Henry Kissinger não foi um acadêmico, foi sobretudo um consultor, funcionário e executivo da segurança nacional, e da política externa norte-americana. Desde 1953, no governo de Dwight Eisenhower, até o final da sua gestão como Conselheiro de Segurança da Presidência, e como Secretario de Estado das administrações de Richard Nixon e Gerald Ford, entre 1968 e 1976. Neste último período, em particular, Henry Kissinger exerceu uma diplomacia pouco convencional e extremamente ágil, como formulador e operador direto de suas próprias decisões, cioso de suas idéias e do seu poder pessoal e institucional. Foi nesta época que ele tomou algumas decisões e liderou iniciativas do governo americano, que deixaram marcas profundas na história da segunda metade do século XX.

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Por outro lado, entre suas decisões e iniciativas “sangrentas”, destacam-se: a autorização do bombardeio aéreo do Camboja e do Laos, tomada sem a autorização do Congresso Americano, em 1969; o apoio à guerra do Paquistão com a Índia, no território atual de Bangladesh, em 1971; o apoio e financiamento ilegal da invasão do Chipre, pela Turquia, em 1974; o apoio à invasão sul-africana de Angola, em 1975; e, finalmente, também em 1975, o apoio à invasão do Timor Leste, pela Indonésia, que se transformou numa ocupação de 24 anos, e custou 200 mil vidas.

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Sempre causou perplexidade entre os analistas o apoio de Kissinger e da diplomacia americana a estas “intervenções militares”, que se caracterizaram por sua extraordinária truculência. Mas não é difícil de entender o que aconteceu quando se olha para os interesses estratégicos dos Estados Unidos e sua defesa na América do Sul, da perspectiva de longo prazo, traçada por Nicholas Spkyman, em 1942. Spykman definiu o continente americano, do ponto de vista geopolítico, como primeira e última linha de defesa da hegemonia mundial dos Estados Unidos. Dentro deste hemisfério, ele considerava improvável que surgisse um desafio direto à supremacia dos Estados Unidos na “América Mediterrânea”, onde ele incluía o México, a América Central e Caribe, mas também a Colômbia e a Venezuela.

Nas décadas de 80 e 90, Henry Kissinger afastou-se da diplomacia direta, mas manteve sua influencia pessoal e intelectual dentro do establishment americano e dentro das elites conservadoras sul-americanas. Em 2001, ele publicou um livro sobre o futuro geopolítico e sobre a defesa dos interesses americanos ao redor do mundo (nota 3). Com relação à América do Sul, o autor atenuou a forma, mas manteve o “espírito” de Spykman: segundo Kissinger, a América do Sul segue sendo essencial para os interesses americanos, e deve ser mantida sob a hegemonia dos Estados Unidos. Só que, hoje, a ameaça à esta hegemonia já não vem da Alemanha, nem da União Soviética, vem de dentro do próprio continente. No plano econômico: dos projetos de integração regional que excluam ou se oponham à Alca. E no plano político: dos populismos e nacionalismos que, segundo ele, estão renascendo no continente, segundo Kissinger. Por fim, mesmo que não tenha escrito de forma explícita, o entusiasmo demonstrado por Kissinger com as reformas liberais dos anos 90 e com os governos de Menem e Cardoso não deixa dúvidas com relação à sua preferência e sua estratégia atual para a “região do ABC”: depois dos militares, os “poliglotas descalços”.

Notas
(1) Na França, Henry Kissinger foi chamado a depor, pelo juiz Roger Lê Loire, no processo sobre a morte de cidadão franceses na Operação Condor, e sob a ditadura militar chilena. O mesmo ocorrendo na Espanha, com a investigação dp juiz Juan Guzman, sobre a morte do jornalista americano Charles Horman, sob a ditadura chilena. E também na Argentina, onde Kissinger está sendo investigado pelo juiz Rodolfo Canicoba, por envolvimento na Operação Condor, assim como em Washington , onde existe um processo na corte federal com acusação, contra Kissinger de haver dado a ordem para o assassinato do Gal Schneider, Comandante em Chefa das Forças Armadas Chilenas, em 1970.

(2) O interesse sobre o assunto foi reavivado recentemente, pelo livro do jornalista Chistopher Hitchens, The Trial of Henry Kissinger(2203), e pela resenha de Kenneth Maxwelll, do livro de Peter Kornbluh, The Pinochet file: a Desclassified Dossier on Atrocity and Accountability, publicado na Revista Foreign Affairs, de Dezembro de 2003, sobre as relações de Kissinger com o regime de Augusto Pinochet, em particular com o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, 1976.

(3) Kissinger, H., (2001), Does America Need a Foreign Policy. Toward a Diplomacy for the 21 st Century, Simon&Schuster, New York.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3792

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Nicholas Spykman e a América Latina

De na Agência Carta Maior:
Para o principal geoestrategista norte-americano do século XX, qualquer ameaça à hegemonia dos EUA na América Latina deverá vir do sul, em particular da Argentina, Brasil e Chile. Uma ameaça à hegemonia nesta região terá que ser respondida através da guerra, escreveu Spykman.
José Luís Fiori
O principal “geoestrategista” norte-americano do século XX, nasceu em Amsterdam, em 1893, e morreu nos Estados Unidos, em 1943. Era de origem holandesa, mas fez seus estudos superiores na Universidade da Califórnia, e foi professor da Universidade de Yale, onde dirigiu o seu Instituto de Estudos Internacionais, entre 1935 e 1940. Morreu ainda jovem, com 49 anos, e deixou apenas dois livros sobre a política externa norte-americana: o primeiro, America’s Strategy in World Politics, publicado em 1942, e o segundo, The Geography of the Peace, publicado um ano depois da sua morte, em 1944. Dois livros que se transformaram na pedra angular do pensamento estratégico norte-americano de toda a segunda metade do século XX, e do início do século XXI.
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Dentro desta tradição, não há dúvida que Nicholas Spykman foi o pai da “escola geopolítica norte-americana”. Ele partiu das idéias de Halford Mackinder, mas modificou sua tese central: para Spykman, quem tem o poder mundial não é quem controla diretamente o “coração do mundo”, é quem é capaz de cercá-lo, como os Estados Unidos fizeram durante toda a Guerra Fria, e seguem fazendo até os nossos dias. Spykman escreveu seus dois livros antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, e por isto chama atenção a sua capacidade genial de prever o que aconteceria depois da guerra, tanto quanto a semelhança entre suas propostas estratégicas e a política externa que os Estados Unidos adotaram efetivamente, durante a segunda metade do século XX, na Europa, Ásia e América.
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E com relação à América, o que foi que previu e propôs Nicholas Spykman? Sobre este ponto, chama a atenção o grande espaço que ele dedica na sua obra à discussão da América Latina, e em particular, à “luta pela América do Sul”. Ele parte de uma separação radical, entre a América dos anglo-saxões e a América dos latinos. Nas suas palavras “as terras situadas ao sul do Rio Grande constituem um mundo diferente do Canadá e dos Estados Unidos. E é uma coisa desafortunada que as partes de fala inglesa e latina do continente tenham que ser chamadas igualmente de América, evocando uma similitude entre as duas que de fato não existe”(p:46). (1)
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Donde, qualquer ameaça à hegemonia americana na América Latina deverá vir do sul, em particular da Argentina, Brasil e Chile, a “região do ABC”. Nas palavras do próprio Spykman: “para nossos vizinhos ao sul do Rio Grande, os norte-americanos seremos sempre o “Colosso do Norte”, o que significa um perigo, no mundo do poder político. Por isto, os países situados fora da nossa zona imediata de supremacia, ou seja, os grandes estados da América do Sul (Argentina, Brasil e Chile) podem tentar contrabalançar nosso poder através de uma ação comum ou através do uso de influências de fora do hemisfério” (p:64) E neste caso, conclui: “uma ameaça à hegemonia americana nesta região do hemisfério (a região do ABC) terá que ser respondida através da guerra”. (p: 62). O mais interessante é que se estas análises, previsões e advertências não tivessem feitas por Nicholas Spykman, pareceriam bravata de algum destes populistas latino-americanos, que inventam inimigos externos e que se multiplicam como cogumelos, segundo a idiotia conservadora.
(1) Spykman, N. , “America’s Strategy in World Politics", Harcourt, Brace and Company, New York,1942
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=378

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O poder global

Deu na Adital:
José Luís Fiori *

"A esperança e a previsão, embora inseparáveis, não são a mesma coisa, e toda previsão sobre o mundo real tem que repousar em algum tipo de inferência sobre o futuro, a partir daquilo que aconteceu no passado, ou seja, a partir da história".
(Eric Hobsbawm, Sobre a História, Companhia das Letras, p:67)

Na década de 70, do século XX, discutiu-se muito sobre a "crise da hegemonia americana". Foi no tempo da derrota dos EUA, no Vietnã, da crise do "padrão dólar", da subida do preço do petróleo e do fim do crescimento econômico acelerado do pós-guerra. E foi também, no tempo da Revolução Sandinista, da Nicarágua, da revolução islâmica, do Irã, e da invasão soviética, do Afeganistão, consideradas, na época, grandes derrotas da política externa norte-americana. Hoje, quase quarenta anos depois, volta-se a falar com insistência, do declínio do poder mundial dos Estados Unidos. O historiador inglês, Eric Hobsbawm, afirmou numa entrevista recente, que o "projeto americano está falindo", e que a "superioridade dos Estados Unidos é um fenômeno temporário" (1). Quase na mesma linha do economista italiano, Giovanni Arrighi, que defende a tese que a "hegemonia americana" está vivendo uma "crise terminal", depois do "fracasso do projeto neoconservador no Iraque", e depois que "os Estados Unidos deixaram de ser um estado hegemônico que criava ordem, para se tornarem uma força do caos e da desordem" (2). No caso do sociólogo norte-americano, Immanuel Wallerstein, a previsão é ainda mais radical: o que está em crise e deve acabar até a metade do Século XXI, não é apenas a hegemonia americana, é o próprio "sistema mundial moderno" que se formou a partir da Europa, depois do século XVI (3). Mas nenhum destes autores consegue definir com precisão o que seja uma "crise terminal", do poder e da superioridade americana, ou do próprio "sistema mundial moderno", de que fala Wallerstein. Por que se trataria de uma "crise terminal", e não apenas de uma crise cíclica ou passageira? E, além disto, mesmo que fosse "terminal", qual seria a sua duração e o seu desfecho? e o que é mais importante, o que passaria no mundo, durante este período de transição e de espera do "juizo final"?
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A crítica desta teoria da "hegemonia mundial", e destas previsões baseadas na hipótese dos "ciclos hegemônicos", está na origem do conceito e da pesquisa sobre o "poder global" (4): um modo de olhar e analisar o sistema político mundial e suas relações com a internacionalização capitalista, que privilegia o conflito e as contradições do sistema mais do que suas relações funcionais. Da perspectiva do "poder global", o sistema mundial é uma "máquina de acumulação de poder e riqueza", e seu motor é a competição e a guerra, entre seus estados e economias nacionais Dentro deste "sistema mundial", não existem países satisfeitos, todos estão sempre se propondo aumentar seu poder e sua riqueza, e neste sentido, todos são expansivos, em particular, as "grandes potências" que já ocupam o topo da hierarquia do poder e da riqueza mundiais. Por isto, este sistema pode ser comparado com um "universo" em expansão contínua, onde todas as potências que lutam pelo poder global estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E como conseqüência, se pode afirmar com toda certeza que dentro deste universo, ou seja, dentro do "sistema mundial moderno", nunca houve nem haverá "paz perpétua", nem hegemonia estável. Pelo contrário, do nosso ponto de vista, o que ordena e "estabiliza" as relações hierárquicas internas do sistema mundial, paradoxalmente, é a existência de "eixos conflitivos crônicos", junto com a permanente possibilidade de uma nova guerra, entre as grandes potências. Por isto, do ponto de vista do "poder global", desordem, crise e guerra não são, por si mesmos, um anuncio do "fim", são uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial. E deste mesmo ponto de vista, falar de uma "crise terminal", com data marcada, de um poder hegemônico, ou do próprio "sistema mundial moderno" é um absurdo teórico e histórico. Até porque, no tempo de espera da "hora final", o mais provável é que o sistema siga enfrentando e superando crises econômicas, como em toda a história da internacionalização capitalista, e situações de guerra, como em toda a história geopolítica das nações, inaugurada pela Paz de Westfália, em 1648. E, portanto, com relação a este tempo de espera, todas estas previsões "terminais", são absolutamente inúteis.

Notas:

(1) Entrevista a Folha de São Paulo, dia 30 de setembro de 2007
(2) Entrevista para a Folha de São Paulo, do dia 2 de setembro de 2007.
(3) Entrevista para o jornal O Globo, do dia 18 de agosto de 2007
(4) Fiori, J.L. (2007), O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações, Editora Boitempo, São Paulo

* Cientista político

sábado, 15 de setembro de 2007

Os EUA, a bomba e a moeda

Deu na Alainet:
José Luís Fiori


O presidente do banco central norte-americano, Bem Bernanke, já definiu em Wyoming, no primeiro fim de semana de setembro, a sua posição frente à crise imobiliária que se alastra a partir dos Estados Unidos: não é responsabilidade do FED proteger financiadoras e investidores das conseqüências de suas decisões; mas é obrigação de todo banco central impedir que as crises financeiras atinjam a economia real, e impeçam o bom funcionamento dos mercados. A mesma posição defendida pelos presidentes dos BCs da Europa, Inglaterra, Japão, Austrália e Canadá, que se mantém, até o momento, cautelosos e receptivos, à espera da reunião mensal do FED, no dia 18 de setembro, que decidirá a nova taxa de juros da economia norte-americana. Mas apesar disto, o dilema do Sr Bernanke vem crescendo a cada hora que passa, sob pressão das forças políticas e econômicas internas dos Estados Unidos, e dos demais governos que sustentam, neste momento, o crescimento da economia mundial. Uma coisa é certa: qualquer que seja a sua decisão final, ela terá conseqüências negativas, no médio e no longo prazo, dentro e fora dos Estados Unidos. E não é fácil de definir o que seja “menos pior”, numa situação como esta: a reativação imediata dos mercados e da atividade econômica, dentro dos Estados Unidos, através da desvalorização do dólar, pode provocar, logo a frente, uma nova bolha e um aumento do protecionismo econômico que já vem sendo defendido, pelos candidatos democratas à eleição presidencial de 2008; mas a proteção da moeda americana, através de uma recessão purgativa, pode escapar ao controle da autoridade monetária e ter um impacto mundial em cadeia, de duração e efeitos imprevisíveis. De qualquer forma, o presidente do FED não é representante da humanidade, e tomará suas decisões a partir dos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Por isto mesmo, neste momento, o maior medo que ronda o mundo, é que a decisão americana desencadeie uma “guerra de moedas”, mesmo que ela não seja desejada por Bernanke e por nenhum dos BCs envolvidos com a crise. Mas apesar destas boas intenções, não é impossível que esta guerra venha a ser travada, porque no campo econômico, como no campo geopoolítico “ a própria potencia ganhadora é que costuma desestruturar sua “situação hegemônica” (1)
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Como explicar este paradoxo, de que a internacionalização econômica seja ao mesmo tempo, a grande responsável pelo renascimento e fortalecimento periódico do nacionalismo econômico? Se olharmos para a história, veremos que o sistema econômico mundial, que se formou a partir da Europa, depois do século XVI, foi sempre constituído por estados, economias e moedas que competiram e lutaram permanentemente entre si, para aumentar a sua riqueza nacional, sem jamais abrir mão de sua identidade econômica nacional.. Através da conquista de territórios econômicos supra-nacionais, cada vez mais extensos, onde pudessem impor suas moedas, e onde seus capitais financeiros pudessem usufruir de vantagens monopólicas. Por outro lado, sempre foram estes mesmos estados e economias nacionais vencedoras que lideraram a expansão capitalista, e que conseguiram ao mesmo tempo “internacionalizar” as suas moedas, dentro de uma região, ou à escala global, como no caso da Libra e do Dólar, nos séculos XIX e XX. O que chama a atenção é que mesmo depois de sua internacionalização, a riqueza e os capitais destes países sempre tiveram que se expressar e realizar em alguma moeda nacional, e só conseguiram se internacionalizar porque mantiveram seu vínculo com a sua própria moeda nacional, ou com a moeda nacional de algum estado mais poderoso.

Deste ponto de vista, neste sistema mundial em que vivemos, toda decisão monetária, da autoridade responsável por alguma “moeda internacional”, sempre terá efeitos contraditórios e provocará danos que fortalecerão, no médio prazo, a vontade competidora dos seus concorrentes e de suas moedas. Por outro lado, também se pode afirmar que neste mesmo sistema, qualquer projeto de “moeda mundial” será sempre uma fantasia ideológica, ou uma estratégia defensiva, como no caso do “Bancor”, que foi proposto por John M, Keynes, na Conferência de Bretton Woods, em 1944, e rejeitado pelos Estados Unidos. Harry D. White, o chefe da delegação americana, era “keynesiano”, mas não era idiota, nem estava num pic-nic acadêmico. Representava os interesses dos Estados Unidos, e de sua moeda nacional vitoriosa, o dólar, que cumpriu o papel da “bomba de Hiroshima”, na construção hierárquica da nova ordem monetária internacional, depois de 1945.

(1) Fiori,J.L., “Estranha forma de governar o mundo”, no Valor Econômico do dia 28 de março de 2007
Leia na íntegra em http://www.alainet.org/active/19568〈=pt

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A bomba e o banheiro

Deu na Alai: Por José Luís Fiori

“Tudo quanto vemos esconde alguma coisa”, René Magritte

Segundo a maioria dos analistas econômicos internacionais, a explosão da “bolha imobiliária” americana não se transformará numa crise sistêmica. Será limitada, e atingirá apenas a credibilidade dos títulos e dos fundos de segunda linha, inchados pelo excesso de crédito, e pela exuberância especulativa dos investidores imobiliários americanos. Além disto, os Bancos Centrais da Europa, Estados Unidos, Japão e Canadá reagiram de forma rápida e coordenada, e fizeram intervenções superiores às do 12 de setembro de 2001. E o que é mais importante, a explosão da bolha já era esperada faz muito tempo, e aconteceu num momento extraordinário da economia mundial, com uma previsão de crescimento do seu PIB, de mais de 5%, e do seu comércio, de cerca de 10%, ainda em 2007. Até o momento, não existem grandes bancos na linha de tiro, e quase todos as economias emergentes parecem a salvo, resguardadas por suas reservas acumuladas no período recente de crescimento global. Por fim, o Banco Central da China, e o próprio Banco da Inglaterra, não participaram da operação conjunta de injeção de recursos nos mercados ressecados, caracterizando uma situação de estresse concentrado no eixo Euro-Dólar, onde chama atenção o papel decisivo que vem sendo cumprido pela Alemanha, como emprestador em última instancia. Assim mesmo, do ponto de vista estritamente financeiro e bursátil, segundo estes analistas, a nova crise se restringiriria à uma turbulência passageira, de ajuste de mercados que perderam o sentido do risco.
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Deste ponto de vista, a crise financeira dos últimos dias pode ter uma dimensão menos visível à primeira vista, e menos relevante para os especuladores, mas de efeitos mais prolongados. Senão vejamos: durante a década de 90, no auge da globalização financeira, o dólar se transformou numa moeda internacional quase global ou imperial. Mas desde 2003, o poder americano vive um verdadeiro pesadelo, depois do seu fracasso no Oriente Médio. De uma só vez, os Estados Unidos ficaram sem um projeto estratégico para o Oriente Médio, e sem capacidade de impor sua vontade – unilateralmente - em outros pontos conflitivos, do cenário internacional. O mundo convive hoje sem a liderança dos Estados Unidos, e já absorveu a idéia de mais um ano de imobilismo do governo Bush. Deste ponto de vista, a grande novidade dos últimos dias, foi a descoberta de que uma possível vitória democrata, nas eleições de 2008, não mudará a agressividade e o belicismo da Administração Republicana, e aumentará o protecionismo econômico, com relação à Administração Bush. Talvez por isto mesmo, se multiplicam por todos lados, neste momento, as forças e os países que colocam sobre a mesa, de forma cada vez mais explícita, suas reivindicações expansionistas. No mesmo dia da crise da bolha imobiliária, a aviação russa sobrevoou a base militar americana de Guam, no Pacífico, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria. E na mesma semana, colocou uma bandeira russa de titânio no leito do mar do Ártico, num gesto simbólico de disputa territorial, energética e militar, com o Canadá, Noruega, Dinamarca e Estados Unidos. Quase na mesma hora em que anunciava sua decisão de reiniciar a corrida armamentista com os Estados Unidos, a China, a Grã Bretanha e a França, e de forma menos explicita, com a Alemanha e o Japão. Esta mesma disputa territorial e competição energética e militar, se repete neste momento, na Ásia Central, no Sudeste Asiático e na África, e mesmo na América Latina. Numa linha de deterioro das relações internacionais, que passa pela crise das instituições multilaterais, e pela competição e pela militarização cada vez mais rápida dos territórios, mares e espaços. Por isto, não seria de estranhar que esta competição já estivesse alcançando o mundo das moedas internacionais. Alguém já disse alguma vez, que toda crise monetária esconde sempre uma disputa entre várias moedas com pretensões internacionalizantes, e que estas lutas monetárias, por sua vez, escondem sempre o aumento da tensão entre seus poderes emissores. Para os economistas de jornal e de banco, estes fatos não têm maior importância, e não devem alterar suas análises e investimentos. Mas, para os governos e os economistas que pensam no longo prazo, seria bom que prestassem atenção nos desdobramentos geopolíticos da conjuntura atual, para não serem surpreendidos, como no célebre caso do cidadão que estava no banheiro, na hora da bomba atômica norte-americana, e atribuiu a explosão e a bolha sobre Hiroshima, à válvula sanitária que acabara de utilizar.

Leia na íntegra em http://www.alainet.org/active/19067〈=pt

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Breve notícia da Europa

Da Agência Carta Maior:
10/08/2007 | Copyleft
POLÍTICA INTERNACIONAL

Dois anos após França e Holanda rejeitarem o projeto constitucional da UE, Berlusconi, Aznar, Chirac, Shroeder e Blair foram embora e o futuro da Europa está nas mãos de Angela Merkel, Gordon Brown e Nicolas Sarkozy. A Europa está cada vez mais parecida com sua longa história. A análise é de José Luís Fiori.

Do outro lado do Canal, o novo presidente frances, Nicolas Sarkozy, empossado no mês de maio, já fez declarações e tomou decisões que colocam a França em confronto direto com a Alemanha, e com quase todos os seus pares da UE. Numa mesma semana, anunciou a decisão de atrasar o cumprimento francês do acordo de eliminação dos déficits orçamentários, estabelecido para 2010, e de levar a frente políticas protecionistas, para defender o emprego dos franceses ameaçado pela globalização liberal. E o que foi mais grave, defendeu a politização da política monetária do Banco Central Europeu, que segundo ele, deveria se submeter à uma estratégia européia de longo prazo, Além disto, a nova ministra da fazenda, Chistine Lagarde, conclamou os banqueiros e financistas a trocarem os Estados Unidos e a Grã Bretanha pela França, para transfomar Paris num grande centro financeiro global, situado na liderança de uma “economia nacional vibrante”, e em declarada competição com Londres e Frankfurt.

A resposta alemã foi imediata e dura: seu ministro da Fazenda, o social-democrata Peer Steinbruck, declarou em Bruxelas, no dia 10 de julho, com tom de deboche, que “ele não tinha nada contra o fortalecimento da moeda européia, pelo contrário, ele amava o euro forte”. E além disto, afirmou em tom mandatório, que todos os estados membros da UE terão que “zerar seus déficits orçamentários até 2010, sem nenhuma exceção”. A própria ministra Angela Merkel saiu à luz e deu uma entrevista seca à televisão alemã, exigindo que o presidente francês “pare de desestabilizar o euro, e a independência do Banco Central Europeu”. E deixou circular, paralelamente, a informação de que seu governo está preparando uma legislação especial - igual a que há nos EUA, Grã Bretanha e França - para impedir a desnacionalização de setores econômicos estratégicos para a segurança nacional alemã, como as telecomunicações, a energia e o setor bancário.

Paradoxalmente, esta briga está clarificando o cenário, depois de dois anos de pasmaceira generalizada. O governo de Angela Merkel unificou a elite política e empresarial alemã, e passou à ofensiva, assumindo a liderança agressiva da unificação européia, e da ocupação econômico-financeira da Europa Central. Além disto, acelerou seu projeto de integração econômica com a Rússia, independente do resto do continente, e voltou à sua posição de sheriff do rigor fiscal e monetário dos demais países europeus, com uma retórica econômica ortodoxa e liberal, característica das potências hegemônicas. Mas o jogo não terminou, e a França parece disposta a dobrar sua aposta. Enquanto Angela Merkel criticava o governo francês, o presidente Sarkozy viajou para a Argélia e a Tunísia, e propôs a criação de uma União Mediterrânea, incluindo os países da costa norte-africana, e a Turquia, sob a liderança francesa, e de costas para a Europa germânica, e para o “global hub” britânico. E ao mesmo tempo, no dia 12 de juilho, liderou um manifesto dos países mediterrâneos da UE, favorável à mudança da posição ocidental, frente à questão palestina, por cima das decisões e instâncias oficiais de Bruxelas.

Cabe saber se a França tem bala na agulha para sair do plano retórico. Mas de qualque maneira, é certo que o distanciamento entre a Alemanha, a França e a Grã Bretanha está se confirmando também no plano da disputa energética. A AIE difundiu nos últimos dias, um informe prevendo problemas graves de oferta de petróleo e gás, nos próximos cinco anos, e o aumento contínuo da sua demanda e dos seus preços. E frente a isto, cada uma das potências européias está buscando solução pelo seu lado: a França, com o petróleo do norte da África; a Grã Bretanha, com o dos países nórdicos; e a Alemanha, com o petróleo e gás, da Rússia.

Como se não fosse pouco, os Estados Unidos insistem em instalar seu “escudo anti-mísseis” na Polônia e Republica Checa, e não abrem mão da independência do Kosovo. Com isto os norte-americanos conseguem irritar a Rússia, e recolocá-la na tradicional posição do “príncipe negro”, que assusta os europeus, desde os tempos de Ivan o Terrível. Primeiro, os russos falaram em abandonar o Tratado das Forças Convencionais na Europa, assinado em 1990. Mas agora, o governo Putin anunciou que responderá ao “escudo” norte-americano, com a instalação de um novo sistema de foguetes em Kalingrado, o enclave russo situado entre a Lituânia e a Polônia, que já foi a capital da Prussia Oriental e terra natal de Immanuel Kant, o filósofo da “paz perpétua”. Todos estes movimentos lembram passos de um minueto, simétricos e previsíveis. Mas não há dúvida que a Europa voltou a se mexer, e está cada vez mais parecida consigo mesmo e com sua longa história passada. Até o papa alemão resolveu entrar na dança, e atacar os protestantes e a Igreja Anglicana, por conta de antiquíssimas divergencias teológicas. Mas neste ponto, pelo menos, a imprensa e todos os governos europeus estão de acordo: como já está se transformando num hábito, uma vez mais, o papa dos católicos exagerou na dose.
* José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Artigo publicado originalmente em espanhol, na revista Sin Permiso, da qual José Luís Fiori faz parte do Conselho Editorial.


Extraído de http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14572&alterarHomeAtual=1, acesso em 14 ago. 2007.