Textos seletos de política internacional, nacional (Brasil) e local (Rio Grande do Sul e Porto Alegre).
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Aécio Neves: Censura à imprensa
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Novas tecnologias: uma porta para a democratização dos meios de comunicação
Deu no Instituto Humanitas Unisinos:Pensar a relação da governabilidade com a comunicação na América Latina é sempre um desafio. Ainda mais quando sabemos que o acesso às novas tecnologias ainda é restrito, que a corrupção nos governos cresce muitas vezes com a ajuda dos meios de comunicação e que a participação da população nesses é ainda muito precária, para não dizer nula. Para debater algumas questões acerca dessa relação, a IHU On-Line conversou por telefone com o pesquisador argentino Guillermo Mastrini.
Entrevista especial com Guillermo Mastrini
Mastrini fala sobre o papel dos meios de comunicação na América Latina e da “conivente” relação com os governos e políticas, além de destacar a importância do acesso às novas tecnologias por todos os cidadãos e da necessidade da criação de políticas públicas de acesso a essas tecnologias. “O custo de produção das tecnologias digitais é muito mais baixo do que nas tecnologias analógicas. Isto abre uma porta”, disse.
Guillermo Mastrini é licenciado em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), e doutor em Comunicação, pela Universidade Complutense de Madrid. É professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel dos meios de comunicação latino-americanos na vigilância dos atos dos governos e dos partidos políticos?
Guillermo Mastrini – A história da América Latina em relação à vigilância dos partidos políticos e dos meios é muito diferente. O grande problema aqui é que os meios de comunicação mais importantes têm fortes vínculos com os governos políticos. A função de vigilantes que os meios de comunicação estadunidenses possuem é muito relativa aqui na América Latina. Basta lembrar-se dos notórios casos de corrupção e de controle que tiveram a participação da imprensa e dos meios de comunicação. Eu diria que não se pode comparar a lógica estadunidense ou européia com a lógica latino-america, pois esta última compreende os vínculos estreitos entre os meios de comunicação e os governos e políticos. Há, geralmente, uma conivência entre essas partes, algo como um pacto não escrito, em que, em geral, os governos permitem que os meios de comunicação realizem importantes negócios econômicos e, em troca, eles não se envolvam na organização política e nas negociações econômicas dos governos.
Guillermo Mastrini – Eu acredito que um dos déficits na América Latina seja a falta de serviços públicos fortes. Por isso, acredito que precisamos desenvolver, e jamais descartar, uma política pública para as novas tecnologias da informação. Creio que seria muito proveitosa para as políticas públicas a utilização das novas tecnologias da informação, e vice-versa. Eles podem ser utilizados para que os governos se aproximem da população e não implicam em um investimento tão alto quanto poderia ser o investimento feito para a criação e manutenção de um canal de televisão público. Obviamente que não é apenas para isso que as novas tecnologias e essa relação servem. Uma política de serviço de público não é suficiente se não for complementada com políticas muito forte no setor privado em relação à informação cultural. Precisamos, aqui na América Latina, de política de acesso, no sentido de estimular o acesso da sociedade às novas tecnologias da informação, isso sem falar de políticas públicas de alfabetização – tanto no sentido literal, ou seja, de aprender a ler, quanto no sentido de compreender o que são essas novas tecnologias da informação e o que implicam seus discursos e saber. Creio, também, que deve haver políticas públicas de descentralização, à medida que um dos problemas graves na América Latina é que o consumo se materializou em tecnologias, daí ser importante uma distribuição equilibrada em nossos países.
Guillermo Mastrini – Creio que a criação dos Conselhos de Comunicação Social seja uma questão que seria muito interessante, no sentido de estimular a participação da cidadania em relação aos meios de comunicação. A história nos mostra que até agora seria impossível implementar isso, o que pode ocorrer ainda no futuro. Tanto acadêmicos quanto militantes políticos e movimentos sociais têm fracassado em relação à implementação disso. Isso porque, como falei no início da entrevista, os grandes meios possuem uma conivência com os governos e políticos e historicamente têm conseguido frear qualquer iniciativa que implicaria numa maior participação da população nos meios de comunicação. Mas precisamos ter consciência de que os Conselhos de Comunicação Social poderão contribuir enormemente para a democratização dos meios de comunicação.
IHU On-Line – Os meios de comunicação na América Latina, em especial o Brasil, estão nas mãos de poucas e poderosas pessoas. O senhor vê alguma forma de democratizar esse formato existente hoje?
Guillermo Mastrini – Percebo que há duas instâncias: uma delas tem a ver com a estrutura legal e política econômica, que irá ajudar a criar recursos em setores minoritários, como a comunicação comunitária e aproveitar todos os resquícios dos grandes meios. A outra teria, evidentemente, relação com o uso das novas tecnologias, a partir de uma produção mais democrática do que a proporcionada pelas tecnologias analógicas. O custo de produção das tecnologias digitais é muito mais baixo do que nas tecnologias analógicas, abrindo uma porta. Precisamos mudar a lógica também do consumo digital, pois sabemos que o consumo está concentrado em muito poucos sites, mas a internet é uma instância em que se pode colocar muitos projetos, processos e informações que, evidentemente, teriam uma dificuldade enorme para transitar nas tecnologias tradicionais no mundo analógico.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=13452
terça-feira, 22 de abril de 2008
Privatizar para tornar público
Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
“Você não acaba com o monopólio público dizendo, simplesmente, que ele vai se tornar privado. Você diz apenas que ele vai ser público e mais eficiente.” Essa é a conclusão de Fernando Felício Pachi Filho depois que analisou os discursos publicados nos jornais mais destacados no país sobre a privatização das telecomunicações em sua tese de doutorado. Sobre esse assunto, Fernando conversou com a IHU On-Line, por telefone. Ele acredita que “quem falava em soberania era basicamente quem se opunha ao projeto de privatização, porque, dentro do discurso de quem era pró-privatização, a soberania não era colocada nem como assunto principal nem como assunto polêmico”.
Fernando Felício Pachi Filho é jornalista, pela PUC-SP, e licenciado em Lingüística, pela Universidade de São Paulo (USP). Também é mestre em Semiótica e Comunicação, pela PUC-SP, e doutor em Lingüística, pela Universidade de Campinas com período sanduíche em Universidade Paris 12, com a tese intitulada “Privatizar para tornar público: uma análise do discurso sobre a privatização das telecomunicações em jornais”. Atualmente, é professor na Fundação Instituto Tecnológico de Osasco.
Confira a [trechos da] entrevista.
IHU On-Line – A privatização influenciou de alguma forma para a democratização dos meios de comunicação? Fernando Felício Pachi Filho – Se você olhar hoje, de fato você teve um acesso muito ampliado, mas também porque o Estado fez grandes investimentos antes na infra-estrutura. O que existe, atualmente, é uma expansão de serviços, pois o Estado não investiu nisso, mas a infra-estrutura acabou sendo um investimento estatal. É mera conseqüência. O Brasil teve a chance, em algum momento, de atualizar sua tecnologia de telecomunicações. Isso é inegável, mesmo porque no mundo em que estamos hoje ninguém mais concebe ficar, por exemplo, sem internet. Isso foi necessário. Os capitais foram gerados a partir do investimento externo, o que nos faz ver que, de fato, o benefício foi ampliado. No entanto, a questão que também precisa ser analisada é o quanto nós também como nação investimos nisso.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=13325
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Falta peito, falta coragem [ao Lula]
Deu na Revista do Brasil, n. 23:
Para Mino Carta, o país tem inúmeras soluções e um único problema: uma elite medieval, diante da qual o presidente Lula amarelou. Aos 74 anos, depois de comandar publicações ousadas e criativas, ele ainda quer escrever um livro chamado “O Brasil”Por Paulo Donizetti de Souza e Vander Fornazieri
Mara Lúcia da Silva é coordenadora de produção da Carta Capital. Tinha 18 anos quando começou como secretária na redação da IstoÉ. “Secretária” costuma ser eufemismo para designar a faz-tudo do pedaço. Aos poucos, foi absorvida pelo então diretor de redação da revista, Mino Carta, que nunca mais lhe deu alforria. Vinte anos depois, Mara é a sua “escrava” preferida. É a encarregada, em meio às pesquisas iconográficas para os fechamentos semanais, de contornar o pavor do chefe a tecnologias. Hoje, pelo menos, já conta com ajuda de companheiros de redação para dividir o fardo de passar para o computador os textos que o veterano digita, ou melhor, datilografa, como se dizia antigamente. Até as respostas aos e-mails, acessados e impressos pelos escravos, são feitas a mão pelo chefe e digitalizadas pelos destemidos “escravos”, como Mino chama os intermediários entre ele e a vida real movida a computador – do qual não se aproxima para não ser devorado. Seria um sinal de conservadorismo? Afinal, além da secretária de duas décadas, há 40 anos o mesmo motorista o leva para cima e para baixo – sim, o criador de Quatro Rodas conta que nunca dirigiu nem sabe distinguir um Fusca de um Mercedes. Enquanto alguns o acusam de ser chapa-branca, ele puxa sem dó as orelhas do presidente Lula, que diz ser um sintoma de que alguma coisa começou a mudar no Brasil, mas de quem guarda uma sincera decepção pela falta de ousadia. “Para que agradar tanto aos banqueiros?”, reclama. Nesta entrevista, que por uma questão de espaço está mais recheada de detalhes no site, Mino Carta fala do preconceito do mercado publicitário contra quem critica o pensamento único. Fala das origens da passividade do povo, da selvageria do capitalismo, de cinema, gastronomia e de amor. Conservador nas miudezas e anárquico no atacado, ele não tenta se explicar, mas será facilmente entendido.Aqui é o lugar onde você mais gosta de trabalhar de todos os que já passou?
Talvez seja onde a margem de criação é maior. Mas cada coisa se encaixa no seu tempo e à moldura das possibilidades oferecidas. Eu lancei o Jornal da Tarde, foi uma empreitada valiosíssima, mas estava trabalhando no Estadão. A autonomia que tive foi muito grande em termos de criação, paginação, texto, o jornal foi até bastante revolucionário, mas politicamente a margem de manobra era mínima. Você tinha de se adaptar aos pensamentos da casa. Na Veja eu contava com patrões idiotas, e isso ajuda um bocado. Os Civita não sabiam onde estavam, e foi fácil fazer uma revista que mereceu censura, que foi perseguida violentamente.
Ou mesmo antes. Rubem Braga e Joel Silveira cobriram a campanha dos pracinhas na Itália, na Segunda Guerra Mundial, de forma impecável, com textos dignos do melhor jornalismo contemporâneo do mundo. Se você pensa que o jornalismo brasileiro já teve esse tipo de herói, você põe as mãos nos cabelos! Cláudio Abramo...
Isso se encaixa exatamente na lógica do que eu disse. No Brasil você tem uma situação muito peculiar, que não existe em outros lugares que já saíram da Idade Média. Uma mídia compactamente unida apenas em torno da defesa dos interesses piores, aqueles da minoria branca, para usar a expressão do Cláudio Lembo. É muito simples: quem de alguma forma põe em xeque, critica a minoria branca e identifica esses interesses, que são os dela apenas, e não os do país, da sociedade brasileira, do povo brasileiro, quem faz isso é ignorado. E a técnica é a de sempre, antiqüíssima, usada inescapavelmente em todas as situações: “Ignore, porque aí não acontece, ninguém vai saber”. A estratégia, do ponto de vista deles, é extremamente eficaz. Saiu nesses dias um estudo em que você verifica que 58% da população brasileira não lê jornal, não lê livro, não vai ao cinema, não vai ao teatro. Alimenta-se só de TV, quem se alimenta. Há um distanciamento brutal em relação às notícias, à existência de fatos. Isso é muito claro no Brasil. E eles se aproveitam disso.
Eu não tenho muitas esperanças em relação ao Brasil, infelizmente. E vocês vejam: país extraordinário, recursos absolutamente fantásticos, mais fértil do mundo, muito mais que a China. Onde você plantar, dizia o Pero Vaz de Caminha e é verdade, a coisa dá. Não tem cataclismo, o subsolo é rico em minérios, metade do ferro do mundo está aqui, agora descobrimos também petróleo onde não imaginávamos que houvesse. E temos a pior elite do mundo! A elite (desculpe a referência chula e mesquinha, talvez) da Daslu, de exibicionistas, cafajestes, cheios de si próprios, se acham notabilíssimos, inteligentes, elegantes, brilhantes. É um bando! É o país onde se fala mais palavrões na rua, desbocado, vulgar. Eu não tendo a enxergar o pecado no povo, o povo é o que pode ser. Os que mandam são os que não fizeram esforço algum para ser diferentes, para pensar em todo mundo, em vez de pensar somente neles próprios.
A imprensa não funcionava se a greve envolvesse a categoria dos jornalistas, não funcionava e havia uma parte conspícua da imprensa que apoiava os trabalhadores. O jornal de maior tiragem na Europa era o L’Unità, do partido comunista. Estou falando dos anos 50. Havia três edições do L’Unità, em Roma, em Milão e em Turim, cada uma com sua redação. Hoje seria possível fazer um jornal só e mandar para qualquer lugar, mas nesse tempo não. Eram três redações distintas que tiravam 1,5 milhão exemplares por dia juntas. Portanto, era uma outra coisa.
Não sei. Sou bastante decepcionado com o governo Lula de vários pontos de vista, mas a eleição do Lula – e, muito mais que ela, a reeleição – mostra que uma mudança se dá. Talvez sem clara percepção por parte da maioria, mas os senhores do poder sabem perfeitamente da gravidade dessa mudança para eles. Tanto que malham o Lula automaticamente – não que ele não mereça, até porque ele faz tudo para agradá-los, sem conseguir, aliás. Mas eles sabem o significado da eleição de alguém que é igual ao povo brasileiro. Essa é a grande novidade. O povo brasileiro, que achava que o presidente da República tinha de ser bacharel e dormir de gravata, de súbito decide eleger um igual a ele, um operário, um tosco, despreparado, como diz a minoria branca. O Lula, a meu ver, não entendeu. Se tivesse entendido, teria ido bem mais longe do que foi. Por que agradar tanto aos banqueiros?
Eu duvido. Quem dá o golpe se o povo elegeu e reelegeu esse cara da forma como o elegeu e, sobretudo, como o reelegeu? A mídia compactamente contra ele, todo dia soltando informações sobre corrupção, envolvimentos terríveis com o que há de pior etc. etc., e assim mesmo ele foi reeleito. Quer dizer, a estratégia da minoria branca, que normalmente dá certo, desta vez falhou. Não acho que havia condições para nenhum tipo de golpe. Os grandes estadistas têm coragem. Claro, se ele me ouvisse dizer essas coisas, diria: “Ah, o Mino é um iludido, um anárquico”. Conheço o Lula há 30 anos, sei o que ele pensa. Em inúmeras vezes percebi que ele me achava incômodo. Sou amigo dele e gosto muito dele, o acho um sujeito extremamente dotado, além de tudo tem um QI muito bom. Mas falta peito, falta coragem.
Não acha que agora, no segundo mandato, ele está participando mais da política e sendo um pouco mais claro nas questões ideológicas?
Acho que o segundo mandato está pior que o primeiro. Fiz uma longuíssima entrevista com ele – 13 páginas – em novembro de 2005 e ele me disse: “Você sabe, Mino, que eu nunca fui de esquerda...” É um erro grotesco dos países de hoje, contemporâneos, dizer que a esquerda e a direta não existem mais. Como, se num país onde 5% vivem entre razoavelmente e bem demais e 95% vivem mal ou tragicamente? Como é possível dizer “aqui não existe esquerda e direita”? Tem uma metáfora magnífica que é a do metrô paulistano: se São Paulo tivesse um metrô digno de uma grande capital, como Londres, Paris, você teria muito menos carros na rua. O metrô é um transporte fantástico. Não! Eles cuidaram de construir túneis. Agora tem a ponte Espraiada e uma prefeita do PT chamou aquilo de Conjunto Viário Roberto Marinho, um salteador que infelicitou o Brasil, uma vergonha mundial, “jornalista”... Este é o único país que eu conheço onde jornalista chama o patrão de colega e o patrão consegue com o sindicato uma carteirinha de jornalista. Isso é Idade Média. Uma vergonha! Aqui temos diretores de redação por direito divino.
E como o país caminha para 2010?
Mal. Acho que se o Lula não se convencer de que não consegue fazer seu candidato, que não tem chance, que ele não transfere seu prestígio pessoal – e o Aécio já está dizendo isso –, ele vai optar por essa solução (mostra capa da Carta Capital de 2/4/2008, com reportagem abordando a possibilidade de Aécio Neves sair para presidente com Ciro Gomes de vice). E essa dupla (Aécio e Ciro) vai fazer as mesmas coisas que estão sendo feitas agora. Não imagine mudanças.
Não posso crer. Acho que os partidos brasileiros não existem, são clubes recreativos para a minoria branca. Mas eu cheguei a achar que o PT tinha algo diferente. Nunca fui ligado a partido, mas apoiei muito o PT no seu nascimento, dentro das minhas modestíssimas possibilidades, porque sempre entendi que um partido forte de esquerda no Brasil, com coragem e determinação, poderia ter um papel muito importante. Mas o PT, em última análise, no poder, mostrou-se igual aos outros. É claro, o Brasil está crescendo no momento, mas está crescendo em cima de commodities, vamos ser claros! Isso é um futuro maravilhoso? Eu diria que não.
Não, acho que o mundo está submetido a essa idéia. E estamos vendo que o mundo piora a cada dia. Temos por exemplo a “arte moderna”, uma prova da imbecilidade do mundo.
Não, tenho medo de computador. Computador me engole, ele tem uma bocarra que esconde os dentes, é coisa pior que tubarão. Se chegar muito perto, ele me engole. Já engoliu um monte de gente, principalmente a garotada, que vai pagar caro por isso.
Eu diria que o instrumento é uma coisa e o homem que usa é outra. É como a televisão. Não é um instrumento fantástico? Você pode usá-la com os piores propósitos ou com os melhores. Idem a internet.
Il Manifesto é excelente. Não gosto muito do El País, aos espanhóis falta senso de humor, eles levam tudo muito a sério. A mídia americana já foi excelente, hoje está muito mal, como os Estados Unidos. La República é um jornal muito bom, muito melhor que o El País. Guardian, Independent são excelentes, de centro-esquerda, não de esquerda, mas muito bons. O Le Monde acabou, hoje é um jornal claramente comprometido. Já foi importante, até pela tentativa de criar ali uma cooperativa de jornalistas, de passar por cima e eliminar a figura do patrão. Infelizmente, e isso é cada vez mais claro, qualquer empreendimento editorial tem de ser encarado como negócio. Precisa ter retorno, senão você fecha.
Em princípio, não tenho nada contra, depende de como você a usa. Num tom não muito agressivo, usada com um paletó de tweed irlandês, por exemplo, eu diria até uma gravata de lã, é aceitável. Mas eles usam com terno azul marinho! (risos)
Nas noite de quinta, mas vai mal o Massimo. Houve uma briga entre os dois irmãos. Morreu a mãe, que era o tecido conectivo, e desandou. O Massimo propriamente dito já saiu, está aí o irmão. Mas não está indo bem.
Aquele bacalhau é um bacalhau à siciliana, não é único. Eu entendo que há três pratos de bacalhau que são imbatíveis. À portuguesa clássico, com legumes cozidos na água com bastante azeite, e o próprio bacalhau cozido na água com azeite, no fogo lento, por oito minutos mais ou menos, com dentes de alho que depois você retira, ovo duro, azeitona preta. Você sente o bacalhau, não é encoberto por molho ou coisa assim. Depois tem o bacalhau à espanhola, aquele em camadas: batatas, cebolas, pimentão, tomate, bacalhau. É excelente. E o outro é esse à siciliana, que faço com molho de tomate.
Um grande filme com o Tom Hanks é o Forrest Gump, que é uma metáfora dos Estados Unidos muito boa. (Sobre os Estados Unidos na guerra) assisti no último fim de semana em CVD, CDV...
Não, não tem próxima. Eu estou pensando em escrever um livro, o terceiro, que seria “O Brasil”, falando do Brasil, o que é o Brasil para mim. Mas não escrevi nada ainda.
Tenho também uma filha (Manuela) e um enteado. Casei duas vezes. O primeiro casamento foi um episódio discutível, mas produziu dois filhos, e tem uma grande ligação entre nós. Depois tive um segundo casamento, muito bem-sucedido, muito feliz. Foram 29 anos de vida em comum. Infelizmente ela (Angélica) morreu, faz 11 anos, de câncer. Foi um baque. Era um casamento muito bom, mesmo. Eu tive, de certa forma, essa sorte e também padeci dessa desgraça. A sorte confrontada com esse momento é um golpe. Até hoje tomo todo dia remédio para estabilizar os humores. Eu sempre tive uma saúde de ferro. Nunca tinha tomado nem remédio para dormir, e durmo pouquíssimo. Aí eu comecei a querer me atirar pela janela. Faz 11 anos que eu tomo esse remédio.
Minha filha é divorciada, meu filho é muito bem casado, mas ele é um rapaz esperto, casou-se com 36 anos. Os dois são jornalistas. O meu enteado é casado e o filho dele do primeiro casamento, que está completando 16 anos, vive comigo. Era muito ligado à avó. A casa dele, para ele, é a nossa casa. Meu filho mora fora do Brasil desde os 15 anos. A minha filha é publisher disso aqui, é a única da família que lida com dinheiro. Eu me mantenho o mais possível longe, porque posso causar estragos absolutamente inimagináveis.
Mas como? Eu sou um velho ridículo... Onde você quer?
Leia na íntegra em http://www.revistadobrasil.net/entrevista.htm
sábado, 12 de abril de 2008
O desastre midiático
Deu na Agência Carta Maior:O jornalista espanhol Pascual Serrano construiu um "arquivo da vergonha jornalística", reunindo flagrantes demonstrações da deterioração de uma profissão que ameaça ruir. Hoje, a verdade informativa é quando toda a mídia (imprensa, rádio, televisão e Internet) diz a mesma coisa sobre um tema, diz que uma coisa é verdade... mesmo que seja mentira.Ignacio RamonetEpílogo do livro "Pérolas 2. Balelas, disparates e trapaças nos meios de comunicação", de Pascual Serrano.
Indispensável. Este é um livro indispensável para tomar consciência da amplitude do atual desastre midiático. E temos que agradecer Pascual Serrano pelo talento que esbanjou ao constituir o “arquivo da vergonha jornalística” conseguindo arrebanhar tão flagrantes demonstrações da deterioração de uma profissão que ameaça ruir.O que Pascual Serrano revela com esta nova coleção de “balelas, disparates e trapaças” é que alguma coisa deixou de funcionar nos nossos meios massivos de comunicação. E que, por isso, a informação – ou, melhor dizendo, a desinformação – passou a ser uma das principais ameaças que pairam sobre nossas democracias na hora da globalização econômica.
Uma das razões desta situação mora no fato de que a maioria dos grandes jornais do mundo, se formos falar da imprensa escrita, não são, hoje, dirigidos por jornalistas. Agora são quase sempre dirigidos por egressos das Escolas de Comércio, de Escolas de “Ciências Empresariais”, que são os que, evidentemente, estão com as rédeas da empresa midiática, que irá se comportar como uma empresa que, antes de mais nada, vai pensar em suas relações com os “clientes”, e os clientes são os compradores dos jornais ou os ouvintes do rádio ou os telespectadores da televisão, mas são percebidos principalmente como “clientes”.
Quando se trata de globalização, os principais poderes são o poder econômico e o poder midiático. O poder político vem em terceiro lugar. E o poder econômico, quando se alia com o poder midiático, constitui uma enorme alavanca, capaz de fazer tremer qualquer poder político. Esta é uma das grandes realidades de hoje, ainda que, às vezes, continuem nos apresentando a realidade de maneira diferente. E isso é democraticamente escandaloso, porque o poder político é eleito nas urnas, mas o poder midiático e o poder econômico não são e, assim, não têm legitimidade democrática. Além disso, o poder econômico domina cada vez mais o poder midiático, porque controla, compra e concentra esses meios. E nós estamos em uma situação orwelliana, na qual os donos da produção industrial são, ao mesmo tempo, os senhores dos sistemas de manipulação das mentes.
En nome da necessidade de ganhar um número de clientes cada vez mais amplo e ter mais consumidores, os meios de informação massiva estão integrando três características:
Primeira característica: cada vez mais o discurso, a mensagem jornalística, é mais simples, mais básica. Uma mensagem simples quer dizer que utilizará muito poucas palavras, um número de palavras muito limitado.
Digamos que se o léxico do castelhano tem, por exemplo, trinta mil termos, cada vez mais os meios de informação irão utilizar apenas oitocentas palavras, para que todo o mundo entenda. Com a idéia de que é preciso expressar-se de maneira muito básica, muito simples, porque tudo o que for raciocínio complexo, tudo o que for pensamento inteligente, acaba sendo complicado demais e sai do sistema de informação tradicional.
Existe uma forte tendência à simplificação, e a simplificação mais elementar é a concepção maniqueísta das coisas: qualquer problema se transforma em um problema simples de dois termos: o bem e o mal, o branco e o preto. Uma coisa tão complexa como a geopolítica internacional, por exemplo, é interpretada em termos de bem e de mal. Ou seja, uma concepção extremadamente maniqueísta. Em qualquer debate não mais se entra em considerações que possam pôr em destaque a complexidade de alguma situação, a necessidade de períodos de adaptação, etc. São suprimidos os matizes. O raciocínio torna-se digital: zeros e uns. O resto é para “intelectuais”.
A segunda característica é a rapidez. A informação deve ser consumida rapidamente, quer dizer que seja qual for o valor da informação se tentará passá-la em um espaço muito curto. Por exemplo, se for a imprensa escrita, irá se expressar não apenas com palavras muito simples, mas em frases muito curtas. As manchetes praticamente farão um resumo, uma síntese, do que diz o texto. Poucas notícias terão mais de duas ou três laudas, e, evidentemente, em duas ou três laudas há muito pouco que se possa explicar. Em outras palavras, a idéia está no fracionamento: é oferecido um fragmento da informação, mas esse fragmento é apresentado como se fosse o todo. É uma concepção metonímica da informação, porque a idéia é que o consumidor não sofra consumindo. Por exemplo, nos telejornais todos os estudos demostram que a duração média de uma informação é, digamos, de um minuto e fração. Em um minuto e pouco não é possível explicar tragédias como a da guerra do Iraque ou questões como as do islamismo radical, etc.
Finalmente, a terceira característica destas informações de palavras simples, maniqueísta e rápidas: suscitar emoções. Por exemplo, o intuito é fazer rir ou fazer chorar, o intuito é distrair. Na verdade, a informação massiva está feita para distrair, é cada vez mais uma forma de distração. A imensa maioria das informações é para distrair; se não chegássemos a conhecê-las isso não seria uma tragédia pessoal para nós. E temos visto como as informações people (gente), anedóticas, cresceram imensamente. Acontecimentos, dramas pessoais, tudo isso ocupa um enorme espaço na mídia.
Ou seja, do que se trata, na verdade, é de construir informações que sejam simples, rápidas e divertidas. Essa é uma característica geral e universal. A mídia norte-americana é, de certa maneira, o modelo e o motor deste tipo de informação que está se impondo em todas partes e que triunfa também na Internet.
Com essas características, a informação muito dificilmente pode construir consciência cidadã, construir um sentimento cívico, construir coesão social, ou coesão nacional. Há uma imensa distância entre este projeto, que teoricamente deveria ser o da informação, e a prática real que Pascual Serrano constata neste livro, no qual, de certa maneira, graças a tantos exemplos insólitos, se pergunta: o que é um discurso cujas características principais são a simplicidade, a rapidez e a distração-emoção?
A resposta aparece muito claramente: um discurso infantilizante. De fato, somente com crianças de pouca idade se fala com uma linguajem limitada, com poucas palavras, para que elas entendam. Não são utilizados conceitos filosóficos, também não é bom alongar-se muito, porque cansaria. E não se fala de maneira séria, porque se pensa que com a reatividade emocional é suficiente. Ou seja, que dispomos de um mecanismo de informação que na verdade está concebido para infantilizar o cidadão.
Por outro lado, com a explosão da Internet e da Web 2.0 estamos em um universo no qual há muito mais informação do que podemos consumir. Portanto, agora o problema não é a falta de informação; é a seleção da informação. Durante muito tempo, a maioria das sociedades humanas viveu sob sistemas autoritários de poder, que praticaram a censura. O controle da informação era de importância capital para o poder e, por conseguinte, a realidade da informação era a escassez. Havia muito pouca informação que circulava, e o controle dessa circulação era o que dava mais poder ao poder.
Hoje essa situação mudou. A informação circula de modo superabundante e ninguém pode detê-la. Não há nenhum poder suficientemente autoritário para impedir a informação de circular. É muito difícil. A Internet agora nos permite ter acesso, quase gratuito, a jazidas literalmente oceânicas de informação e a dificuldade é como podemos nos orientar por esse labirinto. Isso apresenta enormes problemas. E o primeiro destes problemas é o da censura. Porque a censura mudou.
Antes, a censura era exercida pelo poder político ou pelo poder, digamos, moral ou religioso, havia pouca informação e os cidadãos diziam que era preciso lutar para obter mais liberdade de informação. O que chamamos de liberdade? Liberdade de comunicar, em resumo. A liberdade de pensar livremente, de comunicar suas idéias, a liberdade de reunião, a liberdade de expressar-se ou a liberdade de imprimir, etc., isso é, no plano político, a liberdade. Justamente a liberdade é a margem de possibilidade da expressão dos grupos sociais que constituem uma sociedade.
E então, os cidadãos diziam, quanto mais liberdade tenhamos, mais comunicação haverá; ou, pelo contrário, quanto mais comunicação exista, mais liberdade haverá. E assim foram feitas as revoluções no século XVIII, essencialmente para ter a possibilidade de comunicar, de trocar informações. Os cidadãos tinham, inconscientemente, a idéia de que quanto mais comunicação houvesse, mais libertad haveria em nossas sociedades.
Mas não há dúvida que, já há alguns anos, temos percebido que essa curva, que era quase uma mediatriz, uma diagonal ascendente, proporcional, por assim dizer —quanto mais comunicação, mais liberdade havia— e que parecia que ia subir até o céu, mudou.
Na verdade, como demonstra com brilhantismo, do seu jeito, este livro de Pascual Serrano, percebemos, depois de todas as manipulações midiáticas ligadas ao ocorrido na Romênia, ao assunto Tamisara, à Guerra do Golfo, à Guerra do Iraque, ao 11 de março, etc., que ter mais informação não trazia mais liberdade. E, então, nossa curva que subia como uma diagonal, de repente transformou-se em uma paralela.
Por muita informação que houvesse, nossa liberdade não se modificava, se mantinha inalterável. E o perigo que corremos neste momento é que quanto mais informação tenhamos, menos liberdade teremos. Porque a informação agora me engana, me confunde, me desorienta. Há tanta informação não verificada, tanta “balela" como diz Pascual Serrano, que não sei mais o que pensar. Na verdade, estou percebendo que muitas dessas informações que recebo estão mentindo, como mentiram durante a Guerra do Golfo, como mentiram em Timisoara, como mentiram na Bósnia, como mentiram no Kossovo, ou como o engodo das “armas de destruição massiva” para justificar a guerra do Iraque.
Quanto mais informação existe agora, menos liberdade ela me proporciona. Porque não sei mais o que fazer, e percebo, de fato, que o funcionamento da verdade das nossas sociedades é muito relativo. O que é a verdade em matéria de informação? A verdade informativa é quando toda a mídia: a imprensa, o rádio, a televisão e a Internet dizem a mesma coisa sobre um tema, dizem que uma coisa é verdade… mesmo que seja mentira. Isto está restabelecendo esse princípio que Aldous Huxley desenvolveu em seu romance Admirável Mundo Novo... Huxley diz: “Trinta e seis mil repetições constituem a verdade.” Se a mídia repete algo trinta e seis mil vezes, estabelece a verdade… mesmo não sendo verdade. E assim os cidadãos não sabem mais onde está a verdade. E a mídia, em vez de contribuir para nos guiar neste labirinto, o que faz é nos confundir mais, nos enganar mais, nos manipular mais.
Por isso se criou uma tal desconfiança com respeito à mídia na sociedade. A riqueza principal dos meios de comunicação é sua credibilidade. nenhum capital é mais importante para um meio de comunicação que sua credibilidade, porque o que eles vendem é, na verdade, essa credibilidade. Nós compramos porque eles são confiáveis, se não fossem confiáveis para que iríamos comprar, ou senão, para que vou assistir tal programa de televisão ou escutar o rádio se não confio no jornalista ou no meio que está se expressando? É seu principal capital, e este capital, como demonstra com clareza evangélica este livro de Pascual Serrano, está sendo dilapidado.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Extraído de http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14925 acesso em 12 abr. 2008.
sábado, 5 de abril de 2008
A arte de desconstruir um governo e de construir uma ilusão
Deu na Agência Carta Maior:Expostas nas bancas e nas sinaleiras, apregoadas pela publicidade em cartazes, rádio e TV, percebidas mesmo pelos mais desatentos, as manchetes de capa são o hall, o espaço mais visitado dos jornais. Mesmo quando apenas vislumbrado, captado num relance, pode-se dizer que seu enunciado se aloja, de algum modo, na mente de leitores e de não-leitores. Por conta desta alta visibilidade,No RS, o jornal Zero Hora não produziu uma só manchete claramente questionadora de alguma política do governo Yeda Crusius ao longo de três meses, embora no mundo real arraste-se com um desempenho constrangedor. Já o Governo Lula padece nas manchetes de ZH, embora no mundo real obtenha a aprovação da grande maioria da população.Ayrton Centeno
sem a pretensão de ciência que não posso ter, resolvi, anotar e catalogar as manchetes de Zero Hora do último trimestre.Ayrton Centeno é jornalista
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=3861
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Mudanças na cultura midiática latino-americana
Deu no Instituto Humanitas Unisinos:Que a cultura midiática latino-americana está mudando, não há dúvidas. Mas é preciso salientar que há mudanças extremamente significativas acontecendo, enquanto que, em outros países, a mudança ainda é tímida. “Essas modificações que começam a aparecer no cenário latino-americano se devem basicamente à ação de governos progressistas, particularmente os governos da aliança bolivariana das Américas: Venezuela, Equador e Bolívia, que entendem que a comunicação é uma questão estratégica para o desenvolvimento social e econômico e têm procurado interferir mais no sistema midiático, no sentido de aumentar a variedade dos conteúdos e das fontes emissoras”, diz o professor Denis de Moraes, entrevistado de hoje pela IHU On-Line. Denis fala ainda sobre a relação entre comunicação e governabilidade, crise das indústrias e conselhos de comunicação. A conversa foi realizada por telefone. Denis de Moraes é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também realizou doutorado em Comunicação e Cultura. É pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, da Argentina. É professor da Universidade Federal Fluminense. É autor de, entre outras obras, O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (Rio de Janeiro: DP&A, 2001) e Cultura mediática y poder mundial (Buenos Aires: Grupo Editorial Norma, 2006). Confira a entrevista.
IHU On-Line - Foucault dizia que não existe o poder, mas existem, sim, aqueles que querem ser dominados. Qual a relação que o senhor faz entre o poder e a cultura midiática presente na América Latina, hoje?Denis de Moraes – Eu acho que a cultura midiática, tanto na América Latina quanto no mundo em geral, apresenta uma série de características comuns e convergentes. A primeira delas é o que eu defino como midiatização da vida social. Todos os espaços de representação de anseios e aspirações parecem ter se transferido por ação ideológica dos meios de comunicação para telas e monitores. Isso significa que só adquire verdadeira visibilidade social aquilo que os meios de comunicação se incubem de transmitir. Significa também que as outras esferas de representação de interesses passam também a entrar num processo de esvaziamento de sua força junto à opinião pública. Eu me refiro à escola, às associações sociais, ao poder legislativo, que continuam manifestando suas posições, aglutinando interesses, mas não têm o mesmo poder de penetração e de interferência social do que os meios de comunicação. Trata-se de uma distorção perigosa, na medida em que os meios de comunicação se apresentam diante da coletividade como um âmbito de representação da vontade geral, como se eles tivessem a capacidade de resumir tudo aquilo que a sociedade deseja e aspira.
Trata-se de uma manobra ideológica muito poderosa, muito incisiva e que tem como objetivo: 1) ajudar a consolidar a hegemonia do mercado como a esfera de organização societária, ou seja, o mercado elevado à potência máxima; 2) Trata-se de uma tentativa de colocar os meios de comunicação, que são privados, fora do alcance de controles públicos democráticos. Eu me refiro, especificamente, aos meios de comunicação que têm concessões de rádio e televisão e que não desejam se submeter a controles, regras e normas públicas. Isso é uma deturpação muito perigosa também, porque se tratam de canais que pertencem à sociedade e não aos conglomerados midiáticos. Mas, ao se apresentarem como esfera de tradução da vontade geral, eles tentam se colocar fora do alcance de qualquer tipo de controle público-democrático. Como se tivessem uma autonomia tão peculiar, como se fossem a única esfera social, que não precisassem prestar contas à sociedade daquilo que fazem.
Tem que prestar sim, porque são concessionários de licenças. Esse é um exemplo bastante eloqüente do tipo de cultura midiática que nós temos. Trata-se de uma cultura absolutamente singular porque controlada, formulada, executada por meios que querem se colocar fora do alcance da sociedade, acima de qualquer tipo de controle. E fabricam, com uma velocidade espantosa, um volume desproporcional de informações e imagens a pretexto de que isso ampliaria a diversidade, quando na verdade nós sabemos muito bem que, de fato, há um aumento exponencial dos conteúdos transmitidos socialmente. Porém, as fontes de transmissão continuam cada vez mais concentradas nas mãos de poucas empresas que têm um poder absurdo de definir tudo aquilo que a sociedade pode ouvir, ver e ler.
Denis de Moraes – As indústrias culturais fazem parte do modo de produção capitalista, de forma que um dos traços constitutivos desse modo de produção é que ele se depara sempre com crises internas e tem uma extraordinária capacidade de reprocessá-las e, assim, conseguir se reestruturar e seguir adiante. As indústrias culturais apresentam algumas evidências de crise, sobretudo no sentido do esgotamento dos mercados dos países mais industrializados. Entretanto, as corporações desses países entenderam que elas precisam buscar outros mercados através da economia de escala que internacionalizaram suas produções, seus sistemas de difusão, suas estratégias mercadológicas e conseguem enfrentar a crise em seus países de origem, obtendo lucros em países periféricos da América Latina e da Ásia.
De modo que eu não vejo uma crise das indústrias culturais que possa afetar a sua hegemonia no mercado de informação e entretenimento. Eu vejo crises que têm sido enfrentadas sucessivamente por meio de reestruturações empresariais e novos planos mercadológicos com relativo êxito. Basta citar, por exemplo, o caso das grandes corporações estadunidenses que, diante da saturação do mercado nacional, conseguiram, nas últimas décadas, resultados verdadeiramente extraordinários nos demais continentes, compensando, portanto, o esgotamento das possibilidades de crescimento do mercado interno.
Com relação ao mercado de mídia, penso que esse cenário se reproduz com uma impressionante coincidência: as principais corporações de mídia operam, hoje em dia, em escala absolutamente planetária. São grandes conglomerados que têm interesses e exploram uma série de setores tornados convergentes pela digitalização e conseguem atuar em parcerias com aliados regionais e locais desenvolvendo um processo de mais valia, extremamente insidioso e competente, porque distribui para mais de 200 países os mesmo produtos que são elaborados nos estúdios e nos centros de produção das matrizes, obtendo ganhos variados com cd’s, dvd’s, desenhos animados, filmes, etc. Também penso que não há crise tão violenta que possa colocar em risco a posição hegemônica das indústrias de comunicação e cultura.
Denis de Moraes – O Brasil tem um conselho de comunicação criado pela constituição de 1988, que teve no saudoso doutor Ulisses Guimarães o seu grande expoente. Esse conselho praticamente não existe mais, deixou de ser do conhecimento público. Até onde sei, não tem se reunido com freqüência e a sua influência como órgão assessor do congresso nacional é uma influência muito pequena e sem ressonância. Atribuo isso ao desinteresse dos quatro últimos governos em fazer avançar medidas que contribuam para a democratização da comunicação do país. Digo isso porque a composição atual do conselho nacional de comunicação social, segundo análises que foram feitas por especialistas e pesquisadores, é a mais conservadora de toda a recente trajetória do conselho. Isso mostra claramente que não há um interesse governamental e do próprio congresso em prestigiar esse órgão como uma esfera de debate dos poderes públicos no campo da comunicação. Digo isso com pesar, porque essa foi uma luta importante das entidades que defendem a democratização dos meios de comunicação no país.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12923
quarta-feira, 26 de março de 2008
A Internet como um espaço alternativo de opinião e poder
Deu no Vermelho:A Internet é um meio de comunicação global e multifacético, cujo poder não está devidamente dimensionado, por ser uma tecnologia atraente, nova e que a cada dia cativa mais adeptos. É emergencial assegurar que ela continue um espaço democrático e livre de monopólio dos barões das mídias clássicas. É necessário partir de dados reais sobre o mundo virtual para especular sobre a função social que cabe à Internet. Ou seja, é indispensável saber, pelo menos, quantos são os ditos ''incluídos digitais''.
por Fatima Oliveira*
É indispensável saber quantos são os incluídos digitais
Dados do Ibope/NetRatings informam que o volume de internautas residenciais ativos no Brasil chegou a 21,4 milhões em dezembro de 2007, dos quais quase 10 milhões acessaram e leram blogs em 2007, ou seja, 45% dos internautas ativos no mês. São dados que evidenciam o potencial de poder da Internet como local privilegiado para espaços alternativos de formação de opinião, de poder. Donde é possível entender o afã que move o velho e o novo baronato da mídia com vistas a cercear e a monopolizar a blogosfera, pois ela democratiza o poder, dando voz a quem não a possuía. Em suma, o cenário do episódio iG X PHA é um atentado explícito à liberdade de expressão, que toda pessoa de bem deve repudiar veementemente, agora ou cale-se para sempre.
* Fatima Oliveira, Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e
Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das
Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=34756
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Uma resposta ao artigo de Ali Kamel, que fala pela TV Globo
Hoje Ali Kamel, atual diretor executivo do jornalismo da Rede Globo, publica artigo no jornal carioca do grupo. O título: “A grande imprensa”. Ali Kamel também é autor do livro: “Não somos racistas”. Curiosamente, na capa, as letras do título explodem num fundo branco, bem branquinho. Nesse seu trabalho de “investigação intelectual” a tese de fundo é a de que as diferenças se resolvem com educação e saúde de qualidade para todos. Ou seja, segundo ele, quando brancos e negros tiverem as mesmas condições, não haverá desigualdade. Foram umas 200 páginas para provar tal tese. Faço-lhe duas perguntas:[ . . . ]Mas de comunicação Ali Kamel deve entender ou não seria diretor executivo do jornalismo da TV Globo. Como do tema também entendo um pouco, ao debate.
Ele se diz preocupado com os ataques que a “grande imprensa” está sofrendo. Separei alguns trechos do artigo, para que o leitor possa fazer suas comparações. Duvido que ele fizesse o mesmo na democrática Globo ou no democrático jornal da família. Falaria sozinho.
Diz Kamel: “A grande imprensa está sob ataque. Não do público, que continua considerando o jornalismo que aqui se produz como algo de extrema confiabilidade, conforme atestam pesquisas de opinião recentes. Os ataques vêm de setores autoritários e antidemocráticos, que, diante do noticiário, sentem-se ameaçados.”
Digo eu: Primeiro, a grande imprensa deixou de ser grande faz tempo. Só ela mesma e o pessoal que articula a comunicação no governo Lula é que acreditam nisso. Quanto à confiabilidade e a credibilidade dessa parte da mídia, piada. Se a população acreditasse na mídia comercial teria ido à rua derrubar Lula em 2006. Ela utilizou toda a sua “credibilidade e confiabilidade” para que isso se realizasse. Perdeu. Se quiser saber um pouco mais de credibilidade e confiabilidade na mídia comercial, pode ler Midiático Poder – O Caso Venezuela e a Guerrilha Informativa. Sou o autor do livro, mas as histórias são da mídia. Lá tem algumas a respeito da cobertura do Jornal Nacional e do Jornal da Globo no dia do golpe midiático-militar contra Hugo Chávez.Digo eu: Coragem, Kamel, nome aos bois. Diga com todas as letras que está tratando do livro A mídia e as eleições de 2006, organizado pelo professor Venício A. Lima e no qual tenho um texto publicado. O livro é da Editora Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT. Curioso é que nunca li nada de Kamel tratando do Instituto FHC. Ou mesmo falando do financiamento do mesmo. Quanto ao argumento do “mensalão”, pergunto: na cobertura da TV Globo em Minas Gerais, por exemplo, o “jornalismo” fez questão de mostrar em que momento nasceu o Valerioduto? Isso foi explorado como deveria, ao menos em Minas Gerais? Venhamos, Kamel, venhamos.
E eu pergunto: Kamel, quando você fala em informação a reboque de projetos de poder refere-se à posição da TV Globo na época da ditadura ou nos anos FHC?
Renato Rovai é editor da Revista Fórum. Neste blog conta com produção de artigos e reportagens por parte de colaboradores e da redação
Leia na íntegra em: http://revistaforum.uol.com.br/sitefinal/blog/default.asp#685
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Falta de transparência compromete a credibilidade
SOCIEDADE E A MÍDIA
Falta de transparência compromete a credibilidade
Por Venício A. de Lima em 31/7/2007
O International Center for Media and the Public Agenda (ICMPA) da University of Maryland tornou público, no início da semana passada, os resultados de uma importante pesquisa sob o título "Openness & Accountability: A study of transparency in global media outlets".
Coordenado pela Dra. Susan Moeller (PhD Harvard; BA Yale), o estudo pesquisou os sítios de notícias das 25 principais empresas de mídia dos Estados Unidos, Inglaterra e do Oriente Médio [ABC; Al Jazeera (em inglês); CBS; CNN; Fox News; ITN; NBC/MSNBC; Newsweek; NPR (edição da manhã) ; PRI/BBC/WGBH: "The World"; Sky News; The BBC World Service; The Christian Science Monitor; The Daily Telegraph; The Economist; The Financial Times; The Guardian; The Int’l Herald Tribune; The Los Angeles Times; The Miami Herald; The New York Times; The Wall Street Journal; The Washington Post; Time e USA Today] em torno de cinco critérios básicos:
1. Correção de erros: existe disposição para reconhecer e retificar os erros cometidos?
2. Propriedade: os leitores sabem quem são os donos da empresa de mídia?
3. Política de emprego: como a empresa trata eventuais conflitos de interesses?
4. Política editorial: os leitores sabem quais são os valores que orientam o trabalho dos jornalistas?
5. Interatividade: os leitores têm canais para expressar seus comentários e críticas?
Dentre outros resultados, a pesquisa concluiu que a mídia hesita em admitir erros e é relutante em revelar suas políticas editoriais. Apenas 11 dos 25 sítios pesquisados publicam ou transmitem correções de matérias de maneira clara e somente 7 têm um ombudsman.
As conclusões também incluem uma afirmação do jornalista Sydney Schanberg, vencedor do prêmio Pulitzer, que diz:
"A imprensa (mídia) pede transparência para governos, corporações e para todos. Mas (...) os repórteres rejeitam transparência para eles mesmos, e ainda dizem que estão praticando bom jornalismo. O público precisa da explicação completa, que só pode ser dada pelos próprios repórteres".
De acordo com os critérios da pesquisa, os sítios com maior grau de transparência são o The Guardian, o New York Times, a BBC News, a CBS News e o The Christian Science Monitor. Os menos transparentes são Time Magazine, CNN, ITN, Sky News e Al Jazeera.
Mais abertas
Uma parte importante do relatório
disponibilizado ao público refere-se à justificativa do ICMPA para o porquê de fazer uma pesquisa sobre "transparência" na mídia. Depois de uma rápida menção a casos recentes em que a falta de transparência gerou escândalos tanto no business (casos Enron e Arthur Andersen) como no governo (a invasão do Iraque baseada em informações falsas), o estudo afirma que transparência é uma buzzword (jargão) do século 21.
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Por tudo isso, a ICMPA diz que as organizações de mídia precisam ser mais humildes e mais abertas. Elas devem permitir que suas audiências saibam como elas fazem o que fazem – e por que fazem o que fazem. No final das contas, transparência se transforma em responsabilidade e, esta, em credibilidade.
Perda de confiança
Desnecessário dizer que os resultados da pesquisa do ICMPA deveriam provocar algumas reflexões por parte da mídia brasileira. Por um lado, algumas das empresas globais dos sítios que receberam avaliações mais negativas têm parcerias com empresas brasileiras. A IstoÉ publica conteúdo da Time; a Band conteúdo da TV Al Jazeera; e a Globo é antiga sócia da Sky (News Corporation).
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A pesquisa revelou também que o Brasil é, comparativamente, o país onde os entrevistados estavam mais descontentes com a sua própria mídia: 80% disseram que a mídia exagera na cobertura das notícias ruins; 64% concordam que raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter; 45% não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada; e 44% declaram ter trocado de fonte de informação nos 12 meses anteriores por terem perdido a confiança.
Resultado conhecido
No Brasil, portanto, a percepção majoritária do público é de uma grande mídia que exagera na cobertura apenas do que é ruim e na qual a maioria não confia nem encontra o que quer. Além disso, quase a metade dos entrevistados não acredita que ela cubra os fatos corretamente e declara haver mudado de fonte de informação por falta de confiança.
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Em qual dos cinco critérios básicos da pesquisa do ICMPA nossa grande mídia teria chance de se sair bem? Existe na nossa mídia disposição para reconhecer e retificar os erros cometidos? Os nossos leitores/ouvintes/espectadores sabem quem são os donos das empresas de mídia e quais são os seus interesses? Por acaso sabemos como as principais empresas de mídia brasileiras tratam os eventuais conflitos de interesses que surgem entre os seus contratados e o interesse público? Por acaso sabemos quais são os valores que orientam o trabalho dos jornalistas ou temos canais efetivos para expressar nossos comentários e críticas?
Deixo para os leitores(as) as respostas que a sua própria experiência comprove, mas não tenho dúvida de qual seja o resultado.
Leia na íntegra em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=444IMQ003#