O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Devolver a Cisjordânia aos Palestinos?

Deu no Vermelho:
por
Lejeune Mirhan*
De forma muito discreta, a imprensa noticiou nos últimos dias um possível encontro que teria ocorrido entre o primeiro Ministro israelense Ehud Olmert com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. O assunto foi a paz, claro, e um possível acordo pelo reconhecimento do Estado Palestino e suas futuras fronteiras. O furo jornalístico foi dado pelo jornal Haaretz. Será nosso tema da semana

O melancólico desfecho da gestão Bush

Diferente do que fez William Clinton em seus oito anos à frente da Casa Branca, onde pode ostentar ao mundo os famosos acordos de paz de Oslo, celebrados na Noruega entre a então OLP e Israel, o atual presidente republicano George W. Bush nada tem a mostrar em seus oito anos de mandato. Um verdadeiro fracasso em termos de diplomacia. O isolamento americano continua elevado, o ódio que parcelas imensas de muçulmanos sentem de americanos em todo o planeta é imenso e colhe fracassos especialmente na América Latina, que assiste hoje a uma onda de esquerda e mudancista muito grande.
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Quais são as linhas instransponíveis que os palestinos, através de seu presidente Abbas, não podem cruzar? Em resumo são três as mais importantes e fundamentais: 1. Estado Palestino com fronteiras demarcadas com base antes da Guerra dos Seis Dias de junho de 1967; 2. Jerusalém como capital desse Estado (pelo menos a parte árabe, oriental) e 3. Volta dos refugiados (Resolução 194 da ONU, que aceita um cronograma para o retorno).
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Nesse contexto, pode ser um balão de ensaio a notícia publicada pelo jornal israelense. Esta trata, de forma resumida, que em uma última reunião entre os dois líderes dos dois povos, Olmert teria feito a incrível oferta de devolver 98% da Cisjordânia e desmantelar todas as colônias judaicas na região. Isso poderia significar retirar quase 250 mil judeus, os mais radicais e ortodoxos possíveis. Esses dois por cento restantes seriam compensados com terras israelenses do plano de partilha original da Palestina histórica de 1947.
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Dizem que analistas internacionais não devem ser taxativos em suas afirmações e conclusões, até para se preservarem com possíveis alterações bruscas da correlação política de forças. No entanto, não vejo hoje a menor possibilidade dessa proposta ser implementada, exatamente pela fraqueza de ambas as partes que negociam e pela fragilidade do próprio governo Bush, que fechará mesmo de forma melancólica os seus oito anos de governo. Acordos de paz ocorrem por atos de vontade política e devem ter apoio amplo dos povos das partes que negociam. Hoje isso não esta dado.

60 anos de Israel
Na próxima quarta-feira, 14 de maio, completarão 60 anos da proclamação do Estado de Israel por Ben Gurion. Foi quando ocorreu a primeira de várias guerras entre árabe-palestinos e israelenses. Vamos tratar desse assunto que não passará em brancas nuvens.
*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=37284

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A Síria poderá assinar a paz com Israel?

Deu no Vermelho:
por
Lejeune Mirhan*


Na semana que passou, a notícia que ganhou a grande imprensa foi a possibilidade de um acordo de paz entre Israel e a Síria. Isso envolveria a devolução das famosas colinas de Golã, tomadas pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias de 1967. Envolto na possibilidade desse acordo, na mesma semana, exatamente no dia 24 de abril passado, a mesma imprensa acusa a Síria de ter feito um acordo nuclear secreto com a Coréia do Norte. Este será nosso tema da semana.

Colinas de Golã

As Colinas de Golã sempre fizeram parte, histórica e geograficamente falando, à Síria. Elas ficam situadas na tríplice fronteira dos países árabes Síria, Jordânia e Líbano. Na famosa Guerra dos Seis Dias em junho de 1967, quando Israel ocupou a Península do Sinai, toda a Palestina, parte do Sul do Líbano e essas famosas Colinas, que são estratégicas. Em 14 de dezembro de 1981, sob o governo de Menachem Béguin, então primeiro Ministro de Israel, as Colinas, por Lei aprovada pelo Parlamento de Israel, o Knesset, estas foram incorporadas definitivamente à Israel. A Síria nunca aceitou essa decisão e luta até hoje pela sua devolução.
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Essa notícia da devolução de Golã é bombástica e foi confirmada pessoalmente pelo presidente da Síria Bashar El Assad na semana passada. A informação vem de um intermediário, a Turquia.

Aqui devemos expressar uma opinião sobre esse assunto polêmico e não apenas noticiar o fato que foi amplamente divulgado. Não acredito que isso vá ocorrer. Até porque, para a opinião pública israelense, com o atual primeiro Ministro Ehud Olmert, muito enfraquecido, uma decisão dessa natureza, em uma localidade como Golã que é estratégica na defesa das fronteiras israelenses, isso seria visto pelo povo judeu como um grande sinal de fraqueza por parte do já enfraquecido governo de Israel.
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O mais interessante nisso tudo é que na mesma semana que veio à tona essa trepidante notícia da devolução de Golã, os meios de comunicação controlados pela burguesia internacional divulgaram, através da Casa Branca, um suposto acordo nuclear que teria ocorrido entre Damasco e a Coréia do Norte. Fotos de satélite mostraram à imprensa o que poderia ser um reator nuclear desativado ao Norte do país. Tanto o embaixador sírio nos EUA, Imad Moustapha, como o embaixador na ONU, Bashar Jaafari, desmentiram categoricamente essa notícia, classificando-a de fantasiosa.
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E quanto à Bush, o presidente com a menor popularidade na história americana, vai concluir os poucos dez meses que lhe restam de mandato, tentando assinar um acordo de paz entre palestinos e israelenses. Mas, também neste aspecto, não vejo nenhuma possibilidade, pois tanto o presidente americano, quanto o primeiro Ministro israelense, seguem como pessoas fracas e sem condições políticas e morais de assinar acordos de paz. Isso tudo em meio à notícia, também prejudicial à Bush, de que este assinou uma autorização para que Israel prosseguisse nos assentamentos judaicos na Cisjordânia que estavam congelados até 2004. Tal carta foi enviada ao então primeiro Ministro Ariel Sharon. Disso, resultou hoje em quase 450 mil israelenses morando em terras palestinas. Um barril de pólvora e não vejo solução em curto prazo.
*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da
International Sociological Association
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36968

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Carter no Oriente Médio

Deu no Vermelho:
por
Lejeune Mirhan*
Um dos fatos mais importantes na política do Oriente Médio, ocorrido na semana passada, foi um giro que o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter fez no Oriente Médio, na semana passada. Passou pela Palestina e por Damasco, capital da Síria, que ainda é considerada como um país, pelo governo Bush, que apóia o terrorismo. Irritou profundamente o atual presidente estadunidense. Não poderíamos deixar de repercutir a visita.

Jimmy Carter

A história política desse ex-presidente americano (nascido em 1924) tem a sua marca maior quando ele derrota Gerald Ford nas eleições americanas de novembro de 1976. Ford, como sabemos, era vice-presidente de Nixon, Republicano, que assumiu a presidência quando este renunciou para evitar ser cassado em 1973, no escândalo de Water Gate. Carter o derrota fragorosamente em 1976 e assume a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 1997 e governa até 1981. Ele não consegue ser reeleito, pois é derrotado por Ronald Reagan nas eleições de 1980. Ai, a história nós conhecemos bem, o sistema e modelo neoliberal ganham força não só nos estados Unidos, como no mundo todo, pois desde o ano anterior, em 1979, Margareth Thatcher havia vencido as eleições na Inglaterra com o Partido Conservador.
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Esses acordos de paz fizeram com que Israel devolvesse ao Egito essas terras. Em troca disso, o Egito reconheceria o Estado de Israel. Foi o primeiro país árabe a fazer isso. Na verdade, até hoje o único que reconhece. Tais acordos de paz renderam duas coisas: o prêmio Nobel da Paz para os três artífices dessa paz muito específica (e discutível inclusive, na medida em que não foram devolvidas as terras palestinas, nem as sírias ao norte de Israel) e a morte de Sadat em um grande e cinematográfico atentado realizado por fundamentalistas islâmicos.
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A segunda crise que ocorre, é a ocupação soviética do Afeganistão. Essa ocupação, dizem alguns analistas, foi para a URSS o que o Vietnã foi para os EUA. Um desgaste imenso. Foi o período que a CIA financiou os guerrilheiros muçulmanos afegãos, sob comando de Osama Bin Laden, para resistirem à ocupação soviética. Era a época que esses guerrilheiros eram saudados pela imprensa norte-americana como “guerreiros da liberdade”, pois lutavam contra a URSS (hoje são todos terroristas).
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Não poderíamos deixar de registrar a tal política de direitos humanos implementada pelo governo Carter. Ainda que isso pudesse ter como objetivos atingir a China, como ainda hoje se tenta atingir, especialmente agora com as olimpíadas, isso atingia frontalmente as ditaduras latino-americanas que foram se enfraquecendo, apesar de Reagan em seguida vir a fortalecer algumas delas. Há quem diga que a partir do encontro com Geisel em 1977, teria iniciado o processo de abertura política no Brasil.

O giro no Oriente de Carter

O que mais surpreende a visita que Carter fez à Damasco é a escolha do país que esta na lista americana dos que apoiariam o “terrorismo”. Encontrou-se com duas pessoas emblemáticas na política do mundo árabe. Uma delas é o próprio presidente da Síria, Bashar Al Assad, que é odiado pelos americanos. E outra ninguém menos que o líder e uma espécie de mentor intelectual do Hamas, que é o Khaled Meshaal, considerado um dos maiores “terroristas” pelos americanos.
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Carter fez dois pedidos expressos ao líder do Hamas. O primeiro deles é que o grupo libertasse o soldado israelense seqüestrado em junho de 2006, chamado Gilad Shalit. A segunda proposta é que o Hamas reconhecesse Israel. É sabido por todos que a carta de princípios do Hamas, de fundação do grupo, nega o direito de Israel existir. Até mesmo quando de sua passagem por Israel, Carter sofreu boicote do gabinete israelense. O único ministro que aceitou conversar com ele foi Eli Yishai, do Ministério do Comércio, que é ligado ao partido religioso chamado Shas. Ninguém mais aceitou conversar com o ex-presidente americano.
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A grande imprensa demonstrou má vontade com essa visita. Mas claro, eles fazem o jogo dos sionistas e de Bush. Anunciaram o fracasso da visita, quando na verdade, houve avanço. O Hamas, mesmo que não reconheça Israel, anunciou que poderia aceitar a decisão de reconhecer, desde que tomadas em um plebiscito que participassem os palestinos e desde que Israel retornem às fronteiras de 1967, que é a grande reivindicação da Autoridade Nacional Palestina, desocupando todas as terras e desmontando todas as colônias judaicas (mais de 230 com 250 mil moradores, ao que acho quase impossível de ocorrer). Mas, foi a primeira vez que veio esse sinal do lado do Hamas.

Não tenho nenhuma ilusão e não podemos nos enganar e tomar posições sectárias e esquerdistas. Foi positiva essa visita e isso coloca em cheque total a política externa dos Estados Unidos, nos ajuda a ampliar as contradições no campo adversário e colocam Bush e seus acólitos na defensiva e os isolam cada dia mais. Fortalece nosso campo no Oriente Médio. Vamos monitorar os desdobramentos.
*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36528

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Egito: crise à vista?

Deu no Vermelho:
por Lejeune Mirhan*
Alguns dos grandes jornais no Brasil e no mundo noticiaram nos últimos dias, uma crise no maior país árabe do Oriente Médio, que é o Egito. Trata-se da “crise do pão”, que é como a imprensa desse país árabe vem chamando. O governo, envolto em problemas financeiros, acabou por racionar o principal item da dieta egípcia.

O problema não é o pão...

No último domingo, dia 6 de abril, uma greve geral foi convocada no Egito (lembremos que por lá se trabalha normalmente nesse dia, pois os muçulmanos guardam as sextas-feiras). Seria de um dia apenas. Não temos ainda um balanço da extensão das paralisações, mas foi convocada principalmente pela internet, por panfletos nas portas de fábricas e nas escolas. O grupo político que faz a convocação é o de maior expressão na oposição ao governo do ditador egípcio Hosni Mubarak, no poder desde 1981 (quando assumiu em função da morte de Anuar El Sadat, que por sua vez ocupava o poder desde 1970, com a morte de Gamal Abdel Nasser). Mubarak governa a mão de ferro e em 27 anos de presidência do país, foi reeleito sucessivas vezes (ao menos cinco pelos registros e com percentuais elevadíssimos, sob acusação de fraudes pela oposição).
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Irmandade Muçulmana

A organização político-religiosa que conhecemos hoje como irmandade muçulmana completa este ano 60 anos [i.e. 80 anos] de existência. Ela foi fundada no Cairo em 1928 por Hasan Al Bana e seus colegas e intelectuais jovens que estavam insatisfeitos com os rumos que estavam tomando o islamismo. Aproveitaram o sucesso dos wahabitas na península arábica e o fim do Império Otomano após a I Guerra Mundial.
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Essa era uma época que as forças políticas no Egito eram divididas quase que em três partes idênticas. Uma parte significativa era composta pelos comunistas, uma segunda parte pelo grupo chamado de Oficiais Livres do exército, composto por jovens oficiais com patentes acima de capitão e até coronéis, que deu origem a Gamal Abdel Nasser, que viraria presidente após o golpe em 1952 e a terceira parte, da Irmandade Muçulmana. Na maioria das vezes esses grupos políticos se digladiavam entre si, mas em alguns momentos fizeram alianças e governaram o Egito.
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No golpe de 1952, que destituiu a monarquia do Rei Faruk, houve uma aliança entre esses três grupos, comunistas, Irmandade e Oficiais Livres. A história registra que dos oito oficiais majores e coronéis que perpetraram esse famoso golpe de estado, quatro eram da Irmandade (Anuar El Sadat, que viraria presidente depois da morte de Nasser em 1970; Amer, Hussein e Mehanna) e três eram marxistas ou tinham influência de idéias marxistas (Khaled Mohiedin, Riffat e Saddik). Todos os outros eram da linha chamada nacionalista, do chamado pan arabismo, na qual Nasser se incluía.
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É preciso registrar que todos os grupos islâmicos e fundamentalistas que atuam hoje no Oriente Médio, como a Jihad Islâmica e o Hamas, que são palestinos como a Al Qaeda, de Osama Bin Laden, beberam como fonte inspiradora dos textos de Bana e Kutb. Sua ação política tem como base uma ação assistencialista que ajuda os menos favorecidos da sociedade, uma doutrinação constante na linha do estado islâmico e de forte oposição ao governo egípcio, um grande aliado do imperialismo norte-americano.

Não são e nem nunca foram alternativa para nós, de esquerda, patriotas e nacionalistas, socialistas. Mas, cumpre um papel importante neta conjuntura política adversa, de correlação de forças que nos é profundamente desfavorável. Devemos monitorar netas eleições o seu crescimento, ainda que a maioria de seus candidatos tenha sido impedido de disputar as eleições. Mas, eles estão crescendo politicamente.
*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=35660