O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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terça-feira, 10 de junho de 2008

O adeus às armas


Deu no Via Política:
Por Omar L. de Barros Filho


Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, apelou ao guerrilheiro Alfonso Cano, novo líder das FARC, que acabe com a luta de guerrilhas iniciada há mais de quatro décadas na Colômbia e liberte todos os reféns em seu poder nas montanhas. Chávez, acusado pelos governos colombiano e norte-americano de manter vínculos com as FARC – o maior grupo armado do país – disse que a guerrilha já passou para a história, e que está fora de lugar no atual contexto político da América Latina. A declaração, que marca uma surpreendente guinada à direita do dirigente venezuelano, foi ao ar no programa semanal de rádio e TV Alô Presidente, transmitido neste último domingo (8/6/2008).
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Na realidade, o gesto de Hugo Chávez revela seu temor com o desgaste interno de sua popularidade, que é o mais alto nos últimos tempos, e sente-se pressionado por problemas de desabastecimento de alimentos básicos e perspectivas de inflação elevada. Além disso, percebe seu isolamento da comunidade latino-americana devido ao seu discurso belicoso, irreverente e considerado ineficaz nos meios diplomáticos continentais. Mostra que não desconhece a falência política e militar das FARC, colocada na defensiva pelas ações do governo colombiano, apoiado nos inesgotáveis recursos do Plano Colômbia, eixo da ajuda norte-americana. Como é público e notório, as FARC há muito passaram a participar da rede internacional de tráfico de cocaína, o que a deslegitimou.
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O presidente venezuelano, desde o frustrado golpe de Estado contra ele em 2002, acusa de forma reiterada os EUA de fomentarem sua queda. Mais uma vez reafirmou que o governo dos EUA utiliza as armas como subterfúgio para ameaçar a Venezuela, com a instalação de uma base militar norte-americana na Colômbia. "Agora estão planejando montar a base militar na Colômbia, já têm várias, mas essa é uma ameaça à Venezuela e a desculpa para isso é o chamado terrorismo na Colômbia", disse.
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Uma página está sendo virada neste momento, justo quando o presidente George Bush mais necessitava de uma ajuda para o Partido Republicano vencer o candidato democrata Barack Obama nas próximas eleições dos Estados Unidos. Se a Colômbia pode ser pacificada pelas armas, por que não o Iraque?

9/6/2008

Fonte do vídeo: http://www.aporrea.org/actualidad/n115236.html

Omar L. de Barros Filho é jornalista, editor e cineasta.
omar@viapolitica.com.br
Leia na íntegra em http://www.viapolitica.com.br/fronteira_view.php?id_fronteira=166

sexta-feira, 28 de março de 2008

A América do Sul está instável: não se sabe como a Colômbia evoluirá

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Luiz Alberto Moniz Bandeira é reconhecido hoje como um dos maiores historiadores sul-americanos. É doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e é professor emérito de Política Exterior na Universidade de Brasília (UnB). Foi conselheiro do ex-presidente João Goulart e do ex-governador Leonel Brizola, com quem fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Esteve preso nos anos 60 e 70 durante a última ditadura militar. Aposentado desde 1995, trabalhou como diplomata na Alemanha. Escreve e pesquisa na Universidade de Heidelberg.

À luz de seus livros – onde esmiúça as relações de Brasil e Argentina com os Estados Unidos, e a visão “sul-americanista” do Brasil, que historicamente viu o continente como sua “área de influência” e a Amazônia como eixo das hipóteses de conflito das Forças Armadas brasileiras – chega-se a entender as complicações representadas pelo recente conflito da Colômbia com o Equador e a Venezuela.

Moniz Bandeira não se ilude: não vê que o conflito esteja resolvido. Seu livro, De Martí a Fidel – A Revolução Cubana e a América Latina [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, 687 pp.], mostra otimismo em relação às recentes mudanças na ilha. Para ele, o governo de Raúl Castro iniciará uma rápida abertura econômica com grande aproximação com o Brasil e o Mercosul. Marca também como um dado histórico notável o papel da guerra das Malvinas na mudança das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Segue a íntegra da entrevista de Luiz Alberto Moniz Bandeira publicada no jornal argentino Clarín, 16-03-2008. A tradução é do Cepat.
As Forças Armadas brasileiras modificaram há anos suas hipóteses de guerra. Agora estariam centradas na Amazônia...

Até a guerra das Malvinas, as hipóteses de guerra do Estado Maior das Forças Armadas brasileiras eram as guerras internas ou de guerrilha; os conflitos regionais, com um ou outro país da América do Sul (a Argentina entre os principais); as guerras em outro continente, onde o Brasil deveria enviar contingentes, como na República Dominicana em 1965; e, finalmente, a possibilidade de ataque de países comunistas e uma conflagração generalizada. Desde a guerra das Malvinas, a hipótese de guerra com os Estados Unidos se tornou objeto de estudo das Forças Armadas. O então ministro da Aeronáutica do governo do presidente João Figueiredo, o brigadeiro Délio Jardim de Matos, admitiu em 1982 que o conflito no Atlântico Sul introduziu uma nova hipótese de guerra não prevista até aquele momento. Tratava-se de “um conflito que envolveria o Brasil e um país do bloco ocidental, situado no hemisfério norte, muito mais poderoso econômica e militarmente, devendo o Brasil em tal situação contar com seus próprios recursos”. Portanto, a defesa da Amazônia é fundamental para as Forças Armadas brasileiras. Qualquer tentativa de invasão e ocupação por uma potência estrangeira constitui um casus belli.
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Não poderia ser que a ação colombiana no Equador tivesse sido por uma circunstância pontual, como, por exemplo, impedir a libertação de Ingrid Betancourt? Teme uma mudança da política exterior norte-americana em relação à América do Sul?

Tudo indica que o presidente Álvaro Uribe ordenou a invasão do Equador para matar os guerrilheiros, porque também interessava ao presidente George W. Bush obstaculizar a política do presidente da França, Nicolas Sarkozy, em relação à América do Sul. É evidente que Uribe não fez esta ação sem o aval dos Estados Unidos. Por outro lado, com a libertação dos reféns, inclusive com Ingrid Betancourt, o presidente Hugo Chávez poderia beneficiar-se na medida em que se apresenta como mediador. Não interessa ao presidente Uribe nenhum acordo humanitário pelos motivos que enumerei. Quanto à política dos Estados Unidos, esta continua igual; com uma variação somente na ênfase que o presidente George Bush dá ao que chama de guerra contra o terrorismo. Não tem nenhum interesse num acordo humanitário nem pela pacificação com as Farc. Interessa-lhe seu afastamento por causa dos ataques que os guerrilheiros realizam aos oleodutos e que nos últimos dez anos causaram perdas de cerca de um bilhão de dólares. Entre 1999 e 2000, o presidente Bill Clinton foi pressionado a invadir a Colômbia, mas ele pretendia contar com a participação dos países vizinhos. Os Estados Unidos dariam o apoio aéreo e de barcos de guerra no litoral. Mas não teve o respaldo do Brasil, da Venezuela e do Panamá. E desistiu tanto por isso como pela oposição que havia dentro de seu governo.
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Nesse contexto, o governo de Lula impulsiona agora a Junta sul-americana de Defesa; uma iniciativa que conta com o consenso do governo de Cristina Fernández Kirchner. É viável?

Creio que sim. Isto agora depende da Argentina. Se a presidente Cristina Fernández Kirchner aceitar, poderá constituir-se o Conselho, ainda que não entre um país como a Colômbia, bastante dependente do financiamento dos Estados Unidos.
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Você fez menção a uma espécie de “simbiose” entre o Estado e a indústria bélica nos Estados Unidos. Como se expressaria essa situação num eventual futuro governo democrata? Quais seriam os novos grupos no poder?

O que pode levar os Estados Unidos a retroceder em sua expansão militar é a crise econômica, como conseqüência da combinação do déficit comercial com o déficit fiscal, que cada vez se agrava mais e para o qual o militarismo contribui fundamentalmente. Apesar das dimensões e diferenças, a situação dos Estados Unidos, com estes dois problemas – déficit fiscal e de balança comercial –, é similar àquela que levou a Argentina ao colapso em 2001-2002. Em meu livro A formação do Império Americano. Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005] busco justamente entender esse fenômeno, porque a melhor forma de compreendê-lo é saber como começou. No entanto, para resumir o que penso sobre a política de um eventual governo democrata, vou reproduzir o que disse o ex-chefe de Estado da Alemanha, o social-democrata Helmut Schmidt, numa entrevista à televisão alemã: “Quem ler os discursos de Hillary Clinton, que ler os discursos de Barack Obama, quem ler os discursos de John McCain verá que todos eles dizem a mesma coisa”. O que os Estados Unidos necessitam compreender é que não se pode exportar e impor democracia a nenhum país por meio das armas.

Mesmo assim, um próximo governo dos Estados Unidos não buscaria soluções mais diplomáticas? Como isso pode influir na América do Sul?

Os Estados Unidos são um país muito complexo, contraditório e não creio em mudanças essenciais. Seus interesses econômicos, políticos e geopolíticos são imensos e condicionam a política de qualquer governo, seja democrata ou republicano. Um presidente da república não faz o que quer ou o que promete. Faz o que pode, o que lhe é permitido, dentro das limitações das relações reais de poder, que são as relações econômicas, sociais e políticas. Mas a economia dos Estados Unidos está em franco declínio. A crise em que se debate é muito profunda e suas conseqüências afetarão todo o mundo, porque o sistema capitalista é um sistema mundial.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12701
ou em http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=136270

terça-feira, 4 de março de 2008

A realpolitik de Uribe, golpe certeiro

Deu no Ralações Internacionais:
Tente imaginar guerrilheiros anti-Chávez escondidos na floresta amazônica, para lá da serra do Caparaó, em algum lugar de Roraima. Imagine se, por isso, o presidente venezuelano ordenasse uma incursão de tropas da Venezuela através da fronteira, usando seus recém-comprados jatos Sukhoi para dizimar a oposição armada, em pleno Brasil. Que grita não haveria por aqui, hein? E com razão.

Como a estridente agressividade de Chávez o transformou em vilão da vez na imprensa estabelecida, não vão faltar comentaristas que defendam como aceitável a invasão do território equatoriano por tropas da Colômbia, para um sensacional ataque aos guerrilheiros das Farc. É inaceitável. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está errado nesse episódio, e cabe ao Brasil condenar o desrespeito das Forças Armadas colombianas aos limites territoriais com o Equador.

Ah, o Equador e a Venezuela abrigam guerrilheiros em seu território, usado como refúgio seguro de onde partem agressões à Colômbia? O direito internacional prevê isso, e há instituições na América do Sul e na comunidade internacional para denunciar esse tipo de ação. Uribe poderia denunciar a conivência das autoridades vizinhas,e teria justo direito de cobrar apoio do Brasil nisso. Errado seria o Brasil não apoiá-lo caso agisse assim.

Não acredito em guerra nos Andes. Acuado pela tremenda crise econômica que seu modelo voluntarista criou, Chávez, claro, aproveitará a oportunidade para apontar mais um inimigo comum da sociedade venezuelana, o Uribe lacaio do Império, que invade os vizinhos na repressão aos opositores guerrilheiros. Se o discurso colar, a beligerância na retórica chavista vai ser ensurdecedora. E inócua, como costuma ser. Não há fato concreto que apóie algum tipo de conflito armado entre os dois países, e nem Uribe nem Chávez ~estão dispostos a serem o primeiro a jogar a pedra do outro lado.

Rafael Correa, do Equador, fez o que devia fazer, retirou seu embaixador de Bogotá, chamou o embaixador colombiano para exigir explicações, acusou Uribe de agressão. Tem um problem,a constrangedor a resolver, se forem verdadeiros os documentos capturados pelas forças de segurança colombiana, que mostram um estreitamento de relações entre as Farc e o governo equatoriano. Conversas com Raul Reyes, o vice-comandante e porta-voz das Farc morto na invasão, não são suficientes para dizer que Correa era conivente com a guerrilha. Reyes era o "embaixador" das Farc, e todos os países da região buscam contatos, sigilosos ou não, com as Farc para tentar um acordo de paz e desmobilização da guerrilha. Mas podem surgir outtros documentos comprometedores, e a posição do Equador tornar-se, no mínimo, incômoda.

Uribe agiu erradamente, mas deu um golpe de mestre. O governo colombiano (e outros, no continente) trabalha com a informação de que Marulanda, o grande chefe das Farc, está doente, e os grupos guerrilheiros enfraquecidos e sujeitos à desagregação. Com a invasão do Equador, matou não só o segundo no comando, como um dos principai8s ideólogos da guerrilha, Guillermo Enrique Torres, o "Julián Conrado". Sabiamente, já visou que não enviará tropas à fronteira, para onde Chávez e Correa dizem ter enviado regimentos armados. Menor o risco de algum incidente ter desdobramentos incontroláveis.

Na Colômbia, a esquerda já pede moderação. No Equador, porta-vozes das Forças Armadas informam que entregarão ao governo colombiano as três guerrilheiras que foram apenas feridas no ataque, e que estão em tratamento em um hospital militar na região. O Brasil _ país que vendeu à Colômbia os jatos (correção, a pedido do hermenauta: turbohélices! turbohélices!) usados no ataque, aliás, os nossos bravos Supertucanos _ pode ajudar a desarmar os conflitos, mas não pode cair na retórica chavista nem ignorar que Uribe transgrediu normas sagradas no convivio entre nações.

Correa, como Chávez, também passa por maus momentos na economia: inflação em alta, queda de investimentos, aumento do desemprego e desaceleração do produto interno bruto. POde querer aproveitar o incidente para desviar atenções da incomodada opinião pública equatoriana. Ou pode ter interesse em aplcara logo a crise, para concentrar-se na recuperação econômica.

Para o Brasil, além do desafio diplomático, o que sobra é o melancólico pesadelo em que se tornou o sonho de integração sul-americana. Se conseguir escapar das armadilhas políticas, o governo brasileiro pode até comer a crise pelas beiradas, tocando bilateralmente os projetos de infra-estrutura, de coperação técnica e econômica com os vizinhos, à espera de um melhor momento para falar em algum projeto continental.

Fica evidente, nesse momento, a posição privilegiada do Brasil, construída com a diplomacia condescendente dos últimos anos: o país é o único que tem franca interlocução e livre acesso em todos os governos do continente. A questão é, ainda, saber o que fazer com esse patrimônio.

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2º clichê: Na CBN, o especialista da Unicamp coronel da reserva Geraldo Cavagnari ressalta um fator importante para entender por quê é improvável que o envio de tropas à fronteira seja mais que um ato histriônico de Chávez: apesar da histeria em torno do armamentismo venezuelano, as Forças Armadas colombianas ainda são muito mais fortes e preparadas que as venezuelanas ou ecuatorianas. E têm as costas aquecidas pelos Estados Unidos. Os EUA endossam qualquer ato ofensivo contra a guerrilha apoiada pelo narcotráfico (ainda que Uribe tenha manchas sérias no passado, no que diz respeito a relações com o tráfico) , e adoriariam esse pretexto para desmoralizar o poderio bélico chavista.

Chávez, apesar do que dizem, não é bobo, burro ou maluco. E é militar, entende de estratégia. Não se lançaria num embate suicida.
Extraído de http://ralint.blogspot.com/2008/03/o-golpe-certeiro-de-uribe.html