O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910

sábado, 5 de abril de 2008

A arte de desconstruir um governo e de construir uma ilusão

Deu na Agência Carta Maior:
No RS, o jornal Zero Hora não produziu uma só manchete claramente questionadora de alguma política do governo Yeda Crusius ao longo de três meses, embora no mundo real arraste-se com um desempenho constrangedor. Já o Governo Lula padece nas manchetes de ZH, embora no mundo real obtenha a aprovação da grande maioria da população.
Ayrton Centeno
Expostas nas bancas e nas sinaleiras, apregoadas pela publicidade em cartazes, rádio e TV, percebidas mesmo pelos mais desatentos, as manchetes de capa são o hall, o espaço mais visitado dos jornais. Mesmo quando apenas vislumbrado, captado num relance, pode-se dizer que seu enunciado se aloja, de algum modo, na mente de leitores e de não-leitores. Por conta desta alta visibilidade, sem a pretensão de ciência que não posso ter, resolvi, anotar e catalogar as manchetes de Zero Hora do último trimestre.
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O afago benevolente vai para o Governo Yeda Crusius, o agronegócio, as papeleiras, o mercado e o Rio Grande. Aqui, ao inverso, a idéia é de construir o Grande Rio Grande mítico e empreendedor, cavalgando as propostas com o timbre do Piratini ou os planos de indústrias de se instalarem no Estado, muitas vezes montado apenas em intenções. Aqui, constrói-se uma quimera.
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Provavelmente embalado pelo ócio de final de ano, comecei a registrar as capas sirostskianas no apagar das luzes de 2007, separando as manchetes através de categorias. De pronto, descartei as vinculadas às investidas institucionais da RBS. No período, muitas capas de ZH foram dedicadas a si própria, ou seja, à agenda que implementou com sua campanha de trânsito. Neste movimento, os acidentes, as medidas das autoridades, as cifras de feridos e mortos são apropriados pela campanha e noticiados sob o logo e o slogan correspondentes.
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Feita esta depuração e ajustando o foco apenas nas manchetes políticas, ou seja, aquelas que usam um determinado viés para gritar algo associado às disputas de poder na sociedade e que flagram como o veículo se posiciona diante destas mesmas disputas não obstante invoque o véu da imparcialidade, constata-se que 30,2% delas exploraram fatos negativos para o Governo Lula/PT/Aliados/Brasil, ao passo que somente 7,5% trataram de fatos positivos.
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Como as principais forças que comandam os dois governos são antagônicas, pode-se dizer que ZH prestou um serviço ao governo estadual e aos seus aliados, seja ao enfocar seus temas favoravelmente, seja ao enfocar desfavoravelmente seus adversários, ao publicar praticamente 80% de suas manchetes políticas. Desfavoreceu o Governo Yeda e seus aliados em 20% de suas manchetes.
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Este desligamento da realidade exterior a que Zero Hora se entrega – de resto, ao lado do PIG – desnuda um desejo de viver na fantasia autoproduzida. Um desejo legítimo, embora bizarro, se suas consequências se restringissem à pessoa física do dono do diário. O que parece antijornalístico e antidemocrático é usar um jornal - que pratica o marketing da pluralidade e da “vida por todos os lados” - para favorecer a visão de um lado só. Para, no limite, apresentar aos outros ficção como se fossem fatos. E fatos como se fossem ficção.
Ayrton Centeno é jornalista
Leia na íntegra em http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=3861

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Análise de Conjuntura abr. 2008

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Recebemos e publicamos, na íntegra, a análise de conjuntura que foi apresentada no dia 02-04-2008, na Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, por Pedro A. Ribeiro de Oliveira, professor na PUC-Minas e no ISER-Assessoria.
Eis o texto.

Apresentação

No momento em que a Assembléia Geral da CNBB define as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, esta análise de conjuntura quer trazer uma visão dos desafios trazidos pela realidade atual. Posto que a evangelização se dá no contexto da cultura (modo de cada grupo humano pensar, falar, produzir, consumir, reproduzir-se, expressar-se artisticamente, relacionar-se com o sagrado, enfim, um modo de vida partilhado de uma geração a outra) e ela é dinâmica, trata-se de decifrar as linhas de força hoje atuantes em nossa cultura.

O problema metodológico – nunca satisfatoriamente resolvido – reside no fio condutor da análise: sendo a cultura uma totalidade complexa, ela é melhor entendida a partir dos seus elementos materiais (as relações sociais que moldam a produção, a reprodução, o consumo e o poder) ou a partir dos seus elementos ideais (pensamento, valores e expressões artísticas e religiosas que dão sentido aos comportamentos)? Se é evidente que não se pode reduzir a cultura a um de seus hemisférios, não há consenso sobre qual deles tem o peso determinante. Nossa opção metodológica pelos elementos materiais da cultura como ponto de partida dá realce às desigualdades no ter, no poder e no saber, trazendo à luz o sofrimento dos perdedores no jogo do mercado. Ao colocar como ponto de chegada os valores que impulsionam o agir, ela assinala as tendências em curso no mundo e interpela a Igreja quanto à eficácia de sua ação evangelizadora.

Já foi dito que, mais que uma época de mudanças, vivemos uma mudança de época: após o longo domínio da civilização ocidental, estamos passando a uma época planetária, fruto da globalização cultural e econômica. Essa nova época, que agora se esboça em meio a graves crises – ecológica, econômica e social – poderá ser um tempo de divisões, com a exclusão dos povos e grupos empobrecidos, sem voz no concerto mundial, mas pode também ser o início de uma nova harmonia mundial, onde as diferenças sejam valorizadas num sistema multipolar, no qual nenhum povo exerça sozinho o poder sobre os demais e onde sejam considerados os direitos da Terra e das gerações vindouras.

Vivemos então um período contraditório, no qual várias tendências se entrecruzam. Crescimento econômico nos últimos cinco anos e concentração da riqueza em poucas mãos; lucratividade do capital financeiro e desvalorização do trabalho; megaurbanização e campo transformado em agroindústria; desenvolvimento das comunicações e desinformação de grandes setores sociais; fortalecimento do poder econômico e enfraquecimento do poder político; emergência da consciência ecológica e devastação do Planeta (Amazônia!); movimentos sociais que proclamam que “outro mundo é possível” e desalento geral com a política. Este é um ambiente cultural propício ao desenvolvimento de atitudes individualistas que se manifestam também no campo religioso.

Esta análise não pretende abordar todos esses problemas, mas quer dar uma visão global da realidade brasileira situando-a no continente americano e no mundo atual, a partir de três focos: a crise do sistema financeiro mundial, o quadro político mundial e latino-americano, e o papel que os movimentos sociais nele desempenham. Ela termina, como de hábito, com um breve apanhado do Congresso Nacional.

I . Sistema financeiro mundial abalado – e o Brasil?

Situação do dólar

Como é possível que a inadimplência em empréstimos imobiliários de segunda categoria nos Estados Unidos provoque uma crise global? Para entendê-la, é preciso ter em conta que a globalização é fundamentalmente financeira e que o sistema financeiro se interliga num grau mais alto do que o sistema produtivo (de bens ou de outros serviços), pois o crédito (no sentido estrito de confiança) é seu ingrediente mais importante.

Em 1944, em Bretton Woods, foi proposta uma moeda internacional, mas os EUA se opuseram porque era o dólar moeda internacional. Foi estabelecido que o dólar estaria lastreado pelas reservas americanas de ouro e o Tesouro americano se comprometia a resgatar com o peso em ouro cada dólar apresentado. Em 1971, porém, o governo dos EUA desvinculou unilateralmente o dólar do padrão ouro, alegando que o verdadeiro lastro do dólar era a confiança do mundo na economia americana. Isso lhe possibilitou emitir moeda para atender as exigências de consumo da sua população e seus gastos militares. E até hoje a maior parte dos depósitos bancários, do comércio e das transações financeiras internacionais, se fazem em dólar.

Enquanto o dólar foi aceito e buscado por todo o mundo porque o mundo todo o aceitava e buscava, a política econômica norte-americana pôde satisfazer a “sociedade de consumo” mesmo aumentando o déficit externo e a dívida pública (que atualmente se aproxima dos US$ 4 trilhões). Mas se a confiança no dólar diminui, entra em ação o círculo vicioso, pois a queda do dólar reduz a confiança. Fora dos Estados Unidos, quem detém poupanças em dólar começa a desfazer-se delas. Essa estratégia de fuga em busca de papéis mais seguros, pode elevar os preços das matérias-primas, pois não há ouro bastante para servir como reserva de valor. O petróleo, por exemplo, que amanhã pode ser revendido (à China ou a outros) antes mesmo de ter saído do chão.

A economia brasileira e o vendaval financeiro

A política econômica do atual governo tem três prioridades macro-econômicas: a estabilidade (dos preços internos e das regras estabelecidas), o crescimento econômico e a redução da miséria (sendo este um objetivo extrínseco, dependente da ação corretiva do governo e não da política macro-econômica).

Comparados os seis anos do atual governo com os anteriores, vê-se que essas prioridades estão se realizando: a inflação está sob controle (às custas de juros nas alturas), o Brasil voltou a crescer de forma continuada (média de 4,5% de 2004 a 2007) e sem perda de impulso, e os programas de combate à pobreza e à miséria reduziram a percentagem de pessoas abaixo da linha estatística de miséria e aumentaram os setores médio-baixos (1). Esse êxito tem sua explicação no excepcional crescimento econômico mundial puxado pela China e sustentado pela livre exploração dos recursos naturais da Amazônia e do Cerrado, hoje usados como fontes de produtos primários de exportação. Além disso, a capacidade produtiva brasileira tem crescido mais rapidamente do que o consumo puxado pelo mercado interno. O que está em questão é o atual modelo produtivista, que requer muitos investimentos na geração de energia elétrica. Se desejamos preservar o meio-ambiente para as gerações vindouras, temos que rever o modelo desenvolvimentista do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

Diferentemente de outros surtos de crescimento, cujos desequilíbrios e contradições internas os levaram à exaustão, o atual só pode ser barrado “de fora para dentro”, seja por pela crise internacional, seja pela obsessão monetarista com a estabilidade (que eleva os juros e premia quem só empresta). Hoje a economia nacional é menos vulnerável, por ter a política externa diversificado nossos parceiros econômicos, ampliado o leque de trocas e reduzido o papel dos EUA. Persiste, porém, o “calcanhar de aquiles” da dívida pública: deixamos de dever em dólar (que está derretendo) para dever e pagar em real (que se valoriza) (2).

Diante desse quadro de crise financeira, é bom lembrar que ao longo de toda nossa história, crise externa significou oportunidade para o Brasil avançar internamente, sempre de forma imprevista e original(3). Hoje, nosso “setor externo” é mais diversificado e tudo depende de como a provável recessão norte-americana afetará a China e outros compradores. Embora nosso crescimento esteja assentado em fatores internos, a propagação do clima de instabilidade financeira pode levar os investidores externos a retirar seus recursos do Brasil (4) para liquidar suas contas, deseqilibrando assim as contas externas.

II . O cenário político

A palavra crise hoje tão utilizada corresponde a uma realidade. Fala-se de crise global, sistêmica, ou de civilização; é uma crise de muitas faces, cujo emblema é a crise ambiental cada dia mais grave. Entre elas, destaca-se a crise das instituições de poder. A absolutização do mercado leva ao esvaziamento da democracia e das instituições reguladoras (Estado, educação, seguridade social, partidos políticos, igrejas, família, polícia), prejudicando os processos (eleições, alocação do trabalho, comunicações, migrações) que deveriam assegurar o bom funcionamento da sociedade.

Quando as relações se desfazem e se desarticulam, os valores tradicionais perdem o seu sentido. Valores de solidariedade, de co-responsabilidade, de ajuda e confiança são abafados pelos valores da concorrência, da competição e do individualismo; do materialismo também. As relações sociais e humanas são mediadas pelo dinheiro. As pessoas valem pela sua conta bancária. A democracia – arte de viver em sociedade participadamente – está sendo atacada e ameaçada de destruição pela lógica do capital, do lucro, do enriquecimento. As empresas mundiais (bancos, mineradoras, armamentistas, farmacêuticas, biogenéticas, etc.) ditam suas regras aos Estados e governos. O mercado deu um golpe contra a política e tomou as rédeas da vida social.

Num mundo marcado pela globalização, os problemas locais ganham alcance mundial e necessitam de instituições e mecanismos de governança também mundiais. Mas enquanto os países emergentes reivindicam uma distribuição mais eqüitativa dos frutos do crescimento, as instituições que estabelecem as regras da economia mundial – em particular o FMI e o Banco Mundial - asseguram vantagens aos países mais ricos. A ONU – a mais multilateral das instituições mundiais – sofre sob o unilateralismo dos EUA.

A ausência de governança democrática mundial abre o caminho para a violência, a insegurança, os conflitos e as guerras. Esperava-se que o término da guerra fria desse início a um período de paz e de desenvolvimento, mas multiplicam-se as disputas e guerras por fontes de energia e matérias primas. A repressão de Israel sobre os palestinos está no centro do confronto entre o Ocidente e os povos árabes e populações muçulmanas.

Neste contexto de crise das instituições da vida social é a sociedade civil mesma que supre as falhas da democracia representativa e aponta alternativas de maior participação. Multiplicam-se os fóruns, movimentos, redes, campanhas, plataformas, círculos, etc. criando novas formas de expressão e mobilização. Muitas vezes, os movimentos sociais e populares estão na dianteira dos partidos políticos para expressar as necessidades e aspirações dos cidadãos e para encarar os desafios do futuro. Na medida em que contestam eficazmente o modelo hegemônico em crise e oferecem propostas novas e críveis, os movimentos sociais se tornam alvo de repressão e violência. Com frequência, são demonizados e acusados de serem eles próprios a causa dos males que denunciam.

O desafio é desenvolver e consolidar a articulação dos movimentos e organizações que brotam em vários campos da vida social. As igrejas e tradições religiosas podem desempenhar um importante papel na construção de alternativas fundadas sobre valores de paz, justiça, solidariedade e cuidado ecológico.

A América Latina: Dependência e Movimentos sociais

Nas duas últimas décadas, os movimentos sociais deram nova configuração ao cenário político da região. O fim das ditaduras militares inaugurou um período de restauração democrática na região, mas o povo ficou frustrado com seus parcos resultados, pois a defesa dos direitos humanos não resultou em melhor distribuição do poder e da riqueza. A política, os partidos e o poder judiciário perderam credibilidade diante da corrupção e do corporativismo que favorecem a impunidade.

Desde o fim da década de 1980 o ideário neoliberal do “estado mínimo” bloqueia o desenvolvimento prometendo a utopia do mercado capaz de satisfazer todos os desejos (5). Nesse contexto, os sindicatos perdem a função de defensores dos interesses populares e criam-se outras formas de movimentos com forte consciência política, capazes de conciliar a defesa de objetivos sociais específicos (indígenas, sem-terra, Direitos Humanos, dívida externa, negros, desempregados, mulheres, jovens...) com os interesses coletivos gerais, de modo a formar-se um amplo arco de alianças populares. Nessa diversidade de organizações e de lutas, integram-se dimensões de identidade étnica, busca da paz e combate à militarização e aos armamentos, a proteção do planeta, a defesa de tendências sexuais, de valores éticos e espirituais. As organizações são fluidas, horizontais, dinâmicas, em rede. Demandas pontuais, às vezes locais, substituem os grandes projetos. E essas articulações bem vivas multiplicam-se rapidamente pelo acesso à internet.

Esses novos movimentos sociais projetam-se sobre um cenário antigo: a América Latina e Caribe como espaço aberto à exploração dos recursos naturais. Nesta hora em que a maior biodiversidade do planeta e a rica sócio-diversidade representada por seus povos e culturas ganham evidência, é preciso reconhecer as condições desiguais dessas culturas face à cultura do mercado, hoje globalizada. Esta segue uma dinâmica de concentração do poder, da riqueza, da informação e dos recursos naturais, e exclui sem piedade quem é insuficientemente capacitado e adaptado. Aí irrompem os novos atores sociais que promovem outro modelo de desenvolvimento, visando não o produtivismo mas a produção, as trocas e o consumo solidários, conforme o princípio da subsidiariedade e regidos pelo respeito aos direitos humanos e aos direitos da Terra. Destacam-se, nesse quadro, os povos indígenas dos países andinos, que não só reivindicam o reconhecimento de seus direitos individuais e coletivos, mas propõem uma nova regulação da economia, das finanças e do comércio mundial, em substituição à atual globalização do mercado.

As eleições nesta última década assinalam a emergência de novas maiorias políticas que defendem a integração regional e uma agenda de desenvolvimento autônomo. A despeito dos habituais mecanismos de subordinação das massas, como o clientelismo e a manipulação da mídia, essas eleições expressam a rejeição popular aos “donos do poder”. É o caso de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Nicarágua, Uruguai e Venezuela, que tomam distância das diretrizes norte-americanas e criam alternativas regionais(6). Não sem enfrentamentos com as elites, está em curso a recuperação do controle das riquezas minerais, a desprivatização das águas, um novo papel do Estado a serviço do desenvolvimento social, reconfigurando as instituições políticas para garantir os direitos dos setores tradicionalmente desconsiderados pelos “donos do poder”. Estes não hesitam em desrespeitar as instituições democráticas e em manipular as informações na mídia para assegurarem seus privilégios.

Neste embate entre os novos movimentos sociais e a “elite do poder” há vitórias e derrotas em ambos os lados. Os Tratados de Livre-Comércio assinados por países da América Central e do Sul são uma vitória das forças neoliberais, tanto quanto a rejeição da ALCA foi uma vitória das forças de esquerda (7). Diante do desmonte de suas estratégias geopolíticas para a América Latina, o governo dos EUA introduziu um novo ingrediente nesses tratados: a parceria norte-americana para a segurança e a prosperidade, que introduz a noção de segurança nos processos econômicos e comerciais. Assim, a defesa da ordem democrática (leia-se a liberdade do mercado) iria de par com o direito de intervenção em caso de alteração desta ordem. Não por acaso, a segurança pública no continente tem sido militarizada. O caso mais evidente é o da Colômbia, onde conselheiros militares norte-americanos, operadores militares privados e companhias de segurança privadas envolvem-se em operações militares sem a anuência do Congresso dos Estados Unidos. A política do uso da força contra os inimigos tem sido estimulada desde Washington(8), daí resultando o bombardeio e a invasão de território equatoriano pela Colômbia, a ação do exército mexicano contra o tráfico de drogas, ou a intervenção militar em favelas cariocas. Aliás, até hoje não foram unificadas as polícias civil e militar no Brasil, e permanece em vigor o modelo repressor do regime militar dito “de segurança nacional”.

Talvez os processos mais inovadores estejam no Equador e na Bolívia, onde os movimentos dos povos indígenas são fortes, provocando a reação de quem nunca reconheceu a cidadania indígena. Na Bolívia, a oposição vem de governadores de regiões petrolíferas e de agronegócio, que acusam o presidente de querer instalar um governo totalitário. No Equador, a Assembléia constituinte é a oportunidade histórica para transformar as estruturas do país e recuperar sua soberania econômica. Essa “revolução cidadã”, visceralmente odiada por uma poderosa mídia, gerou grande esperança no seio da população, embora em seu caminho se escondam muitas serpentes.

O desafio político para os movimentos sociais da América Latina e Caribe consiste não só em libertar-se da dominação econômica e política de uma oligarquia subordinada aos centros financeiros do capitalismo, mas também evitar um populismo que muda os governantes sem mudar as estruturas oligárquicas do poder. Cuba, Bolívia, Equador e Venezuela optaram pelo enfrentamento contra os “donos do poder”, assumindo o risco da radicalização. Chile, Argentina, Uruguai e Brasil escolheram o caminho da negociação com as forças do mercado mundial e as oligarquias locais. Isto significa um custo econômico, social e político que as classes subalternas continuam a pagar em favor das classes privilegiadas. Invocar o risco de bi-polarização das sociedades latino-americanas é próprio do discurso das classes hegemônicas. Na V Conferência do Episcopado da América Latina e Caribe, em Aparecida, os bispos mostraram-se atentos a esses processos. Resta saber em que medida os fiéis leigos e leigas conseguirão colocar-se à altura de suas responsabilidades nas diversas estruturas de ordem temporal.

III . Atualidade dos Movimentos Sociais no Brasil

Comparado ao dinamismo social e político de outros países latino-americanos, o Brasil vive um tempo de pouca mobilização popular. A novidade maior vem dos povos indígenas que estão se afirmando como conjunto de povos e formulando propostas políticas pluri-étnicas onde os brancos e europeus não são mais os únicos protagonistas. Convém lembrar que neste momento está em debate a legislação sobre a mineração em terras indígenas e que os interesses em jogo são enormes. O embate não se dá mais apenas com os tradicionais exploradores das riquezas amazônicas (grileiros, madeireiros, garimpeiros), mas há sinais de que eles se incluem numa estratégia mais geral de criminalizar os movimentos sociais que se colocam contra os interesses das grandes corporações (como Vale, Syngenta, Monsanto, Aracruz Celulose).

Situação dos povos indígenas

A identificação e demarcação das terras indígenas continuam lentas. De um total de 850 terras indígenas reconhecidas, 126 aguardam identificação e 225 terras ainda não foram objeto de providências, ficando expostas a invasões e violências de todo tipo. A ênfase do governo federal na execução do PAC, sem o necessário cuidado com as questões ambientais e com as populações tradicionais, traz o risco de intensificação de invasões comandadas até mesmo por empresas do agronegócio e de mineração. A ânsia de crescimento econômico no modelo produtivista favorece a destruição do patrimônio dos povos indígenas e geralmente ameaça a saúde, o equilíbrio psíquico e social, a cultura e a harmonia das comunidades, que perdem a esperança de um futuro melhor.

Mais grave ainda é a situação dos povos sem contato com organismos da sociedade nacional. São grupos pequenos e frágeis, sem defesa imunológica e cultural, que perambulam pelos rios e matas, evitando o contato com o mundo branco. O CIMI tem recebido denúncias de organização de grupos de extermínio com o objetivo de “limpar a área” eliminando todos os membros desses povos, para nãoe correr o risco de vir a ser reconhecida como de ocupação tradicional.(9)

Duas outras situações reclamam urgente intervenção do governo e da sociedade organizada. A primeira, é a violência sofrida pelo povo Guarani Kaiová, no Mato Grosso do Sul, cujo território não tem espaço suficiente para sustentar toda sua população. Nos dois últimos anos ocorreram 59 suicídios, inclusive de crianças e adolescentes. Além disso, suas lideranças são vítimas de perseguição, como a rezadeira Xuretê Lopes, de 72 anos, assassinada por pistoleiros. Se medidas radicais não forem tomadas, o povo Guarani Kaiová corre o risco de ser exterminado sem defesa.

A segunda situação é a da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, homologada em 2005, quando um grande número de invasores foi realocado pelo Incra. Um grupo de cinco grandes arrozeiros, contudo, não acata qualquer medida judicial nem aceita prazo para sair da terra indígena por eles ocupada. Eles têm sido responsabilizados por vários crimes, como seqüestro (de religiosos, funcionários públicos e lideranças indígenas), ameaça de morte a lideranças indígenas, ataque armado a comunidades indígenas, destruição de centros de ensino da Missão Consolata e crimes ambientais por uso de agrotóxicos. Respaldados por políticos e certos de sua impunidade, desafiam os poderes executivo e judiciário, e afirmam que vão ampliar a área invadida.

Foi agora iniciada uma operação da Polícia Federal, a Upatakon 3, para retirar definitivamente esses invasores da terra indígena Raposa Serra do Sol. Houve choques entre a polícia e empregados dos arrozeiros que bloquearam uma estrada, tendo sido detido um de seus líderes, mas liberado após pagar fiança. É importante acompanhar os desdobramentos desta operação, porque os arrozeiros têm fortes aliados nos três poderes da República, no estado de Roraima e na mídia local e nacional.

Outros movimentos sociais

Os Movimentos Sociais no Brasil começam agora a ser propositivos, ou seja, além de defenderem suas causas específicas, apresentam projetos para o futuro da sociedade brasileira no seu conjunto. Convém notar que neste aspecto os movimentos do campo (MST, MAB e de povos indígenas) têm conseguido avançar mais do que os movimentos urbanos (principalmente os sindicatos que nos anos 1970 e 80 estiveram na linha de frente dos movimentos sociais). Um passo importante foi a realização, em outubro de 2005, da Assembléia Popular em parceria com a 4ª. Semana Social Brasileira, quando foi delineado o primeiro esboço desse projeto para a sociedade brasileira.

Esse passo em direção a uma articulação propositiva dos Movimentos Sociais, contudo, não tem sido acompanhado de um avanço equivalente nas bases. Ora, sua força reside na sua capilaridade social, isto é, sua capacidade de penetração e de mobilização desde as bases populares. Para isso eles sempre contaram com a preciosa colaboração das pastorais sociais e das CEBs normalmente atuantes nos setores sociais excluídos das benesses do mercado, tanto nas periferias urbanas quanto nas áreas de agricultura familiar e de posseiros. Hoje, porém, essa colaboração das bases eclesiais está sofrendo certa retração, como se o campo dos Movimentos Sociais não fosse área de atuação própria a grupos da Igreja. Esse relativo distanciamento entre Movimentos Sociais, de um lado, e as pastorais sociais e CEBs, de outro, diminui tanto a capilaridade social dos Movimentos quanto a influência social e política da Igreja na elaboração de um projeto para a sociedade brasileira a partir das bases populares.

Duas outras questões merecem destaque na atual conjuntura dos Movimentos Sociais. A primeira é a paralisação dos processos de reconhecimento de áreas quilombolas pelo INCRA, para não prejudicar o PAC. A segunda é o avanço da consciência ecológica nos setores populares. O noticiário sobre o aquecimento global começa a penetrar nas camadas populares e os Movimentos Sociais lhe dão o colorido político, que a mídia sistematicamente omite. O tema da ecologia vem sendo politicamente assumido pelos Movimentos Sociais na medida em que eles percebem que as soluções apontadas pela tecnologia só beneficiam quem pode pagar por elas, e buscam soluções tecnológicas a partir dos interesses dos pobres. Nesse sentido, o debate sobre o modelo produtivista de desenvolvimento e o modelo ecológico-social, abordado na análise de conjuntura de fevereiro passado, é um dos temas do momento nos Movimentos Sociais. As pastorais sociais e as CEBs são hoje chamadas a dele participar mais ativamente, para que a Igreja não fique alheia ao que está sendo tratado nos setores populares.

Cabe também apontar um debate que hoje permeia os Movimentos Sociais: quais propostas teriam hoje maior capacidade de mobilização massiva? As questões urbanas – transporte público, segurança, moradia e saúde – parecem ser as mais capazes de retomar o impulso nas áreas urbanas. Por outro lado, a Reforma Agrária está praticamente paralisada, e sem ela não há verdadeiro desenvolvimento nacional. Qual a prioridade? Talvez tenhamos que escutar melhor o clamor do nosso povo por uma vida digna e pacífica.

Enfim, é preciso ter presente que este é um ano eleitoral e isso representa uma grande ocasião para a Igreja realizar seu papel de educadora para o bem-comum. A experiência mostra que sua influência política reside menos em sua capacidade de eleger candidatos de seu agrado, e mais em criar um clima favorável à ética na e da política. É quando ela assume o papel de formação das consciências, seja assumindo a campanha contra a corrupção eleitoral, seja difundido folhetos ou cartilhas que informam e alimentam a reflexão dos fiéis leigos e leigas, que sua influência na decisão dos rumos do País (a começar da esfera municipal) é mais forte e duradoura.

IV. Notícias do Congresso Nacional

Introdução

Desde o início da sessão legislativa, em 8 de fevereiro, dois grandes óbices condicionam o Congresso a cumprir sua missão de legislar: o clima pré-eleitoral e a avalanche de Medidas Provisórias (MPs) que trancam a pauta para a votação normal de projetos de lei.

O ano eleitoral já repercute no Legislativo. 127 deputados são pré-candidatos nas eleições municipais de 5 de outubro. No Senado, apenas 3 dos 81 senadores lançaram seus nomes para as eleições deste ano. Nem todos têm chances reais de vitória, mas a certeza de manter o mandato parlamentar permite a alguns participar da disputa para firmarem seu nome para as eleições de 2010.

A pauta do plenário da Câmara permanece travada por MPs. Os deputados terão pela frente mais de uma dezena delas a impedir a votação de quaisquer outras proposições. Há um consenso de que a Medida Provisória exige um novo regime de tramitação. Uma comissão já trabalha alternativas para superar os obstáculos que elas têm criado ao andamento do Legislativo, pois basta uma MP não ser apreciada em 45 dias para provocar o trancamento de pauta, comprometendo sua agenda de trabalhos. O mal-estar manifestado pelos parlamentares deve-se sobretudo porque raramente elas têm a “relevância e a urgência” prescritas pela norma legal.

Desde sua criação, a MP tem despertado o interesse de cientistas políticos, da comunidade jurídica, dos parlamentares e do cidadão em geral. A polêmica transcende as discussões jurídicas e acadêmicas, desafiando qualquer posição extremada. Dura tarefa é sustentar a extinção do instituto ou atribuir-lhe importância absoluta. Se, por um lado, o governante necessita de um instrumento ágil para atender demandas relevantes e urgentes da sociedade diante da lentidão dos processos no Congresso, por outro, considerá-lo como o mais essencial instrumento de governabilidade não parece muito defensável.

Para completar o quadro, o crescente número de CPIs (das Ongs e dos cartões corporativos) vem acirrar os ânimos e alimentar os noticiários para um público curioso por penetrar os meandros da política e seus escândalos.

Busca de paz no trânsito

O projeto de lei nº 2733/08, que restringe o horário para publicidade de bebidas, e a medida provisória 415/08, que proíbe a venda de bebidas alcoólicas no varejo às margens das estradas, são motivos de tensão da Câmara. O cerco do governo às propagandas de álcool e à venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais enfrenta no Congresso o pesado lobby da indústria de bebidas. Integrantes da Frente Parlamentar em Defesa do Trânsito Seguro se reuniram com o relator da MP que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas margens de rodovias federais, e propuseram punições mais rigorosas para motoristas embriagados envolvidos em crimes de trânsito. O presidente da Frente afirmou que "pouco adianta, por exemplo, o governo ser duro com os comerciantes instalados às margens das rodovias, se não consegue ser eficiente na fiscalização do motorista infrator". Não será fácil a votação. Acontece que 51 deputados e 11 senadores declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) terem recebido R$ 4,5 milhões de fabricantes de cerveja, vinho e cachaça na campanha eleitoral. Como votarão agora propostas que contrariam os interesses da indústria de bebidas alcoólicas?

Regulamentação das Centrais Sindicais

Os deputados finalizaram a votação do projeto que regulamenta as centrais sindicais e aprovaram uma emenda do Senado que mantém o desconto obrigatório da contribuição na folha de pagamento, sem autorização prévia do trabalhador. Foi rejeitado o destaque que pretendia manter essa autorização. Agora aguarda a sanção presidencial. De autoria do Executivo, a proposta reconhece as Centrais como entidades coordenadoras da representação dos trabalhadores, repartindo com elas um percentual da arrecadação obtida com a contribuição sindical obrigatória.

Reforma Política

Embora permaneça entre as prioridades na pauta do Conselho de Líderes da Câmara para o ano em curso, a Reforma Política ainda não recebeu providências para sua execução. Entidades da sociedade civil lamentam que temática de tamanha relevância para a democracia seja subestimada pelos nossos representantes legislativos. Apesar de tudo, elas se empenham em prol de uma real Reforma Política e pretendem apresentar um projeto de iniciativa popular para mudar o sistema político e eleitoral brasileiro, tendo como conteúdo a “proibição de candidatura para quem responda em primeira instância a processo criminal ou civil por improbidade administrativa”(10).

Alguns projetos de lei referentes à Reforma Política estão exigindo atenção especial:

- Dar ao eleitor o direito de cassar o mandato do eleito/a que trair as promessas de campanha (de autoria do senador Pedro Simon);

- Regulamentar o artigo 14 da Constituição que trata de plebiscitos e referendos.

Projetos de Lei dão título de teólogo a religiosos

Dois projetos de lei em tramitação no Congresso estão causando polêmica pela liberalidade com que conferem o título de teólogo a líderes religiosos. Para ser teólogo bastaria ter vida de oração ou praticar ação social na comunidade, por exemplo. O primeiro projeto é do senador Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. O outro é do ex-deputado Vitório Galli (pastor da Assembléia de Deus que apresentou também um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil e mudar a lei que decreta o dia 12 de outubro como feriado nacional) (11). Este último define o teólogo como “o profissional que realiza liturgias, celebrações, cultos e ritos, dirige e administra comunidades; forma pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições; orienta pessoas; realiza ação social na comunidade; pesquisa a doutrina religiosa; transmite ensinamentos religiosos, pratica vida contemplativa e meditativa e preserva a tradição”.

Tanto a SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião) como a CNBB têm acompanhado esses projetos. Já estão previstas audiências públicas sobre o assunto.

Código Florestal

Setores organizados da sociedade estão lançando uma Campanha de Comunicação em Defesa do Código Florestal e do fim do Desmatamento em todos os biomas do país. Seu objetivo é aprovar a MP que dá reconhecimento legal ao Código Florestal e rejeitar um Projeto de Lei (PL), já aprovado no Senado, que reduz a reserva legal na Amazônia de 80% para 50% e permite que um desmatamento feito em São Paulo, por exemplo, seja compensado com o plantio de árvores na Amazônia. Se aprovado, é possível que vastas regiões do país fiquem sem florestas – por isso é conhecido como “Projeto Floresta Zero”.

Moral sexual e estatuto da Família

Questões relacionadas à moral sexual e ao estatuto da Família (homossexualismo, células-tronco embrionárias, aborto) têm ganhado cada vez mais espaço no Congresso (e no Supremo Tribunal Federal). Dado que nem sempre levam ao aperfeiçoamento de critérios éticos, mas apenas respondem às novas demandas da subjetividade exacerbada e de cunho hedonista, elas geram conflitos e provocam a reação de quem valoriza a Família como instituição(12). A título de exemplo, vejamos dois projetos de lei com destaque na opinião pública e de acentuada intransigência. Eles têm recebido a devida atenção da CNBB:

O Projeto de Lei 122/2007, que criminaliza a homofobia, define “os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”. Além da falta de clareza destes conceitos, o projeto defende teses com conseqüências éticas complexas e penas desproporcionais. Por exemplo, os artigo abaixo consideram crime:

“Art. 4o. Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta. Pena: reclusão de dois a cinco anos.” - “Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares. Pena: reclusão de três a cinco anos.”- “Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs. Pena: reclusão de dois a cinco anos.”

O Projeto de Lei 1135/91, que descriminaliza o aborto no Brasil e autoriza sua prática até o 9o. mês de gestação, foi várias vezes arquivado e novamente desarquivado. Apresentado em 1991, revoga o artigo 124 do Código Penal que prevê detenção de um a três anos para a gestante que provocar aborto em si mesma ou consentir que outro o faça.

Itaici, 02-04- 2008

Notas:

1.- Isto não significa redução das desigualdades entre os ricos e pobres. Ao contrário: a renda gerada por juros continua crescendo mais que a dos lucros do capital produtivo e esta mais que a do trabalho.

2.- Um especulador norte-americano disse ter lucrado US$2,3 bilhões em 2007, apostando no real. O Brasil é um dos raros cassinos onde os jogadores ganham mais do que a banca. Em fevereiro, as despesas com os juros ultrapassaram R$15 bilhões, bem acima dos quase R$9 bilhões economizados como superávit primário.

3.- Quando em 1932 Getúlio Vargas decidiu comprar os excedentes de café por razões políticas, confidenciou a seus íntimos haver perpetrado um desastre econômico. O êxito daquela medida, porém, fez que dez nos depois discursasse triunfalmente sobre sua “antevisão histórica”.

4.- Hoje é elevada a participação estrangeira nas Bolsas do Brasil.

5.- Este tema foi desenvolvido na análise de conjuntura de fevereiro, para o Conselho Permanente da CNBB.

6.- Em breve o Paraguai fará uma opcão decisiva quanto a seu modelo de desenvolvimento.

7.- O exemplo do México é esclarecedor. Segundo organizações campesinas, após de 14 anos de livre-comércio, foram perdidos dois milhões de empregos agrícolas e oito milhões de agricultores migraram para os Estados Unidos, porque as subvenções à produção são desiguais: 700 dólares para o mexicano e 21.000 dólares para o estadunidense.O México perdeu sua soberania alimentar e importa 40% de suas necessidades em cereais, gastando mais de um terço da receita de exportação petroleira. Em contrapartida, tornou-se grande fornecedor dos Estados Unidos em frutas e legumes, produzidos por grandes empresas agrícolas com trabalhadores nas piores condições. Houve um aumento do emprego industrial, mas nas maquiladoras, por ser o México um país de mão-de-obra barata. Um terço da população depende das remessas de familiares que migraram para o país vizinho (US$ 23 bilhões em 2006, contra 3,6 bilhões em 1995). Não custa lembrar que quem primeiro denunciou o NAFTA, no dia 1º de janeiro de 1994, foram os indígenas de Chiapas. Povos que sobreviveram a cinco séculos de decretos de extermínio têm credibilidade para apresentar-se como guardiões de saberes milenares de convivência harmônica com a natureza.

8.- Para os dirigentes do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, no quadro da guerra contra o terror trata-se de enfrentar os inimigos da ordem - terroristas, contrabandistas e narcotraficantes. Assim como os movimentos sociais foram incluídos na categoria de “comunistas” durante a guerra-fria, hoje são incluídos numa dessas categorias para serem combatidos dentro da guerra global.

9.- Os dados referentes à situação dos povos indígenas no Brasil estão no Relatório de Violência contra os Povos Indígenas, Anos 2006 – 2007, organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

10.- Outro Projeto de Lei de iniciativa popular que desponta de um grupo de parlamentares em conexão com grupos da Igreja (sobretudo os Focolari) “estabelece a execução obrigatória de Lei Orçamentária Anual”. Sua justificativa é de ser um grande passo na responsabilidade fiscal e, também, para levar a sociedade a participar de modo efetivo na elaboração, implementação e execução do orçamento.

11.- Esse projeto propõe que Nossa Senhora Aparecida seja considerada padroeira apenas dos “brasileiros católicos apostólicos romanos” e substitui “culto” a Nossa Senhora por “homenagem”. O projeto está na Comissão de Educação e Cultura da Câmara, com acompanhamento especial.

12.- No dia internacional da Família, 15 de maio, haverá um seminário no Congresso sobre A Família no Parlamento, tratando as Influências da Mídia sobre a Família (com uma exposição sobre "A internet, os jogos eletrônicos e a educação dos filhos"); e Prevenção de situações de risco que afetam a família: “A influência do álcool nos membros da família".

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Mudanças na cultura midiática latino-americana

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Que a cultura midiática latino-americana está mudando, não há dúvidas. Mas é preciso salientar que há mudanças extremamente significativas acontecendo, enquanto que, em outros países, a mudança ainda é tímida. “Essas modificações que começam a aparecer no cenário latino-americano se devem basicamente à ação de governos progressistas, particularmente os governos da aliança bolivariana das Américas: Venezuela, Equador e Bolívia, que entendem que a comunicação é uma questão estratégica para o desenvolvimento social e econômico e têm procurado interferir mais no sistema midiático, no sentido de aumentar a variedade dos conteúdos e das fontes emissoras”, diz o professor Denis de Moraes, entrevistado de hoje pela IHU On-Line. Denis fala ainda sobre a relação entre comunicação e governabilidade, crise das indústrias e conselhos de comunicação. A conversa foi realizada por telefone. Denis de Moraes é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também realizou doutorado em Comunicação e Cultura. É pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, da Argentina. É professor da Universidade Federal Fluminense. É autor de, entre outras obras, O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (Rio de Janeiro: DP&A, 2001) e Cultura mediática y poder mundial (Buenos Aires: Grupo Editorial Norma, 2006). Confira a entrevista.
IHU On-Line - Foucault dizia que não existe o poder, mas existem, sim, aqueles que querem ser dominados. Qual a relação que o senhor faz entre o poder e a cultura midiática presente na América Latina, hoje?
Denis de Moraes – Eu acho que a cultura midiática, tanto na América Latina quanto no mundo em geral, apresenta uma série de características comuns e convergentes. A primeira delas é o que eu defino como midiatização da vida social. Todos os espaços de representação de anseios e aspirações parecem ter se transferido por ação ideológica dos meios de comunicação para telas e monitores. Isso significa que só adquire verdadeira visibilidade social aquilo que os meios de comunicação se incubem de transmitir. Significa também que as outras esferas de representação de interesses passam também a entrar num processo de esvaziamento de sua força junto à opinião pública. Eu me refiro à escola, às associações sociais, ao poder legislativo, que continuam manifestando suas posições, aglutinando interesses, mas não têm o mesmo poder de penetração e de interferência social do que os meios de comunicação. Trata-se de uma distorção perigosa, na medida em que os meios de comunicação se apresentam diante da coletividade como um âmbito de representação da vontade geral, como se eles tivessem a capacidade de resumir tudo aquilo que a sociedade deseja e aspira.

Trata-se de uma manobra ideológica muito poderosa, muito incisiva e que tem como objetivo: 1) ajudar a consolidar a hegemonia do mercado como a esfera de organização societária, ou seja, o mercado elevado à potência máxima; 2) Trata-se de uma tentativa de colocar os meios de comunicação, que são privados, fora do alcance de controles públicos democráticos. Eu me refiro, especificamente, aos meios de comunicação que têm concessões de rádio e televisão e que não desejam se submeter a controles, regras e normas públicas. Isso é uma deturpação muito perigosa também, porque se tratam de canais que pertencem à sociedade e não aos conglomerados midiáticos. Mas, ao se apresentarem como esfera de tradução da vontade geral, eles tentam se colocar fora do alcance de qualquer tipo de controle público-democrático. Como se tivessem uma autonomia tão peculiar, como se fossem a única esfera social, que não precisassem prestar contas à sociedade daquilo que fazem.

Tem que prestar sim, porque são concessionários de licenças. Esse é um exemplo bastante eloqüente do tipo de cultura midiática que nós temos. Trata-se de uma cultura absolutamente singular porque controlada, formulada, executada por meios que querem se colocar fora do alcance da sociedade, acima de qualquer tipo de controle. E fabricam, com uma velocidade espantosa, um volume desproporcional de informações e imagens a pretexto de que isso ampliaria a diversidade, quando na verdade nós sabemos muito bem que, de fato, há um aumento exponencial dos conteúdos transmitidos socialmente. Porém, as fontes de transmissão continuam cada vez mais concentradas nas mãos de poucas empresas que têm um poder absurdo de definir tudo aquilo que a sociedade pode ouvir, ver e ler.
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IHU On-Line - Como o senhor vê a crise das indústrias culturais no mundo e como essa crise afeta os meios de comunicação latino-americanos?
Denis de Moraes – As indústrias culturais fazem parte do modo de produção capitalista, de forma que um dos traços constitutivos desse modo de produção é que ele se depara sempre com crises internas e tem uma extraordinária capacidade de reprocessá-las e, assim, conseguir se reestruturar e seguir adiante. As indústrias culturais apresentam algumas evidências de crise, sobretudo no sentido do esgotamento dos mercados dos países mais industrializados. Entretanto, as corporações desses países entenderam que elas precisam buscar outros mercados através da economia de escala que internacionalizaram suas produções, seus sistemas de difusão, suas estratégias mercadológicas e conseguem enfrentar a crise em seus países de origem, obtendo lucros em países periféricos da América Latina e da Ásia.

De modo que eu não vejo uma crise das indústrias culturais que possa afetar a sua hegemonia no mercado de informação e entretenimento. Eu vejo crises que têm sido enfrentadas sucessivamente por meio de reestruturações empresariais e novos planos mercadológicos com relativo êxito. Basta citar, por exemplo, o caso das grandes corporações estadunidenses que, diante da saturação do mercado nacional, conseguiram, nas últimas décadas, resultados verdadeiramente extraordinários nos demais continentes, compensando, portanto, o esgotamento das possibilidades de crescimento do mercado interno.

Com relação ao mercado de mídia, penso que esse cenário se reproduz com uma impressionante coincidência: as principais corporações de mídia operam, hoje em dia, em escala absolutamente planetária. São grandes conglomerados que têm interesses e exploram uma série de setores tornados convergentes pela digitalização e conseguem atuar em parcerias com aliados regionais e locais desenvolvendo um processo de mais valia, extremamente insidioso e competente, porque distribui para mais de 200 países os mesmo produtos que são elaborados nos estúdios e nos centros de produção das matrizes, obtendo ganhos variados com cd’s, dvd’s, desenhos animados, filmes, etc. Também penso que não há crise tão violenta que possa colocar em risco a posição hegemônica das indústrias de comunicação e cultura.
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IHU On-Line - Para o senhor, quais são as possibilidades e os limites dos conselhos de comunicação social hoje?
Denis de Moraes –
O Brasil tem um conselho de comunicação criado pela constituição de 1988, que teve no saudoso doutor Ulisses Guimarães o seu grande expoente. Esse conselho praticamente não existe mais, deixou de ser do conhecimento público. Até onde sei, não tem se reunido com freqüência e a sua influência como órgão assessor do congresso nacional é uma influência muito pequena e sem ressonância. Atribuo isso ao desinteresse dos quatro últimos governos em fazer avançar medidas que contribuam para a democratização da comunicação do país. Digo isso porque a composição atual do conselho nacional de comunicação social, segundo análises que foram feitas por especialistas e pesquisadores, é a mais conservadora de toda a recente trajetória do conselho. Isso mostra claramente que não há um interesse governamental e do próprio congresso em prestigiar esse órgão como uma esfera de debate dos poderes públicos no campo da comunicação. Digo isso com pesar, porque essa foi uma luta importante das entidades que defendem a democratização dos meios de comunicação no país.
Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12923

Lugo e os novos ventos do Paraguai

Deu no Vermelho:
por Altamiro Borges*
A mídia tupiniquim, que sempre fez alarde com o drama dos sacoleiros de Ciudad del Este, não tem dado maior atenção à inédita mudança de ventos no vizinho Paraguai. Depois de 65 anos de violenta e corrupta hegemonia do oligárquico Partido Colorado, a eleição presidencial de 20 de abril pode resultar numa reviravolta política no sofrido país.
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O clima no país, segundo relatos de vários lutadores sociais, é de mudança e de forte esperança, o que confirma a guinada à esquerda na América Latina. Nem mesmo as manobras do governo, que concedeu anistia ao ex-militar populista para dividir os votos da oposição, parece ter surtido efeitos. Até setores conservadores, com forte influência na mídia, já dão como certa a vitória de Fernando Lugo, que montou uma ampla frente de centro-esquerda – que agrega desde o Partido Comunista até os nacionalistas do Partido Liberal Radical Autêntico. O maior temor, entretanto, é que ocorram fraudes nas eleições, o que é bastante comum neste país.

Fraudes dos colorados

Como alerta o jornalista Gilberto Maringoni, atento analista da situação latino-americano, o risco de roubo é real. “Praticamente tudo no país é controlado pelo Partido Colorado, criado em 1887. Dominando o executivo nacional, legislativo e judiciário, a influência da agremiação espalha-se por todas as localidades paraguaias. É voz corrente que ninguém consegue emprego, matrículas em escolas públicas, atendimento em postos de saúde ou prestar queixas em delegacias policiais se não apresentar sua ficha de filiação no partido. Integrantes das forças armadas também devem se filiar para ascender na carreira. Dos seis milhões de paraguaios, quase um terço formalmente é membro da agremiação. É uma máquina poderosíssima, para ninguém botar defeito”.
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O inflamável Tratado de Itaipu
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A coalizão que apóia Fernando Lugo entende que o acordo é lesivo e defende a “recuperação da soberania hidrelétrica”. Ela lembra que o preço de energia no mercado brasileiro passa dos US$ 80. Itaipu é responsável por 19% do PIB paraguaio, com ingressos nos cofres públicos de cerca de US$ 1,5 bilhão ao ano. Um reajuste nos preços – e não o rompimento do tratado, com alardeia a mídia terrorista – poderia representar importante alavanca para o desenvolvimento do país, um dos mais pobres do continente. Não é para menos que a proposta contagia os paraguaios e hoje é defendida, de formas variadas, por todos os candidatos. Ela não tem nada de esquerdista ou de provocadora; apenas prega o que o Brasil também deveria defender, a soberania nacional.
*Altamiro Borges, Miro é jornalista, Secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição)
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=35172

quarta-feira, 2 de abril de 2008

1964-2008. Ditadura, redemocracia e inflexão

Deu no Instituto Humanitas Unisinos:
Hoje, primeiro de abril, faz 44 anos que os militares deram o golpe no país. Torturas, negociações ilícitas com outros países resultaram numa tragédia sem medidas por todo o continente e numa mancha negra no passado do país e que possui resquícios presentes na política atual. “Na década de 1960, a minha geração lutou contra a ditadura”, contou-nos Flávio Koutzii, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Resgatando a política e os acontecimentos de cinco décadas, Koutzii relembra os seus combates contra as ditaduras brasileira e argentina, o estouro dos regimes militares na AméHoje, primeiro de abril, faz 44 anos que os militares deram o golpe no país. Torturas, negociações ilícitas com outros países resultaram numa tragédia semrica Latina, a redemocratização e a frustração ocorrida na década de 1980, o desenvolvimento do neoliberalismo e o fortalecimento do PT ao longo dos anos 1990.

Flávio Koutzii é economista pela UFRGS. Participou da fundação do Partido Operário Comunista. A militância obrigou-o a deixar o Brasil em 1970, perseguido pela ditadura militar. Na Argentina, voltou a enfrentar a repressão e esteve preso de 1975 a 1979. Libertado graças a uma campanha internacional de solidariedade, exilou-se na França, de onde retornou para o Brasil em 1984. É um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Em 1998, foi eleito deputado estadual pela terceira vez, mandato que reassumiu somente em abril de 2002, depois de três anos como chefe da Casa Civil do governo de Olívio Dutra. Atualmente, está sem mandato, pois decidiu não mais concorrer a nenhum cargo público, embore continue participando da vida política. Nas recentes prévias do PT, em Porto Alegre, apoiou a candidatura de Miguel Rossetto.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Certa vez, o senhor falou que é pós-graduado em derrotas, por ter sido vítima das ditaduras brasileira e argentina e por ter visto a esquerda entrar em crise de ética. Como o senhor avalia a influência desses momentos em sua trajetória política? Flávio Koutzii – Eu me referia, naquela oportunidade, ao fato de que a minha geração, que começou a militar nos anos 1960, viveu, cada um de um jeito, episódios que corresponderam a determinados ciclos históricos de diferentes países. Quando usei essa expressão, de que tinha vivido várias derrotas, eu me referia ao fato de que na década de 1960 a minha geração lutou contra a ditadura. Num período inicial, que coincide com 1969 e 1970, fomos derrotados e desorganizados quando utilizamos lutas que só foram bem-sucedidas a partir do final dos anos 1970, quando o movimento estudantil e dos trabalhadores forçaram os limites da ditadura e, finalmente, tivemos a redemocratização a partir dos anos 1980.

Mas eu quero dizer, me referindo aos anos 1960, quando saí do país, que tivemos aí um ciclo da luta pela liberdade, contra a ditadura e uma derrota que a vida mostrou ser provisória para aqueles que continuaram com a possibilidade de retomar seus compromissos. Infelizmente, isso não valeu para todos porque muitos companheiros e irmãos ficaram pelo caminho, seja porque foram mortos, seja porque sofreram tanto na prisão e na tortura que, embora vivos, perderam parte da sua energia. O segundo ciclo, que me toca particularmente, é o das ditaduras sangrentas vividas em outros países da América Latina. No Chile, por exemplo, inicialmente, tivemos a vitória de Allende (1), e logo depois aconteceu um golpe militar ultra-sangrento (2) em 11 de setembro de 1973. No meu caso, vivi na Argentina, onde militei ao longo dos anos 1970. Comecei a militar numa situação de ditadura. Em seguida, veio a redemocratização em 1973. Em 24 de março de 1976, houve o sangrento golpe militar argentino e, nesse momento, eu já era prisioneiro político. Terminamos ali, numa dimensão muito mais ampla e massiva, uma luta que avançou e que depois foi contida por um golpe de grande espectro de repressão social, quando aconteceu essa tragédia insuportável que resultou em trinta mil desaparecidos.

Felizmente, na década de 1980, tanto no Brasil quanto na Argentina, e mais adiante no Chile e também Uruguai, vimos e protagonizamos a decadência das ditaduras, a reestruturação do processo democrático e do Estado de direito. No nosso caso, vivemos singularmente com mais sucesso e maiores resultados, uma reconstrução do campo popular, democrático e de esquerda. E, dentro desse episódio, nasce o PT, em fevereiro de 1980, e seu sistemático, e não milagroso, crescimento. Este levou 20 anos para se consolidar como uma força política nacional, como um partido de massas – coisas que a esquerda dificilmente havia conseguido – e que nos deu essa possibilidade da redemocratização.

Mas, ao mesmo tempo, os anos 1980 também foram de frustração, porque se imagina que as redemocratizações viriam combinadas com certo grau de reformas. Então, a década de 1980, depois, foi para a literatura de sociologia, de história e de economia a década perdida. Isso não é pouco: houve redemocratização, sonhos de reformas mais do que desejáveis, que foram frustrados profundamente durante o governo Sarney (3). Este pretendia, afinal, construir uma nova república que não deu certo. Na quarta década, a de 1990, vivemos um outro tipo de derrota, uma espécie de derrota política-ideológica que não destrói o projeto político que tínhamos no Brasil. Certamente, o PT conseguiu preservar-se e crescer e até mesmo depois capitalizar os limites desta operação. Porém, é a grande década da hegemonia neoliberal, com todos os componentes dessa doutrina e com todos os agentes que consistiam claramente em vender o patrimônio nacional, diminuir o tamanho do Estado, numa entrega quase completa de elementos de defesa do país, da nação e de um projeto nacional para um integração no mercado mundial. Isso é uma coisa relativamente inevitável, mas foi feita de uma forma que, mais do que integração, virou “entregação”, uma coisa subordinada e submissa, na qual os interesses nacionais são sacrificados no altar de uma suposta modernidade.

Então, são quatro décadas e nesse tempo aconteceram dois processos dramáticos na minha vida, que é a ditadura brasileira e a argentina. Depois, em outro grau, existiu ainda a frustração em relação às reformas que se esperava na redemocratização. Além disso, há ainda a derrota dos povos em função da introdução completa do deus do mercado e da globalização. E, agora, nos anos 2000, que começou muito enérgico e esperançoso para nós, vivemos, especialmente pensando no ano de 2005, a grande crise do PT, sustentada por ações que em partes são de sua plena responsabilidade, mas que a mídia aumentou. Isto no sentido de que quando a direita cometia erros parecidos eles não eram mostrados, ganhando uma dimensão maior quando o PT os cometeu também.
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IHU On-Line – Como o senhor vê a atuação do PSOL na política atual e quais são as suas previsões para ele? Flávio Koutzii – O PSOL é constituído por gente de muito valor. Eu compreendo as razões políticas que levaram alguns a romper com o PT para tentar construir um projeto pela esquerda do PT. De qualquer modo, acredito que cometeram muitos erros importantes no momento fundacional desse processo. A própria maneira como Heloisa Helena (4) se envolveu na eleição presidencial eu achei um desastre. Tanto que ela chegou a ter 2% das preferências dos votos e caiu mais da metade porque quando uma corrente que pretende ser mais combatente, mais radical, mais à esquerda de uma outra força, começa a viver de parasitar essas circunstâncias, dificilmente irá a algum lugar. O PSOL tinha um desafio maior do que o PT teve, ou seja, crescer como projeto político de esquerda de massas, numa conjuntura que estava completamente alterada dos 25 anos de indiferença daquela em que o PT apareceu. Era preciso, portanto, se dirigir de uma forma menos unilateralizada. Ali se perdeu muito a vitalidade e a credibilidade desse projeto.
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IHU On-Line – Por que o senhor mostrou-se contrário ao resultado das prévias do PT gaúcho, em que Maria do Rosário (5) venceu a Miguel Rossetto (6) como candidata à prefeitura de Porto Alegre? Flávio Koutzii – Na verdade, considero que a candidatura do Miguel representava uma conjugação de posições que me parecem muito importante nos dias de hoje. Acreditava fortemente que ele, que foi secretário do governo do Olívio – de quem estive ao lado na Casa Civil –, o vendo atuar com enorme capacidade administrativa e de decisão, interessava muito mais para Porto Alegre enquanto cidade. Mas, como eu acredito que idéias se materializam em métodos, essa vitória representa um pouco o desenho do PT no Rio Grande do Sul e aguardamos uma mudança, que não é a que me agrada, e um novo padrão, um novo tipo de trabalho. Mas a poeira já está baixando e precisamos constituir um trabalho que se proponha unitário e solitário para levar nossa candidata à vitória.
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IHU On-Line - O sucesso do governo Lula garante a permanência do PT como alternativa para o Brasil? Flávio Koutzii – Espero que sim. Ninguém seriamente deveria falar uma bravata porque há muitas coisas pelo caminho. O que eu penso é que há um fenômeno do lulismo. Ou seja, é muito importante a liderança do Lula como presidente num período histórico, com carisma, com grande capacidade de comunicação popular, com grande inflexão em algumas políticas públicas de bastante impacto, com uma enorme capacidade de consolidar todos os fundamentos econômicos do país, e, portanto, ativar espetacularmente o nível de emprego, o deslocamento de brasileiros para a classe média, a saída de outros milhões da absoluta pobreza. Isto garante que o Lula será um grande eleitor. Entretanto, é um pouco cedo para ter certeza de que fatalmente o candidato apoiado pelo Lula conseguirá a vitória. Porque não é só o que ele (fenômeno já autônomo do PT há muito tempo) representa, mas o que representa a sua obra.

Notas:

(1) Salvador Allende Gossens foi um médico, político e estadista chileno. Foi o primeiro marxista assumido eleito democraticamente presidente da república na América Latina. Leia mais na edição 74 da Revista IHU On-Line.

(2) Augusto José Ramón Pinochet Ugarte foi um general do exército chileno, presidente do Chile e posteriormente senador vitalício de seu país. Cargo este que foi criado exclusivamente para ele, por ter sido um ex-governante de seu país. Governou o Chile entre 1973 e 1990, com poderes de ditador, depois de liderar um golpe militar que derrubou o governo do presidente socialista legalmente eleito, Salvador Allende.

(3) José Sarney de Araújo Costa é um político e escritor brasileiro. Foi presidente da República de 1985 a 1990.

(4) Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho é uma enfermeira, professora e política brasileira. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, foi eleita em 1998 s por seu estado natal. Formando um grupo dissidente de esquerda às ações do Governo Lula, junto a outros parlamentares desta legenda que, por não concordarem com as decisões ditas "neoliberais" do setor econômico do Partido, passaram a votar contra as determinações do partido. Expulsos em 14 de dezembro de 2003, fundaram um novo partido, o PSOL.

(5) Maria do Rosário Nunes é uma professora e política brasileira, formada em pedagogia pela UFRGS, com especialização pela USP. Maria do Rosário iniciou sua tragetória política no PCdoB, pelo qual foi eleita vereadora em Porto Alegre, para a legislatura 1993-1996, mas no ano seguinte à posse já estava no Partido dos Trabalhadores, pelo qual conquistou a reeleição em 1996 sendo a vereadora mais votada. Em 2003, assumiu seu primeiro mandato como deputada federal e em 2006 foi reeleita. Em 2002, teve 143 mil votos e foi reeleita com 110 mil votos.

(6) Miguel Soldatelli Rossetto é um político e cientista social brasileiro. Participou do movimento de fundação do Partido dos Trabalhadores e fez parte da primeira executiva estadual do partido. Foi ainda presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Pólo Petroquímico de Triunfo, de 1986 a 1992. Integrou ainda a Executiva Estadual da Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul e da CUT Nacional. Em 1998, Rosetto foi eleito vice-governador, na chapa encabeçada por Olívio Dutra. No dia 1° de janeiro de 2003, após ser derrotado na busca pela reeleição, desta vez com Tarso Genro, foi nomeado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva para o cargo de ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário.

(7) Antônio Britto Filho é um jornalista e executivo brasileiro, que exerceu os cargos de deputado federal, ministro da República e governador do estado do Rio Grande do Sul.





Leia na íntegra em http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=12900

terça-feira, 1 de abril de 2008

Abaixo-assinado contra o trabalho escravo. Participe!

"Exigimos a aprovação imediata da Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde trabalho escravo foi encontrado e as destina à reforma agrária. A proposta passou pelo Senado Federal, em 2003, e foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004. Desde então, está parada, aguardando votação". Este é o teor do abaixo-assinado organizado pelo "Movimento Nacional pela Aprovação da PEC 438 e pela Erradicação do Trabalho Escravo".

Integram o movimento: a Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo no Senado Federal, Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo, Degradante e Trabalho Infantil na Câmara dos Deputados, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, OIT, CPT, Fórum Nacional da Reforma Agrária, MST, Via Campesina, Contag, Fetraf, Coetrae-MA, Coetrae-TO, CDVDH, CRS, Sinait, Anamatra, ANPT, ANPR, AMB, Ajufe, OAB, Abra,Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo, Movimento Humanos Direitos, Repórter Brasil, Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

Se quiser assinar o abaixo-assinado é só clicar aqui.

A ‘revolução democrática’ de 64 e a formação ideológica das forças arma

Deu na Adital:
Marcelo Dorneles Michel*
Adital - Estamos em uma data significativa, trinta e um de março. Data que representa o vermelho do sangue de homens dignos derramado arbitrariamente por nossos militares. Isso mesmo! Pelos militares, justamente aqueles que deveriam defender a pátria brasileira. Trinta e um de março de sessenta e quatro, o dia do golpismo. Data que não deve ser apagada da memória dos brasileiros. E não deve ser esquecida para que golpismo e arbitrariedades como aquele não aconteçam jamais.
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Falo com conhecimento de causa, pois passei alguns anos nas fileiras do exército como oficial temporário. Passamos por tentativas de doutrinação a favor do pensamento político direitista conservador, a ponto de tentarem nos convencer, com convicção, dos erros intencionais cometidos pelos historiadores ao contar a história do Brasil durante o Regime Militar. É inconcebível, na caserna, alguém ousar demonstrar um mínimo de simpatia por partidos, movimentos ou pessoas ligadas a tendências populares ou progressistas.
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No Exército, descobri que não houve golpe, mas uma "revolução democrática". Revolução que suspendeu e cassou direitos políticos, impediu os moradores de cidades consideradas estratégicas de elegerem seus prefeitos; depuseram governadores eleitos democraticamente; censuraram a imprensa; torturaram e mataram cidadãos que lutavam pela dignidade, justiça, liberdade e paz em nosso país; mantiveram presos e/ou exilados pessoas como Paulo Freire, Frei Betto, Betinho e tantos outros cidadãos que tanto contribuíram para o desenvolvimento intelectual, artístico e cultural de nossa nação. Tudo isso fez a "Revolução Democrática de 64", que eu prefiro chamar de golpismo.
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Acordem militares! Ainda há tempo de repararem o sangue de inocentes por vocês derramados entre aquele 31 de março de sessenta e quatro e a "abertura" no ano de 84. É só trabalharem para que em nosso país se faça a construção da igualdade, da dignidade, da justiça e da paz! Quem sabe se aproximem das forças populares para que um novo Brasil aconteça, já que distante destas forças vocês fracassaram.
* Professor de Filosofia e de Sociologia
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