O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910

domingo, 9 de março de 2008

Balcanizar os Bálcãs

Deu no Via Política:
Por Juan Gelman
Parecia impossível recortar ainda mais a diminuída ex-Iugoslávia, mas não: com o reconhecimento imediato dos EUA e da maioria da União Européia, a chamada independência de Kosovo é coisa feita. Pouco importa que este ato viole o direito internacional, a Carta das Nações Unidas e resoluções de seu Conselho de Segurança. O decisivo é que assim o quiseram os “falcões-galinha” de Washington, com o apoio de uma porção bem armada da OTAN e o olhar voltado para outro lado da ONU. As conseqüências são inimagináveis e faz recordar a profética frase que Otto von Bismarck cunhara em fins do século XIX: “Quando explodir a Grande Guerra, será por alguma maldita coisa nos Bálcãs”. Assim foi.
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Os EUA começaram o trabalho kosovar já há alguns anos. Belgrado combatia contra o braço armado dos separatistas sérvio-albaneses, o Exército de Liberação do Kosovo (ELK), uma criatura da CIA, como Osama bin Laden. Isto foi reconhecido pela própria agência de espionagem, que lhe proporcionou treinamento, armas e dinheiro, especialmente em 1998 e 1999, pouco antes de que os EUA e a OTAN bombardeassem a ex-Yugoslávia durante 11 semanas. O Departamento de Estado qualificou oficialmente o ELK de “movimento insurgente”, embora seus altos funcionários falassem off the record que eram terroristas. Sim. Milosevic não foi nenhuma rosa cândida, mas a minoria sérvia de Kosovar não esquecerá o 17 de março de 2004: o ELK atacou, matou duas dezenas de civis, queimou todas as igrejas ortodoxas e deixou na rua 60.000 sérvio-kosovares. Frente à indiferença das forças de paz da ONU estacionadas em Pristina, a capital, e na província.
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Há dias, muitos jornais do mundo reproduziram una fotografia célebre tomada em 1999: mostra o chefe terrorista, Hashim Thaci, o observador da ONU em Kosovo e hoje ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Koucher, Sir Mike Jackson, então comandante das tropas de ocupação da OTAN em Kosovo, Agim Ceku, chefe militar albano-kosovar acusado de crimes de guerra pelos militares canadenses, e o general Wesley Clark, naquele momento comandante supremo da OTAN, unindo suas mãos em montinho jurando alcançar a independência do Kosovo. As atividades de Hashim Thaci já eram bem conhecidas.

O muito francês Observatório Geopolítico de Drogas informou que o ELK ajudava a introduzir na Europa Ocidental heroína e cocaína no valor de dois bilhões de dólares a cada ano. Os agentes alemães que combatem os narcotraficantes afirmaram que os do Kosovo “lavam anualmente um bilhão e meio de dólares por intermédio de 200 bancos privados ou agências de câmbio” (The Washington Times, 4-5-99). São os aliados de W. Bush na pretensiosa tarefa de expandir a democracia e a liberdade no mundo. De passagem, anuncia que vetará qualquer projeto de lei que impeça as forças de segurança norte-americanas de aplicar a tortura. Por que não?

24/02/2008
Fonte: La Bitácora de Gelman http://www.juangelman.com/wordpress
Link: http://www.juangelman.com/wordpress/?p=357#more-357

Juan Gelman
É considerado um dos mais importantes poetas contemporâneos da Argentina e da América Latina. Gelman nasceu em Buenos Aires, no bairro de Villa Crespo, em 1930, terceiro filho de imigrantes russos, José e Paulina. Aprendeu a ler aos três anos e passou sua infância andando de bicicleta, jogando futebol e lendo. Durante sua juventude, participou de diversos grupos e movimentos literários.

Ocupou importantes funções como jornalista. No período da ditadura militar na Argentina, e devido a sua militância nos Montoneros (organização da qual se afastou por divergências com a direção), teve que se que exilar em diferentes países da Europa e América Latina. Durante a ditadura, foram seqüestrados e assassinados pelo regime militar seu filho Marcelo, morto sob tortura, e sua nora, Maria Claudia García Irureta de Gelman, que estava grávida. Há poucos anos, e somente depois de intensa busca, Gelman conseguiu se reunir com sua neta no Uruguai.

Atualmente, está preso na cidade brasileira de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, sob tratamento médico, o coronel reformado uruguaio Manuel Cordero, implicado no seqüestro, translado para o Uruguai, prisão, tortura, assassinato e desaparecimento de Maria Claudia. A argentina Maria Claudia foi levada grávida para o Uruguai, e, no cativeiro, deu a luz a uma menina. Logo em seguida foi executada por algozes argentinos, entre eles o uruguaio Manuel Cordero, hoje sob custódia da Polícia Federal do Brasil. Cordero também é acusado pelo assassinato político do senador uruguaio Zelmal Michelini. Um diplomata argentino em Brasília afirmou que o militar deverá ser extraditado para a Argentina, onde é acusado de cometer vários crimes. O coronel Manuel Cordero também é acusado de haver participado do assassinato de Hector Gutierrez Ruiz, ex-presidente da Câmara dos Deputados do Uruguai.

Juan Gelman recebeu, em 1997, o Prêmio Nacional de Poesia da Argentina e atualmente vive no México.

(por Omar L. de Barros Filho, a partir da Wikipédia e de informes atualizados do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul)

Tradução do espanhol para o português de Omar L. de Barros Filho, editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser livremente reproduzida, na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como citados o autor, o tradutor e as fontes.
Para ler em Tlaxcala o artigo traduzido ao francês: http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=4704&lg=fr

Leia na íntegra em http://www.viapolitica.com.br/fronteira_view.php?id_fronteira=147#

O grande enigma chinês

Deu na Revista do Brasil:
Ao fazer a famosa observação – “Quando a China despertar, o mundo tremerá” –, Napoleão Bonaparte sabia do que estava falando
Por Mauro Santayana
Em 1816, ao regressar da China, lorde Amherst passou pela Ilha de Santa Helena, no Atlântico. Não havia ainda o Canal de Suez, e a rota para a China contornava a África do Sul, seguindo o caminho descoberto pelos portugueses. Os navios se abasteciam ali de água potável e de alimentos. Era também a prisão de Napoleão Bonaparte, depois de ter sido derrotado pelos ingleses na batalha de Waterloo. Era a segunda vez que a missão inglesa fracassara ao tentar estabelecer relações diplomáticas com o governo imperial da China. A primeira fora conduzida por lorde McCartney. O motivo dos insucessos fora singelo: os ingleses se recusaram a expressar sua obediência ao imperador, mediante a cerimônia do kou-tou, que era prostrar-se e bater nove vezes com a cabeça no piso.

Amherst visitou o prisioneiro. Ao saber que a missão do interlocutor à China fora frustrada, Napoleão fez a observação famosa: “Quando a China despertar, o mundo tremerá”. Sabia do que falava. A China era inquietante realidade. Durante milênios, o “Celeste Império do Meio” estivera tão distante quanto o outro lado da lua. E não era só a China, eram todos os “amarelos”: japoneses, coreanos, indochineses, que, no fundamental, tinham a mesma forma de ser, pensar e agir.

Os ingleses se vingaram da “desfeita” do imperador. A partir de modesta concessão dos chineses, iniciaram o comércio nas costas do grande país. Favorecidos pela astúcia, incrementaram o uso do ópio (então restrito a alguns potentados) pela população em geral, mediante o contrabando do narcótico, produzido na Índia, sob controle britânico. Quando o governo chinês percebeu que o ópio estava corrompendo e debilitando seu povo, proibiu o consumo e mandou queimar várias toneladas do produto, estocado pelos ingleses em Cantão. Em represália, os ingleses promoveram duas guerras contra a China; a primeira de forma isolada e a segunda com a participação dos franceses.

A ocupação da China foi odiosa. Os colonizadores viviam em bairros fechados. Nesses bairros era proibida a entrada de chineses e cães, nessa ordem. A exploração do trabalho dos nativos não se limitava a seu território. Milhares eram “vendidos” pelos traficantes aos países europeus e, por algum tempo, aos Estados Unidos; os homens para o serviço braçal, remunerados a centavos por dia, e as mulheres para os bordéis das grandes cidades industriais.

Pouco a pouco, e por influência das idéias ocidentais, alguns intelectuais chineses começaram a se organizar para livrar-se da dinastia submissa, construir uma república e restabelecer a soberania. A primeira organização revolucionária, a T’ung-meng Hui (Liga Revolucionária Unida), se fez no Havaí, onde se encontrava a maior concentração de trabalhadores chineses no exterior. Liderou-a o médico Sun Yat-sen, que proclamaria a República em 1912.

O grande desenvolvimento econômico e militar da China, a partir de 1949, com a definitiva vitória de Mao Tsé-tung (ou Mao Zedong, conforme nova e discutida grafia), e acelerado pelo seu sucessor Deng Xiaoping, inicia uma grande desforra histórica. Os chineses, com astúcia, esforço e inteligência política, prepararam-se nos últimos decênios com o propósito de vencer seus adversários, no campo político e econômico – entre eles, o Japão, particularmente cruel na ocupação da Manchúria e de Xangai –, e voltar a ser o Grande e Invencível Império do Meio.

Os chineses já ocupam, com o comércio e a influência política, grande parte da Ásia e da África. O Japão se inquieta com o crescimento da China e tem estreitado ligações com os Estados Unidos. Os norte-americanos se encontram sitiados por uma força ponderável dos chineses: o dinheiro. A China é credora de US$ 1 trilhão dos Estados Unidos. Esse dinheiro, de acordo com a denúncia do ex-senador George McGovern, foi gasto na guerra contra o Afeganistão e o Iraque. À China de hoje não interessa o confronto com o Ocidente. Sua estratégia, elaborada por mais de 50 séculos de História, tem sido erguer muralhas para sua defesa. A muralha de hoje é a do desenvolvimento industrial – e militar.
Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e de diversas publicações.
Extraído de http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm acesso em 09 mar. 2008.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A Igreja e as tentações da política

Deu no Instituto Humanitas UNISINOS:
Há uma crescente polarização política entre o governo espanhol do PSOE e a Igreja católica. A Conferência Episcopal Espanhola acaba de eleger para seu presidente do cardeal Rouco, arcebispo de Madrid, um dos líderes eclesiásticos que assume posições políticas claras de confronto com o atual governo espanhol, que pode ser reeleito no próximo domingo. Rouco derrotou o ex-presidente da Conferência, bispo de Bilbao, mais dialogante e menos intransigente. A novidade é que na história da Conferência Episcopal Espanhola, o presidente em exercicio é reeleito para um segundo mandato consecutivo. Por dois votos. Rouco derrotou Blásquez, bispo de Bilbao e atual presidente. O mesmo embate, num contexto diferente, se dá na Itália. Este embate é tema do artigo de Giancarlo Zizola, jornalista italiano, veterano vaticanista, publicada pela Agência ADISTA, 04-03-2008.
Eis o artigo.
O retorno com força da Igreja no cenário eleitoral, tanto na Espanha como na Itália, tornou menos ritualista o tradicional recebimento da celebração dos Pactos Lateranenses de 19 de fevereiro no Palazzo Borromeo, sede da Embaixada da Itália junto à Santa Sé, um porto franco entre as duas margens do Tibre, útil ao seu diálogo, principalmente em momentos de tensão como o atual. Não se pode negar que a Igreja católica vá assumindo um papel mais explícito do que no passado na confusa política italiana. De fato, seu poder de interdição concorreu para bloquear projetos de lei que qualificavam o programa de governo. Bravos, por exemplo, sobre os casais de fato e sobre o testamento biológico. Dia após dia foi se consolidando a sensação de uma retomada em mão clerical da liberdade política dos católicos, interceptando sua autonomia.
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Na cúpula vaticana, o cardeal vigário de Roma aparece entre os mais convencidos defensores da conveniência de contrapor-se ao temido desaparecimento do cristianismo jogando na fornalha midiática e no tumulto do político a imagem de uma Igreja de praça. Não importa se este paradigma de catolicismo demonstrativo revele, pelo simples fato de sua exibição, sua debilidade interior. Tende-se a remover a admoestação cara a Rosmini, recentemente beatificado, segundo o qual a sobreposição do poder religioso e do poder político desnatura a Igreja e enfraquece sua missão: “quando ela se faz árbitro da sorte humana, somente então ela é impotente – dizia o filósofo carnavalesco -, aquele é o tempo de sua decadência”.
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A suscitar perplexidade também em setores do episcopado italiano foi a previsão de que uma busca tão exorbitante de espaços privilegiados para os interesses confessionais corra o risco de prejudicar em definitivo o papel político – que ninguém contesta – da Igreja, a eficácia de suas orientações pastorais, espirituais e também sociais, até eliminar até as mais empenhativas posições do magistério conciliar e pontifício em matéria de liberdade política dos cristãos e de missão espiritual da Igreja.
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Bastou depois um simples advérbio, numa nota do Osservatore Romano, dedicada ao aniversário da Concordata, para romper o véu sobre a ansiedade e as trepidações suscitadas também nos Palácios do Vaticano por iniciativas consideradas intempestivas, se não imprudentes, de setores zelotas do mundo católico. Ao confirmar o princípio da distinção entre campo religioso e espiritual e campo civil, o jornal vaticano sublinhava aos 11 de fevereiro que a soberania do Estado não se estende ao terreno religioso, acrescentando um só advérbio: “E vice-versa”. Uma advertência evidentemente dirigida aos atores de um avanço de sinal integralista da esfera religiosa sobre a esfera política. Uma interpretação fundada também na advertência contextual do Osservatore, no sentido de manter distintas, nas valorações políticas e na mídia, a responsabilidade da Santa Sé daquela da Conferência episcopal italiana: um distanciamento sob alguns aspectos anormal, provavelmente tendente a frear outras exorbitâncias hierárquicas no cenário político.
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A partida está iniciada, o reino de Bento XVI está nos habituando às oscilações do sólio e às correções de rota. Parece que uma de suas dificuldades seja a de salvaguardar suas preocupações por uma retomada ética, na sociedade moderna, dos usos instrumentais dos poderes morais, hábeis para transformar os valores em votos, com o risco de que a própria primogenitura da Igreja seja fascinada e corroída nas derivas mundanas que enfraqueceriam a credibilidade de sua mensagem espiritual e tornariam suspeita sua contribuição ao diálogo entre as culturas, para a formação de uma autêntica consciência ética do país.
Leia na íntegra http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12515

As despesas militares do planeta estão ao mesmo nível do tempo da guerra fria

Deu no Resistir.Info:
por Michel Cabrol

A maior parte dos países do planeta aumenta a olhos vistos as suas despesas militares. Todos, salvo os países da União Europeia, inclusive a França. Em 2006 elas elevaram-se a 1.204 mil milhões de dólares segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), que é a referência no assunto. Isto equivale a 2,5% do PIB mundial. Este montante não era atingido desde 1988, época do fim da guerra fria. Representa uma alta das despesas de 3,5% em relação a 2005, e de 37% entre 1997 e 2006.
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Os 15 países mais gastadores em 2006. Neste contexto de escalada, as vendas de armas dispararam. Entre 1996 e 2005, os fornecimentos mundiais de armas haviam-se estabilizado em torno dos 55 mil milhões de euros. Em 2006, o volume dos fornecimentos cresceu para 67 mil milhões, ou seja, um salto de 21,8%. "Esta progressão corresponde a aquisições de armamentos de novas gerações que são materiais mais refinados e portanto mais caros que anteriormente", explica-se em Paris [1] . Em 2006, o mercado ficou sem fôlego ao passo que no período 1996-2005 manteve-se constante". Para 2007, a tendência permanece sempre para a alta. A Thales confirma o grande retorno da exportação no domínio da defesa. "2007 foi um bom ano. Todas as regiões do mundo aumentaram o seu esforço, com excepção da Europa", afirmou Denis Ranque em Janeiro uúltimo.

Alta tecnologias
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Todos os observadores prevêem que o mercado do armamento vai continuar numa rampa ascendente. Nomeadamente com a renovação de certos grandes equipamentos, como as frotas de aviões de combate. E também devido a novas estratégias: os estados-maiores repensaram seus equipamentos na sequência dos conflitos no Kosovo, no Afeganistão e no Iraque. Ao invés de tanques e dos helicópteros de ataque os estrategas privilegiam hoje "materiais muito mais móveis e aerotransportáveis".

[1] Este artigo está na página de negócios e estratégia de La Tribune, que não está aberta ao leitor da edição digital (só aos assinantes), parece ter sido produzido em resposta a um livro branco sobre a defesa a publicar em França. Este livro branco reflecte a nova posição do presidente, que estava na origem do seu conflito com Chirac. Sarkozy exige, desde a sua passagem em Bercy, economias orçamentais na defesa. O artigo de La Tribune destina-se a fazer entender que estamos num mundo perigoso onde conflitos de alta intensidade podem ocorrer. Assim, com o rigor orçamental previsto na próxima lei de programação, arriscamo-nos a perder definitivamente em relação ao Reino Unido e além disso há o risco de haver todo um novo material de alta eficiência que não poderíamos atingir. Apesar de este artigo insistir sobre certos aspectos perigosos do rigor orçamental para a indústria do armamento, ele não deixa de ser interessante. (Nota de Danielle Bleitrach)
21/Fevereiro/2008
Leia na íntegra em http://www.resistir.info/varios/armamento.html
O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/spip.php?article6063

Reforma tributária, por gotejamento

Deu no Correio da Cidadania:
Osiris Lopes Filho
O governo Lula escolheu o processo de produção e divulgação do seu pacote de reforma tributária: gotejamento. Diante da expectativa e necessidade de modificar um conjunto anárquico de tributos, caracterizado pela irracionalidade, complexidade e injustiça, as informações a respeito vão pingando gota a gota, parciais, sem sentido de globalidade, incompletas.

Pode-se imaginar o cenário. Os técnicos encarregados dessa matéria a misturar os ingredientes nos cadinhos. No desenvolvimento da produção, preparam uma amostra do que já fizeram, põem-na num conta-gotas e o ministro de plantão vai despejando o conteúdo das medidas para o público interessado, empresas e povo, que vão tomando conhecimento. Algumas já velhas, embora com rótulo moderno, como o Imposto Sobre Valor Agregado, designação que encanta os noviços do laboratório tributário. Panacéia bolada para engambelar os incautos e empresários afoitos, produto de aficionado ao que vem do estrangeiro, assimilado sem crítica, como quem compra pacotes em supermercados.
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A mudança do nosso parque produtivo, promovida pelas montadoras de veículos, geladeira, motores, apenava o produtor com o sistema de apuração do imposto, em que na nova fase o imposto da etapa anterior estava contido na sua base de cálculo. A vantagem da tributação não-cumulativa é a de neutralizar a pluralidade de etapas do processo produtivo e evitar a chamada verticalização da produção em único estabelecimento, para eliminar oportunidades de incidência do imposto.
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Foi um brasileiro, perseguido pela ditadura militar, Gerson Augusto da Silva, quem, por meio da Oficina de Finanças Públicas da Organização dos Estados Americanos, que dirigia, disseminou o Imposto de Valor Agregado pelos países da América Latina, a partir da experiência da reforma tributária realizada no nosso sistema tributário na década de 60, em que seu papel foi relevante. Reforma tributária realística, alterando detalhes, que, no seu somatório, implicou em grandes mudanças. Reforma feita, essencialmente, na legislação que disciplina os tributos, baseada em princípios e diretrizes orientadoras e em estudo da realidade, com os dados econômicos e simulações de tentativas e resultados.
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Em respeito à preservação das grutas, estabelecida pelo órgão de controle do meio-ambiente, está interditada a utilização de luz elétrica no seu interior, que, pelo calor que provoca, danifica as formações internas, em processo de desenvolvimento. Parece-me que, para facilitar os trabalhos nessa ambiência, estão colocando lá mão-de-obra técnica, cega, que transita com maior desenvoltura na escuridão. Aí, ocorre um outro detalhe operacional; por vezes pessoas, ditas iluminadas, por ato governamental, ministros, ali adentram e tropeçam desengonçados nas estalagmites ou batem com a cabeça nas estalactites, ou mesmo uns nas cabeças dos outros, como já registrou um presidente da Câmara de Deputados.
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Nesse habitat cavernoso, imune ao calor, principalmente ao provocado pelos debates e sem a luz solar, a proposta de reforma será fria, aquém das expectativas e necessidades.

Osiris de Azevedo Lopes Filho, advogado, professor de Direito na Universidade de Brasília – UnB – e ex-secretário da Receita Federal. E-mail: osirisfilho@azevedolopes.adv.br
Leia na íntegra em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1514/52/

Convocação de referendo acirra tensão política na Bolívia

Deu na ALAInet:
Igor Ojeda
O clima de crise política e de polarização na Bolivia se aprofundou ainda mais a partir do dia 28 de fevereiro, quando o Congresso Nacional, em meio a um cerco do edifício por parte dos principais movimentos sociais do país, aprovou a lei de convocatória de dois referendos nacionais, marcados para o dia 4 de maio: o aprobatório da nova Constituição e um dirimidor, através do qual a população irá decidir sobre o artigo do texto que trata o latifúndio.
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Durante a plenária, o legislativo aprovou também uma lei interpretativa sobre um parágrafo da Lei de Referendos, ficando determinado que a faculdade de convocar consultas departamentais é exclusiva do Congresso. As autonomias estão previstas na nova Constituição. No entanto, para o governo, os estatutos autonômicos propostos pela meia-lua são ilegais.

Enfrentamentos

A consulta de Santa Cruz seria realizada exatamente no dia 4 de maio. Como resposta à estratégia do governo, a oposição cogita antecipar seus referendos. Ao mesmo tempo, alguns setores de estudantes, e de classe média e classe média alta preparam atos “pela democracia”, inclusive em La Paz, forte reduto de Evo Morales.
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Para César Navarro, chefe da bancada de deputados do MAS na Câmara dos Deputados, o aprofundamento da polarização se dará principalmente porque a oposição está ganhando força regionalmente, “com um discurso excessivamente autonômico, democrático, e que conseguiu posicionar idéias negativas em relação ao nosso governo, como de que ele seria ditador, antidemocrático, fascista, totalitário, indigenista etc”.

Crescimento da direita

Segundo Rada, há um claro crescimento da direita e um correspondente enfraquecimento do MAS desde a vitória eleitoral de Evo Morales, em dezembro de 2005, que, para ele, se deu pela incapacidade do partido em empregar tal força social para impor seu projeto ao país.
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Diante da aprovação dos referendos pelo Congresso, a oposição passou a denunciar internacionalmente o “atropelo à democracia” supostamente levado a cabo pelo MAS. Já o Executivo denunciou ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas a existência de setores políticos e regionais que estariam conspirando contra a gestão de Evo Morales e que teriam desejos separatistas.

Separatismo

Calcula-se que, caso os referendo constitucional seja realizado, mesmo que o “sim” seja vitorioso, o “não” deverá ganhar nos departamentos da meia-lua. “Isso gerará uma polarização fortemente regional. Aí, novamente, voltará à mesa a possibilidade do separatismo, do autonomismo, que serão acelerados”, prevê o sociólogo Eduardo Paz Rada.
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Nesse contexto, Rada chama a atenção para um grave risco que poderá vir das forças de segurança do Estado. “As instâncias que têm a possibilidade de evitar qualquer excesso de separatismo são as Forças Armadas e a polícia. E tenho a impressão que, dentro delas, estão começando a surgir tendências divisionistas, que podem levar a uma situação muito mais caótica e instável na Bolívia”.

Aprovação foi a “única decisão possível”, afirma deputado do MAS

A decisão do Movimiento Al Socialismo (MAS, partido no governo) de aprovar os referendos constitucionais em meio ao um cerco do Congresso por parte das organizações sociais era a única possível no contexto político atual em que vive a Bolívia, de acordo com César Navarro, chefe da bancada do partido na Câmara dos Deputados.

Em 15 de fevereiro, governo e oposição haviam iniciado, no âmbito do Congresso, uma discussão sobre a compatibilização da nova Carta Magna com os estatutos autonômicos – lançados em dezembro pela meia-lua em resposta à aprovação da Constituição.
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Nesse contexto, segundo o deputado, o governo decidiu, em conjunto com os movimentos, pôr o texto constitucional em consulta popular. “Mais que uma decisão de impor algo, a opção que tomamos vai no sentido de proporcionar um novo mecanismo democrático de consulta. É uma medida de caráter fundamentalmente político-estatal, que delega a responsabilidade da solução da crise à sociedade boliviana”, explica.

Equilíbrio

Na opinião do sociólogo Eduardo Paz Rada, docente da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA), de La Paz, a aprovação dos referendos foi uma medida estratégica para o MAS e o presidente Evo Morales. “Os referendos autonômicos estavam posicionados como tema central e mais importante e, além disso, avançavam muito rapidamente, sem que existisse uma contraposição por parte do governo. Então, foi uma tentativa do executivo de equilibrar a iniciativa com os setores da meia-lua. Era imprescindível que o MAS tomasse decisões para que o tema da Constituição se posicionasse acima ou, pelo menos, no mesmo nível que os estatutos autonômicos”, analisa.
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Em relação ao cerco dos movimentos sociais ao Congresso, Isaac Ávalos, secretário-executivo da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), explica que, sem pressão, o Parlamento não funciona. “Fomos obrigados a tomar essa medida. Não fizemos cerco ao Congresso o ano inteiro. Bloqueamos quando eles não trabalharam”.
Igor Ojeda é correspondente do Brasil de Fato em La Paz.
Leia na íntegra em
http://www.alainet.org/active/22637〈=pt

terça-feira, 4 de março de 2008

A realpolitik de Uribe, golpe certeiro

Deu no Ralações Internacionais:
Tente imaginar guerrilheiros anti-Chávez escondidos na floresta amazônica, para lá da serra do Caparaó, em algum lugar de Roraima. Imagine se, por isso, o presidente venezuelano ordenasse uma incursão de tropas da Venezuela através da fronteira, usando seus recém-comprados jatos Sukhoi para dizimar a oposição armada, em pleno Brasil. Que grita não haveria por aqui, hein? E com razão.

Como a estridente agressividade de Chávez o transformou em vilão da vez na imprensa estabelecida, não vão faltar comentaristas que defendam como aceitável a invasão do território equatoriano por tropas da Colômbia, para um sensacional ataque aos guerrilheiros das Farc. É inaceitável. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está errado nesse episódio, e cabe ao Brasil condenar o desrespeito das Forças Armadas colombianas aos limites territoriais com o Equador.

Ah, o Equador e a Venezuela abrigam guerrilheiros em seu território, usado como refúgio seguro de onde partem agressões à Colômbia? O direito internacional prevê isso, e há instituições na América do Sul e na comunidade internacional para denunciar esse tipo de ação. Uribe poderia denunciar a conivência das autoridades vizinhas,e teria justo direito de cobrar apoio do Brasil nisso. Errado seria o Brasil não apoiá-lo caso agisse assim.

Não acredito em guerra nos Andes. Acuado pela tremenda crise econômica que seu modelo voluntarista criou, Chávez, claro, aproveitará a oportunidade para apontar mais um inimigo comum da sociedade venezuelana, o Uribe lacaio do Império, que invade os vizinhos na repressão aos opositores guerrilheiros. Se o discurso colar, a beligerância na retórica chavista vai ser ensurdecedora. E inócua, como costuma ser. Não há fato concreto que apóie algum tipo de conflito armado entre os dois países, e nem Uribe nem Chávez ~estão dispostos a serem o primeiro a jogar a pedra do outro lado.

Rafael Correa, do Equador, fez o que devia fazer, retirou seu embaixador de Bogotá, chamou o embaixador colombiano para exigir explicações, acusou Uribe de agressão. Tem um problem,a constrangedor a resolver, se forem verdadeiros os documentos capturados pelas forças de segurança colombiana, que mostram um estreitamento de relações entre as Farc e o governo equatoriano. Conversas com Raul Reyes, o vice-comandante e porta-voz das Farc morto na invasão, não são suficientes para dizer que Correa era conivente com a guerrilha. Reyes era o "embaixador" das Farc, e todos os países da região buscam contatos, sigilosos ou não, com as Farc para tentar um acordo de paz e desmobilização da guerrilha. Mas podem surgir outtros documentos comprometedores, e a posição do Equador tornar-se, no mínimo, incômoda.

Uribe agiu erradamente, mas deu um golpe de mestre. O governo colombiano (e outros, no continente) trabalha com a informação de que Marulanda, o grande chefe das Farc, está doente, e os grupos guerrilheiros enfraquecidos e sujeitos à desagregação. Com a invasão do Equador, matou não só o segundo no comando, como um dos principai8s ideólogos da guerrilha, Guillermo Enrique Torres, o "Julián Conrado". Sabiamente, já visou que não enviará tropas à fronteira, para onde Chávez e Correa dizem ter enviado regimentos armados. Menor o risco de algum incidente ter desdobramentos incontroláveis.

Na Colômbia, a esquerda já pede moderação. No Equador, porta-vozes das Forças Armadas informam que entregarão ao governo colombiano as três guerrilheiras que foram apenas feridas no ataque, e que estão em tratamento em um hospital militar na região. O Brasil _ país que vendeu à Colômbia os jatos (correção, a pedido do hermenauta: turbohélices! turbohélices!) usados no ataque, aliás, os nossos bravos Supertucanos _ pode ajudar a desarmar os conflitos, mas não pode cair na retórica chavista nem ignorar que Uribe transgrediu normas sagradas no convivio entre nações.

Correa, como Chávez, também passa por maus momentos na economia: inflação em alta, queda de investimentos, aumento do desemprego e desaceleração do produto interno bruto. POde querer aproveitar o incidente para desviar atenções da incomodada opinião pública equatoriana. Ou pode ter interesse em aplcara logo a crise, para concentrar-se na recuperação econômica.

Para o Brasil, além do desafio diplomático, o que sobra é o melancólico pesadelo em que se tornou o sonho de integração sul-americana. Se conseguir escapar das armadilhas políticas, o governo brasileiro pode até comer a crise pelas beiradas, tocando bilateralmente os projetos de infra-estrutura, de coperação técnica e econômica com os vizinhos, à espera de um melhor momento para falar em algum projeto continental.

Fica evidente, nesse momento, a posição privilegiada do Brasil, construída com a diplomacia condescendente dos últimos anos: o país é o único que tem franca interlocução e livre acesso em todos os governos do continente. A questão é, ainda, saber o que fazer com esse patrimônio.

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2º clichê: Na CBN, o especialista da Unicamp coronel da reserva Geraldo Cavagnari ressalta um fator importante para entender por quê é improvável que o envio de tropas à fronteira seja mais que um ato histriônico de Chávez: apesar da histeria em torno do armamentismo venezuelano, as Forças Armadas colombianas ainda são muito mais fortes e preparadas que as venezuelanas ou ecuatorianas. E têm as costas aquecidas pelos Estados Unidos. Os EUA endossam qualquer ato ofensivo contra a guerrilha apoiada pelo narcotráfico (ainda que Uribe tenha manchas sérias no passado, no que diz respeito a relações com o tráfico) , e adoriariam esse pretexto para desmoralizar o poderio bélico chavista.

Chávez, apesar do que dizem, não é bobo, burro ou maluco. E é militar, entende de estratégia. Não se lançaria num embate suicida.
Extraído de http://ralint.blogspot.com/2008/03/o-golpe-certeiro-de-uribe.html