O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910
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segunda-feira, 17 de março de 2008

Coisas da política: As listas e as prévias

Deu no Jornal do Brasil:
Mauro Santayana
Algumas idéias continuam a flutuar na atmosfera política. Uma delas é a da democratização da escolha dos candidatos aos cargos majoritários, mediante consultas prévias às bases partidárias. Principal partido de oposição, o PSDB divide-se em duas correntes eleitorais. O Partido da Social Democracia Brasileira nada tem a ver com seu nome - o que ocorre também com quase todos os outros partidos. Ao escolher Minas a fim de acolher o primeiro congresso, talvez tenham buscado associar o nome do novo partido ao velho PSD, criado pela inteligência política de Benedito Valadares, com a ajuda de alguns homens públicos e intelectuais mineiros. Ao encomendar, ao professor Mário Casasanta, a tarefa de redigir o rascunho do programa e estatutos do partido, em 1945, Benedito recomendou-lhe, que pusesse no texto "alguma coisa de comunismo, porque está na moda".
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No momento, tanto Aécio quanto Serra agem dentro dos ritos da elegância. Sob a necessária conveniência, a disputa não se expressa com clareza. Cresce a proposta de que o partido faça consultas prévias aos filiados. Se se fizerem como nos Estados Unidos, dificilmente um candidato de São Paulo será o escolhido. Como disse o ex-presidente Itamar Franco, o resto do Brasil não parece disposto a aceitar a continuação da hegemonia paulista por mais oito anos. Isso significaria um quarto de século de presença do estado no centro do poder da República.
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A Revolução de 30 surgiu, entre outros fatores, da rebelião contra a hegemonia econômica e política de São Paulo. Getúlio iniciou o processo de descentralização da economia, mediante a intervenção do Estado. Juscelino lhe deu continuidade, na Operação Nordeste. Lula, com dupla identidade - de nordestino e paulista - vem promovendo a ascensão social e econômica dos Estados pobres, mediante os programas conhecidos, ao mesmo tempo em que cultiva os banqueiros de São Paulo e é por eles cultivado. Entre os paulistas mais lúcidos - e eles são muito mais numerosos do que parece - existe a consciência de que chegou a hora de buscar, no resto do país, chefe de Estado que veja a nação como um todo. Essa postura eles a tiveram em 1984, quando somaram-se à candidatura de Tancredo Neves contra Maluf. Sabem que se não houver a descentralização de sua prosperidade, São Paulo continuará a atrair, para a inquietadora periferia de sua capital, a pobreza do resto do país - e, com a desigualdade, o desespero da violência.

Outra idéia é a da reforma política. Uma das recomendações do PSDB é a do voto em lista fechada. Nos países europeus que o adotam, a opinião pública se levanta contra o sistema, por sua natureza antidemocrática, porque confere ao arbítrio ditatorial das direções partidárias a escolha dos candidatos. Há dias, Juan Luis Cebrián - um dos fundadores de El País - publicava lúcida e concisa análise política, em que prega reforma constitucional para assegurar a democratização efetiva do sistema político espanhol. Entre outras de suas idéias, está a do fim da lista fechada e a adoção do voto aberto e uninominal, como ocorre entre nós. Os neoliberais brasileiros, com sua fobia ao povo, querem a lista fechada para consolidar o controle do poder econômico sobre os partidos e a República.
Leia na íntegra em http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2008/03/17/pais20080317001.html
ou em http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/481001-481500/481337/481337_1.html

domingo, 9 de março de 2008

O grande enigma chinês

Deu na Revista do Brasil:
Ao fazer a famosa observação – “Quando a China despertar, o mundo tremerá” –, Napoleão Bonaparte sabia do que estava falando
Por Mauro Santayana
Em 1816, ao regressar da China, lorde Amherst passou pela Ilha de Santa Helena, no Atlântico. Não havia ainda o Canal de Suez, e a rota para a China contornava a África do Sul, seguindo o caminho descoberto pelos portugueses. Os navios se abasteciam ali de água potável e de alimentos. Era também a prisão de Napoleão Bonaparte, depois de ter sido derrotado pelos ingleses na batalha de Waterloo. Era a segunda vez que a missão inglesa fracassara ao tentar estabelecer relações diplomáticas com o governo imperial da China. A primeira fora conduzida por lorde McCartney. O motivo dos insucessos fora singelo: os ingleses se recusaram a expressar sua obediência ao imperador, mediante a cerimônia do kou-tou, que era prostrar-se e bater nove vezes com a cabeça no piso.

Amherst visitou o prisioneiro. Ao saber que a missão do interlocutor à China fora frustrada, Napoleão fez a observação famosa: “Quando a China despertar, o mundo tremerá”. Sabia do que falava. A China era inquietante realidade. Durante milênios, o “Celeste Império do Meio” estivera tão distante quanto o outro lado da lua. E não era só a China, eram todos os “amarelos”: japoneses, coreanos, indochineses, que, no fundamental, tinham a mesma forma de ser, pensar e agir.

Os ingleses se vingaram da “desfeita” do imperador. A partir de modesta concessão dos chineses, iniciaram o comércio nas costas do grande país. Favorecidos pela astúcia, incrementaram o uso do ópio (então restrito a alguns potentados) pela população em geral, mediante o contrabando do narcótico, produzido na Índia, sob controle britânico. Quando o governo chinês percebeu que o ópio estava corrompendo e debilitando seu povo, proibiu o consumo e mandou queimar várias toneladas do produto, estocado pelos ingleses em Cantão. Em represália, os ingleses promoveram duas guerras contra a China; a primeira de forma isolada e a segunda com a participação dos franceses.

A ocupação da China foi odiosa. Os colonizadores viviam em bairros fechados. Nesses bairros era proibida a entrada de chineses e cães, nessa ordem. A exploração do trabalho dos nativos não se limitava a seu território. Milhares eram “vendidos” pelos traficantes aos países europeus e, por algum tempo, aos Estados Unidos; os homens para o serviço braçal, remunerados a centavos por dia, e as mulheres para os bordéis das grandes cidades industriais.

Pouco a pouco, e por influência das idéias ocidentais, alguns intelectuais chineses começaram a se organizar para livrar-se da dinastia submissa, construir uma república e restabelecer a soberania. A primeira organização revolucionária, a T’ung-meng Hui (Liga Revolucionária Unida), se fez no Havaí, onde se encontrava a maior concentração de trabalhadores chineses no exterior. Liderou-a o médico Sun Yat-sen, que proclamaria a República em 1912.

O grande desenvolvimento econômico e militar da China, a partir de 1949, com a definitiva vitória de Mao Tsé-tung (ou Mao Zedong, conforme nova e discutida grafia), e acelerado pelo seu sucessor Deng Xiaoping, inicia uma grande desforra histórica. Os chineses, com astúcia, esforço e inteligência política, prepararam-se nos últimos decênios com o propósito de vencer seus adversários, no campo político e econômico – entre eles, o Japão, particularmente cruel na ocupação da Manchúria e de Xangai –, e voltar a ser o Grande e Invencível Império do Meio.

Os chineses já ocupam, com o comércio e a influência política, grande parte da Ásia e da África. O Japão se inquieta com o crescimento da China e tem estreitado ligações com os Estados Unidos. Os norte-americanos se encontram sitiados por uma força ponderável dos chineses: o dinheiro. A China é credora de US$ 1 trilhão dos Estados Unidos. Esse dinheiro, de acordo com a denúncia do ex-senador George McGovern, foi gasto na guerra contra o Afeganistão e o Iraque. À China de hoje não interessa o confronto com o Ocidente. Sua estratégia, elaborada por mais de 50 séculos de História, tem sido erguer muralhas para sua defesa. A muralha de hoje é a do desenvolvimento industrial – e militar.
Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e de diversas publicações.
Extraído de http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm acesso em 09 mar. 2008.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A nova crise do capitalismo

Deu na Revista do Brasil:
O
governo deve inspirar-se em Roosevelt: o Estado deve agir, criar empregos e ampliar o
mercado interno. E manter o Brasil longe de sucumbir à crise mundial, como torce a oposição
Por Mauro Santayana
O mundo se encontra em suspenso, com a crise iniciada com a queda da Bolsa de Nova York. As
medidas tomadas pelo governo norte-americano, a fim de conter o desabamento do mercado
financeiro, se mostram débeis, frente ao temor de uma recessão globalizada como a dos anos 30,
vencida corajosamente por Roosevelt, com o New Deal. O jornalista William Greider, em denso
ensaio sobre o FED (o Banco Central de lá), mostra como o controle monetário é instrumento de
domínio do capitalismo. “Acima de tudo”, diz, “a moeda é uma questão de fé.” É a mais bem
elaborada das convenções humanas.
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Quando a moeda era metalizada – ouro, prata ou cobre –, tinha referência sólida. Valia o peso.
Hoje, quase nem circula. Usamos cartões de crédito, cheques, transferências eletrônicas. A moeda
é convenção na qual devemos acreditar, mas perde o valor se seu emitente (o emitente do cheque
ou da nota promissória, ou o Estado emitente do papel-moeda e outros títulos) perde a
credibilidade.
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Embora o peso maior da guerra tivesse sido o da União Soviética, que perdera 20 milhões de
pessoas no conflito, a liderança dos aliados se encontrava com os Estados Unidos. Essa liderança foi
tão arrogante naquele momento – oito meses antes da chegada dos russos a Berlim –, que Stalin
decidiu não assinar o acordo. Decidiu-se que o dólar seria a moeda de reserva e de referência
mundial, garantida pelo ouro do Tesouro norte-americano, na base de US$ 35 por onça troy (mais
ou menos um dólar por grama de ouro). Estabeleceu-se que os EUA pagariam em metal a
qualquer país portador de reservas em dólar, quando isso lhes fosse exigido.
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Com US$ 9 trilhões de dívida em títulos do Tesouro, US$ 1 trilhão em títulos em poder da China e
despesas de quase US$ 300 milhões ao dia com as guerras do Iraque e do Afeganistão, era natural
que se previsse uma crise. Como a queda americana significará a erosão de todo o sistema, Europa
e China, credores dos americanos interessados em preservar seus ativos, ajudarão. Mas de crise
em crise o sistema inteiro acabará ruindo. Mais para o bem do que para o mal.

No Brasil, a oposição tudo faz para imobilizar o governo e torce para que a crise nos atinja. Pouco
lhe importa se o Brasil sucumbir. O governo deverá inspirar-se na ação de Roosevelt. Para salvar
o capitalismo, é necessária a intervenção do Estado na criação de empregos e ampliação do
mercado interno.

Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo
Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e de diversas
publicações

Leia na íntegra em
http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O que o Império teme

De na Revista do Brasil, n. 18, nov. 2007:
O surgimento de um novo pólo de influência mundial reunindo os emergentes incomoda os EUA
Por Mauro Santayana
As negociações entre os países ricos, liderados por Estados Unidos, França e Alemanha, e os países em desenvolvimento, iniciadas em Doha, em 2001, se encontravam, no fim de outubro, em seu momento crucial. Os ricos acusavam o Brasil de “intransigência”, que ameaça o acordo que vem sendo tecido há seis anos “por nossa iniciativa”. Os Estados Unidos temem a liderança do Brasil entre as nações emergentes, junto com Índia e África do Sul, para a criação de outro pólo de influência mundial e de resistência contra a hegemonia norte-americana, já ameaçada pelo retorno do nacionalismo russo e pela ascensão da China.
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É nesse período que Washington inicia a destruição sistemática do Iraque, com bombardeios ordenados pelo primeiro Bush, para assegurar o fornecimento de petróleo. Mesmo sob Clinton os iraquianos continuaram a sofrer bloqueio comercial e ataques aéreos. A fraude eleitoral na Flórida, em 2000, foi novo retrocesso na democracia americana. O projeto do segundo Bush era criar fato emocional que unisse o povo para novas conquistas e a continuação de seu domínio, mediante a guerra sem fim. O atentado de 11 de setembro de 2001 pôs em xeque a invulnerabilidade do território norte-americano. A opinião pública, liderada por personalidades influentes da sociedade, cerrou fileiras em torno do presidente. Em editorial, o New York Times, diante do que considerou um momento dramático, resumiu a precária legitimidade do republicano, sua personalidade frágil, seu despreparo e sua eleição duvidosa à condição de fatalidades, em hora dramática como aquela. Bush foi à guerra e manipulou a mídia mundial. Desqualificou a ONU e ignorou os protestos do mundo: invadiu o Iraque sob a desculpa de que Saddam dispunha de armas de destruição em massa e estaria envolvido no atentado – o que se provou ser mentira.
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Nesse quadro, o Brasil corajosamente assumiu a resistência econômica, organizando o grupo dos 20 para exigir equilíbrio comercial entre ricos e pobres, a fim de diminuir as tensões internacionais. Essa articulação dos emergentes, de acordo com Lula, terá a provável adesão da gigante Indonésia – uma vitória da diplomacia brasileira –, o que assusta agora os donos do mundo.
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A História mostra que todos os impérios desabam quando a desigualdade interna atinge níveis insuportáveis, como ocorre hoje nos Estados Unidos.
Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e articulista de diversas publicações.
Leia na íntegra em http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm

domingo, 30 de setembro de 2007

Palmas para o grande traidor

Deu na Revista do Brasil:

O Estado nacional sofreu uma sucessão de golpes a partir da segunda metade do século 20. O ápice da agressão foi a chegada de FHC, que proclamou, arrogante, o seu fim
Por Mauro Santayana

Dois fatos de agosto chamaram a atenção do colunista. O primeiro é o processo contra parlamentares de quase todos os partidos, que se valeram de recursos de origem espúria, no episódio conhecido como “mensalão”. Quando redigíamos este texto, o STF começava a aceitar a denúncia contra a diretoria do Banco Rural. É um bom começo, tendo em vista os privilégios do sistema financeiro nacional. Espera-se que, seguindo esse fio, possamos chegar à punição dos que contribuíram para a remessa ilegal de recursos ao exterior, em caminhões fechados, pela fronteira de Foz do Iguaçu, usando o Banestado e outras instituições menores.
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No dia em que houver bom senso em nosso país, o Banco Central estará sob as rédeas rigorosas do Executivo e do Parlamento. Tal como ocorre nos Estados Unidos, seus diretores terão de executar a política decidida pelo Estado – e não ditar ao Estado a política a ser seguida. Em nosso país, o Banco Central tem servido apenas para engrossar os lucros das instituições privadas, como mostram os balanços publicados. Espera-se que o processo aberto no STF vá além dos parlamentares do PT – que são o alvo preferencial da mídia – e, seguindo os passos de Marcos Valério, chegue aos tucanos que o inventaram e dele se serviram em primeira mão, durante o governo de Eduardo Azeredo, em Minas Gerais.
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Vargas, não obstante ter governado ditatorialmente, foi o estadista que modernizou o Estado nacional, abriu caminho à ocupação do território, estabeleceu a infra-estrutura para o desenvolvimento industrial, com a Vale do Rio Doce, a Siderúrgica Nacional, a Petrobras e a Eletrobrás. E, ao criar as leis trabalhistas, começou a redimir o povo brasileiro da servidão às oligarquias, a que vinha sendo submetido desde os governadores gerais. O nacionalismo desenvolvimentista sofreu uma sucessão de golpes, sendo o ápice de sua decadência a chegada do sr. Fernando Henrique Cardoso, que proclamou, arrogante, ter-lhe dado fim no final do século 20.
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O desdém absoluto vem no final de suas declarações a João Moreira Salles. Dona Ruth Cardoso, presente à entrevista, conta que, certa vez, em Buenos Aires, foram reconhecidos por um ônibus de turistas brasileiros, que desceram e passaram a fotografar o casal. “Deviam ser todos petistas, Fernando, e você não passava de uma atração turística”, comenta a ex-primeira dama. Segundo a matéria, FHC não se dá por vencido. “Em restaurantes de Buenos Aires eu sou aplaudido quando entro. É que eu traí os interesses da pátria, então eles lá me adoram.” Sem comentários.

Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil, do qual foi colunista na Europa (1968 a 1973) e articulista free lancer de diversas publicações Leia na íntegra em http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm

domingo, 19 de agosto de 2007

Coisas da Política: Nação e Estado: o caso chinês (1)

Deu no JBonline:
Mauro Santayana

Até o século 18, a China foi, para a maioria dos europeus, alguma coisa como o outro lado da Lua. Era o mundo de miséria e de sabedoria sem proveito, carregada de distantes imagens e metáforas estranhas. Não obstante esse isolamento, a China, com sua imensa população e extenso território, era vista com certo temor. Ao estabelecerem relações precárias com o Império do Meio, depois de duas tentativas frustradas, os ingleses cuidaram de quebrar a resistência moral de seus povos, mediante a disseminação do ópio. Quando os governantes proibiram o tráfico da droga, produzida na Índia e ilegalmente comercializada no país, a Grã-Bretanha lhes moveu a guerra colonial, em nome do livre-comércio.
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São muitos os que procuram creditar o surpreendente desenvolvimento econômico da China ao neoliberalismo. É ver a realidade pelo avesso. Os chineses, que não tiveram pressa, aprenderam, durante os últimos dois séculos, a entender o inimigo, a usar suas armas e o seu conhecimento. Enquanto, no mundo inteiro, as elites dirigentes destruíam o Estado Nacional, os chineses o reforçaram. Podemos contestar o sistema, sobretudo porque o pensamento ocidental não é exatamente o dos chineses. A idéia do Ocidente foi uma revolução no mundo antigo, exatamente por fundar-se nos sentimentos de liberdade e de igualdade. Por enquanto, e provavelmente só por enquanto, a visão chinesa é outra. Desde a adoção do marxismo, ajustada à sua visão do mundo, a China imita o Ocidente, mas, nem tanto. Não se pode dizer que haja ali, agora, o laissez-faire em sua reabilitação neoliberal. A China recebe investimentos e tecnologia estrangeira e oferece mão-de-obra barata, mas o Conselho de Estado, que controla tudo mediante os órgãos do governo, estabelece os planos, as metas econômicas e a administração da moeda, sem abrir mão de sua inteira soberania, assegurando, para o Estado, a maioria acionária em todas as atividades estratégicas. A soberania se funda na eficiência e na vigilância do governo nacional. Os dirigentes do país sabem explorar, assim, e para proveito de seu futuro, a ambição de lucro do capitalismo. Com os resultados obtidos, no crescimento da economia e na ampliação do conhecimento, a China prossegue no caminho histórico de recuperação do orgulho nacional, anterior à humilhação imposta pelos colonizadores europeus. É a vitória do Estado sobre a globalização.

Vendo o mundo da Ilha de Santa Helena, Napoleão pôde dizer ao embaixador lorde Amherst, que voltava, em 1816, da segunda das frustradas missões inglesas à China: "Quand la Chine s'éveillera, le monde tremblera".

Mauro Santayana escreve nesta coluna aos domingos. Leia na íntegra em http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2007/08/19/pais20070819002.html

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O protesto de Dória Jr.

Da Agência Carta Maior :

Colunistas| 31/07/2007 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Temos que entender a ira de certas parcelas da classe média. A situação lhes é ainda favorável, mas elas se sentem estimuladas, pelo preconceito contra o operário, a organizar-se para os protestos vazios.

O Sr. João Dória Júnior é um promotor de eventos, e vive disso. Não consta que ele tenha promovido quaisquer eventos, sem levar algum – entre eles a passeata de madames, com seus respectivos cães, pelas ruas de Campos do Jordão. São notáveis os encontros anuais de celebridades que organiza na ilha de Comandatuba, pagos pelas bolsas mais recheadas e generosas do grande empresariado nacional e multinacional. Seu pai, parlamentar nacionalista, foi também grande publicitário. O Sr. Dória Júnior, ligado ao setor, sabe o valor das comissões, e sempre leva a sua parte, como é natural nesse tipo de atividades. Por isso, cabe a pergunta: alguém teria pagado pela organização da passeata dos ricos e dos alienados da classe média, realizada domingo em São Paulo? Quem seriam esses financiadores?

Business is business, e cada um se vira como pode. Mas não vale a pena discutir o Sr. Dória Júnior, cujas atividades são públicas. O que temos a considerar é o que está por detrás desses movimentos. Depois de várias tentativas, como as do Movimento “Quero Mais Brasil”, insistem nos mesmos métodos usados pela direita em nosso país em 1964 e no Chile, em 1973. Mas só os néscios podem encontrar semelhanças entre aqueles tempos e os nossos. É bom começar pela situação internacional. Naqueles anos, em plena guerra fria, os Estados Unidos, assustados com a perspectiva de que o exemplo de Cuba se alastrasse pelo continente, empenharam-se em comprar os parlamentos e os exércitos de todos os países. O pai do Sr. Dória foi dos que denunciaram a ação dos agentes norte-americanos e seus cúmplices nativos e, por isso, teve seu mandato cassado. Hoje, a situação é outra. Embora se preocupem com a Venezuela de Chávez e com a Bolívia de Morales, os norte-americanos não se encontram tão preocupados assim com o Brasil. Seus negócios não são ameaçados aqui, mesmo porque eles perderam a posição que tinham no passado, tendo em vista a invasão dos capitais ibéricos à América do Sul. Eles tentam agora estabelecer melhores vínculos, comerciais e políticos com o Brasil, e contam com o governo Lula, que lhes está abrindo a perspectiva de contar com um vasto canavial em terras nacionais. Ao contrário do que se pensa, eles farão tudo para garantir a estabilidade do atual governo, em que podem confiar.

Há quem veja, na crise aérea, alguma coisa parecida ao lock-out dos caminhoneiros no Chile de Allende. É preciso lembrar que Allende procurava construir realmente um sistema socialista no Chile. Como era democrata, acreditava, sinceramente, que era possível realizar o seu projeto sem violar o sistema eleitoral republicano. Contava com o apoio das grandes massas populares que se sentiam estimuladas a defender a nova dignidade adquirida. Estive em Santiago em março de 1973, quando se realizaram as últimas eleições parlamentares vencidas pela esquerda. A situação econômica, infelizmente, era desastrosa, em conseqüência da intervenção solerte dos Estados Unidos e da fuga de capitais que se seguiu. Amedrontados, os pequenos burgueses deixavam o país, e era possível comprar apartamentos por menos de mil dólares em Santiago. O abastecimento era precário, mas os trabalhadores não haviam perdido nada – mesmo porque, em qualquer lugar de Nossa América, os trabalhadores quase sempre não têm o que perder. Ao contrário, estavam, mesmo com as dificuldades do mercado, comendo melhor.

Recordo-me de haver visitado, em seu gabinete, o Ministro do Trabalho, Luis Figueroa, que eu havia conhecido em Praga anos antes. Figueroa, como velho comunista, sentia o perigo no ar. Tentava conter os extremistas, muitos deles agentes provocadores a serviço de Washington. Ele me disse que a economia chilena era vulnerável, baseada na mineração, cujos preços estavam sob controle dos cartéis dos grandes compradores, os principais jornais chilenos se encontravam sob o comando das grandes famílias, aliadas aos ianques. E que a pequena classe média, que antes parecia solidária com os trabalhadores, estava, em razão disso, mudando de orientação. Era necessária uma decisão rápida: ou se impunha logo o sistema socialista, ou se moderavam o discurso e a ação do governo. O fato é que ele via incompatibilidade entre o processo eleitoral, já viciado, e o projeto de socialismo. O aprofundamento das medidas revolucionárias não lhe parecia possível, porque não se podia confiar na fidelidade das Forças Armadas chilenas. Sai de seu gabinete certo de que o sonho acabaria logo, depois de termos almoçado frugalmente, em sua própria mesa de trabalho, com os dois pratos de comida trazidos de um restaurante popular, próximo do Ministério.

Ao despedir-me, Lucho, como era conhecido, abraçou-me dizendo “a ver se todavia nos vemos en la vida”. Não nos vimos. Exilado na Suécia, Luis Figueroa morreria três anos depois. Naquele clima, não foi difícil aos golpistas manobrar com as minorias da direita organizada.

No Brasil, seja por que razões for, a situação é outra. Embora os problemas sociais ainda sejam graves, com a disparidade terrível entre ricos e pobres e a acumulação acelerada do capitalismo, a miséria está sendo combatida. É claro que seria melhor dar empregos do que subsídios da Bolsa-Família, mas – conforme dizia Herbert de Sousa, o Betinho, quem tem fome, tem pressa. Pouco a pouco estamos vencendo dificuldades muito antigas, como a da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança é a mais efetiva ação de solidariedade de nossa História, com o envolvimento da própria população pobre.

Temos que entender a ira de certas parcelas da classe média. Elas têm vivido como vivem os ricos europeus. Contavam – e ainda contam, mesmo com menos facilidade – com servidores domésticos dóceis e mal pagos. Durante os governos militares, puderam comprar apartamentos e construir casas com juros subsidiados pelo BNH. Durante o governo passado, puderam consumir mercadorias importadas a preços irrisórios, em conseqüência de moeda supervalorizada pelo artifício dos mais altos juros do mundo. A situação lhes é ainda favorável, mas elas se sentem estimuladas, pelo preconceito contra o operário, a organizar-se para os protestos vazios.

O apelo contra a corrupção é o mais cínico de todos. Temos o dever de combater toda e qualquer corrupção de todo e qualquer governo. Há ladrões no governo Lula? Que os identifiquemos e os denunciemos ao Ministério Público e à Polícia Federal. Devem ir para a cadeia, como quaisquer delinqüentes. Mas os partidos que estão, por detrás do Sr. Dória Jr., manipulando a alienação e a desinformação da classe média, não têm lastro moral para combater a corrupção. Todos eles tiveram e têm os seus corruptos. No dia em que soubermos o que houve durante o governo chefiado pelo PSDB, o mundo cairá sobre as nossas cabeças. O que se dizer do comportamento ético do PFL, que um dia foi PDS; do PDS que um dia foi Arena; da Arena que um dia foi UDN?

Que desfilem as madames, se possível levando seus cãezinhos de estimação. O Sr. Dória Júnior que fature o que puder faturar em sua atividade de promotor de festas. Só podemos discordar do verbo usado. Uma coisa é “cansar-se” de ver um trabalhador no poder. Outra é cansar-se, como se cansam os operários e lavradores, de trabalhar a vida inteira e aposentar-se com menos de um salário mínimo. Os agitadores da classe média alta não podem estar cansados, pelo simples fato de que não sabem exatamente o que é trabalhar.

Enquanto eles passeiam, com cães ou sem cães, o Brasil nada deve ao FMI, a dívida externa é inferior às reservas internacionais, as exportações crescem, e o povo vive bem melhor. E, mais ainda, os empresários nacionais (com a exceção dos incompetentes) estão satisfeitos com a administração da economia.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Extraído de http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3686 acesso em 01 ago. 2007.