O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade.
Joaquim Nabuco, 1849-1910

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Pochmann e o freio do Banco Central

Deu no Correio da Cidadania:
Escrito por Altamiro Borges
Em recente entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, o economista Marcio Pochmann, que hoje ocupa a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), confirmou os boatos de que se intensificou a luta de idéias no interior do atual governo sobre os rumos da economia. As mudanças promovidas nesta área no segundo mandato do presidente Lula, com a indicação de renomados intelectuais de visões desenvolvimentistas – como o próprio Pochmann, João Sicsú, Paulo Nogueira Batista Jr. e outros – abalou o "pensamento único" ortodoxo que deu as cartas na primeira gestão. As divergências hoje são explícitas e revelam uma titânica queda de braço.
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"Pisar no freio ou no acelerador?"
Em sua opinião, o Brasil está diante de um dilema estratégico devido aos problemas da economia mundial. "Pisa no freio, eleva a taxa de juros e corta gastos? Ou pisa no acelerador?". Ele avalia que hoje há maior consenso sobre a urgência de se apostar no crescimento. Para isto, é necessário "recompor a capacidade de regulação do Estado", ter "um projeto de desenvolvimento nacional", cortar as taxas de juros e garantir os investimentos na infra-estrutura. "O desafio para sustentar o crescimento é fazer o deslocamento, com cuidado, do que está hoje na ciranda financeira para o investimento produtivo". Mas, mesmo animado, ele não subestima as resistências, inclusive as internas. E dá nome aos bois: "Queremos pisar no acelerador, o problema é o Banco Central".
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Sabotagem explícita do BC
Diante do cenário de crise nos EUA, que deve abalar a economia mundial, o presidente Lula terá que tomar, mais cedo do que tarde, um lado na briga de titãs entre os "desenvolvimentistas" e os neoliberais. Não poderá ficar muito mais tempo na postura de chefão do "condomínio de classe" do Palácio do Planalto. Até porque o BC, liderado pelo banqueiro Henrique Meirelles, insiste em desafiar os planos de desenvolvimento do governo, inclusive o PAC. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), de fevereiro, já "sinalizou" que elevará a taxa básica de juros, a Selic. Com a desculpa da recessão nos EUA, o BC opta por conter o crescimento.
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Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).
Leia na íntegra em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1426/58/

É o Estado, estúpido!

Deu no Correio do Brasil:
Por Emir Sader - do Rio de Janeiro
O clima político brasileiro continua agitado, com a reiteração das polarizações produzidas desde
as denúncias de 2005 sobre o que a imprensa convencionou chamar de “mensalão”. De um lado, os
partidos de oposição, com seu núcleo coesionador – PSDB e DEM – acompanhados de partidos aliados,
como o PPS e tendo no bloco monopolista da grande mídia privada seu carro-chefe -, de outro o
governo e expressões da mídia alternativa.
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Então de onde vem e a que corresponde essa virulência da oposição ao governo? Por que até mesmo uma
parte significativa do grande empresariado, atendido pelo modelo econômico, se soma à campanha
opositora? Por que a afirmação de setores radicalizados da esquerda de que se trata de um governo
neoliberal não consegue dar conta do enfrentamento central do campo político em todo o período
político atual? O que está em jogo? O que se disputa, além de cargos eleitorais?
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O que incomoda centralmente à oposição, refletido nas manchetes e campanhas da imprensa opositora,
presente nos seus colunistas, soldados das causas do bloco direitista de oposição? A alta taxa de
juros? A lentidão na reforma agrária? O incentivo aos agro- negócios e o uso extensivo dos
trangênicos? A injusta tributação, que concentra renda, ao invés de redistribuir? A repressão às
rádios comunitárias? A falta de demarcação das terras indígenas? A não abertura dos arquivos da
ditadura?
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A “livre circulação do capital” segue sendo a utopia da direita. Que o capital circule e a
sociedade se povoará de felicidades! Que o Estado seja reduzido à sua mínima expressão: sem
impostos, sem funcionários, sem leis, sem instituições políticas, sem partidos, que as eleições
sejam o mais parecido possível a um shopping-center e os candidatos a vendedores de mercadorias,
a ideologia reduzida a marketing, o cidadão transformado em consumidor, os direitos em bens
negociáveis na compra e venda, a sociedade identificada com o mercado.
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A plataforma da direita tem, como primeiro item, a diminuição dos impostos, base econômica do
Estado. Daí a campanha contra a CPMF, contra o “inchamento” do aparelho de Estado, contra as
normas estatais – que atrasariam, por exemplo, com as normas ambientais, a liberação de licenças
de investimentos, contra os aumentos de salários dos servidores públicos. Pela independência do
Banco Central, pelo superávit fiscal.
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As classes dominantes que sempre detiveram poder sobre o Estado, ressentem não poder fazê-lo a seu
bel prazer. Na última vez que haviam perdido o controle sobre o aparelho de Estado – no governo
Jango, de 1961 a 1964, há quase meio século – se puseram imediatamente a preparar o golpe militar,
com o apoio desses mesmos órgãos de imprensa – Folha de São Paulo, Estadão, Globo, entre outros.
Recuperaram o poder sobre o Estado, que foi militarizado e se colocou completamente à disposição
do grande empresariado privado nacional e estrangeiro.
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Acostumadas a usar o Estado como “comitê executivo das classes dominantes” – conforme a expressão
de Marx no Manifesto Comunista – acusam o golpe de perder esse controle absoluto. Seguem ocupando
espaços determinantes no aparato de Estado – a começar pelo estratégico Banco Central -, além de
serem contemplados por créditos fáceis e incentivos amplos, mas para quem sentia o Estado como seu
território, para nomear a quem quisessem, privatizar o que desejassem, acusam o golpe e se tornam
raivosamente e totalitariamente opositores furibundos.
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A campanha de denúncias morais vai na mesma direção de criminalizar o Estado, quando os maiores
escândalos contemporâneos são protagonizados por empresas privadas, entre elas os bancos. Não
importa o que seja, como seja, são os neo-conservadores no Brasil, defensores do mercado contra o
Estado – o verdadeiro tema de disputa, cuja importância explica a virulência das agressões
opositoras, na sua ânsia de recuperar o que consideram seu, por definição – o Estado brasileiro.
Emir Sader é jornalista e escreve para o Blog do Emir
Leia na íntegra em
http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=133963

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Entre a abelha e o rinoceronte

Jacques Távora Alfonsin*


Um dos porta-voz dos proprietários rurais do Rio Grande do Sul manifestou indignação pública pelo fato de o Movimento das Mulheres Camponesas ter recebido um auxílio em dinheiro da União, no valor de R$492.000,00. Sua revolta era motivada pelo fato de o dito Movimento ter sido indiciado pelos danos sofridos pela Aracruz em Barra do Ribeiro, no ano de 2006, durante um protesto coletivo.

Quase ao mesmo tempo, segundo o site Terra de 25 de janeiro, a bancada ruralista no Congresso Nacional negociava com o Governo da União moratória de parte de uma dívida de R$140.000.000.000,00 (cento e quarenta bilhões de reais) do chamado “setor agrícola.”

Vale a pena compararem-se tais valores. O primeiro é mais de 284.000 vezes menor do que o segundo! Este, se fosse quitado agora, daria para cobrir o rombo inteiro da previdência social do país, melhorar consideravelmente os nossos serviços públicos de saúde, educação, segurança, levar habitação popular para o meio rural, realizar a sempre prorrogada reforma agrária, entre muitas outras coisas.

Se a parte da dívida a ser coberta pela moratória for para pequenos proprietários rurais, qualquer pessoa compreenderá, mas o histórico da bancada reivindicante não anima uma tal conjetura. Duas coisas, todavia, são certas. A primeira é a de que um calote daquele tamanho não escandaliza tanto como o tal auxílio dado ao MMC. A segunda é a de que esse Movimento não é responsável pela contratação dos jagunços que matam as lideranças populares no campo, como a CPT comprova anualmente, a exploração do trabalho escravo em volume bárbaro de vítimas, conforme a agência repórter Brasil de notícias denuncia na Internet, a grilagem latifundiária de terras e os obstáculos pseudamente jurídicos opostos à execução da reforma agrária, como o congelamento dos índices de produtividade atestam.

Isso tudo poderia servir de aviso a quem critica essas mulheres que as causas sociais de outras indignações têm fundamentação ética bem mais justificada e respeitável. Num quadro conjuntural como esse, que perpetua a miséria coando a abelha que a combate, para deixar passar o rinoceronte que a ignora, urge denunciar-se que este tem muita força mas enxerga pouco, quando menos para que ele saiba não ser unânime a aceitação passiva e subserviente das injustiças sociais que patrocina e reproduz.
* Advogado

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fúria do Opus Dei na América Latina

Deu no Vermelho:
por Altamiro Borges*


O jurista Ives Gandra da Silva Martins, principal expoente da seita fascista Opus Dei no Brasil,
está preocupado com o avanço das esquerdas na América Latina. Num artigo raivoso na coluna

Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, ele destilou ódio e preconceito contra Hugo Chávez,
Evo Morales, Fidel Castro e Lula. Ele aproveitou também para criticar a “falta de preparo” de
governantes pelo mundo afora e para oferecer seus cursinhos às novas gerações de dirigentes
políticos. “Neste mundo atormentado por falsas lideranças e fantástica mediocridade, creio que
valeria a pena a idéia, que propus em meu livro, de uma ‘escola de governo’... financiada pelos
governos”. No meio do arrazoado direitista, um merchandising para os seus lucrativos negócios!

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A influência da seita fascista
Após criticar o presidente Lula por elevar impostos que atingem principalmente os bancos, IvesGandra encerra a safra latino-americana com mais uma esquizofrenia fascistóide. “É de lembrarque os três presidentes são amigos de um ditador que fuzilou, sem julgamento – os homicídiosperpetrados nos famosos ‘paredóns’ –, muito mais pessoas que Pinochet”. Além de mentir sobre arealidade dos direitos humanos em Cuba, ele não consegue esconder a sua simpatia pelo regime ditatorial do Chile, que sempre teve o ativo apoio do Opus Dei. Até quando critica a “desastrada presidência de George W. Bush”, Ives Gandra alerta para “o risco do voto num outro populista despreparado para conduzir seus destinos” – talvez numa referência doentia a Barack Obama.
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“Catequese” na América Latina
Nos anos 50, a seita aliciou seus primeiros fiéis entre as velhas oligarquias que procuravam se diferenciar dos povos indígenas e pregavam o fundamentalismo religioso. Mas o Opus Dei só adquiriu maior pujança com a onda de golpes a partir dos anos 60. Até então, a sua ação ainda era dispersa. Segundo excelente artigo de Marina Amaral na revista Caros Amigos, “em 1970, Josemaría Escrivá [fundador da seita na Espanha] viajou para o México dando início às ‘viagens de catequese’ pelas Américas que duraram até as vésperas de sua morte em Roma, em 1975”.
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No Chile, a seita fascista foi para o ditador Augusto Pinochet o que fora para Augusto Franco na Espanha. O principal ideólogo deste regime sanguinário, Jaime Guzmá, era um membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Ela ainda apoiou os golpes e participou dos regimes autoritários na Argentina, Paraguai e Uruguai. Segundo Corbière, ela financiou o regime do ditador nicaragüense Anastácio Somoza até sua derrota para os sandinistas. Na década de 90, ainda deu “ativa assistência” à ditadura terrorista e corrupta de Alberto Fujimori, no Peru.
O fundamentalismo neoliberal
Outra fase “próspera” se dá com a ofensiva neoliberal nos anos 90. Gozando da simpatia do papa e de autonomia frente às igrejas locais, ela se beneficia da invasão de multinacionais espanholas, fruto da privatização das estatais. Muitas delas são influenciadas por numerários do Opus Dei. Segundo Henrique Magalhães, em artigo na revista A Nova Democracia, “a Argentina entregou as suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e energia à Telefônica, Repsol, Ibéria e Endesa. A Ibéria já havia engolido a LAN [aviação], do Chile, onde a geração de energia já era controlada pela Endesa. Os bancos espanhóis também chegaram ao continente neste processo”.
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Os tentáculos no Brasil
No Brasil, o Opus Dei fincou a sua raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, o segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral.
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Crescimento na ditaduraDurante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do candidato tucano a presidência em 2006. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Ele tinha quadros em posições importantes, mas sem uma atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.
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Ofensiva recente na região
Na fase recente, o Opus Dei fixou planos mais ousados para conquistar poder político na região. Em abril de 2002, participou ativamente do frustrado golpe contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela. Um dos seus fiéis, José Rodrigues Iturbe, virou ministro das Relações Exteriores do fugaz governo golpista. A embaixada da Espanha, governada na época pelo franquista Partido Popular (PP), de José Maria Aznar – cuja esposa é do Opus Dei –, deu guarita aos seus fiéis. Outro golpista ligado à seita, Gustavo Cisneiros, é o maior empresário das comunicações no país.
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A sua jogada mais ousada, porém, foi a tentativa de eleição de um seguidor no Brasil. Segundo Henrique Magalhães, “as esperança do Opus Dei se voltaram para Geraldo Alckmin, que hoje é um de seus quadros políticos de maior destaque. A Obra tentou fazer dele presidente para formar um eixo geopolítico com os governantes da Colômbia e do México”. A mídia e os tucanos até tentaram esconder esta sombria ligação. Numa sabatina à Folha de S.Paulo, Alckmin garantiu: “Não sou da Opus Dei; respeito quem é, mas não conheço”. Mentiu ao esconder suas estreitas relações com a seita fascista – desde seus tempos de infância, no convívio com seu pai e o tio-ministro do STF da ditadura, até às ilícitas “palestras do Morumbi”. Mas o povo não se deixou enganar. Isto explica as recentes lamúrias elitistas de Ives Gandra, o chefão do Opus Dei.
*Altamiro Borges, Miro é jornalista, Secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição)
Leia na íntegra em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=32039

O Monroe e o Garrincha

A América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e deixar para trás a sua
longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do sistema mundial. Nesta nova
situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística.

José Luís Fiori

Deu na Agência Carta Maior:
Em agosto de 1823, o ministro de relações exteriores da Inglaterra, George Canning, propôs ao embaixador americano em Londres, Richard Rush, uma declaração conjunta, contra qualquer "intervenção externa", na América Latina. O presidente James Monroe,apoiado no seu secretário de estado, John Quincy Adams, declinou o convite inglês. Mas três meses depois, o próprio Monroe propôs ao Congresso Americano, uma doutrina estratégica nacional quase idêntica à da proposta inglesa. Foi assim que nasceu a “Doutrina Monroe”, no dia 2 de dezembro de 1823. Como era de se esperar, os europeus consideraram a proposta de Monroe impertinente e sem importância, partindo de um estado que ainda era irrelevante no contexto internacional. E tinham razão: basta registrar que os Estados Unidos só reconheceram as primeiras independências latino-americanas, depois de receber o aval da Inglaterra, França e Rússia. E mesmo depois do discurso de Monroe, se recusaram a atender o pedido de intervenção dos governos independentes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México.
[ . . . ]
O “Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe”, ficou conhecido por sua defesa do direito de
intervenção dos Estados Unidos nos estados americanos “incapazes” de manter sua ordem
interna, e de cumprir com seus compromissos financeiros internacionais. Já não se tratava,
portanto, de uma estratégia defesa contra inimigos externos, como se pode ver, numa carta
enviada por Roosevelt ao seu secretário de estado, em maio de 1904: “Qualquer país ou povo que
se comporte bem, pode contar com nossa amizade cordial. Se a nação demonstra que ela sabe agir
com razoável eficiência e decência nos assuntos sociais e políticos, se ela sabe manter a ordem e
paga suas dívidas, ela não precisa ter medo da interferência dos Estados Unidos. Um mau
comportamento crônico, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços de civilidade
social podem requerer, na América ou em qualquer outro lugar do mundo, a intervenção de
alguma nação civilizada, e no caso do Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina
Monroe, pode forçar os Estados Unidos a exercer um poder policial internacional.” (Pratt, 1955: 417).
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Alguns anos depois, em 1914, no início da administração de Woodrow Wilson, o novo presidente
democrata agregou um novo item à política latino-americana dos Estados Unidos, com uma
simples frase de efeito, dita para um interlocutor inglês: “Eu vou ensinar estas republicas
sul-americanas a eleger homens bons” (idem, p:423). Com este objetivo, Woodrow Wilson
completou o desenho da estratégia continental dos Estados Unidos no século XX, baseada em três
direitos de intervenção – auto-atribuídos - em qualquer território do “hemisfério ocidental”: i) em
caso de “ameaça externa”; ii) em caso de “desordem econômica”; e, iii) em caso de “ameaça à boa
democracia”. No período da Guerra Fria, os Estados Unidos patrocinaram em todo continente,
guerras civis, intervenções militares e regimes ditatoriais contra um suposto “inimigo externo”.
Depois do fim da Guerra Fria, patrocinaram nos mesmos países, intervenções financeiras e
reformas econômicas neoliberais, para combater uma suposta “desordem econômica interna” e
garantir o cumprimento dos compromissos financeiros internacionais da América Latina.
E, finalmente, a partir de 2001, os Estados Unidos incentivam forças e opinião publica, contra os
governos “populistas autoritários” latino-americanos que seriam –para eles - uma ameaça à
democracia.

Agora bem: as eleições presidenciais de 2008, já fazem parte de um processo de realinhamento da
estratégia internacional dos Estados Unidos. Este processo deverá tomar alguns anos, mas é muito
pouco provável que os Estados Unidos abram mão dos três “direitos de intervenção” que orientaram
sua política hemisférica, durante o século XX. Assim mesmo, neste início do século XXI, a
“globalização” do sistema inter-estatal, e a acelerada expansão política-econômica da Ásia, criaram
uma pressão competitiva global que já envolve quase todos os “estados-economias nacionais” do
mundo. Por isto, a América Latina está sendo obrigada a mudar sua inserção internacional, e
deixar para trás a sua longa “adolescência assistida”, dentro da geopolítica e da economia do
sistema mundial. Nesta nova situação, vale refletir sobre uma velha anedota futebolística, e seu
ensinamento universal: a célebre indagação de Garrincha, após ouvir as orientações do técnico
Vicente Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, na Suécia: "o senhor já
combinou com o adversário para deixar a gente fazer tudo isso?" Garrincha sabia que no futebol
não há como “combinar com o adversário”. Da mesma forma que na luta pelo poder e pela riqueza
internacionais, onde só existe um jeito de ganhar o “jogo”: antecipando-se às intenções e impondo
sua própria estratégia, aos concorrentes e adversários.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Leia na íntegra em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3817

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Fim do “céu de brigadeiro” de Lula?

Deu no Correio do Brasil:
P
or Altamiro Borges - de São Paulo
Até meados de dezembro passado, o presidente Lula era um homem feliz da vida. Ele parecia um
predestinado. Não se cansava de repetir que o seu governo vivia em “céu de brigadeiro”. Aos que
criticavam a ortodoxia da sua política macroeconômica, ele retrucava com ironias. Motivos para
tanto otimismo não faltavam. A economia dava sinais consistentes de crescimento, após o longo
período de “vôos de galinha”. Várias estatísticas apontavam uma tímida melhora no nível de vida da
população mais carente. Todas as pesquisas de opinião confirmavam sua alta popularidade. Já a
oposição de direita encontrava-se perplexa e dividida e a maioria congressual parecia tranqüila.
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Efeitos danosos dos dois choques
As conseqüências destes dois “choques” são danosas. No caso da CPMF, o governo até revelou
certa ousadia ao elevar as alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e da CSLL
(Contribuição Social sobre o Lucro Liquido), o que atinge principalmente os bancos e as grandes
empresas. Mesmo assim, a medida não cobre o rombo e o governo não está disposto a mexer no
superávit primário – nome fantasia da reserva de caixa dos banqueiros. Em compensação, ele já
anunciou cortes em investimentos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e arrocho aos
servidores, anulando acordos salariais e suspendendo novos concursos públicos. Medidas tão
impopulares terão seu custo político, com os servidores se mobilizando para greves e protestos.
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Uma nova onda conservadora
Diante do ocaso do “céu de brigadeiro”, a direita neoliberal ficou alvoroçada. Pelos editoriais da
mídia venal, tudo indica que uma nova onda conservadora se abaterá sobre o governo. O velho e
surrado discurso do “ajuste fiscal” voltou à baila. Tucanos e demos (ex-PFL), apoiados na mídia,
exigem “a redução no ritmo de recuperação do salário mínimo, a urgente reforma da previdência, a
contenção da gastança nos programas sociais, o congelamento dos salários dos servidores e a
suspensão dos novos concursos públicos” – aconselhou, em recente entrevista à TV Globo, um
economista vinculado ao PSDB. Em artigo ao jornal O Estado de S.Paulo, o ex-presidente FHC
sugeriu que o governo Lula “coloque as barbas de molho” e “olhe para os gastos sem controle”.
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Mediocridade palaciana?
A não ser que o governo esteja escondendo o jogo, o que seria compreensível, até agora parece que
ele está inerte diante do fim da CPMF e da crise nos EUA. Como se o Brasil ainda vivesse sob o
quimérico “céu de brigadeiro”. O governo rejeita qualquer discussão sobre a redução do superávit
primário e não quer saber do controle dos fluxos de capitais. O presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles, aparenta otimismo e bate na tecla do descolamento. Já o PT, partido do
presidente, continua engalfinhado nas suas lutas intestinas, pendendo cada vez mais ao centro, e
nada fala sobre os riscos iminentes. Ambos, governo e PT, deveriam ouvir o recado do ex-porta voz
do presidente Lula, jornalista André Singer, que nunca foi chegado a rompantes extremistas.
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Retomar a iniciativa política
Diante das incertezas sobre os efeitos da crise no coração do sistema capitalista, dos impactos do
rombo da CPMF e, mais ainda, das vacilações e hibridismos do governo Lula, cabe as forcas de
esquerda e aos movimentos sociais uma atitude mais pró-ativa, retomando sua iniciativa política.
Não dá para ficar passivo frente à agenda conservadora da direita neoliberal ou às mesmices do
governo. É preciso unificar bandeiras e concentrar agendas, superando o localismo e a dispersão que
marcam os movimentos sociais na atualidade. Urge unir partidos progressistas e movimentos
sociais, rejeitando o movimentismo que ergue uma muralha entre estes dois atores políticos.
Do contrário, todo o ônus do fim da CPMF e da recessão nos EUA será lançado nas costas do povo.

O manifesto “por uma reforma tributária justa”, assinado por intelectuais, lideranças populares e
religiosas, mostrou o caminho a seguir. Diante do fato concreto do aumento do IOF e da CSLL, não
vacilou em explicitar de chofre seu apoio ao governo por esta “medida acertada e justa, que atinge
os mais ricos e, sobretudo, os bancos, o sistema financeiro e as empresas estrangeiras”. Ao mesmo
tempo, reafirmando a sua independência, os autores exigiram maior ousadia do governo, propondo
a redução do superávit e dos juros e uma “verdadeira reforma tributária”, que diminua o peso sobre
a população e aumente sobre a riqueza e a renda. Além de evitar o reboquismo e o esquerdismo,
o manifesto elegeu uma bandeira – a reforma tributária – que pode unir e colocar em ação os
movimentos sociais e os partidos de esquerda neste ocaso do “céu de brigadeiro”.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “As encruzilhadas
do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2a edição).

Leia na íntegra em http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=133349

A nova crise do capitalismo

Deu na Revista do Brasil:
O
governo deve inspirar-se em Roosevelt: o Estado deve agir, criar empregos e ampliar o
mercado interno. E manter o Brasil longe de sucumbir à crise mundial, como torce a oposição
Por Mauro Santayana
O mundo se encontra em suspenso, com a crise iniciada com a queda da Bolsa de Nova York. As
medidas tomadas pelo governo norte-americano, a fim de conter o desabamento do mercado
financeiro, se mostram débeis, frente ao temor de uma recessão globalizada como a dos anos 30,
vencida corajosamente por Roosevelt, com o New Deal. O jornalista William Greider, em denso
ensaio sobre o FED (o Banco Central de lá), mostra como o controle monetário é instrumento de
domínio do capitalismo. “Acima de tudo”, diz, “a moeda é uma questão de fé.” É a mais bem
elaborada das convenções humanas.
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Quando a moeda era metalizada – ouro, prata ou cobre –, tinha referência sólida. Valia o peso.
Hoje, quase nem circula. Usamos cartões de crédito, cheques, transferências eletrônicas. A moeda
é convenção na qual devemos acreditar, mas perde o valor se seu emitente (o emitente do cheque
ou da nota promissória, ou o Estado emitente do papel-moeda e outros títulos) perde a
credibilidade.
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Embora o peso maior da guerra tivesse sido o da União Soviética, que perdera 20 milhões de
pessoas no conflito, a liderança dos aliados se encontrava com os Estados Unidos. Essa liderança foi
tão arrogante naquele momento – oito meses antes da chegada dos russos a Berlim –, que Stalin
decidiu não assinar o acordo. Decidiu-se que o dólar seria a moeda de reserva e de referência
mundial, garantida pelo ouro do Tesouro norte-americano, na base de US$ 35 por onça troy (mais
ou menos um dólar por grama de ouro). Estabeleceu-se que os EUA pagariam em metal a
qualquer país portador de reservas em dólar, quando isso lhes fosse exigido.
[ . . . ]
Com US$ 9 trilhões de dívida em títulos do Tesouro, US$ 1 trilhão em títulos em poder da China e
despesas de quase US$ 300 milhões ao dia com as guerras do Iraque e do Afeganistão, era natural
que se previsse uma crise. Como a queda americana significará a erosão de todo o sistema, Europa
e China, credores dos americanos interessados em preservar seus ativos, ajudarão. Mas de crise
em crise o sistema inteiro acabará ruindo. Mais para o bem do que para o mal.

No Brasil, a oposição tudo faz para imobilizar o governo e torce para que a crise nos atinja. Pouco
lhe importa se o Brasil sucumbir. O governo deverá inspirar-se na ação de Roosevelt. Para salvar
o capitalismo, é necessária a intervenção do Estado na criação de empregos e ampliação do
mercado interno.

Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo
Neves e adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e de diversas
publicações

Leia na íntegra em
http://www.revistadobrasil.net/ponto_de_vista.htm